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quarta-feira, 13 de abril de 2011

A amiga da travessia

Ainda na onda esportista que anda aqui no blog, estive pensando na primeira (e unica) vez que fiz uma travessia no mar. Eu tinha uns 14 ou 15 anos, ainda competia e estava um pouco receosa de nadar em mar aberto. Gosto de piscinas limpinhas e seguras onde podemos ver tudo o que acontece, sem correr o risco de dar de cara com um peixe - pra ser otimista. A travessia foi em Niteroi, 3km, de Camboinhas até Itaipu. Quase toda a turma estava la, empolgadissima, enquanto as mães e os pais tentavam sabotar a competição: "filho, tem certeza? Se você não quiser ir não precisa, viu?".

A minha largada foi um tremendo fiasco. O mar estava grande e eu, afobada. Dado o sinal, sai correndo, me joguei na agua cheia de motivação e... levei um baita caldo. Levantei toda zonza e percebi que tinha perdido os oculos. Procurei um pouco no meio dos outros afobados, em vão. Voltei pra areia e arranjei outros oculos, de um modelo que eu não gostava e que não se adaptava no meu rosto. Segunda tentativa de passar a arrebentação, ja traumatizada, fui devagarzinho, devargazinho, ja estava quase la quando de repente... achei meus oculos. Quais as chances? Mas e agora, se eu voltasse perderia mais tempo ainda e teria que passar novamente pela arrebentação. Amarrei os oculos emprestados no maiô, em cima do ombro pra não fazer peso e comecei a nadar.

Achei tudo muito estranho, gente se esbarrando em toda parte. Fui me adaptando devagarinho, ultrapassando uns, sendo ultrapassada por outros. A agua estava tão escura que mal dava pra ver a mão. Comecei a pensar: nossa, deve ter um monte de animais por aqui. Sera que tem muito peixe embaixo de mim? E se tiver um tubarão me me rodeando? Fui entrando em leve desespero. Foi ai que eu percebi que tinha um bicho preto enorme agarrado no meu braço. Entrei em pânico. Comecei a gritar involuntariamente em alto mar, sacudindo os braços pro bicho desgrudar de mim, mas quando olhei melhor... era apenas o numero de inscrição pintado de nanquim (que alias deixou uma marca de sol super tentência, pergunte aos meus amigos da escola). Eu em plena adolescência so pensei no mico que estava pagando e tentei disfarçar o melhor que pude. Ainda bem que os outros estavam mais preocupados em nadar e não me deram muita atenção.

Aprendida a lição, me acalmei e fui pegando o ritmo da coisa. O mais dificil era saber pra onde eu estava indo, porque a corrente acabava me levando pra onde ela bem entendesse. Uma amiga foi sem querer pra uma direção completamente diferente e quando percebeu teve que fazer uma volta enorme. Eu fui nadando, pensando em outras coisas, então me dei conta que tinha uma menina nadando do meu lado ha bastante tempo. Sera que eu a conhecia? Sincronizei nossas respiradas, mas não a reconheci. Continuamos nadando juntas, na mesma velocidade, no mesmo ritmo de braçadas, respirando sempre juntas. Aquela parceria foi me dando mais confiança. A gente ultrapassava as outras pessoas uma de cada lado, depois nos juntavamos novamente. Se alguém queria passar entre a gente, nos nos juntavamos e obrigavamos a pessoa a passar pelo lado. E seguimos assim.

Mas teve um momento em que eu ja não aguentava mais. Estava cansada e os oculos amarrados no maiô estavam me machucando. Fazer uma ferida por atrito na agua salgada não é muito recomendado pra quem faz travessia (e pra quem não faz também). Estava doendo pra caramba. Tentei continuar pra ficar com minha nova amiga, mas não deu, estava exausta e dolorida. Precisava muito descansar. Bom, paciência, eu seria mais uma a quem ela ultrapassaria, pelo menos ela saberia que era mais forte que eu. Competição é competição. Parei. Tirei a cabeça da agua. Ela parou também. E gritou "bora, bora! Continua". E eu obedeci.

