Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livros. Mostrar todas as postagens

domingo, 4 de setembro de 2011

Leitura de férias: La vie devant soi, Romain Gary

Não, minhas férias ainda não acabaram. Mas depois de rodar todos os campings imagináveis do sul da França (algo entre 10 e 15) voltamos pra Argelès pra poder passar uma semaninha tranquila antes de voltar à babilônia.

Desisti de postar durante a viagem por vários motivos. Primeiro porque nem sempre tinha uma conexão boa, depois porque postar fotos era algo muito, muito complicado. Carregar a tablete nos campings também nem sempre era possível. E eu não queria perder meu precioso tempo de férias lutando contra todos esses empecilhos e provavelmente me irritando muito. Sem contar o cheri que reclama que eu passo tempo demais na internet. Não faço ideia de onde ele tira tamanha calúnia. :D

Mas tenho tanta coisa pra contar que nem sei como vou fazer pra organizar. Provavelmente vou virar blog monotemático por um tempinho. Mas antes de começar a maratona, aproveito para indicar um livro maravilhoso que li esses dias, presente de despedida das mães das crianças que tomei conta até julho - La vie devant soi, de Romain Gary.

Ja tinha ouvido falar do autor, pois ele conseguiu um fato inédito: ganhou o prêmio Goncourt, o mais importante da língua francesa, duas vezes. Normalmente, um escritor só pode ganhar uma vez na vida, mas Gary driblou as regras do jogo com um artifício simples - um pseudônimo. Na verdade, La vie devant soi, de 1975, é assinado por Émile Ajar, personagem que seu sobrinho aceitou encarnar por oito anos (alias, o falso escritor morava em Caniac, aquela cidadezinha do avô do cheri que falei no post do Lot). O primeiro Goncourt, Gary ganhou com Racines du ciel, de 1956. Quer prova maior de que o cara é bom?

Fui procurar o título do livro em português e vocês podem imaginar o tamanho da minha surpresa ao descobrir que a primeira tradução saiu em... 2011! A má notícia é que acho que é em português de Portugal. Mas não tenho certeza, não dá pra pesquisar muito aqui. Então procurem aí: Uma vida a sua frente, Romain Gary (Émile Ajar). Se não me engano tem um filme também. Hoje eu tô que tô pra dar informações, heim? Quando voltar pra Paris procuro tudo direitinho.

O livro conta a história de Momo, um orfão de mãe que mora na pensão da madame Rosa, uma judia idosa, mas do ponto de vista do próprio Momo. Como ele é uma criança não-escolarizada, a linguagem é limitada, assim como seu entendimento do mundo. A gente entra na cabeça de Momo e é capaz de entender toda a confusão mental dele. Por exemplo, mais pro fim do livro tem um diálogo incrível dele com um médico, e se eu copiar as falas de Momo aqui ninguém vai entender uma palavra dos absurdos non-senses que ele está falando. Mas depois de acompanhar toda sua vida, aquelas frases têm um sentido, a gente entende! E entendemos também o médico, que fica ali parado com cara de ué, sem entender nada. Genial.

Parece que Momo é uma pessoa em seu estado mais puro, uma criança que ainda não aprendeu a domar seus instintos. Inocência misturada com uma maturidade forçada. O livro é de um humor trágico, uma amargura necessária, mas sobretudo uma linda história de um amor atípico. Uma verdadeira obra de arte, não sei porque ele não é mais famoso fora da França. Virou um dos meus preferidos de todos os tempos junto com Cem anos de solidão e Metaphisyque des tubes, da Nothomb.

O primeiro parágrafo mal traduzido por mim:
"A primeira coisa que posso dizer é que a gente morava no sexto andar a pé e que para madame Rosa, com todos aqueles quilos que ela tinha e apenas duas pernas, era uma verdadeira fonte de vida cotidiana, com todas as suas penas e preocupações. (...) Sua saúde também não era boa e eu posso afirmar desde o começo que ela era uma mulher que merecia um elevador".

sábado, 4 de junho de 2011

O mundo dos livros na França

Sou daquele tipo de pessoa que desde pequena ja saia lendo tudo o que vinha pela frente. Mas minha paixão sempre esbarrou em um problema técnico: livros bons e que me interessavam não eram faceis de ser achados. Primeiro que comprar livros era muito caro - e no Brasil continua sendo -, segundo que não existia nenhuma biblioteca decente. Minha mãe até me levou algumas vezes na biblioteca municipal do bairro, mas la tinha apenas Agathas Christies de paginas amareladas e quadrinhos tão antigos que os personagens da Turma da Mônica ainda eram meio tortos. Otimo incentivo de leitura pras crianças.

A primeira vez que dei de cara com uma biblioteca de verdade foi em Brisbane, na Australia. Parecia um shopping center de livros, com a vantagem de tudo estar completamente disponivel pra você. Era um sonho: um mar de livros, CDs, DVDs, HQs, jornais e revistas, muitas publicações. O mais surpreendente pra mim é que ali não era apenas um lugar de estudos, mas também de lazer, onde as pessoas iam pra pegar filmes emprestados, um CD legal, livros de viagem do Lonely Planet, livros de receitas, livros infantis - a biblioteca tinha tudo o que a gente podia imaginar. Então a cada cidadezinha da Australia que eu ficava algumas semanas, ja procurava pela biblioteca.

Na França é a mesma coisa. Além das universidades que têm um acervo gigantesco, Paris conta com dezenas de bibliotecas de bairro, que são muito uteis no cotidiano. Quem mora por aqui, recomendo fazer a carteirinha, é de graça! Com a carteirinha a gente pode pegar até 20 obras de qualquer biblioteca de Paris por 3 semanas renovaveis. Cada biblioteca também organiza programações diferentes, como encontros com autores e leitura de historias infantis para crianças.

