Nunca soube explicar porque não gosto muito do filme Into the Wild. As pessoas chegam pra mim, empolgadas, dizendo o quanto a-mam! o filme, o quanto o cara é excepcional, o quanto elas admiram quem tem uma coragem dessas. E eu fico la, com cara de quem comeu e não gostou.
Acho o filme em si meio bobinho, meio ingênuo, meio pretensioso, enfim, nada demais. Mas alguma coisa me incomodava nele e eu não sabia o que era. Então me dei conta que não é o filme que me incomoda, mas a interpretação que algumas pessoas fazem dele, como se aquela fosse a unica saida possivel do sistema. Elas admitem que o protagonista toma decisões sabias e nobres, mas decisões que elas proprias não poderiam tomar, então se confortam com a ideia de não fazer nada pra mudar e continuar vivendo suas vidas insatisfeitas. Ora, você não precisa doar todas as suas economias nem queimar o resto do seu dinheiro para mudar de vida. Você não precisa sair por ai caçando javalis para deixar de ser consumista. Você não precisa ser tão radical assim para encontrar a verdadeira felicidade. Acho que esse filme acaba sendo um conforto do tipo "viu, eu não tenho coragem de fazer o mesmo, então o melhor que tenho a fazer é continuar aqui onde estou". Não é oito ou oitenta, sabe.
Parece a mesma desculpa que ouço de gente que quer fazer grandes viagens mas não pode porque não tem dinheiro. Poxa, eu viajei três meses no sul da América do Sul e gastei pouco mais de mil reais! E olha que Brasil, Chile e Argentina são os paises mais caros do continente. Não peguei avião, andei 150 horas de ônibus (contadas), acampei, troquei alimentação por trabalho, fiz cocô no mato, não comprei lembrancinha nenhuma, mas foi uma experiência incrivel que vou me lembrar pro resto da vida. Mochilão não precisa ser na Europa, sabe. E pode ser com os filhos também, viu?
Outro exemplo são pessoas incomodadas com o estilo de vida mais leve de outras. Elas fazem pressão, soltam ironias do tipo "e ai, não ta na hora de arranjar um emprego?" e se sentem aliviadas quando suas vitimas finalmente cedem e entram no sistema como cordeirinhos. O interessante é que notei que as pessoas que vi fazendo esse joguinho ja demonstraram vontade de mudar de vida, de largar tudo e tentar outra coisa. Parece que elas precisam ter certeza de que outro caminho não era/é possivel. Porque se elas, que queriam tanto levar uma vida diferente, cairam no sistema, é porque uma via alternativa era utopia. Ver alguém conseguir ter uma vida com a qual elas sonharam seria duro demais. Então sorriem de satisfação quando outra pobre alma é obrigada a arranjar um trabalho que detesta e ficar la até o resto de sua vida. Então elas suspiram aliviadas e soltam um conformado "é assim que as coisas são".
#spoiler:
E se alguém por acaso ousar conseguir sair do sistema, é melhor que ele morra no final do filme. Assim a gente pode dormir tranquilo.
