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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nunca subestime um coração partido

Deixar Paris está sendo o fim de relacionamento mais difícil que já tive na vida. Eu estou bem, já me conformei, já tenho uma outra cidade na minha vida, estou fazendo novos planos e aproveitando minha liberdade. O problema é ela: Paris está se revelando muito mais rancorosa do que eu imaginava.

Paris está me sabotando desde que eu voltei de férias apaixonada por outras cidades do sul da França. Espedaillac foi um golpe muito forte, eu sinto. Quando disse que os vilarejos são muito mais lindos do que a capital, eu sei que de alguma forma ela ouviu e se ofendeu. Quando eu me maravilhei com a Corse, tenho certeza que Paris pensou: "ela nunca olhou pra mim com essa admiração". E desde então ela anda fazendo da minha vida um inferno.

Depois de cinco anos de convivência, ela conhece muito bem meus pontos fracos e não hesita um segundo em utilizá-los contra mim. Ela me ataca na alma com toda a falta de gentileza que seus piores habitantes podem ter. Ela me mostra toda sua grosseria, sua ambição cega, sua mesquinharia. Ela aponta o dedo na minha cara, ri e me faz chorar em público. Ela me atinge no bolso através de sistemas complexos sobre o qual não tenho o menor controle. Ela me mostra o que há de pior na humanidade, ela me faz ter pensamentos furiosos e cheios de ódio, mostrando também o que há de pior em mim.

Sequer a reconheço mais. No início do nosso relacionamento ela me deu tudo. Ela me deu um lar, um emprego. Ela me ensinou muitas coisas, aprendi tanto! Ela me deu até um diploma, mas as coisas mais importantes que aprendi não foram em sala de aula. Paris me ensinou uma língua nova. Paris me ensinou a sempre olhar os dois lados da história. Ela me ofereceu tudo o que havia de melhor nela e eu peguei. Realmente me senti acolhida. Se no início não tinha muitos amigos, eu não me importava. Quando uma tristezinha ou uma solidão batia, eu saia de casa, ia admirar a beleza lá fora e tudo ficava bem novamente. Quem precisa de amigos quando se tem Paris?, eu pensava. E ela adorava ouvir esse tipo de coisa. Foi nossa melhor época juntas.

Com o tempo fui fazendo amigos e deixei de olhar tanto para cima para olhar mais para baixo, tomando cuidado com o caminho na volta pra casa de madrugada. Ela não estava totalmente satisfeita, mas acabou se conformando porque via que eu estava mais feliz. Mas nos sabíamos que nosso relacionamento já não era o mesmo. Eu já não podia mais suportar o metrô lotado que ela me oferecia. Passei a pegar ônibus. Eu comecei a reclamar da multidão, dos turistas, dos preços. Ela se ofendeu. O ganha-pão que ela oferecia passou a ser insuficiente para meu crescimento. Minha existência na cidade começou a parecer sem sentido e então eu decidir por um ponto final na nossa relação e ir embora.

Foi aí que Paris se decidiu a me prejudicar como podia. Ela me deu os golpes mais baixos que uma cidade pode dar numa pessoa. O que ela não percebe, é que isso tudo que ela está fazendo só me dá mais vontade de ir embora e a cada dia que passa eu tenho mais certeza de que tomei a boa decisão. Sim, amei Paris e vou continuar a amá-la pra sempre, mas de uma forma diferente. Ela sempre terá um espaço no meu coração - o que vivemos juntas não se esquece jamais. Mas ela precisa entender que esse joguinho sujo não serve pra nada. Não é melhor dizermos adeus sem mágoas, sem rancores, apenas lembrando os bons momentos?

Não me leve a mal, Paris. Sou nômade demais pra ficar numa cidade só. Mas nunca vou esquecer tudo o que você fez por mim, nem das vezes que você piscou quando me viu passar. So peço por favor, me deixe ir em paz.

Depois da tempestade...

sábado, 13 de agosto de 2011

Lot, amor à primeira vista - parte 2

No Lot, a gente vê em todos os lugares muretinhas feitas de pedra construidas na idade média. Elas parecem meio frageis, equilibradas meio por acaso, temos a impressão que cairão no primeiro vento. Mas, pombas, estão la ha milhares de anos! E estão por toda parte, nas cidades, nas estradas, no meio do nada.



Outra maravilha são as falésias da região, que ha centenas de anos foram usadas como parede de casas (e é logico que as casas estão la até hoje - e habitadas), o que da a impressão de que os imoveis estão dentro da pedra, um espetaculo.



Num dia de passeio, na hora do almoço, decidimos parar em algum lugar charmosinho pra poder comer nossos sandubas e acabamos caindo por acaso em St-Martin-des-Vers. O legal é que em qualquer lugar que a gente para, se deslumbra.



As videiras estão por toda parte

Fomos também em St-Cirq-Lapopie, que é a preferida da região por sua estética montanhosa e por causa disso cheia de turistas. Eu continuo preferindo as outras, perdidas, com vida cotidiana de verdade. Mas isso não me impediu de babar um pouco.





Reparem no teto de uvinhas


Realmente conhecer o Lot foi uma feliz surpresa. Fiquei encantada com cada cantinho que descobri e moraria la facil, facil. Sinceramente, acho a região bem mais bonita que Paris e seus arredores. Tudo bem que são duas coisas incomparaveis (uma é campo e outra é cidade), mas eu gostei bem mais de conhecer o primeiro. Não sou uma pessoa de museus e multidões, prefiro a calma das cidadezinhas e paisagens naturais. So que normalmente minha preferência vai sempre para as regiões praianas e dessa vez cheguei ao extremo de colocar o Lot acima das minhas cidades litorâneas favoritas. So não fiquei triste em ir embora porque sabia que minha viagem estava apenas começando...

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sintomas graves de parisienses

Eu ia até fazer um Top 10, mas logo vi que a lista é infinita. Se você mora em Paris ha algum tempo, esta na hora de fazer um check up e descobrir se ainda conserva seu espirito brasileiro ou se ja apresenta perigosos sinais de metamorfose em um tipico parisiense.


Sintomas mais comuns:

- saber a temperatura que vai fazer nos proximos dias
- achar as sobremesas do brasil doces demais
- não comer mais queijo e presunto no café da manhã
- achar que um apartamento de dois quartos é luxo
- não puxar mais assunto quando ouve alguém falar português na rua, como fazia antigamente
- passar cinco minutos procurando um equivalente em portugues para uma palavra em francês que representa exatamente aquilo que vc quer dizer (e que geralmente não existe em português)
- saber nomear mais ministros franceses que ministros brasileiros
- não entender como os brasileiros podem trabalhar tanto e ter tão poucas férias
- ser mais pontual
- ficar irritado quando o turistão fica parado do lado esquerdo da escada rolante no metrô
- aprender a se virar: fazer faxina, cozinhar (bem!), consertar eletrodomesticos, montar moveis, muitas vezes até cortar o proprio cabelo
- descobrir qual é a melhor padaria do bairro e implicar com as outras
- esperar os soldes pra fazer compras
- no inverno, não sair mais com cinco casacos, três calças, sete meias, luvas, gorro de lã e cachecol, como fazia antigamente
- programar as férias para o mês de agosto
- se for mulher achar os biquinis brasileiros pequenos demais e se for homem jurar que nunca mais veste uma sunga na vida
- chamar Mc Donalds de McDo
- dizer os numeros de telefones em dezenas
- achar que o rosé é um vinho subjulgado no Brasil

Se você sentir algum sintoma não listado, por favor deixe na caixa de comentarios para podermos prevenir os recém-chegados dessa terrivel ameaça.

sábado, 2 de julho de 2011

A caça ao tesouro

Eu ja tinha falado na caça ao tesouro que as subprefeituras de Paris organizam na cidade, mas nunca tinha participado de uma delas. Aqui no 12éme arrondissement, além da caça ao tesouro estavam programados também varios esportes gratuitos no Jardin de Reuilly, de tiro ao alvo à dança, de tênis à equitação. Até o muro de escalada que eu faço ia abrir as portas para curiosos. Tudo no mesmo dia e no mesmo lugar. Convoquei logo a Maite (que conheci no piquenique e virou minha amiga de infância), mas não conseguimos arrastar mais ninguém, so o cheri que apareceu algumas vezes para nos ajudar. Como não sabiamos direito como era o esquema da caça ao tesouro, estavamos preparadas pra abandonar a corrida se fosse chata e ficar ali nos esportes. Mas nossa previsão não podia estar mais errada.