Eh engraçado quando a gente acha que esta no limite das forças, que não da mais mesmo, e na verdade o que falta é apenas uma razão pra continuar, um pequeno incentivo, alguém que diga, vem eu confio em você. E eu continuei nadando com ela, as duas lado a lado, incentivando uma a outra, até o final da travessia. A chegada foi brusca. Depois de passar tanto tempo na calma do mar, no silêncio, controlando limites numa luta interna e externa que te exigia toda a concentração, chegar na areia da praia de pernas bambas, ouvir aquele barulho todo era muito estranho. Parecia o caos e eu ouvia gente me oferecendo agua, gatorade, frutas, gente me dizendo que eu tinha que passar na mesa e dar meu nome, mães ansiosas querendo saber se seus filhos iam chegar vivos e inteiros. Demorei uns minutos pra me acostumar e quando olhei pros lados pra procurar minha companheira, não achei.

E quase 15 anos depois da travessia, a lembrança desse dia que continua mais forte minha memoria é essa amizade fugaz, a mais rapida de toda minha historia.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Os beneficios da corrida e um desafio



Três meses de corrida e uma grande surpresa: o troço é bom pra caramba. A chegada da primavera so ajuda: quando abro a janela e vejo aquele céu azul, morro de vontade de sair e dar uma volta no parque. Ja quase abandonei o casaco de vez e o alongamento do fim deixou de ser aquela tortura glacial, ao contrario, é muito bom alongar enquanto o solzinho te esquenta.

Fiquei realmente impressionada com os beneficios que a corrida me trouxe e por isso quis dividir minha experiência aqui no blog. A corrida afetou praticamente todas as areas da minha vida. Primeiro, o obvio: emagreci. E isso sem fazer o menor esforço com a comida, pelo contrario, tenho comido bem mais. Como mais doces, mas também como mais frutas e legumes. Não sei até que ponto é fisico ou psicologico, o negocio é que eu tenho tido vontade de comer coisas mais saudaveis mesmo. Em dois meses eu senti muita diferença nas minhas pernas, elas ficaram tão mais durinhas. Diria que perdi 70% das celulites. Também perdi gordura no corpo todo e eu tenho a nitida impressão de ter perdido 5kg em cada bochecha. Até a minha pele melhorou!

Depois tem aquele bem-estar que o esporte proporciona. Eu corro e fico me sentindo disposta e bem-humorada o dia inteiro. No inicio eu fiquei bem menos ansiosa, mas depois tudo voltou ao normal e eu voltei a ser aquela pilha de ansiedade de sempre quando estimulada, esse problema a corrida não solucionou. Aqui na França tem uma expressão que acho que não usamos muito no Brasil: higiene de vida, que quer dizer cuidar de você mesmo, se organizar, cuidar da saude, levar um estilo de vida mais saudavel. E não consigo pensar em expressão melhor pra explicar a mudança que tem me ocorrido nos ultimos meses - é isso, minha higiene de vida melhorou. Porque se antes eu acordava 8h30 e passava as manhãs na internet antes de ir pro trabalho, hoje eu acordo às 7h30, vou correr e quando volto, volto ativa, querendo fazer algo de util. O meu tempo ficou mais precioso.

Tenho corrido dia sim, dia não, 6km cada vez, o que da uns 40 minutos. Minha meta é participar de uma corrida de 10km em junho, no castelo de Vincennes.

Estou gostando tanto, mas tanto de correr, que estou fazendo a maior propaganda. Falo tão empolgada que quem vê de longe acha que eu tô tentando convencer a pessoa a entrar pra uma seita ou algo assim. Dai minha amiga Tati veio me dizer que queria correr, mas não tem tempo, nem disposição. Ela disse que tenta acordar cedo pra correr 1h, mas não consegue. E eu respondi que se eu tivesse que acordar pra correr uma hora, eu também não iria. Imagina ela que esta apenas começando! Não da pra ir com muita sede ao pote, porque primeiro que o corpo não vai aguentar, não é Luci? E depois, não adianta nada fazer planos grandiosos antes de dar o primeiro passo.