Como frequentadora assidua da biblioteca Saint-Eloi, fui la hoje de manhã devolver uns quinhentos livros e pegar outros mil e dei de cara com uma ideia tão genial que fiquei embasbacada. Com a proximidade das férias, o pessoal teve a ideia de fazer o pacote surpresa: embrulharam conjutos de quatro ou cinco livros (e CDs) em papel-pardo e o leitor escolhe um embrulho sem saber quais livros tem ali dentro. Assim ele tem as férias inteiras pra ler aquela pequena seleção de leitura que fizeram pra ele. Não é o maximo?

Praticamente um natal fora de época
 
Eu fico boba com essas coisas! Uma ideia tão simples, que não custa nada, atrai a curiosidade de todos e ainda incentiva leitores a lerem obras que provavelmente eles não escolheriam por vontade propria. Tudo bem que você corre o risco de pegar coisas que não te interessam (se eu caisse com biografias ou classicos, ficaria irritada!), mas é so pegar uns livrinhos extras pra garantir.
 
E se as bibliotecas municipais ja garantem boas leituras, as pessoas com forte sentimento de posse também estão bem servidas. As livrarias francesas oferecem livros muito mais baratos que no Brasil. Tipo, coisa de 3 euros para um livro de bolso. Os lançamentos estão na faixa dos 20 euros. A diferença é que enquanto no Brasil livro parece ser artigo de luxo - capa dura, design artistico, folhas de 90g -, na França eles são mais modestos, raramente têm capa dura, muitas vezes nem têm desenho: é so o titulo, o nome do autor e pronto, fundo bege ou amarelo, nada de fotos ou ilustrações mirabolantes.
 
Comprar livros na França é um programa super gostoso. Além do preço totalmente viavel, as livrarias também atraem os leitores com um ambiente aconchegante e familiar. Poltronas fofas, espaço pras crianças, vendedores simpaticos, tudo isso faz parte. Mas o que realmente me conquista é a maneira que elas indicam os livros, dêem uma olhada:
 
 Notinhas escritas à mão com opiniões pessoais


Esses bilhetinhos passam uma impressão de que a livraria tem um interesse autêntico pelos livros, e não deseja apenas vender qualquer porcaria. Da pra perceber o carinho pelas letras, o habito permanente da leitura. Eh como se a propria livraria dissesse: "seu livro ideal esta aqui e nos vamos te ajudar a encontra-lo".

I ♥ livrarias francesas. E bibliotecas também!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Livro - Apocalypse Bébé


Virginie Despentes é uma figura que me intriga muito. Eh verdade que comecei com o maior tapa na cara que uma autora pode dar, que é Baise-moi, mas logo depois li Apocalypse Bébé, seu ultimo livro, e minha perplexidade em relação a ela continua. AB é de longe bem menos punk que Baise-moi, mas ainda assim me incomoda. O livro conta a historia de uma adolescente que desaparece e uma detetive particular (não muito motivada) que é contratada pra encontrar a menina.

Pra mim com certeza o ponto alto é a construção dos personagens. Eles são tão bem-feitos, tão logicos, tão redondinhos, que parece que a autora tem um pos-doc em psicologia. As historias são contadas pelo ponto de vista deles, e como quase todos os personagens têm voz, muitas vezes temos duas versões da mesma historia. Conseguimos simpatizar e solidarizar com ambas e vamos vendo como tudo se encaixa. Da gosto de ler paginas tão bem escritas.

Alguns elementos de Baise-moi estão presentes em AB, principalmente no que diz respeito ao sexo (nao na mesma intensidade). O mundo da Despentes é totalmente depravado e ela nos faz acreditar que tudo aquilo que ela relata é a vida real, nos é que somos conservadores demais. Seu estilo rapido e sem rodeios de escrever também esta presente, o que faz com que a gente leia o livro inteiro sem perceber que ja chegou ao fim. Como em Baise-moi, AB também traz um pedacinho do universo muçulmano, mas sem maior destaque. E as girias sao regra na escrita de Despentes, tive que parar a leitura muitas vezes pra procurar o significado de algumas delas.

Tenho algumas criticas também. Pra começar, não gostei do final. Achei facil demais, apesar de tirar o fôlego (longe de ser previsivel, alias). Mas é so minha opinião, a Dé, por exemplo, gostou. Outra coisa que me incomodou muito foram as passagens machistas, o que é muito curioso, ja que a Despentes é assumidamente feminista. E é interessante ler o livro tendo essa informação porque nossa reação muda completamente. Se o autor fosse um homem, eu bufaria na hora e acharia um absurdo ler tais coisas. Mas como é a Despentes, a feminista, eu lia e pensava que aquilo na verdade era uma critica à sociedade machista, que ela estava apenas denunciando o tratamento dado às mulheres e tal. Mas cara, ela fala coisas tão, mas tão sexistas, tão chocantes e toda hora, que cansa, sabe. Eu não quero ouvir pérolas machistas, nem que elas venham de uma feminista. Isso so serve pra manter as coisas como elas são.

Apocalypse Bébé era um dos favoritos para o ultimo Goncourt, maior prêmio da literatura francesa. O outro favorito era La carte et le territoire, que acabou levando. Li os dois e sinceramente acho que a Despentes merecia mais. Em todo caso, ela é uma promessa das letras por aqui e se continuar escrevendo com certeza leva o prêmio em breve.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Livro: Baise-moi


Comprei o livro da Virginie Despentes sem saber muito bem da grande polêmica sobre ele. Imaginei pelo titulo que fosse provocador e ja nas primeiras paginas vi que a autora tentava passar vulgaridade usando muitas, mas muitas girias pesadas. Mas não tinha ideia do que viria pela frente. Baise-moi em português significa... errr... "me fode". Se você é adepto da norma culta (enfim...) pode preferir "foda-me". Mas realmente acho que a primeira tradução combina melhor com o livro - fica até melhor que em francês com um erro de gramatica desses.