No inicio da caça, eles nos dão um jornalzinho com um mapa, as instruções e um texto enorme de duas paginas que são as pistas. Custamos a entender como funcionava a coisa, mas depois pegamos o jeito. Demoramos uns 15 minutos so pra entender a primeira pista e logo depois desviamos muito do caminho por causa de um problema de linguistica e perdemos quase uma hora indo para a direção errada. Engraçado que as pistas eram tão subjetivas que a gente interpretava do jeito que queria dependendo do que estava no caminho. Pra gente, vermes de metal e monstros metropolitamos eram os prédios, ja que estavamos na rua, mas a Maite descobriu que, olha so, era o metrô! (na hora não parece tão obvio, juro!). Depois que voltamos pro caminho certo pegamos o jeito de vez. O percurso é super detalhado, a cada passo que davamos tinha dicas. E se a primeira vista as pistas não tinham sentido nenhum, a gente entendia quando dava de cara com elas (do lado do coração, no "rappel", vire entre duas cerejas que iluminam a passagem, que significava: à esquerda, onde tem uma placa de trânsito que esta escrito 'rappel", passe entre duas luminarias presas na parede). Uma das dicas era um muro alto de um prédio, meio artistico, com uma pintura e uma poesia. Dai cruzamos uma mulher que disse: "Moro por aqui ha anos e nunca vi ninguém prestar atenção nesse muro. Fico feliz de que pelo menos hoje as pessoas dêem uma olhadinha".

Por três vezes tivemos que entrar em lojas para pegar as dicas. Dai tinhamos que responder algumas perguntas - a primeira foi numa petshop, dai tinhamos que nomear cinco filmes da Disney que tinham cães e gatos. Que bom que o cheri estava la, pois não iamos adivinhar que 101 Dalmatas era 101 Dalmaciens e a Dama e o Vagabundo era La belle et le clochard. A segunda vez foi num cavista, tinhamos que acertar o cheiro de pelo menos dois dos quatro potinhos que ele nos apresentava. Palmas pra Maite, pois se dependesse de mim, estariamos até agora no cavista. A ultima era uma loja de decoração e tinhamos que dizer de qual animal pertenciam as plumas de um abajour. De novo, sorte nossa que o cheri estava la, pois não sabiamos como era ganso em francês.

Era engraçado ver grupinhos parados na calçada, olhando para todos os lados, apontando em todos os sentidos, tentando entender o jornalzinho. Nem adiantava muito colar e seguir ou outros, pois dava a impressão que estava todo mundo perdido (e depois descobrimos que existiam percursos diferentes também). Tinha muita gente participando, adolescentes, adultos, familias, velhinhos, todos concentrados em desvendar o caminho. Foram quase 6km (isso apenas o caminho oficial, sem contar as vezes que rodamos perdidas) e nossa caça ao tesouro durou 5h! O tempo passou tão voando que nem vimos, acabamos nem almoçando.


Mas no fim eu ja estava tão cansada que não aguentava andar. Acabamos passando novamente pelo jardim onde estavam tendo os esportes e olha, que decepção, ainda bem que não ficamos la! Descobri que o tênis se resumia a uma rede mal-amarrada na altura do joelho onde crianças de 3 anos praticavam. O boxe era um saco de bater e a equitação, pasmem, eram pôneis que as crianças davam voltinhas na pelouse! Imagina o mico se eu tivesse ficado la pra isso. Ainda bem que estavamos curtindo bem a caça ao tesouro. O objetivo do jogo era conseguir descobrir onde era o fim do percurso e se inscrever para o sorteio dos prêmios, que incluia viagem de fim de semana e jantar em restaurante. Não tinha prêmio para quem chegasse primeiro, era tudo sorteio.

Eu e Maite decidimos ficar para ver o sorteio na prefeitura. Foi muito engraçado, pois estavam rolando varios casamentos por la, então tinham duas galeras diferentes: a dos bem-arrumados e a dos mulambos suados e cansados, todo mundo fazendo fila (modo de dizer) pra entrar. Dava a impressão que éramos um bando de penetras. A boa surpresa foi um shozinho instrumental excelente de um grupo chamado Omega Fanfare. Que coisa animada! Depois tiveram os sorteios e obvio que não ganhamos nada. Mas talvez tenha sido melhor assim, pois sabe qual foi um dos prêmios oferecidos? Um queijo! Juro pra vocês. Tem que ser muito francês pra dar um premio desses, né não?


No fim das contas valeu muito a pena. Nos divertimos muito, o tempo voou e conhecemos alguns cantinhos charmosos de Paris que não conheciamos. Quem estiver por aqui no ano que vem não pense duas vezes, vai. Mas aviso logo que o francês tem que estar afiadinho, pois decifrar as pistas não é tarefa muito facil não.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O dia que Paris virou Rio

Esta semana é uma semana atípica. Minha vida de sempre foi atropelada por vários acontecimentos importantes: visita da mãe em Paris, última semana de trabalho, decisão definitiva sobre quando voltar para o Brasil baseada em uma resposta que teremos na sexta, organização das primeiras férias de verdade depois de 4 anos e calor, muito calor.


Os parisienses compartilham pelo menos dois desses eventos: o calor e o planejamento das férias (em julho/agosto todos eles migram para o sul). Então pude perceber nitidamente nas ruas uma felicidade geral - os parisienses estão ainda mais eufóricos do que na primavera! Como passei o fim de semana inteiro turistando com minha mãe, aproveitei bem todo esse momento de bom-humor coletivo, coisa rara em Paris. Nas lojas os vendedores vinham sorridentes e prestativos, nem faziam cara feia quando eu experimentava metade da loja e saia sem levar nada. Um deles, inclusive, me pediu em casamento ajoelhado e tudo. Na rua não precisávamos sequer pedir informações, era só abrir um mapa que automaticamente chegava alguém perguntando se precisavámos de ajuda, às vezes até arranhando um português simpático. Para pedir que tirassem uma foto era a mesma coisa: bastava tirar a câmera de dentro da bolsa que alguém se materializava do nosso lado oferecendo pra bater. Nunca vi isso, juro pra vocês.


O mais engraçado é que em todos esses contatos o calor entrava na conversa. O grande acontecimento era a previsão da temperatura de segunda-feira, incríveis 37°, então a expectativa era enorme. Parecia até que todo mundo estava só procurando uma desculpa pra falar "Ei, viu só? Amanhã teremos 37°! High five!" Inevitavelmente, todos os diálogos chegavam aqui. Parecia até copa do mundo, sabe? Como se todos nós estivéssemos nessa juntos, para o melhor e para o pior. Só faltava um tapinha nas costas - vamulá, vamulá, rumo aos 37! Daí tinha gente que descrevia os preparativos para o dia seguinte: "sempre deixo a janela da sala fechada, mas amanhã vou ter que abrir tudo!", outros me davam conselhos: "não esquece de beber muito líquido, vai fazer 37°".

