Nos cursos de inglês da Australia existem dois preços: um se você é asiatico e outro, bem mais barato, se você é brasileiro. Eles fazem tipo uma "promoção" (entre aspas porque mesmo o mais barato ja é super caro) para que as escolas não tenham apenas olhos puxados circulando pelos corredores. Foi assim que eu e a Asami, japonesa, assistiamos as mesmas aulas de Smart Talk e ela pagava o duas vezes mais do que eu.
Asami ficou apenas um mês e meio no curso, mas foi mais do que suficiente para virarmos amigas desde criancinhas. O curioso da situação, é que apesar da gente se dar tão bem e gostar tanto uma da outra, não conseguiamos nos comunicar direito, o mesmo que aconteceu com a Mariko. Mas a Mariko era meio elétrica, não tinha paciência pra tentar falar, mostrava logo sua frustração e arranjava um jeito de dizer o que queria, mesmo que tivesse que obrigar alguém a servir tradutor. Ja eu e a Asami realmente tentavamos nos comunicar com as armas que tinhamos: gestos, expressões, caretas, desenhos, dedos apontando, risinhos e risões e um inglês muito do arranhado, ja que era o iniciozinho da minha estadia no pais. Com o tempo, passamos a entender o que a outra queria dizer apenas pelas referências que ja tinhamos conseguido concretizar. Criamos praticamente uma linguagem propria com muita expressão corporal e poucas palavras.
E é engraçado o que faz duas pessoas sentirem uma amizade tão grande e uma super afinidade, mesmo sem conseguir conversar. Por que eu não sentia o mesmo em relação às outras duas japonesas que entrarm na turma junto com a Asami e que são amigas dela até hoje? Eh meio inexplicavel, mas a ligação que eu sentia (e sinto) com a Asami é bem mais do que uma questão de palavras. Os detalhes passam a ter muito mais importância e aquele teatro todo que montamos sobre a nossa personalidade pra apresentar pros outros não tem nenhuma utilidade. Não temos o poder de controlar qual face nossa vamos mostrar pras pessoas, porque isso so podemos fazer com as palavras. De nada adianta decorar historias interessantes onde você foi o heroi, ou discursos politicamente corretos ou incorretos, ja que o seu argumento mais consistente sera: "death penalty bad, very bad".
Nos somos amigas pelos detalhes - o jeito de se expressar, de rir, a vontade de tomar cerveja. Aquele tênis dela lindo com a bandeira jamaicana. O meu nome que ela escreveu em japonês no canto do caderno. O gosto pelos esportes. A comida coreana que comemos na casa de amigos. As risadas no zoologico em plena época de acasalamento dos animais. Os churrascos e pique-niques. A gente na minha casa se preparando pra sair ja atrasadas e ela dizendo brava "hurry up!, hurry up!". Nossa triste despedida. Minha tristeza depois que ela foi embora. Minha felicidade em saber que ela voltaria em poucos meses e que tinha escolhido mudar de cidade pra ficar perto de mim. Mais um mês com Asami.
O problema é que ela ficou pouco tempo na Australia e não foi suficiente pra aprender inglês. Então continuamos sem poder nos comunicar como gostariamos. E pelo computador ficamos muito mais limitadas, impossibilitadas de usar gestos, sorrisos e abraços. Mas a gente quer mostrar nossa afeição mesmo assim e como não temos as ferramentas necessarias pra dizer isso sutilmente, como "poxa, queria que você morasse mais perto de mim", ou ainda "ai menina, você é uma figura!", nossos dialogos são totalmente sem rodeios:
- I love you sooooo much!
- I love you too! I miss you very very much!!!!
Pronto, assim eu fico tranquila por mais uns meses - Asami ainda gosta de mim e nossa amizade continua firme.
Muitos pensamentos positivos pra minha japonesinha nesse momento dificil em seu pais.
I LOVE YOU...