Eu definiria o livro como um Telma e Louise versão hard porn. Bem hard. E bem porn. Escrito por uma feminista. Eh o tipo de obra feita com a intenção de chocar e que é extremamente bem sucedida na sua proposta: choca. Não espere momentos de delicadeza, compaixão, reflexão, graça - eles certamente não virão. Baise-moi é uma historia violenta e crua, sem a menor intenção de poupar os leitores. As duas personagens principais são tão duras, que são poucos os momentos que simpatizamos com elas. Elas são frutos de um ambiente hostil e de uma sociedade falha, sem esperanças de virar o jogo por meios convencionais. São totalmente sem escrupulos e decidem se afundar de vez, não sem antes levar o maximo de pessoas com elas.

O grande mérito do livro é nos sensibilizar para a historia de amizade que nasce entre elas duas, porque se nos leitores não conseguimos nos identificar com elas, conseguimos perceber que as duas são feitas uma para a outra. O trecho do livro que melhor traduz essa amizade é mais ou menos assim (tradução minha):

"Quando elas riem é sempre igual e seus corpos muitas vezes se aproximam. Quando uma acende um cigarro, da um outro à sua comparsa, sem parar de fazer o que esta fazendo, naturalmente. Elas se interrompem o tempo todo, ou melhor, elas falam a duas bocas. Elas enchem sempre os dois copos, sem sequer notar. Elas usam as mesmas palavras, as mesmas expressões. Convivência quase tangivel. Elas parecem um animal de duas cabeças, sedutor afinal de contas. Fatima não consegue acreditar que elas se conhecem ha apenas uma semana. Ela não conseguiria lhes dissociar, imaginar uma sem a outra".
 
Uma outra faceta do livro é o espaço que a historia dedica ao sexo. As personagens são predadoras. Mas não aquele tipo de predadora que transa com um desconhecido e não liga no dia seguinte, a coisa é muito mais pesada que isso. A violência e o sexo são os elementos-chaves da historia inteira e eles são tão profundos que o resultado não é bonito de se ver. A narração incomoda. Com certeza tem um quê de vingança de gênero, quando por exemplo elas estão procurando um parceiro sexual e uma delas diz "eu prefiro que ele seja condescentente".
 
Baise-moi é uma historia feminina. As personagens principais não podem de forma alguma serem substituidas por homens. A historia fica na cabeça por dias. Não recomendado para almas sensiveis demais.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quadrinhos - Tintin au Congo



Ja fazia tempo que eu queria ler Tintin au Congo, pois esse HQ é versão belga do nosso "Caçadas de Pedrinho". A historia não é a mesma, mas o contexto racista é. Tintin au Congo foi publicado pela primeira vez em 1930 em preto e branco, e conta a aventura do reporter Tintim no pais colonizado pela Bélgica. O album é completamente anacrônico aos nossos dias, tanto no tratamento dado aos negros, quanto no tratamento dado aos animais. Além de todos os preconceitos expostos, achei a historia fraca, desinteressante e datada.


Pra começar, os desenhos dos personagens negros são muito pejorativos. Bocas enormes, expressão de inferioridade, vestindo geralmente trapos (nem sempre). O francês que eles falam vem escrito errado, para poder mostrar bem seu sotaque e sua gramatica ruim. Até os animais falam um francês mais correto que eles. Todos os africanos bons são completamente submissos a Tintin e todos os maus têm inveja dele.


Tintin trata os animais com crueldade. Nota zero para a conservação da natureza e o respeito com os seres vivos. So pra citar alguns exemplos:

1- Tintin mata mais de uma dezena de gazelas para comer apenas uma. Vai embora e deixa uma montanha de animais mortos atras de si.
2- Para recuperar sua arma roubada por um macaquinho, Tintin mata um outro macaco, tira a pele dele e se disfarça para se aproximar do primeiro.
3- Tintin quer caçar um rinoceronte, mas sua carapaça é tão dura que as balas não fazem efeito. Então ele sobre numa arvore, faz um buraco nas costas do animal com uma ferramenta, coloca uma dinamite la dentro e explode o rinoceronte. So sobram dois chifres e Tintin diz algo como "ops! Acho que exagerei".


Eh claro que temos que levar em consideração o contexto e a época que a obra foi escrita. Esse tipo de pensamento era a norma, Tintin é apenas o reflexo daquela sociedade. Entendo. O que eu não entendo é o que o album Tintin au Congo continua fazendo nas prateleiras das livrarias. Sério que é isso que queremos que nossas crianças leiam? Uma historia racista, num contexto colonial, que trata os negros como animais e animais como lixo? Essa HQ deveria sair do hall infanto-juvenil para entrar na area de sociologia ou historia. Porque sim, acredito que ela pode nos ajudar a compreender melhor o passado e tal, mas não deve nunca ser tratada como uma historia qualquer. Simplesmente não é mais uma historia para crianças. Uma pessoa de 7 anos não deveria nunca ler Tintin au Congo, porque mesmo que a gente explique e ela entenda que aquilo não existe mais, algum resto dessas informações descabidas vai ficar la no subconsciente. E se for uma criança negra então, imagina o sentimento de inferioridade que ela provavelmente vai sentir?


Um protesto interessante foi feito na internet. Um site publicou uma nova versão da HQ mantendo os dialogos, a historia e os desenhos - a unica diferença é que o personagem principal, Tintin, aparece peladão em todos as cenas. O nome do novo album adaptado é Tintin au Congo à Poil. Os desenhos ja foram tirados do site oficial, mas estão pipocando na internet. Tem gente que diz que não é protesto, apenas uma iniciativa artistica, mas ora, por que escolheriam uma obra tão polêmica senão como uma forma de levantar debate? Outras pessoas interpretam que deixar Tintin sem roupa  tira o peso do racismo pra mostrar que o esquisitão é ele, e não os negros.