Pois os 37º chegaram ontem e olha, quase morri. Tô muito parisiense? Minha mãe disse que não sobrevivo mais ao calor do Rio, acho que ela está certa. As crianças que tomei conta botaram o pé pra fora de casa e pediram pra voltar. Eu não tava a fim de perder a oportunidade de curtir o calor, então as obriguei a ir no parquinho, coitadas. Elas não aguentaram brincar nem na sombra e ficaram resmungando sentadas no banco. Minha mãe viu uma ambulância tirar um velhinho de casa. Pegar ônibus nesse calor não foi brincadeira, os ônibus daqui não têm janelas nem ar-condicionado! Porque como o Brasil não está preparado para o frio, a França definitivamente não está preparada para o calor.

Vou tratar de aproveitar bem da simpatia e do calor em Paris, porque certamente ambos duram muito pouco!

sábado, 4 de junho de 2011

O mundo dos livros na França

Sou daquele tipo de pessoa que desde pequena ja saia lendo tudo o que vinha pela frente. Mas minha paixão sempre esbarrou em um problema técnico: livros bons e que me interessavam não eram faceis de ser achados. Primeiro que comprar livros era muito caro - e no Brasil continua sendo -, segundo que não existia nenhuma biblioteca decente. Minha mãe até me levou algumas vezes na biblioteca municipal do bairro, mas la tinha apenas Agathas Christies de paginas amareladas e quadrinhos tão antigos que os personagens da Turma da Mônica ainda eram meio tortos. Otimo incentivo de leitura pras crianças.

A primeira vez que dei de cara com uma biblioteca de verdade foi em Brisbane, na Australia. Parecia um shopping center de livros, com a vantagem de tudo estar completamente disponivel pra você. Era um sonho: um mar de livros, CDs, DVDs, HQs, jornais e revistas, muitas publicações. O mais surpreendente pra mim é que ali não era apenas um lugar de estudos, mas também de lazer, onde as pessoas iam pra pegar filmes emprestados, um CD legal, livros de viagem do Lonely Planet, livros de receitas, livros infantis - a biblioteca tinha tudo o que a gente podia imaginar. Então a cada cidadezinha da Australia que eu ficava algumas semanas, ja procurava pela biblioteca.

Na França é a mesma coisa. Além das universidades que têm um acervo gigantesco, Paris conta com dezenas de bibliotecas de bairro, que são muito uteis no cotidiano. Quem mora por aqui, recomendo fazer a carteirinha, é de graça! Com a carteirinha a gente pode pegar até 20 obras de qualquer biblioteca de Paris por 3 semanas renovaveis. Cada biblioteca também organiza programações diferentes, como encontros com autores e leitura de historias infantis para crianças.

Como frequentadora assidua da biblioteca Saint-Eloi, fui la hoje de manhã devolver uns quinhentos livros e pegar outros mil e dei de cara com uma ideia tão genial que fiquei embasbacada. Com a proximidade das férias, o pessoal teve a ideia de fazer o pacote surpresa: embrulharam conjutos de quatro ou cinco livros (e CDs) em papel-pardo e o leitor escolhe um embrulho sem saber quais livros tem ali dentro. Assim ele tem as férias inteiras pra ler aquela pequena seleção de leitura que fizeram pra ele. Não é o maximo?

Praticamente um natal fora de época
 
Eu fico boba com essas coisas! Uma ideia tão simples, que não custa nada, atrai a curiosidade de todos e ainda incentiva leitores a lerem obras que provavelmente eles não escolheriam por vontade propria. Tudo bem que você corre o risco de pegar coisas que não te interessam (se eu caisse com biografias ou classicos, ficaria irritada!), mas é so pegar uns livrinhos extras pra garantir.
 
E se as bibliotecas municipais ja garantem boas leituras, as pessoas com forte sentimento de posse também estão bem servidas. As livrarias francesas oferecem livros muito mais baratos que no Brasil. Tipo, coisa de 3 euros para um livro de bolso. Os lançamentos estão na faixa dos 20 euros. A diferença é que enquanto no Brasil livro parece ser artigo de luxo - capa dura, design artistico, folhas de 90g -, na França eles são mais modestos, raramente têm capa dura, muitas vezes nem têm desenho: é so o titulo, o nome do autor e pronto, fundo bege ou amarelo, nada de fotos ou ilustrações mirabolantes.
 
Comprar livros na França é um programa super gostoso. Além do preço totalmente viavel, as livrarias também atraem os leitores com um ambiente aconchegante e familiar. Poltronas fofas, espaço pras crianças, vendedores simpaticos, tudo isso faz parte. Mas o que realmente me conquista é a maneira que elas indicam os livros, dêem uma olhada:
 
 Notinhas escritas à mão com opiniões pessoais


Esses bilhetinhos passam uma impressão de que a livraria tem um interesse autêntico pelos livros, e não deseja apenas vender qualquer porcaria. Da pra perceber o carinho pelas letras, o habito permanente da leitura. Eh como se a propria livraria dissesse: "seu livro ideal esta aqui e nos vamos te ajudar a encontra-lo".

I ♥ livrarias francesas. E bibliotecas também!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Top 10 - produtos dos supermercados franceses

Ja começo dizendo que foi muito dificil selecionar apenas 10 produtos das prateleiras francesas, pois tem muita coisa boa. Até pensei em separar em categorias, mas preferi cortar tudo e reunir apenas la crème de la crème. Essa lista esta longe de ser unanimidade, afinal de contas duvido que outro brasileiro além de mim dê espaço para feijão em lata em sua listinha vip. Eu dou (calma, me dêem uma chance). Então essa é a minha lista, meu gosto pessoal, mas todo mundo esta mais que convidado a dar seus palpites nos comentarios. Além do mais tem muita coisa que provavelmente não esta na lista porque eu não conheço ainda, então também quero indicações do que experimentar!

A principal intenção desse top 10 é indicar produtos industrializados que geralmente passam despercebidos, mas que são excelentes! Porque no Brasil a gente sabe desde sempre o que é bom e o que não é, mas aqui na França a maioria de nos chega meio perdida nos supermercados e acaba entrando numa rotininha gastronômica, às vezes por falta de indicação mesmo. E se você vier à Paris passear, não perca a oportunidade de experimentar essas belezinhas.

10- Sirop de cassis (qualquer marca)
Xarope de cassis é tipo uma groselha que da pra misturar na agua pra fazer refresco, é claro, mas também em varias outras coisas, como limonada, agua com gas ou cerveja. Agora no verão é otimo! Eu gosto de tomar dois tipos de cerveja: a boa de verdade, com um gosto forte, e a ruinzinha que eu misturo com cassis e fica maravilhosa! O problema é que a gente bebe como um suquinho e quando vê ta num caminho sem volta.

9- Cassoulet em lata (qualquer marca)
Cassoulet, especialidade da cidade de Toulouse, nada mais é que uma feijoadinha branca com linguiça e pato. E sim, esse que eu compro no supermercado é de lata. Olha o preconceito, gente! Eu juro que é bom. Quando bate aquela saudade da cozinha brasileira eu compro uma latinha de cassoulet, faço um arroz e uma farofinha e ninguém diz que não é um PF genuinamente brasileiro. So que os franceses comem cassoulet puro, sem nenhum acompanhamento.