Falei pra ela: "Tati, eu te garanto que se você correr 20 minutos, três vezes na semana, seu corpo vai se transfomar em dois meses". Não é tão ruim acordar pensando que vai correr 20 minutinhos, né? Da até pra dormir mais uma meia horinha. Dai ela topou o desafio e topou que eu escrevesse sobre isso aqui no blog. Daqui a dois meses a Tati vai voltar aqui e vai nos contar o que aconteceu com ela. A unica regra é regularidade - não pode faltar. Ela ainda tem o agravante de ser fumante, de não gostar de acordar cedo e de estar bastante tempo parada. Olha a responsabilidade heim, Tati! (nada como uma boa motivação).

Se alguém também quiser aceitar o desafio e escrever um post aqui no blog contando a experiência, sinta-se convidado.

*Update: a Mariana recomendou esse video nos comentarios, incrivel!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sebo nas canelas

Acho que ja falei umas quinhentas vezes aqui no blog que eu moro do lado do Bois de Vincennes, um parque imenso, o maior de Paris. No verão a gente sempre vai la fazer um piquenique, dar uma voltinha, ler um livro, ou apenas sair de casa ja que aqui fica um forno (em compensação no inverno fica quentinho). Também sempre me esforcei em dar uma corridinha em volta da lagoa de vez em quando. Determinei que o minimo era uma volta por semana, então a cada semana eu corria exatamente... uma volta. Dai esse ano decidi me empenhar mais, ja que morro de preguiça de ir pra piscina - tenho que preparar os apetrechos, checar se a depilação ta em ordem, preparar as varias camadas de roupa pra pôr depois, andar meia hora até chegar la, ou seja: tempo demais pra desistir. Cheguei a conclusão que correr é mais conveniente: tô do lado do point da corrida, não precisa de acessorios, não precisa se molhar e se eu tiver com muita preguiça é so eu ir de uma vez que nem da tempo de reclamar.

Além do mais quando fui à Lyon, ouvi Luci dizer que ela gostava de correr. Gostava. E eu pensei "como um ser humano pode encontrar prazer em fazer esse sacrificio horroroso?". Fiquei intrigada. Ja tinha ouvido muitas pessoas dizerem a mesma coisa, mas nunca levei a sério. Tem até aquelas que ficam se gabando: "Ai, eu sou viciada em corrida! Até nas férias eu pre-ci-so correr!". Primeiro que eu juro que não entendia como alguém podia gostar de correr. Achava que era tiração de onda. Depois que vicio pra mim é, necessariamente, alguma coisa negativa. Seja viciado em cigarro, em cachaça, em cola-cola, em comédias românticas. Mas não seja viciado em brocolis e abdominal! Isso pode ser tudo, menos vicio. Arranje outro nome pra sua brincadeirinha.

Então ouvir essa blasfêmia vindo de alguém que tenho tanta estima me chocou. Voltei pra Paris determinada a resolver o mistério, então passei da simbolica volta semanal para seis voltas semanais. E não é que fui pegando gosto pela coisa? A Luci, por outro lado, exagerou na dose e trocou a corrida pela academia, né dona xica? Pois eu tô curtindo. Corro durante meia hora, três vezes por semana antes de ir pro trabalho. Fico me sentindo mais saudavel, mais disposta, mais bem-humorada. E principalmente, menos ansiosa. Acabo comendo melhor, porque não quero quebrar a sensação de bem-estar e saude engolindo um quilo de pão com queijo. Corro devagar, no meu ritmo. Não tô nem ai para o relogio e para a perda de calorias, me concentro apenas em olhar os patinhos na lagoa. Nem musica eu gosto de ouvir.