Eu gosto da ideia. Quem sabe daqui a pouco não aparece por ai um Caçadas de Pedrinho Peladão?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quadrinhos - Poulet aux prunes



Sou a maior fã da Marjane Satrapi desde que li Persépolis, um dos meus BDs preferidos de todos os tempos. Ela praticamente pega na nossa mão e nos leva pra passear no Irã cada vez que abrimos um livro seu. Todo aquele universo muitas vezes incompreensivel e estranho é desvendado pelas palavras espirituosas e desenhos firmes de Satrapi. Aprendemos sem sentir, ja que a historia do seu pais é pano de fundo para suas obras. Ensinar sem esforço, pra mim, é o maior mérito que um autor pode ter. Em Broderies (Bordados), um livrinho que li em menos de uma hora, entendemos um pouco mais o cotidiano das mulheres iranianas. Elas conversam enquanto bordam e nos revelam um mundo de sutilidades - aquela velha historia de que o homem pensa que manda, mas que na verdade quem controla tudo são elas (tomara que um dia elas não precisem fingir mais). Mesmo o titulo da HQ tem duplo sentido, ja que bordado também é uma expressão pra designar a operação de revirginamento que muitas iranianas se submetem antes do casamento.

Essa semana, um dos livros que peguei na biblioteca publica foi Poulet aux Prunes (Frango com ameixas). Um pouco maior que Broderies, mas da pra ler tranquilamente em uma tarde, até porque a historia é tão interessante que a gente devora mesmo. O livro conta a vida e a morte de Nasser Ali Khan, um musico iraniano, parente distante de Satrapi. Em comparação às outras, essa obra é menos sobre o Irã e mais sobre a introspecção do individuo. O personagem é um artista e isso da a desculpa que a autora precisa pra criar uma atmosfera meio poética. A historia se passa em apenas sete dias, mas com muitos flashbacks para que a gente dê uma espiada na vida de Nasser Ali Kahn e compreenda suas decisões.

Entre a realidade, o fantastico e os devaneios do musico, nos sentimos completamente ligados à Nasser e torcemos por ele, mesmo ja conhecendo seu desfecho. Na verdade, apesar da Satrapi contar o final do livro logo no inicio, ela nos reserva uma outra surpresa, linda e emocionante, que da todo sentindo ao livro. Recomendo muito.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Livro - La carte et le territoire

Ao contrario do que pode parecer à primeira vista, La carte et le territoire (em português "o mapa e o territorio") nao é sobre geografia - longe disso. A obra conta a historia da vida de um artista bem sucedido, que começa sua carreira como fotografo e a termina como pintor. Esse livro rendeu a Michel Houellebecq o Goncourt, maior prêmio de literatura francesa. Parece que ele ja era um dos favoritos ha bastante tempo, mas nunca levava. Imagino que os outros livros dele sejam melhores, porque esse, na minha singela opiniao, nao vale o prêmio. Eh bem escrito, facil de ler, mas simples demais, sem emoçoes. Mas até entendo porque os franceses gostaram da obra: ela foi feita apenas para eles. Tem muitissimas referências a apresentadores de TV, artistas, personalidades conhecidas apenas no universo francês. Eu, morando aqui ha quase cinco anos consegui reconhecer apenas a metade das pessoas a quem ele fazia referências.

Outra coisa que me incomodou foi o machismo evidente que o autor carrega consigo. Toda vez que o gênero feminino aparecia na historia, era de forma grotesta com direito a todos os clichês sexistas disponiveis no mercado. A mulher precisa ser bela antes de tudo, tanto que aquela que conquista o coraçao do personagem principal é caracterizada como uma das cinco mulheres mais bonitas da França naquele momento. Ja a relaçoes publicas do artista, a responsavel pelo lançamento, tida como feia mas super competente, é tratada de forma grosseira e irônica. Quando ela passa a cuidar mais da aparência, sobe imediatamente no conceito do autor.

A historia em si nao é nada demais. Jed Martin alcança a fama quando realiza uma série de fotografias de trechos de mapas rodoviarios da Michelin, o que me parece uma tremenda forçaçao de barra. Mas tudo bem, às vezes a arte moderna é imprevisivel. Como pintor, um de seus quadros mais famosos é o retrato de Bill Gates e Steve Jobs conversando, vendido por um valor milionario. Também acho um pouco surrealista demais. O mais interessante no livro, e o que eu acho que conquistou a critica, é que Houellebecq aparece como personagem secundario importante, convidado por Jed para escrever um texto do seu catalogo de exposiçao. O autor se descreve de maneira nada virtuosa, mas quando fala de seus textos e livros nao consegue esconder certo orgulho e auto-admiraçao. Antes de ler o livro, tudo o que eu sabia dele era que Houellebecq é assassinado de forma brutal. Inclusive eu levei um baita susto ao ouvir um reporter na TV dizer assim: "Eh com grande pesar que anuncio que o escritor Michel Houellebecq, ganhador do prêmio Goncourt, foi assassinado em sua casa na manha desta terça-feira". Pulei da cadeira, imaginei o escândalo no mundo das letras francês! Inveja, rivalidade, assassinato! Mas logo depois me dei conta que essa foi a forma original que o jornalista encontrou pra falar sobre o livro. Fail total.

Houellebecq tenta ainda fazer umas previsoes completamente sem-noçao do futuro. Gente, em que mundo esse homem vive? Dizer que em 2030 a França sera um pais "essencialmente agricola", sem que nenhuma catastrofe sem precedentes aconteça, é ignorar completamente a sociedade na qual se vive. So por essa previsao sem cabimento eu ja arrancava o prêmio das maos dele.

Enfim, o que pude notar no livro é que Houellebecq é uma pessoa depressiva, sarcastica, pessimista, mal-humorada, machista, ou seja, tudo o que um escritor precisava ser em algum século passado. Sorte a nossa que os tempos sao outros.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

E se nos mostrassem o que não queremos ver?

Ontem à noite estava vendo um filme sobre a segunda guerra mundial e torci o nariz quando a câmera deu close em dois corpos mutilados jogados num canto. Eu sempre achei que mostrar cenas morbidas, de cadaveres dilacerados e tal era de extremo mal gosto e servia apenas para o prazer bizarro que certas pessoas têm de ver essas coisas. Tipo aquele video Faces da Morte, sabe? Que mostra gente morrendo na frente das câmeras. Sempre fugi dessas coisas e não entendo como ha publico para esse tipo de espetaculo. Eu sentia o mesmo em relação ao jornalismo. Trabalhei no jornal da TV Brasil (quando ainda era TVE) e parte do meu trabalho era olhar as imagens que recebiamos da Reuters. Ficava irritada com a quantidade de corpos em estado inimaginaveis, mesmo de crianças, que apareciam na minha frente. Achava que os jornalistas não deveriam nunca expôr essas imagens.