8- Compote de pomme (a Leader Price é mais barata e tem mais % de maçã que as outras)
No Brasil (pelo menos até 5 anos atras), so os bebês comem compota de frutas. Aqui na França vende-se potes gigantescos de purê de maçã, para os adultos mesmo. Eu adoro. Eh uma sobremesa bem saudavel e muito gostosinha e ainda da pra usar a imaginação e incrementar. Por exemplo, em vez de usar creme em tortinhas, por quê não usar purê de maçã?

7- Molho pesto (Leader Price ou Monoprix)
Tenho evitado os molhos prontos porque eles têm muita quimica, prefiro usar os tomates de verdade. Mas esse molho pesto é tão gostosinho que abro excessões. Além do mais não é pra usar ele inteiro, so uma colher pra cada porção de macarrão, pois ele é bem forte.

6- Houmous (Sabra, ou qualquer outra marca importada de Israel)
Sim, também tem no Brasil, mas so fui descobrir aqui na França mesmo. Houmous é um purê de grão-de-bico, ou seja, super benéfico pra saude. Ele é tao gostoso que eu tinha certeza que tinha uma tonelada de creme de leite ali dentro, mas nem tem. Tem varios sabores, todos eles otimos! Minha preferência são os picantes.

5- Brioche Tressée (Pasquier)
Quando um produto tem varias marcas, normalmente eu vou sempre na mais barata, porque a qualidade em geral é a mesma. Mas não com essa brioche. Ela é mais cara por dois motivos: por ser de marca e por ser trançada. Vale cada centavo. Não corte, vai puxando com as mão aos pedaços, é a melhor parte!

4- Confit de canard em lata (Leader Price, nao achei a foto)
Confit de canard é a coxa do pato conservada na propria gordura do animal. Pra quem não conhece, a descrição parece esquisita, mas olha, eu sou a pessoa mais nojenta que existe pra comer e eu adoro esse prato. Não sempre, claro, porque realmente tem muita gordura. Temos que cozinhar no forno as coxas (sempre vêm cinco) dentro da gordura, e depois jogar o liquido fora (no lixo, não na pia!). Eh a carne mais saborosa que ja comi na vida. E da pra levar pro Brasil, fica a dica.


3- Hamburguer de soja sabor indienne (Sojasun)
Comi pela primeira vez na casa de uma criança que estava tomando conta, porque na verdade eu nunca compraria espontaneamente hamburguer de soja no supermercado. Mas olha, é muito bom! Foi uma grande descoberta. Ainda vem com um molhinho pra botar por cima, que eu sempre espalho nos legumes e no arroz. Ja provei outros sabores e achei tudo sem-graça, o negocio é o indienne mesmo.

2- Cookies (Pepperidge Farm)
Na verdade acho que esses cookies são americanos, mas como vende nas prateleiras francesas, ta valendo! Eles custam bem mais que os outros biscoitinhos do mesmo tipo, mas são tão, mas tão gostosos, que até uma pão-dura miseravel, ou melhor, uma pessoa economicamente responsavel como eu gasta seus eurinhos a mais pra leva-los pra casa. Mas não compro sempre porque vicia!
1- Tortellini Pesto Basilic Pécorino Pignon (Giovanni Rana)
Se eu disser que uma das minhas maiores preocupações em voltar pro Brasil é não poder mais comer esse tortellini, vocês vão entender como essa massa fresca é boa ou vão apenas achar que eu sou louca? Sério, eu poderia comê-la todo dia no café, no almoço e na janta. Ja tentei outros sabores da mesma marca, mas nenhum outro me convenceu. Dou a dica: coloque a massa na agua fervente por um minuto e nenhum segundo a mais e coma sem acrescentar NADA, nem sal. Tudo que você botar so vai tirar o sabor. E esqueça de vez daquelas massas recheadas de coisas que você nem consegue reconhecer o gosto.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Raio-X na carteira dos franceses

O site Rue89 às vezes publica reportagens sobre a finança pessoal dos franceses de uma forma bem interessante: eles passam pente fino na conta bancaria de voluntarios, mostrando quanto é o salario deles, quanto ganham de ajuda do governo e pagam de imposto, quanto gastam com aluguel, roupas, lazer, telefone, viagens. Acho que é um exercicio legal comparar nossas despesas no Brasil com a despesa de uma familia francesa, procurar semelhanças e se assustar com as diferenças. Acho que essa pode ser uma ferramenta muito util pra mostrar o cotidiano dos franceses. Claro que cada um tem um estilo de vida diferente e prioridades diferentes, mas ja da pra ter uma ideia de como vivem os frenchies. Selecionei o perfil de duas mães solteiras, com uma grande diferença salarial entre elas: Alexandra ganha quase 2.900 euros enquanto Zoé ganha 575 em um trabalho de meio expediente. Vou comparar outros perfis mais tarde, mas se você quiser dar uma olhadinha em todas as reportagens, elas estão aqui.

Alexandra, 36 anos, controladora interna de uma industria farmacêutica, divorciada, duas crianças.

Calculo da renda
Salario livre de impostos: 2.865 euros
Prêmios da empresa por participação e mérito: 652 euros
Ajuda do governo para os filhos: 122 euros
Pensão alimentar: 368 euros
RENDA TOTAL: 4.007 euros mensais

Sua empresa ainda oferece muitos beneficios como vale-presente e vale-férias de 220 euros por ano cada um, participação na despesa das atividades extra-escolar de seus filhos, excelente plano de saude por 20 euros por mês, telefone celular pago e restaurante da empresa com preços baixos.

Calculo das despesas
Aluguel de uma casa na periferia de Paris: 1.090 euros
Seguro da casa: 46 euros
Gas e luz: 130 euros
Taxa de habitação: 65 euros por mês
Profissional psicomotora para o filho: 140 euros
Baba pra buscar na escola: 120 euros
Almoço e centro de lazer das crianças na escola: 130 euros
Celular do filho de 10 anos: 25 euros
Atividades das crianças: 183 euros
Matricula escolar: 200 euros, ou 17 euros por mês
Imposto de renda: 1.200 euros por ano, ou 100 euros por mês (ela ainda paga pouco pois foi promovida ha pouco tempo)
Telefone fixo ilimitado e internet: 35 euros
Carro: 96 euros (46 de seguro e 50 de gasolina)
Cartão de transporte ilimitado: 29 euros, a empresa paga a outra metade
Compras mensais: 500 euros, comprando orgânicos
Alimentação no restaurante da empresa: 80 euros
Taxas bancarias de suas duas contas: 14 euros
Pagamento das taxas do divorcio que foram feitas à crédito: 303 euros
Doação a associações de meio-ambiente: 230 euros
Roupas: 2.000 euros anuais (1.500 dela e 500 das crianças) ou 167 euros por mês
Lazer: varia muito
Férias: 3.000 euros por ano
DESPESAS TOTAIS: 3.300 euros mensais

Zoé, 24 anos, garçonete a meio periodo, solteira, um filho.

Calculo da renda
Salario livre de impostos: 575 euros
Ajuda social: 350 euros (sim, na França o bolsa-familia existe ha muito tempo)
Gorjetas: 17 euros
Pensão: zero, o pai não da dinheiro porque acha que Zoé vai usar em seu beneficio. Ela não quer pedir, ja que consegue se virar
RENDA TOTAL: 940 euros mensais

Zoé diz que para ela vale mais a pena trabalhar meio periodo, pois se trabalhasse full-time, além de ter que pagar uma baba pro filho, perderia boa parte da ajuda do governo, sem contar o tempo que passaria longe de seu filho.