Empolgada e me achando The Runner, fui procurar dicas de corrida na internet. Fiquei chocada com as diferenças de informações entre os sites brasileiros e franceses. Parece que no Brasil se a pessoa quiser correr, ela tem que correr logo uma maratona, senão é melhor ficar na turma da caminhada da terceira idade. Fiquei de cara com as dicas para os iniciantes: correr 3x na semana, mas para não forçar muito, o ideal é andar 5 minutos, correr 1 minuto, andar 4, correr 2, até inverter. Pombas! Qual o prazer de contar cada minuto no relogio? Acaba sendo um exercicio de concentração mais do que qualquer outra coisa. Em vez de olhar a paisagem, interagir com as pessoas, pensar nos problemas do cotidiano, não, a pessoa tem que prestar atenção se seus 3min de corrida ja passaram. Fala sério, né? Se eu ja tive a maior dificuldade em curtir a corrida ouvindo o canto dos passarinhos e deixando meu pensamento voar, imagina contando os minutos no relogio. Ja os sites franceses recomendam os iniciantes correrem entre duas ou três vezes na semana, em ritmo tranquilo, e intercalar com caminhada caso se sintam muito cansados.

E então, se a pessoa sobreviver a um mês inteiro de tortura com o jogo dos minutos, ela ja esta preparada pro passo seguinte, coisa muito simples: correr 1h cinco vezes por semana. Eh isso mesmo Brasil? Sério que uma pessoa que não passa sua vida pensando em esportes vai ter disposição pra correr uma hora todo dia? Eu não conheço ninguém. Correr é dificil pacas, eu faço minha meia horinha e no final ja estou morta (olha que gosto de esportes e nunca fui sedentaria). Se eu corresse 1h sabendo que no dia seguinte teria que correr outra hora e no dia seguinte, e no dia seguinte... eu não durava uma semana. Isso sem falar no complemento na academia pra reforçar a musculatura que eles indicam. Então é assim: ou você se prepara para as competições (que parece que virou moda) ou vai sentar no sofa e se entupir de batatinha. Correr 15 minutos não serve pra nada nessa vida.

Ja na França, a abordagem é outra. Não encontrei nenhum plano de treinamento milagroso. O pessoal é mais da filosofia quer correr? pega um tênis e vai. Nenhuma palavra sobre academia, apenas a sugestão de fazer abdominais pra complementar. A modinha de competição também chegou por aqui, não sei se na mesma escala. Mas o ponto de atrito que achei mais significante entre as dicas dos dois paises foi que os franceses dizem que para a pessoa saber se esta correndo na velocidade correta, ela deve ser capaz de conversar. Ja os brasileiros dizem que a pessoa não deve ter fôlego suficiente para falar durante a corrida. Isso diz muito sobre como encaramos o esporte.

Estou muito satisfeita com minhas sessões de corrida. Estou seguindo o modelo francês, ou seja, no meu ritmo, sem pressões, sem culto ao corpo. E se um dia eu enlouquecer e passar a correr 1h por dia todo dia, não vai ser porque alguém mandou, mas uma evolução natural (mas né, sejamos realistas).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Mulher-aranha

Um dos pontos positivos de Paris, em relação ao Rio, é que aqui as pessoas se exercitam por prazer, não pela estética. Em Paris não existe o virus da academia. Não se vê bombadões andando pela rua. Eu pelo menos so vi um e desconfio que era brasileiro. Em compensação, as pessoas são mais magras, de maneira geral. A diferença, além da alimentação, é que os parisienses não puxam ferro, eles fazem esportes, o que é bem mais estimulante a longo prazo. Muitas opções são oferecidas, não so para aqueles de espirito esportivo, mas também para aqueles que não têm jeito para a coisa, são desengonçados e tropeçam na primeira bola que lhes aparece pela frente. No Rio eu nunca vi oferecerem para adultos sem pratica a possibilidade de aprender judô, vôlei, handball, badminton ou trampolim (sim, são aquelas camas elasticas, eles têm aula de trampolim e parece ser super divertido!). E tudo a preços modicos, pra não excluir ninguém. A prefeitura cede o espaço, e tem muitissimos espalhados pela cidade, e as associações esportivas se organizam com o material, os professores caso necessario e os horarios.

