Ainda na onda esportista que anda aqui no blog, estive pensando na primeira (e unica) vez que fiz uma travessia no mar. Eu tinha uns 14 ou 15 anos, ainda competia e estava um pouco receosa de nadar em mar aberto. Gosto de piscinas limpinhas e seguras onde podemos ver tudo o que acontece, sem correr o risco de dar de cara com um peixe - pra ser otimista. A travessia foi em Niteroi, 3km, de Camboinhas até Itaipu. Quase toda a turma estava la, empolgadissima, enquanto as mães e os pais tentavam sabotar a competição: "filho, tem certeza? Se você não quiser ir não precisa, viu?".
Achei tudo muito estranho, gente se esbarrando em toda parte. Fui me adaptando devagarinho, ultrapassando uns, sendo ultrapassada por outros. A agua estava tão escura que mal dava pra ver a mão. Comecei a pensar: nossa, deve ter um monte de animais por aqui. Sera que tem muito peixe embaixo de mim? E se tiver um tubarão me me rodeando? Fui entrando em leve desespero. Foi ai que eu percebi que tinha um bicho preto enorme agarrado no meu braço. Entrei em pânico. Comecei a gritar involuntariamente em alto mar, sacudindo os braços pro bicho desgrudar de mim, mas quando olhei melhor... era apenas o numero de inscrição pintado de nanquim (que alias deixou uma marca de sol super tentência, pergunte aos meus amigos da escola). Eu em plena adolescência so pensei no mico que estava pagando e tentei disfarçar o melhor que pude. Ainda bem que os outros estavam mais preocupados em nadar e não me deram muita atenção.
Aprendida a lição, me acalmei e fui pegando o ritmo da coisa. O mais dificil era saber pra onde eu estava indo, porque a corrente acabava me levando pra onde ela bem entendesse. Uma amiga foi sem querer pra uma direção completamente diferente e quando percebeu teve que fazer uma volta enorme. Eu fui nadando, pensando em outras coisas, então me dei conta que tinha uma menina nadando do meu lado ha bastante tempo. Sera que eu a conhecia? Sincronizei nossas respiradas, mas não a reconheci. Continuamos nadando juntas, na mesma velocidade, no mesmo ritmo de braçadas, respirando sempre juntas. Aquela parceria foi me dando mais confiança. A gente ultrapassava as outras pessoas uma de cada lado, depois nos juntavamos novamente. Se alguém queria passar entre a gente, nos nos juntavamos e obrigavamos a pessoa a passar pelo lado. E seguimos assim.Mas teve um momento em que eu ja não aguentava mais. Estava cansada e os oculos amarrados no maiô estavam me machucando. Fazer uma ferida por atrito na agua salgada não é muito recomendado pra quem faz travessia (e pra quem não faz também). Estava doendo pra caramba. Tentei continuar pra ficar com minha nova amiga, mas não deu, estava exausta e dolorida. Precisava muito descansar. Bom, paciência, eu seria mais uma a quem ela ultrapassaria, pelo menos ela saberia que era mais forte que eu. Competição é competição. Parei. Tirei a cabeça da agua. Ela parou também. E gritou "bora, bora! Continua". E eu obedeci.
Eh engraçado quando a gente acha que esta no limite das forças, que não da mais mesmo, e na verdade o que falta é apenas uma razão pra continuar, um pequeno incentivo, alguém que diga, vem eu confio em você. E eu continuei nadando com ela, as duas lado a lado, incentivando uma a outra, até o final da travessia. A chegada foi brusca. Depois de passar tanto tempo na calma do mar, no silêncio, controlando limites numa luta interna e externa que te exigia toda a concentração, chegar na areia da praia de pernas bambas, ouvir aquele barulho todo era muito estranho. Parecia o caos e eu ouvia gente me oferecendo agua, gatorade, frutas, gente me dizendo que eu tinha que passar na mesa e dar meu nome, mães ansiosas querendo saber se seus filhos iam chegar vivos e inteiros. Demorei uns minutos pra me acostumar e quando olhei pros lados pra procurar minha companheira, não achei.
E quase 15 anos depois da travessia, a lembrança desse dia que continua mais forte minha memoria é essa amizade fugaz, a mais rapida de toda minha historia.