Calculo das despesas
Aluguel de um apartamento em Paris + agua: 360 euros (ele custa 635, mas ela se beneficia de uma ajuda à habitação)
Luz: 52 euros
Taxa de habitação: zero
Seguro da casa: 20 euros
Seguro escolar para o filho: 10 euros por ano
Almoço na escola: 73 euros
Cartão de transporte: zero (ela pega carona com um amigo e quando precisa, burla o metrô)
Cartão de desconto de trem: 49 euros anuais (sua familia e o pai de seu filho moram em Toulouse)
Telefone fixo ilimitado e internet: 30 euros
Telefone celular: 45 euros
Lavanderia: 30 euros
Compras mensais: 120 euros
Plano de saude: zero, Zoé se beneficia de um plano de saude gratuito para os mais pobres
Passagens de trem: 25 euros por mês
Televisão: zero, ela não assiste para não ter vontade de comprar coisas
Animais: zero, seu peixe pode ficar até 3 meses sem se alimentar
Roupas: 120 euros por ano ou 10 euros por mês
Cabelereiro: zero, ela corta seu proprio cabelo (como muitos franceses, alias)
Lazer: 110 euros
Tabaco + seda: 20 euros
DESPESAS TOTAIS: 900 euros mensais

E então, muito diferente das despesas das brasileiras?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O perfil do francês médio

A revista Le Point comemorou seu 2000° numero com uma reportagem especial sobre os franceses. São 50 paginas sobre o novo francês: quem ele é, como ele vive, quais são suas aspirações. Achei bem interessante, tem muitos dados e estatisticas, pena que tudo é comparado com outros paises da Europa e o Brasil nem é citado. Alias, se fosse uma pesquisa brasileira sobre os franceses com certeza a primeira pergunta seria "quantos banhos os franceses tomam por dia". Logico que esse dado nem aparece na reportagem, tamanho o absurdo da desconfiança.

Talvez eu faça outros posts sobre essa reportagem, mas nesse eu vou reproduzir o perfil do francês médio traçado pela revista, que eu achei bem criativo. Pois bem, o francês médio é... uma francesa. Ela se chama Nathalie Martin e tem 40 anos (52% da população da França é feminina. Na verdade nascem 105 meninos para 100 meninas, mas os meninos têm um risco de mortalidade maior, então aos 25 elas se tornam maioria). Nathalie Martin é o nome mais comum no pais e 40 anos é a média da idade de todos os franceses. Estatisticamente Nathalie vai morrer aos 72 anos. Nossa francesa mede 1,62m, pesa 62kg, calça 37. Se ela fosse homem mediria 1,76m, pesaria 77kg e calçaria 41.

Nathalie é catolica como 64% dos seus compatriotas, mas não vai à igreja. Apenas 4,5% dos catolicos vão à missa domingo. Ela se casou aos 29 anos e teve o primeiro filho um ano depois. O Estado gasta 8 mil euros por ano na educação de cada filho seu (ela tera 2 ou 3). Seu casamento tem 40% de chance de terminar em divorcio. Nathalie é assalariada, mas não ocupa um posto de chefia. As mulheres representam três quartos dos assalariados, mas apenas 9% delas são chefes. Ela estudou até o segundo grau, como 55% dos franceses de mais de 15 anos. Nossa francesa trabalha 35h por semana desde os 21 anos e ganha um salario de 1.405 euros, menos que seu equilavente homem. Mesmo assim ela economiza 16% do seu salario. Nathalie anda com 37 euros na carteira. Ela se aposentara em 2032 e tera ficado pouco mais de um ano desempregada em toda sua vida.

A cada ano, Nathalie produz 390kg de lixo e seu carro percorre 12 mil km. Ela vai 3 vezes ao ano ao cinema, assiste 1.138 horas de TV anuais e ouve 15 horas de radio por semana. Como uma boa francesa, Nathalie gosta de tecnologia: anualmente passa 28h falando no celular, envia mais de mil SMS e gasta 833 horas navegando na internet. Sua conta mensal de celular é de 38 euros. No seu Facebook ela conta 130 amigos, mas na vida real tem apenas 6 bons companheiros. Nossa francesa é heterosexual (apenas 4% da população declara ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo), transa 9 vezes por mês e teve sua primeira relação aos 17 anos. Nathalie tem 21% de chances de ser infiel no casamento.

A francesa média mora numa cidade com mais de dois mil habitantes, como 77% da população. Ela é proprietaria de uma casa de 91m² que deve ocupar durante 15 anos. Nathalie gasta 21 minutos para chegar no trabalho.

Voila! Essa é nossa francesa tipica. Suspeito que a Nathalie Martin é um tantinho diferente da Maria da Silva...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As linguas regionais da França

Sempre acho engraçado quando alguém me pergunta como se ja estou acostumada a viver numa outra cultura. Ja disse que eu nao acho que vivo numa "outra cultura". As diferenças com o Brasil sao minimas, afinal de contas nosso pais foi criado à imagem e semelhança da Europa. Mas tem coisas que a colonizaçao nao consegue (ou provavelmente nem quer) imitar. Enquanto nossa identidade cultural europeia foi abafando nossas raizes indigenas numa luta desigual, na Europa, os diferentes povos tentam sobreviver dentro da sociedade predominante. Por isso às vezes é dificil para nos, brasileiros acostumados com a centralizaçao e o senso pratico de uma naçao colonizada, imaginar que na França, esse pais tao desenvolvido, se fala outras linguas além do francês.


Sim, o francês é a unica oficial, mas as linguas regionais pertecem formalmente ao patrimônio da França desde 2008, graças a uma revisão na Constituição, bem tardia diga-se de passagem. Eh verdade que até bem pouco tempo, essas linguas eram consideradas inferiores, chamadas de patois (patoa) e as pessoas que falavam eram discriminadas. Puro preconceito. De algumas decadas pra ca, o orgulho de pertencer a um desses grupos e de falar a lingua de seus ancestrais foi aumentando. Mas infelizmente na mesma proporçao que a fluência desses dialetos foi diminuindo no cotidiano das pessoas.

Uma velhinha francesa me disse que o francês dominou todo o territorio nacional por causas das guerras mundiais. Como era muito dificil os soldados conseguirem se comunicar entre si cada um falando um dialeto diferente, eles foram obrigados a aprender o francês. Mas em casa, eles continuavam falando sua lingua. Também com a obrigatoriedade da educaçao formal, as crianças começaram a ser alfabetizadas em francês, mas em casa ele nem passava perto. A familia do cheri, por exemplo, vem do sul da França. Sua bisavo falava occitan como primeira lingua, mas ja entendia francês. Sua avo ja fez a transiçao do francês como primeira lingua, mas ainda falava occitan. Sua mae ja nao aprendeu occitan. Aos poucos as linguas dominadas foram perdendo a força, mas hoje em dia elas ainda sao faladas, por velhinhos em sua maioria, dependendo da regiao e da familia. Os jovens até têm interesse em aprender, mas quem tem tempo hoje em dia? E convenhamos, se for pra aprender outra lingua, o inglês ou espanhol têm muito mais utilidade. O mapa abaixo mostra onde o occitan ainda é utilizado.