Dai que cheri e eu resolvemos fazer escalada. Depois de providenciarmos nossos atestados médicos, fomos uns dos ultimos a conseguir vagas. Hoje a lista de espera tem mais de 50 nomes: escalada é in. No primeiro dia, marquei com o cheri uma hora e acabei chegando 15 minutos mais cedo. Grande Erro.  Foram 15 minutos de terror. Estava sentada numa varanda que da pra ver o muro de escalada inteiro, mas sem ter que fazer a social la embaixo, então fiquei observando, petrificada, o que eu teria que fazer em breve. Gente, aquela parede estupida era muito alta! "Puta-que-pariu-por-que-fui-pagar-essa-merda-de-escalada". Eu que sou uma pão dura miseravel, quer dizer, uma pessoa economicamente responsavel, fiquei num dilema gigante: perder o dinheiro da inscrição (a gente ja paga o ano todo) e salvar minha vida ou encarar o muro e correr o risco de me espatifar.  Sabia que deveria ter escolhido o trampolim! Fiquei amaldiçoando o momento em que eu disse, descontraida: "olha cheri, escalada, bora?". Na hora não pensei na pratica em si, apenas que seria legal fazer um esporte tão cool. As 50 pessoas na lista de espera me confirmaram isso. Olha que pessoa descolada que eu seria!

Cheri chegou e eu fingi que era uma pessoa equilibrada. Fiz so uma tentativa fraquinha pra ver se trazia ele pro meu lado: "viu como é alto?". Ele disse aham, empolgado, e ja foi logo procurando um vestiario pra trocar de roupa. Eu fui atras. Na teoria não tem professor, são os mais experientes que ensinam os novatos as técnicas, os macetes e as regras de segurança. Mas na pratica, eles são professores que não ganham salario. A primeira vez que subi so fiz 2/3 do muro e quando o professor me perguntou por quê parei, disse que fiquei com medo. A solução dele foi colocar uma venda nos meus olhos e dizer, "agora sobe", pro meu desespero. E não é que deu certo? Fui melhor escalando cega do que vendo o chão la longe.

A segunda sessão foi bem legal, porque era domingo e não tinha muita gente. Fui pegando gosto pela coisa. Ficamos la três horas, que voaram sem a gente perceber! Sai de la me achando o maximo, so porque consegui fazer umas manobras basicas. Teve até direito a tapinha nas costas do cheri, sombrancelha levantada e ar esnobe dizendo "lembra da outra vez que eu fiquei com medo de subir até o topo, ha-ha". Mais ou menos como quando uma criança de 6 anos diz "lembra quando eu era pequena e aconteceu isso e isso?". Bom, o negocio é que a coisa ta indo, tô perdendo o medo e conseguindo fazer algum progresso. Ja comprei até a sapatinha, olha que investimento! Se eu sobreviver às quedas, continuo dando noticias.

domingo, 13 de junho de 2010

Copa na França? Só lá em casa

Essa é a primeira vez que não estou no Brasil durante a Copa do Mundo e confesso que estou um pouco decepcionada. Mesmo que eu não goste de futebol, não ligue para os jogos e não dê a minima para o placar, gosto da festa, assim como todo brasileiro. Pois aqui não tem festa. Até que começou bem, pessoal animadinho, promoções de tevês pra copa, discussões (pessimistas) na midia sobre a seleção francesa e expectativas gerais, mas dai o campeonato começou e eu nem reparei! Ué, cadê as bandeiras? Cadê as camisas? Cadê as ruas coloridas?