Mas...

Ha uns três anos li o livro do jornalista inglês Robert Fisk, A Grande Guerra pela Civilização. Para mim, Fisk é a referência sobre cobertura de guerra, o cara é brilhante. Ele trabalha no The Independent (que ja respeito pela sua posição independente), mora no Libano e cobriu diversos conflitos no Oriente Médio. Dai que ele defende a publicação de fotos e videos barbaros, com corpos dilacerados, com crianças mortas, com braços espalhados pelo chão. Justamente para mostrar que a guerra não se resume aos numeros, às estatisticas, às estratégias. Ele viu coisas tão terriveis que acha que se todos vissem o que ele viu, o mundo seria pacifista. A verdade é que ouvir "treze pessoas morreram e trinta ficaram feridas" entra por um ouvido e sai pelo outro, mas ver as treze pessoas mortas e as trinta feridas nos jogaria na cara a barbarie que esta acontecendo logo ali, enquanto estamos sentados confortavelmente em nossos sofas. Porque a guerra é muito diferente do que acontece nos filmes. Quando um cara é atingido, raramente acontece como na TV que a bala entra no peito, mancha um pouco a camisa e tchum, ele morre. A realidade é bem mais feia que isso e a guerra de verdade é inimaginavel pra mim ou pra você.

Quem sabe se formos confrontados com a realidade, não nos comovemos mais, não vemos mais claramente o absurdo da coisa e fazemos uma maior pressão para o fim dessas guerras. Se o Bush fosse obrigado a ver cada um dos corpos dos inocentes que ele matou, quem sabe ele não tomaria decisões mais sabias no Iraque? Porque é muito facil continuar quando se tira toda a humanidade do conflito, quando a morte de crianças se torna "efeito colateral", quando a dor se converte em estatisticas e quando o sofrimento se transforma em numeros.

Continuo dividida. Ao mesmo tempo que acho os argumentos dele muito validos, não gostaria de dar de cara com fotos chocantes cada vez que abrisse os jornais. Sera que precisamos mesmo de um estimulo visual para termos mais empatia com os povos que sofrem?

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Duas indicações culturais

Fico surpresa quantas pessoas entram no blog procurando por quadrinhos franceses. Parece que muita gente anda ligada nos BDs daqui, seja porque tem paixão por quadrinhos, seja porque quer aprender francês e essa é uma excelente forma de treinar. So tem um problema: recebo varios emails perguntando onde encontrar HQs francesas no Brasil e eu nunca sei responder. Mas o Lucas, um leitor fã de quadrinhos, me deu a dica da Livraria Francesa, que não tem quase nenhuma das minhas indicações, mas tem muitos outros. Quem souber de outros lugares que vendem HQs ou livros em francês no Brasil, por favor deixe aqui sua dica!

Outra indicação bacana veio da Helena. Ela descobriu um site que disponibiliza audio livros gratuitos em francês. Assim, quando estivermos no metrô, no ônibus, ou até dirigindo podemos nos dar ao luxo de ouvir os classicos, sem forçar ainda mais os olhos ja cansados de tanto computador o dia todo. Ta valendo também para aqueles que querem exercitar o francês. Eu vou começar pelo Le journal d'une femme de chambre, de Octave Mirbeau, que é o audo livro mais bem votado do site. Comecei a ouvir e achei a voz da mulher bem clara e ela ainda acrescenta sons externos de acordo com a narrativa. Parece uma boa ideia, se vocês aderirem, voltem para dar sua opinião.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia do armisticio e indicação de BD

Hoje é feriado de Armisticio na França, dia que marca o fim da primeira guerra mundial ou a Grande Guerra, como ficou conhecida na época (coitados, mal sabiam que ainda tinha mais vindo pela frente). Estar na França me deu mais consciência sobre as duas guerras mundiais, porque na escola quando eu as estudava parecia uma coisa muito distante, quase irreal. Acho que eu colocava a mitologia grega no mesmo patamar da historia mundial - acontecimentos tão surreais que eu não me identificava. Primeiro que tudo acontecia numa terra distante, que eu nem sonhava em pisar um dia. E depois porque o passado pra mim entrava tudo na mesma categoria: ido. Não importava muito se era na idade média ou ha 20 anos antes de eu nascer, era tudo velho. Não é à toa que eu sempre fui péssima para decorar datas historicas, errava facilmente de século e não tinha muita noção da sequencia dos acontecimentos (aqui jogo parcialmente a culpa nas escolas: como elas conseguem fazer um assunto interessante como historia ficar chato?).

Vir para a França me aproximou da historia mundial no tempo e no espaço. Eh so dar uma voltinha em qualquer bairro de Paris para rapidamente achar um monumento em homenagem aos herois das duas guerras mudiais. Em muitos prédios têm placas com inscrições do tipo "Homenagem à fulano de tal, morto pelas tropas nazistas em frente à esse prédio no dia tal". Eu sempre leio todas, fico pasma, olho em volta e penso como cada rua aqui tem historias pra contar. Eh estupido, eu sei, mas so me dei conta de como a segunda guerra mundial é recente ao ouvir pessoas me contando como era a vida sob a ocupação alemã. Tipo, aquela pessoa ali na minha frente viveu o nazismo! Ela é uma testemunha viva de uma das maiores catastrofes humanas! Poxa, a 2GM acabou apenas 10 anos antes dos meus pais nascerem! E o que são 10 anos? Nada! (acho que a gente so se da conta que 10 anos são nada quando fica um pouco mais velha, por isso não conseguia entender as coisas antes).