Treze linguas regionais sao ensinadas nas escolas publicas francesas, contando com os territorios ultra-mar (Tahiti, Nova Caledônia, etc). Contando so a regiao metropolitana da França, que é como eles chamam o hexagono francês na Europa, elas somam oito: basque, breton, catalan, occitan, corse, gallo, francique e alsacien

Inutil dizer que esse fenômeno acontece em toda a Europa. Achei um mapa legalzinho que separa o continente de acordo com as linguas faladas e com seus povos historicos (mas nao sei se é certo falar de "povos" nesse caso - me falta uma palavra melhor).

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Canções de ninar ou como traumatizar seu filho com musica francesa, parte 2

Continuando a série de musiquinhas infantis bizarras, apresento Malbrough s'en va-t-en guerre. Essa canção fez grande sucesso no século 19 e ainda hoje é cantada pelas criancinhas. A primeira vez que a ouvi não acreditei! Clipezinho simpatico ai embaixo e minha tradução mal feita logo depois.



Malbrough vai à guerra
Mironton mironton mirontaine
Malbrough vai à guerra
Não sabe quando volta

Ele voltara na Pascoa 
Mironton mironton mirontaine
Ele voltara na Pascoa
Ou na Trindade

A Trindade passa
Mironton mironton mirontaine
A Trindade passa
Malbrough não volta
 
A senhora sobre em sua torre
O mais alto que ela pode

Ela vê um pajem chegar
Todo vestido de preto

Pajem, meu belo pajem
Que noticias você traz?

As noticias que trago
Seus belos olhos vão chorar

Deixe suas roupas rosas
E seus cetins bordados

Senhor Malbrough esta morto
Esta morto e enterrado

Eu o vi sendo carregado
Por quatro oficiais
Um levava sua couraça
Um levava seu sabre (espada)
O outro seu escudo

Vimos sua alma voar
Através dos louros
(...)

Tem uma outra musica muito famosa aqui na França, a Jean Petit qui danse, que é super fofinha, letra simples, bem util pra ensinar as partes do corpo para os pequenos, como a Alouette do post passado. O Jean dança com o pé, com a mão, com os dedinhos, com os braços, com a cabeça, nada de chocante. Clipezinho abaixo:


Dai descobri a origem da musica. Pobre Jean Petit. Na verdade, ele foi um cara torturado em praça publica no século 17: teve todos os seus ossos quebrados um a um. E cada pedaço do corpo cantado na musica na verdade é um osso que foi quebrado. Quer dança mais macabra? Teve um grupo occitan (povo do sul da França com lingua propria) que fez uma homenagem a Jean Petit, uma espécie de réquiem em sua memoria. A musica esta ai embaixo, com a letra em occitan (percebam que é uma mistura de francês com português e um toque de latim).

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Canções de ninar ou como traumatizar seu filho com musica francesa - parte 1

Eu não acho que todas as tradições são boas, muito pelo contrario. Acho que algumas delas deveriam desaparecer para sempre. As coisas mudam, evoluem e o que fazia sentido no passado não tem mais seu lugar no presente. Um grande exemplo aqui. Mesmo os hinos nacionais eu acho uma ode ao anacronismo. Sou a favor de mudar tudo, reescrever as letras, tirar as passagens barbaras. Ou melhor, sou a favor da extinção dos hinos nacionais: pra que servem, afinal? Pra cantar nos eventos esportivos, deve ser.

Pois algumas canções infantis entram nessa categoria de tradição barbara que insistimos em passar pra frente. No Brasil nos chocamos quando prestamos atenção nas letras que maltratam gatos; estimulam a violência fisica como forma de educação (não vou la, não vou la, não vou la, tenho medo de apanhar); põem medo com bois pretos e cucas e outras pérolas da sabedoria popular brasileira. Dai dizem, ah, eu cresci com essas musicas e me tornei uma pessoa normal. Mas, pombas, por que temos que crescer com essas musicas? Que tal cantarmos outras? Ja ouvi dizer que essas musicas foram criadas por escravas que se vingavam dos patrões metendo medo em seus filhos. Mas acho que não é verdade, acho que era uma coisa da época mesmo, onde ameaças, tapas e medos faziam parte da realidade das crianças. Que bom que evoluimos, não? Então por que não trocar a trilha sonora também?

Pois na França as musicas infantis sinistras também continuam sendo passada de geração em geração. Uma pior do que a outra! Canibalismo, guerra, pena de morte, crueldade contra os animais, tortura. Algumas foram adaptadas, uns versos mais pesados cortados aqui e acola, mas continuam ai. Olha o que as criancinhas francesas andam cantando por ai:


*Essa playlist tem as três musicas abaixo

Alouette (cotovia, um passarinho)

Alouette, gentille alouette (passarinho, gentil passarinho)
Alouette, je te plumerai (passarinho, vou te depenar)

Je te plumerai le bec (vou te depenar o bico)
Et le bec, et le bec (e o bico, e o bico)
Alouette, alouette, ah ah ah ah!

Je te plumerai la tête (vou te depenar a cabeça)
Et la tête, et la tête (e a cabeça, e a cabeça)
Et le bec, et le bec (e o bico, e o bico)
Alouette, alouette, ah ah ah ah!
 
Je te plumerai le cou (vou te depenar o pescoço)
Et le cou, et le cou (e o pescoço, e o pescoço)
Et la tête, et la tête (e a cabeça, e a cabeça)
Et le bec, et le bec (e o bico, e o bico)
Alouette, alouette, ah ah ah ah!
 
Je te plumerai le dos (vou te depenar as costas)
Et le dos, et le dos (e as costas, e as costas)
Et le cou, et le cou (e o pescoço, e o pescoço)

Et la tête, et la tête (e a cabeça, e a cabeça)
Et le bec, et le bec (e o bico, e o bico)
Alouette, alouette, ah ah ah ah!

Je te plumerai les fesses (vou te depenar o rabo)
Et les fesses, et les fesses (e o rabo, e o rabo)
Et le dos, et le dos (e as costas, e as costas)
Et le cou, et le cou (e o pescoço, e o pescoço)
Et la tête, et la tête (e a cabeça, e a cabeça)
Et le bec, et le bec (e o bico, e o bico)
Alouette, alouette, ah ah ah ah!

Porque né, nada como sair por ai depenando gentis passarinhos....

Ne pleure pas Jeannette (não chore Jeannette)

Ne pleure pas Jeannette (não chore Jeannette)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Ne pleure pas Jeannette (não chore Jeannette)
Nous te marierons, Nous te marierons (nos vamos te casar)
Avec le fils d'un prince (com o filho de um principe)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Avec le fils d'un prince (com o filho de um principe)
Ou celui d'un baron, Ou celui d'un baron (ou com o filho de um barão)
 
Je ne veux pas d'un prince (eu não quero principe)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Je ne veux pas d'un prince (eu não quero principe)
Encore moins d'un baron ! Encore moins d'un baron ! (menos ainda um barão!)
Je veux mon ami Pierre (quero meu amigo Pierre)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Je veux mon ami Pierre (quero meu amigo Pierre)
Celui qui est en prison, Celui qui est en prison (aquele que esta na prisão)
 
Tu n'auras pas ton Pierre (você não vai ter teu Pierre)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Tu n'auras pas ton Pierre (você não vai ter teu Pierre)
Nous le pendouillerons, Nous le pendouillerons (nos vamos enforca-lo)

Si vous pendouillez Pierre (se vocês enforcarem Pierre)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Si vous pendouillez Pierre (se vocês enforcarem Pierre)
Pendouillez moi avec, Pendouillez moi avec (me enforquem também)

Et l'on pendouilla Pierre (e vamos enforcar Pierre)
Tra, lallallallalla lla llallalla lla lla
Et l'on pendouilla Pierre (e vamos enforcar Pierre)
Et la Jeannette avec, Et la Jeannette avec (e a Jannette com ele)

Matar um culpado é pouco, matar uma inocente é melhor!