Se eu não tivesse em casa o expectador francês mais atento à copa que existe neste pais, eu nem saberia quando são os jogos da França. Nem no momento do jogo. Ta certo que os franceses estão super desanimados com a equipe deles e principalmente com o treinador, que parece que é o mais detestado dos ultimos tempos. Dele, minha lembrança mais marcante foi uma declaração à TV depois de (mais) uma derrota dos bleus, ha uns dois anos atras: "Olha, ta certo que o resultado não foi tão bom, mas eu queria aproveitar essa oportunidade e pedir minha namorada em casamento - fulana, quer casar comigo?". Como assim, filho? Não tinha ideia melhor pra mudar de assunto do que passar essa vergonha em rede nacional?

E parece que o senso profissional do treinador Domenech é do mesmo nivel que seu senso de ridiculo - nulo. Isso pode explicar a apatia dos franceses diante da copa. Depois que me convenci do desanimo dos bleus, lembrei da Argélia e logo me animei, ja que aqui existe uma gigantesca comunidade argelina e nas eliminatorias da copa eles fizeram muito, muito barulho. Mas o time jogou hoje e perdeu de 1 a 0 para a Eslovenia ou Eslovaquia, não lembro e não estou com vontade de procurar. Era o time mais facil do grupo! Silêncio de luto depois do jogo, depois dessa, é praticamente certo que a Argélia não va longe.

Mas é verdade que o desânimo ja estava instalado antes do jogo. Eu e cheri resolvemos assistir o jogo aqui perto de casa, no Museu da Imigração, que anunciou que ia passar alguns jogos e a entrada era gratuita. La fomos nos, um pouco atrasados, e quando vimos carros parados em cima da nossa calçada pensamos "danou-se, não vai ter mais espaço pra gente. Olha isso, os carros ja estão parados aqui longe!". Fomos andando até o museu com esperança de encontrar um espacinho entre todos aqueles torcedores e quando chegamos, bom, haviam exatamente dois torcedores. Um pai e um filho, assistindo o jogo numa televisão! Nem era um telão, o minimo que se pode esperar quando se anuncia, de maneira impressa!, a difusão de um jogo da copa. A unica coisa legal era uma mesa de toto gratuita e eu como amo toto, não perdi a oportunidade. Voltamos pra casa imaginando a grande ola de quatro pessoas que poderiamos ter feito no museu e terminamos de ver o jogo em casa.

Aqui tenho so a parte chata da copa - o futebol. Sim, claro, porque eu dispensei os brasileiros, mas fui cair com um francês apaixonado por esse esporte estupido. Então ele não pode perder nenhum jogo que considera importante e como ele gosta de prestar atenção no jogo em si e estranhamente não nas historias, piadas, musiquinhas e gritos de guerra que ocasionalmente acontece nos bares mais animadinhos, ele prefere ficar em casa (na nossa ou na de terceiros) nos jogos da França e, acreditem, realmente assistir o jogo! Mas acho que nem tô animada pra sair de casa de qualquer jeito, estou até curtindo ficar por aqui, so não parece copa.

Vamos ver se terça-feira o ambiente muda e a comunidade brasileira faz mais barulho do que aquelas vuvuzelas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Jogos Olimpicos 2010

Como na França não tem carnaval (fora uma farrinha no domingo) arranjei outra coisa pra fazer e fiquei assistindo os Jogos Olimpicos de inverno na televisão. Viciei. Pena que o horario é ruim e eu acabo dormindo da metade da programação, mas na manhã seguinte eles passam tudo de novo. O mais interessante é descobrir esportes novos, que nunca tinha ouvido falar! Tem o tal do curling, que é tipo uma bocha no gelo, muito engraçado. Mas a partida demora 2h30, dai enjoa. Meus preferidos estão sendo os classicos da neve mesmo: esqui e snowboard. O biathon também é interessante: são duas provas combinadas, uma de esqui e outra de tiro, cada uma quatro vezes. Quando se erra um tiro é punido com alguns segundos perdidos no esqui.