Hoje, infelizmente não existe mais nenhum soldado sobrevivente da 1GM na França. Quando cheguei ha 3 anos haviam apenas dois, mas morreram nesse tempo. O ultimo pediu que não fizessem nenhuma cerimonia especial, que ja estavam planejando, por respeito aos seus companheiros que morreram nas trincheiras e não tiveram a oportunidade de ter sequer um enterro. Essa guerra matou 13 milhões de pessoas, entre civis e militares. Eh muita gente. Eh muito triste.



Aproveito esse dia para indicar uma BD (historia em quadrinho) sobre a primeira guerra mundial- C'était la guerre des tranchées, de Jacques Tardi. Gostei muito porque não tem um personagem so, são varias historias de varios soldados, todas tragicas (o que não é tragico numa guerra?) uma mais tocante que a outra. A sorte - ou o azar - levou cada soldado pra uma situação diferente e eles fizeram seu melhor para sair dela da melhor forma possivel. Mérito para como o autor conseguiu passar a mensagem de que a guerra é uma guerra entre os grandes, que ficam atras de seus mapas tomando café, enquanto os pequenos se fodem no front. Soldados inimigos que em um contexto diferente poderiam ser melhores amigos. Gente simples que mata com remorso, sem saber porque esta matando, mas sentindo que tem alguma coisa de muito errada naquilo tudo.

O autor é filho de um militar e claramente pacifista. Ele critica a imbecilidade das guerras: "Apenas na França ha 930 hectares de cemitérios militares, boa terra pra beterraba, mas somente cruzes brotam à superficie! Se todos os mortos franceses desfilassem em filas de quatro no 14 de julho (comemoração da Revolução Francesa), seriam necessarios 6 dias e 5 noites antes do ultimo nos mostrar sua face livida".

Que tenham sempre flores frescas nos monumetos aos soldados.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Isaac, le pirate

Estou trabalhando de baba numa casa que tem uma estante magica. Na primeira vez que entrei na casa, os pais foram logo falando "fique à vontade, mexa em tudo, pegue livros, leia os HQs se tiver vontade, aqui desse lado tem os DVDs, use internet quando quiser". Nunca fui tão bem recebida! So faltou ela dizer "abre a geladeira e devore tudo que desejar, aqui nesse armario ficam os chocolates", mas ai seria querer demais, né? Quando fiquei sozinha fui dar uma espiada na tal da estante. Fui descobrindo varios livros que eu queria ler, depois varios filmes que estou ha séculos para assistir e o melhor de tudo: muitos, mas muitos BDs (quadrinhos franceses, ja falei sobre eles aqui).

Aquela estante é um sonho. Poderia passar minhas férias ali. Parece que foi feita especialmente para mim. Espero as crianças dormirem (e elas dormem mais de 2h por dia!) e vou direito pegar meu escolhido da vez.

O primeiro escolhido foi um BD que se chama Isaac, le pirate. Peguei assim totalmente por acaso, gostei do desenho e das cores, nada muito tumultuado, nem traços simples demais. Tinha todos os cinco volumes na prateleira. O quadrinho, que se passa no século 18, conta a historia de como um pintor sem dinheiro vai parar por acaso num barco de piratas para registrar, a pedido do capitão, as aventuras e descobertas deles. Isaac deixa pra tras Alice, sua namorada de infância, sempre na esperança de reencontra-la. A historia é viciante! Tudo é bem realista, mas sempre com um toque de humor. O autor consegue captar o humor que existe na essência humana, entende? Tipo a capa ai do lado: um bando de marmanjos brutos, cruéis e barbaros, se comportando como meninos diante de algo novo e delicado. Estão curiosos, olhando o desenho de Isaac. Morri de rir quando os piratas viram um pinguim pela primeira vez e se juntaram pra tirar sarro do andar do bicho, como umas crianças grandes. O interessante é que não é uma historia fantastica sobre piratas, suas aventuras extraordinarias e tal, mas uma historia perfeitamente possivel e muito humana. Nem sei como o autor entende tanto do assunto, porque tudo faz sentido. Detalhes que a gente nunca tinha pensando antes, são mostrados com simplicidade no BD.

So tem um pequeno problema: o autor ainda não terminou a série e descobri isso da pior maneira possivel. Estava no fim do quinto volume e comecei a me preocupar. Olhava as poucas paginas que faltavam pra terminar e pensava "ué, ele não vai conseguir fechar a historia em tão pouco tempo, o que sera que vai acontecer?" e a cada pagina virada, o fim ia ficando mais improvavel, até que  no finzinho li: "à suivre...". Merda! Fui procurar na internet e descobri que a série foi escrita de 2000 à 2005, ou seja, um por ano! E desde 2005 o autor não fez nada para diminuir angustia de Isaac. Vi gente propondo boicote - não comprem nenhum BD do autor enquanto ele não terminar Isaac! Vi também propostas de manifestações na Champs Elysée. Acho digno.

Ha rumores recentes de que a série vai virar filme e que o final so vai ser conhecido na animação. Parece que estão acertando tudo esse ano. De qualquer forma, o que vale mais não é saber como a historia termina, porque a aventura por si so ja vale a pena. Algo parecido com Lost, sabe? Que eu preferiria até que não tivesse tido fim, do que ter um fim mediocre daqueles.

Fica a dica!

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ainda a maternidade, segundo a Badinter

Voltando ao livro da Elisabeth Badinter, que acabou dando uma boa discussão no outro post, vou tentar explicar uma teoria interessante. Na verdade o livro é tão rico e com subtemas de assuntos tão variados, que daria pra fazer uns 50 posts diferentes sobre ele.

No ultimo capitulo, Badinter analisa o caso das francesas buscando no passado explicações para fenômenos atuais. A França tem hoje a segunda maior taxa de natalidade da Europa, perdendo apenas para a Irlanda, que não é adepta a uma politica de abortamento como a França (com 210 mil abortos anuais). A autora justifica essa alta fertilidade por causa da maneira de gerir a maternidade das francesas. Ao contrario de paises onde a presença da mãe tradicional é supervalorizada, como a Italia (mamma italiana), a Alemanha (mutter alemã) e o Japão (kembo japonesa), a França nunca fez muita pressão para uma maternidade perfeita.