Il était un petit navire (Era um pequeno navio)

Il était un petit navire (era um pequeno navio)

Il était un petit navire (era um pequeno navio)
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué (que nunca tinha navigado)
Qui n'avait ja-ja-jamais navigué (que nunca tinha navigado)
Ohé, ohé...

Il entreprit un long voyage (ele começou uma longa viagem) 
Il entreprit un long voyage (ele começou uma longa viagem)
Sur la mer Mé-Mé-Méditérannée (no mar me-me-mediterrâneo)
Sur la mer Mé-Mé-Méditérannée (no mar me-me-mediterrâneo)
Ohé, ohé...

Au bout de cinq à six semaines (depois de cinco semanas)
Au bout de cinq à six semaines (depois de cinco semanas)
Les vivres vinr'-vinr'-vinrent à manquer (a comida acabou)
Les vivres vinr'-vinr'-vinrent à manquer (a comida acabou)
Ohé, ohé...

Ohé, ohé Matelot (oê, oê marinheiro)
Matelot navigue sur les flots (marinheiro navega sobre as ondas)
Ohé, ohé Matelot (oê, oê marinheiro)
Matelot navigue sur les flots (marinheiro navega sobre as ondas)

On tira à la courte paille (tiram no palitinho)
On tira à la courte paille (tiram no palitinho)
Pour savoir qui-qui-qui serait mangé (quem sera comido)
Pour savoir qui-qui-qui serait mangé (quem sera comido)
Ohé, ohé...

Le sort tomba sur le plus jeune (o acaso cai sobre o mais jovem)
Le sort tomba sur le plus jeune (o acaso cai sobre o mais jovem)
Ce sera lui-lui qui sera mangé (ele que vai ser comido)
Ce sera lui-lui qui sera mangé (ele que vai ser comido)
Ohé, ohé...

On cherche alors à quelle sauce (então escolhem o molho)
On cherche alors à quelle sauce (então escolhem o molho)
Le pauvr' enfant-fant-fant serait mangé (que a pobre criança sera comida)
Le pauvr' enfant-fant-fant serait mangé (que a pobre criança sera comida)
Ohé, ohé...

Il fit au ciel une prière (ele rezou ao céu)
Il fit au ciel une prière (ele rezou ao céu)
Interrogeant-geant-geant l'immensité (interrogando a imensidade)
Interrogeant-geant-geant l'immensité (interrogando a imensidade)
Ohé, ohé...

O sainte Vierge, ô ma patronne (oh santa virgem, oh minha patrona)
O sainte Vierge, ô ma patronne (oh santa virgem, oh minha patrona)
Qui a le cour cour cour afortuné (que tem o coração afortunado)
Qui a le cour cour cour afortuné (que tem o coração afortunado)
Ohé, ohé...

Au même instant un grand miracle (no mesmo instante um grande milagre)
Au même instant un grand miracle (no mesmo instante um grande milagre)
Pour l'enfant fut, fut, fut réalisé (para a criança foi realizado)
Pour l'enfant fut, fut, fut réalisé (para a criança foi realizado)
Ohé, ohé...

Des p'tits poissons dans le navire (pequenos peixes no navio)
Des p'tits poissons dans le navire (pequenos peixes no navio)
Sautèrent par par par plusieurs milliers (saltaram aos milhares)
Sautèrent par par par plusieurs milliers (saltaram aos milhares)
Ohé, ohé...

On les prit on les mit à frire (recolheram e fritaram)
On les prit on les mit à frire (recolheram e fritaram)
Et le p'tit mouss', mouss', mou-sse fut sauvé (e o aprendiz de marinheiro foi salvo)
Et le p'tit mouss', mouss', mou-sse fut sauvé (e o aprendiz de marinheiro foi salvo)
Ohé, ohé...

Pior do que ser devorado pelos seus companheiros, é ser salvo pela virgem.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia do armisticio e indicação de BD

Hoje é feriado de Armisticio na França, dia que marca o fim da primeira guerra mundial ou a Grande Guerra, como ficou conhecida na época (coitados, mal sabiam que ainda tinha mais vindo pela frente). Estar na França me deu mais consciência sobre as duas guerras mundiais, porque na escola quando eu as estudava parecia uma coisa muito distante, quase irreal. Acho que eu colocava a mitologia grega no mesmo patamar da historia mundial - acontecimentos tão surreais que eu não me identificava. Primeiro que tudo acontecia numa terra distante, que eu nem sonhava em pisar um dia. E depois porque o passado pra mim entrava tudo na mesma categoria: ido. Não importava muito se era na idade média ou ha 20 anos antes de eu nascer, era tudo velho. Não é à toa que eu sempre fui péssima para decorar datas historicas, errava facilmente de século e não tinha muita noção da sequencia dos acontecimentos (aqui jogo parcialmente a culpa nas escolas: como elas conseguem fazer um assunto interessante como historia ficar chato?).

Vir para a França me aproximou da historia mundial no tempo e no espaço. Eh so dar uma voltinha em qualquer bairro de Paris para rapidamente achar um monumento em homenagem aos herois das duas guerras mudiais. Em muitos prédios têm placas com inscrições do tipo "Homenagem à fulano de tal, morto pelas tropas nazistas em frente à esse prédio no dia tal". Eu sempre leio todas, fico pasma, olho em volta e penso como cada rua aqui tem historias pra contar. Eh estupido, eu sei, mas so me dei conta de como a segunda guerra mundial é recente ao ouvir pessoas me contando como era a vida sob a ocupação alemã. Tipo, aquela pessoa ali na minha frente viveu o nazismo! Ela é uma testemunha viva de uma das maiores catastrofes humanas! Poxa, a 2GM acabou apenas 10 anos antes dos meus pais nascerem! E o que são 10 anos? Nada! (acho que a gente so se da conta que 10 anos são nada quando fica um pouco mais velha, por isso não conseguia entender as coisas antes).

Hoje, infelizmente não existe mais nenhum soldado sobrevivente da 1GM na França. Quando cheguei ha 3 anos haviam apenas dois, mas morreram nesse tempo. O ultimo pediu que não fizessem nenhuma cerimonia especial, que ja estavam planejando, por respeito aos seus companheiros que morreram nas trincheiras e não tiveram a oportunidade de ter sequer um enterro. Essa guerra matou 13 milhões de pessoas, entre civis e militares. Eh muita gente. Eh muito triste.



Aproveito esse dia para indicar uma BD (historia em quadrinho) sobre a primeira guerra mundial- C'était la guerre des tranchées, de Jacques Tardi. Gostei muito porque não tem um personagem so, são varias historias de varios soldados, todas tragicas (o que não é tragico numa guerra?) uma mais tocante que a outra. A sorte - ou o azar - levou cada soldado pra uma situação diferente e eles fizeram seu melhor para sair dela da melhor forma possivel. Mérito para como o autor conseguiu passar a mensagem de que a guerra é uma guerra entre os grandes, que ficam atras de seus mapas tomando café, enquanto os pequenos se fodem no front. Soldados inimigos que em um contexto diferente poderiam ser melhores amigos. Gente simples que mata com remorso, sem saber porque esta matando, mas sentindo que tem alguma coisa de muito errada naquilo tudo.