Pena que não tem muitos brasileiros pra torcer (eles são cinco, e não muito bem colocados), dai eu acabo torcendo pros franceses mesmo. A França esta surpreendendo nas medalhas esse ano. Eles esperavam umas dez medalhas, mas em quatro dias de campeonato - que dura duas semanas -, ja têm sete! Os tombos também são espetaculares, as vezes a pessoa sai rolando montanha abaixo e a gente so fica torcendo pra ela se mexer novamente. Houve uma morte na modalidade luge, o georgiano saiu da pista e bateu com a cabeça numa pilastra, tragico. Mas nem foi durante a competição, foi nos treinos.

Esse ano teve o primeiro casal de negros na patinagem artistica e eles são franceses. A coreografia foi perfeita, sem erros, mas eles acabaram em 15° lugar. A plateia pareceu particurlamente empolgada com Vanessa James e Yannick Bonheur, mas eles estavam longe de ser os favoritos. Não entendo os critérios dos juizes, pra mim todos são tão bons que eu não conseguiria dizer quem fez melhor. Na década de 90 surgiu a primeira patinadora negra de nivel olimpico, a francesa Surya Bonaly. Nas olimpiadas de 94, depois de um programa impecavel, ela ficou em segundo lugar e se recusou a ir receber a medalha. Acabou indo, mas a arrancou do pescoço assim que possivel e acusou os juizes de racismo. Ouvi dizer que todos os juizes deram notas excelentes, exceto um, que deu uma nota muito abaixo da média e ele era um sul-africano branco, pais que tinha acabado de se livrar do apartheid. Mas não consegui confirmar essa historia. Na ultima competição de sua carreira, Surya deu uma pirueta pra tras, o que é proibido no esporte, como uma forma de desafiar os juizes que, segundo ela, tanto a prejudicaram.

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Esta confirmado o chopp pra sexta, dia 26! Anotem nas agendas. No proximo post vou relembrar e dar os detalhes.

sábado, 21 de novembro de 2009

A mao da discordia

Os irlandeses têm estado um pouco rabugentos esses dias e imagino que vocês saibam o motivo. No jogo decisivo da qualificaçao para a Copa do Mundo do ano que vem, a França ganhou da Irlanda injustamente. Atençao, injustamente, nao ilegalmente como estao dizendo por ai. Segundo o cheri, que estava quase tendo um ataque cardiaco diante da tv, a Irlanda dominou o jogo inteiro e fez um gol. Como a França ganhou o ultimo jogo, eles foram pra prorrogaçao e foi entao que o Thierry Henry se serviu de uma ajudinha extra da sua mao pra marcar um gol e o juiz, ao contrario de todo mundo, nao viu.

A Irlanda ficou super frustrada e logo pediu a anulaçao do jogo. O surpreendente foi que a proposta foi considerada justa para muitos franceses, inclusive para alguns politicos e para o proprio Henry. Houve pressao para um pedido de desculpas oficial por parte do tecnico da França e ele respondeu que nao tem que pedir desculpas por nada, ora bolas, isso é futebol. Erros acontecem, às vezes a nosso favor, às vezes contra. Eu estou completamente de acordo com ele. Sempre me lembro do que um antigo chefe disse sobre a polêmica de utilizar as câmeras de tv como instrumento de apoio para o juiz. Ele disse que a beleza do futebol esta justamente ai, na imperfeiçao. Se tirar esse lado humanista do julgamento do esporte, falivel, vamos perder muito. Essas coisas acontecem, faz parte do jogo. A sorte conta muito dependendo do ângulo do juiz.

A FIFA negou o pedido para refazer o jogo, claro. Se essa porta fosse aberta, sabe-se la quantos outros jogos teriam que ser repetidos a partir de agora. Qualquer penalti nao dado, qualquer falso impedimento, qualquer nao-falta seria contestada. Apoio a idéia de que o juiz é a autoridade suprema do jogo, é ele quem manda e pronto. Afinal de contas, o que seria de um jogo de futebol se a gente nao tiver mais razao para xingar o juiz?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Meu caso de amor e odio com as piscinas

Piscina de Reuilly, onde sempre nado em Paris. Não da agua na boca.
Até meus 16 anos, eu era atleta de natação. Na verdade eu vivia para nadar. Achava que meu futuro estava nas piscinas, que eu ia competir as Olimpiadas, que eu ia bater muitos recordes. Bom, o tempo passou e eu aposentei minha 'promissora' carreira esportiva, e hoje aquele universo me parece muito distante. Agora me contento com umas braçadinhas de vez em quando nas piscinas que vou encontrando pelo caminho.