"A sociedade do século 18 admitiu muito bem as babas e as amas-de-leite, assim como as sociedades dos séculos 20 e 21 acham legitimo o uso da mamadeira e a contratação de terceiros para tomar conta dos nenéns logo depois do nascimento. A creche e a escola maternal - invenção francesa - para as crianças de dois anos e meio, três anos são as provas do consentimento social a esse modelo materno a tempo parcial. Nem as mães, nem as sogras, nem mesmo os pais têm algo a reclamar. Esta subentendido que é a nova mãe que deve escolher seu modo de vida de acordo com seus interesses e os interesses da criança. Não existe qualquer pressão moral ou social para ser mãe em tempo integral, nem mesmo durante o primeiro ano do bebê. A sociedade francesa admitiu desde muito tempo que a mulher não é a unica responsavel pela criança"

Segundo Elisabeth Badinter, essa liberdade de criar os filhos como quiser é um dos fatores mais importantes na alta taxa de natalidade francesa. Logico que a politica financeira de incentivo à natalidade também é importante, mas não é definitiva. Por exemplo, as francesas são as pareas da amamentação: apenas metade delas amamentam na saida da maternidade; em três ou quatro meses esse numero baixa para 17% e nos seis meses de vida do bebê elas são apenas 11% a aleitar. Por outro lado a Austria, a Alemanha, a Italia, o Portugal, por exemplo, têm indices muito mais altos de amamentação, assim como da adoção da maternidade em tempo integral, em compensação, têm os indices mais baixos de natalidade do mundo.

Quanto mais a sociedade pressiona as mulheres a serem mães perfeitas e a se dedicarem de corpo e alma à tarefa de ser mãe, mais elas debandam da maternidade, com medo de toda a pressão social que vão sofrer. "Quanto mais leve é o peso das responsabilidades maternas, quanto mais respeitarmos as escolhas da mãe e da mulher, mais elas serão inclinadas a tentar a experiência, mesmo de repeti-la".

O mesmo fenômeno esta acontecendo no Brasil, que ja tem uma taxa de natalidade menor do que a francesa. Ja ouvi muitas mães brasileiras reclamando das pressões sociais sobre os cuidados dos bebê. Acho que esse jeito despachado do brasileiro é um fator muito negativo para as gravidas e novas mamães, porque todos se acham no direito de dar conselhos, de contar sua experiência como se fosse regra a ser seguida, de achar que podem por a mão na barriga sem a menor cerimônia e de julgar, caso a mãe não esteja fazendo o que a pessoa considera o certo. Sempre tem alguém para reclamar. Se a mãe trabalha fora, vão reclamar que ela é omissa, se deixa tudo pra ficar em casa, vão reclamar que é submissa, dependendo do ambiente social de cada pessoa.

Não é à toa que muitas mulheres estão abdicando da ideia de procriar ou então adiam o maximo possivel. Ter um filho têm se tornado uma tarefa tão dificil, tão estressante, tão exclusiva que quem não sente que tem o "dom de ser mãe" ou não consegue se ver realizada 100% na maternidade, prefere nao arriscar. Quem não tem paciência para fazer papinhas de legumes sempre frescos, de tentar as fraldas lavaveis, de gastar todo o seu dinheiro com o bebê, de frequentar cursos pré-partos ou de amamentar, coisas imprencindiveis para ser uma boa mãe, segundo essa nova onda de maternidade naturalista, muitas vezes prefere abrir mão de ter filhos a enfrentar a ira da sociedade. No melhor dos casos, decide ter um filho so.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mães indignas

"Ironia da historia: no momento em que as mulheres ocidentais conseguem se livrar do patriacardo, elas encontram um novo chefe em casa"
Acho que esta é frase que melhor resume o novo livro da feminista francesa Elisabeth Badinter, Le conflit - la femme et la mère (O conflito - a mulher e a mãe). Fraldas lavaveis, amamentação obrigatoria, parto com dor, co-sleeping, volta ao lar, são alguns dos alvos de Badinter. Segundo ela, a "maternidade naturalista", que vem ganhando força na França (e no mundo) nos ultimos anos, é a mais nova forma de opressão às mulheres.

O livro vem sendo alvo de muitas criticas, inclusive de outras feministas que dizem que Badinter esta lutando contra a guerra errada. Como trabalhei durante dois anos como baba aqui na França, pude observar muitas familias de perto e como cada uma lidava com essas questões. Tive a sorte de pegar mães e pais muito gente boa em quase todos os casos e geralmente os pais participavam do cotidiano dos bebês tanto quanto as mães. Em todas as vezes as mães trabalhavam fora e alimentavam seus bebês com leite de latinha, exceto uma, que tirava o leite no trabalho e guardava na geladeira. Os pais davam banho, alimentavam, colocavam pra dormir e dividiam as tarefas domesticas com as mães. Elisabeth Badinter diz que essa igualdade entre o pai e mãe foi conquistada justamente por causa da mamadeira e dos outros avanços da modernidade e que o retorno à maternidade naturalista é um retrocesso na maneira de cuidar do bebê, que o priva do contato com o pai e sobrecarrega a mãe.

Essa nova corrente de feminismo coloca a mulher acima dos homens, dizendo que a feminilidade é uma virtude enorme cuja maternidade é o centro. Somente a mãe sabe das necessidade do bebê, somente a mãe pode dar tudo o que o bebê precisa e o pai deve apenas apoiar a mãe na sua nova função. No livro de Edwige Antier, Confidences de parents, citado na obra de Badinter, diz que o dever do pai depois do nascimento do neném é "reintroduzir a mãe na sua feminilidade (?!), oferecê-la um buquê de flores (?!), tomar conta do bebê para que a jovem mamãe va ao salão de beleza (?!) e dizê-la o quanto ela esta bela (?!)". Alguns detalhes modernos foram acrescentados às ideias conservadoras, como por exemplo, o pai deve assumir todas as tarefas domesticas, para deixar a mãe cuidar do bebê em tempo integral, mas a essência ainda é profundamente tradicional. Alguns livros incentivam às mulheres a ficar com seus bebês 24h por dia durante os três primeiros anos de vida do neném e as estimula a dar de mamar de acordo com a demanda da criança, nada de horarios impostos. Quanto mais mamadas de madrugada, melhor. Bom, quem tem que ficar a disposição de um bebê dessa forma, pode dizer adeus ao emprego, ao lazer e à vida social e conjugal. Alguns depoimentos de mães dizem que elas se sentem devoradas pelos bebês, que elas se sentem uma refeição ambulante, quase como escravas. Amamentar deve ser um prazer, não um sacrificio. E cada vez menos as mulheres têm a chance de escolher, no Brasil ainda mais que na França. Não amamentar por opção é sinônimo de egoismo maternal.