O autor é filho de um militar e claramente pacifista. Ele critica a imbecilidade das guerras: "Apenas na França ha 930 hectares de cemitérios militares, boa terra pra beterraba, mas somente cruzes brotam à superficie! Se todos os mortos franceses desfilassem em filas de quatro no 14 de julho (comemoração da Revolução Francesa), seriam necessarios 6 dias e 5 noites antes do ultimo nos mostrar sua face livida".

Que tenham sempre flores frescas nos monumetos aos soldados.

domingo, 7 de novembro de 2010

Paris x NY em simbolos

Um amigo indicou um site muito bacana comparando simbolos de Paris e NY. So não gostei de uma coisa: das legendas. Acho muito mais interessante colocar so as figuras e deixar a pessoa adivinhar sozinha do que se trata. Então aqui eu reproduzo algumas figuras sem legenda para vocês brincarem. Depois passem no site para ver as originais e outras que não estão aqui. Bom domingo!









 






terça-feira, 26 de outubro de 2010

Curtinhas

* Estou de férias. Nessa cidade fria e sem praia, o que se faz nas férias? Gasta-se tempo na internet. Oh, céus, que desperdicio de vida! Alguém me sacode!

* Estou dando um tempo nas figurinhas que ilustram os posts desse blog. Percebi que elas dão muito trabalho pra achar, copiar e encaixar no blog e sem elas tenho mais disposição para escrever.

* Fui lavar roupa na lavanderia, um carinha sem-noção ocupou todas as oito maquinas pequenas lavando panos de chão. Em vez dele pegar as duas grandes (dobro da capacidade, dobro do preço) e quatro pequenas, não, ele achou mais engraçado ocupar todas as pequenas, é claro. Assim, gente como eu pode carregar bolsa pesada de roupa suja pra cima e pra baixo à toa, assim, por esporte. Nota zero para vida em comunidade e empatia pelo proximo!

* Pra equilibrar, um velhinho desconhecido que manobrava um dos tratores das interminaveis obras aqui da rua, passou por mim e me mandou um enorme sorriso, meio sem dente, junto com um aceno de cabeça. Eu respondi com outro sorriso e a gente se deu de presente um pedacinho de gentileza, pra continuar bem o dia e esquecer pessoas que monopolizam maquinas de lavar roupa.

* Um site com as melhores fotos das manifestações francesas, indicado pela Isabela, la em Londres. Vale muito a pena conferir, uma mais simbolica que a outra!

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Classe média brasileira e greve na França

Quarta-feira, 10h15, cheguei na loja que eu precisava ir e ela estava fechada. Na vitrine li que ela so abria dali a 15min e decidi esperar assistindo mais um pedaço de Diamantes de Sangue no aparelhinho que o cheri ganhou dos colegas de trabalho. Daqui a pouco chega um coroa. Ele percebe que a loja so abre 10h30 e fica ali do meu lado, impaciente, olhando pro meu aparelhinho e pra mim, lançando sorrisos. Pensei logo que o cara queria bater-papo enquanto espera e que devia estar amaldiçoando esses jovens de hoje em dia que priorizam as maquinas contra os contatos humanos. Achei que ele tinha razão e desliguei meu filme. Não tinha nem terminado de tirar meu fone quando ele começou num francês perfeito: - Sabe, eu moro no Brasil e la, às 8h30 ja ta tudo aberto! Um absurdo essa loja ainda estar fechada e blablabla. Normalmente eu responderia que no Brasil o salario minimo ainda é ridiculo, então o empregador pode explorar seu funcionario e coloca-lo pra trabalhar a hora que bem entender, ja na França, as lojas so abrem se valer a pena. Mas nem liguei, porque fiquei feliz de encontrar um brasileiro e ja fui logo me apresentando como conterrânea. Ele também ficou feliz e foi logo dizendo como Paris mudou, como nos anos 60, quando ele morou aqui, tudo era diferente, irreconhecivel! Pensei, que legal, o cara deve ter sido exilado durante a ditadura (mal sabia eu...). Dai o papo parou na imigração e em como os pobres se aproveitam dos beneficios do governo, esses imigrantes aproveitadores. Aqui, ele continuava, a pessoa vai no hospital e ninguém pede nem a carteira de identidade, pra ver se o cidadão esta legal, ja sai atendendo. Um absurdo. Eh saude de graça pra todo mundo, é educação de graça pra todo mundo, onde essa França vai parar assim? Logico que retruquei e logico que falei mal do Sarkozy. Ele disse, sim, esse Sarkozy ta afundando a França, ele é igualzinho ao Lula! Tudo farinha do mesmo saco!

Aham, Claudia, senta la.

Foi ai que eu percebi que não dava pra dialogar com o cara. Ele não entende nada de politica francesa, muito menos de brasileira e fala com uma desenvoltura de que quem olha de fora, acredita. E pra mim, ele representa a massa de brasileiros classe média, aquela que viaja pro exterior, aquela que até mora no exterior, aquela que tem plano de saude. Eh um discurso decorado e repetido pelo seu circulo de amigos, mas ele é vazio. Eh um cara que faz de conta que entende e ainda quer explicar pra juventude como as coisas funcionam. Eh um cara que manda emails mentirosos sobre a Dilma, achando que esta cumprindo seu papel de informar seus amigos. Eh triste dizer isso, mas é uma mentalidade de um pais colonizado. Um pais onde escravos tinham escravos. Um pais onde todo mundo é criado pra tirar proveito de qualquer situação, de tirar o melhor pra si e deixar o resto pros outros. A nossa classe média não sabe, não quer saber, so quer viver a vida dela, como se fosse muito inofensiva. Eles acham que viver a vidinha deles inclui ter empregada e que isso não fere ninguém, pelo contrario!, ele esta dando emprego, olha que alma caridosa! Eh essa classe média que vota no Serra, que quer manter seus privilégios la no topo da pirâmide.

Quando essas pessoas entendem um minimo de politica francesa e resolvem dar pitaco, é claro que vão criticar os beneficios sociais do pais. Vão criticar como os franceses são preguiçosos e fazem greve o tempo todo. Vão criticar a imigração. E olha, ta cheio de brasileiro que mora na França que é assim. Porque eles não estão acostumados em viver numa sociedade que tenta ser igualitaria, onde a democracia é para todos. Nos estamos acostumados à regra do cada um por si, então se uma greve me atrapalha a pegar o metrô, nada pode justificar essa barbaridade. Se a greve me faz ficar horas na fila do posto de gasolina, ela não é justificavel. Sinceramente, eu acho isso muita mesquinharia. Eu ja andei do trabalho até em casa durante 45 minutos três vezes desde que a greve começou, e hoje cheguei super atrasada porque um sindicato fechou uma rua perto da Gare de Lyon, mas eu continuo do lado dos grevistas. Pensar so em mim é egoismo demais. Semana passada minha sogra teve que voltar de Paris pra Toulouse de carro (de carona) porque o voo dela foi cancelado. Pergunta pra ela se ela vai deixar de ir na proxima manif. Muitos se esquecem que quem faz greve sacrifica seu proprio salario e que uma greve a longo prazo, como essa, significa muito prejuizo para os grevistas. Se eles acham que vale a pena sacrificar seu ganha-pão para lutar por um bem maior, quem sou eu pra reclamar da falta de metrô?!

Eh como uma velha historia que meu pai me contava. Se tivermos duas opções: a) eu perder 10 para o outro ganhar 100; b) o outro perder 100 para eu ganhar 10. Pois não tenho a menor duvida que o brasileiro classe média tipico escolheria sem hesitar a segunda opção.
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