A grande desvantagem do Brasil em relação às piscinas é que la você não pode nadar por conta propria, sempre tem que ter aulas com um professor. Mas às vezes a gente so quer nadar e nadar sem ninguém enchendo o saco, principalmente alguém que provavelmente sabe menos de natação e de técnicas do que você. E então depois de ouvir alguns absurdos como "Agora vamos nadar costas com pernada de peito", desisti da natação não-comprometida no Rio. Tem os banhos-livres, mas todo mundo que vai nesse horario vai pra brincar e os pobres nadadores são obrigados a desviar de crianças o tempo todo.

Quando fui pra Australia descobri o paraiso na terra. Afinal de contas, a Australia é o pais dos esportes e mais precisamente, da natação. Fiquei super feliz em descobrir que em algum lugar do mundo as pessoas dividiam a mesma paixão que eu e ja tinham um sistema todo adaptado. Me senti em casa, como revendo velhos amigos. As piscinas eram do governo, bem baratinhas, e não tinham professores! Passei a nadar todo dia de manhã antes de ir pras aulas de inglês. 6h da manhã e a piscina lotada! Dava até gosto. Mas dava pra nadar legal porque a piscina era bem grande, de 50m com 10 raias e o principal: era tudo muito bem organizado. As raias eram divididas em devagar, média, rapida e super rapida, de acordo com a sua velocidade. Dai eu metida, fui logo me metendo na super rapida e fiquei surpresa ao ver que era rapida demais pra mim! Uau! As pessoas aqui nadam de verdade! Aposto que ninguém vai nadar "costas com pernada de peito"! Fiquei la feliz na vida, debaixo de um sol gostoso, no meio daquele clima onipresente de olimpiadas. A unica dificuldade que tive foi descobrir que até na piscina a mão é inglesa! Quase dei umas cabeçadas até acostumar.

Ja a França é o meio termo entre Brasil e Australia. Aqui pelo menos tem varias piscinas publicas, mas bem pequenas e longe da eficiência e espirito esportivo australianos. Pra começar, sempre tem gente demais, e os "atletas" parisienses estão longe de ter a velocidade dos australianos. Acho que se eu for de cachorrinho nado mais rapido que eles. Algumas piscinas também tem divisão, mas em "com material" e "sem material". Na raia com material ficam as garotas com prancha que não querem molhar os cabelos e os caras se debatendo com pé-de-pato, pullboy, palmar, so faltando a mascara de mergulho. A raia sem material não é muito melhor, as pessoas nadam muito devagar e param a cada volta que dão. Eu ainda saio em desvantagem, porque os caras fortões saem correndo na minha frente, achando que nadam mais rapido que eu e depois tenho o maior trabalhão de ficar ultrapassando todo mundo. Não que eu ainda nade bem como antigamente, mas é que eles realmente nadam muito mal. Ah se os australianos vissem... Iam morrer de rir.

Por causa disso tudo, desanimo de nadar aqui em Paris. Além do mais o frio me tira qualquer força de encarar uma piscina. Eh tanta roupa pra tirar que nem cabe num armario so. No inverno então, não da vontade nem de sair de casa, que dira fazer esporte. Prefiro me entupir de chocolate. Agora esta o maior calor, mas isso significa que as piscinas estão lotadas, então nem adianta tentar. Nessas horas vai me dando uma saudade da Australia.....
Piscina Centenary, em Brisbane, Australia, onde eu nadava todos os dias. Qual das duas da mais vontade de nadar? Covardia né? "O que estou fazendo em Paris???"
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