Vender essa ideias como um direito, foi bastante eficaz no processo de volta ao lar das mulheres de paises desenvolvidos (e incluo ai a elite brasileira). Sob o argumento de uma função muito mais importante do que o trabalho, que somente as mulheres têm capacidade suficiente para fazer, elas abriram mão dos poucos direitos conquistados pelas suas mães. Acho que qualquer tipo de diferenciação entre os sexos é uma porta aberta à deterioração das mulheres. Dizer que a mãe cuida melhor do bebê que o pai, é dar mais uma tarefa exclusiva à mulher, é incentivar a desigualdade, é colaborar com as diferenças salariais. "Esse tipo de maternalismo ainda não gerou o matriarcado nem a igualdade dos sexos, mas sim uma regressão da condição feminina. Regressão consentida em nome do amor à sua criança, do sonho da criança perfeita e de uma escolha moralmente superior. Fatores bem mais eficientes do que pressões exteriores. Todo mundo sabe: nada se compara à servidão voluntaria!".

Aproveito para indicar um blog francês que descobri ha um tempo e que ja me rendeu boas risadas. Ele se chama Mauvaises Mères (algo como Péssimas Mães) e vai justamente contra essa corrente de "eu não dou potinhos prontos para meu bebê", mas super bem humorado.


*** Respondendo às críticas: dizer que o bebê precisa exclusivamente da mãe e que ninguém mais pode cumprir esse papel obriga a mulher a ficar em casa, e se ela não fizer, vai trabalhar cheia de culpa. Isso não é bem dar liberdade de escolha, né? Pela minha experiência, o bebê se apega a quem cuida dele e passa mais tempo com ele, seja la quem for. Entendo que as mães queiram aproveitar esses momentos, que são maravilhosos, mas ela deve saber que seu bebê não ficara infeliz sem ela ou tera qualquer problema de desenvolvimento se ela não estiver presente o tempo todo, como pregam os "aiatolas da maternidade". Por que o pai também não pode cumprir essa função?

O livro da Elisabeth Badinter é muitissimo complexo e não pode ser simplificado em "ela é contra as mães que largam seus empregos". Se meu texto deu essa impressão, ela é falsa. Mas comentem, mesmo se vocês discordem completamente, vamos enriquecer o debate!

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Liberdade é poder ler dois livros em 30h

A coisa mais positiva em acabar de escrever uma dissertação que levou mais de um ano pra ficar pronta é o retorno da liberdade de desfrutar do tempo como bem desejar. E o mais importante, sem culpa. Porque eu não vou mentir dizendo que passei um ano inteiro dedicada exclusivamente a isso (deveria, afinal a tarefa foi dificil: escrever 100 paginas sobre um assunto so, nos seus menores detalhes, em francês). Quando não trabalhava de baba, às vezes em vez de estudar eu tirava alguns dias de folga, mas sempre me sentia culpada. Era um prazer com culpa, como quando eu devoro uma barra de chocolate inteira. Sem falar nas inumeras vezes em que eu tirava o dia pra escrever e não conseguia rascunhar uma linha util que fosse e acabava perdendo o dia - nem estudava, nem me divertia. Desprazer com culpa, o pior tipo.

Dai essa semana, com o fim do estagio, uma mãe pediu pra eu tomar conta de um bebê, so durante 4 dias e eu aceitei, claro. Alias, não consigo recusar trabalho nunca, deve ser patologico. Fato inédito na minha carreira de baba: tomar conta de um bebezinho so, que moleza! Dai nas varias horas que ele dormia eu fiquei mortalmente entediada e fui procurar um livro na estante. Achei uma autora que ja tinha visto no Grand Journal, Amélie Nothomb, e tudo que eu lembrava era que ela disse que gastava todo seu dinheiro com champagne. Gostei do jeito irreverente, peguei o livro pra ler. Le fait du prince, livro legal, facil de ler, simples, intrigante. Esperava mais, mas achei que deveria dar outra chance à Nothomb.

Peguei Métaphysique des tubes e ja na primeira pagina senti que estava diante de algo especial. O livro é simplesmente FANTASTICO. Ele entrou na minha escala pessoal do lado de Cem anos de solidão, e olha, é a mais alta patente! O mais incrivel de tudo é o assunto da obra: uma autobiografia da autora de quando ela tinha de 0 à 3 anos.

Ainda estou sob estado de choque, gostei demais das ideias, do jeito dela de contar historias, do humor, da verdade simples das suas palavras. O que me anima ainda mais é que ela ganhou alguns prêmios literarios, mas nenhum com Métaphysique, o que significa que provavelmente os outros são ainda mais brilhantes! Alguns livros foram traduzidos pro português, apesar de pouco conhecidos. Recomendo muito: leiam. Quem fala francês e esta na França, é obrigatoria uma leitura de Métaphysique, heim? Depois me falem o que acharam.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

BDs - Quadrinhos franceses

Uma das coisas que adoro na França são as revistas em quadrinhos, que aqui eles chamam de BD (bande dessinée). Quando criança, eu era viciada na Turma da Mônica, esperava ansiosamente minha assinatura de 15 em 15 dias. Aprendi a ler com elas. Alias, o cheri também aprendeu português com elas, especialmente com o Chico Bento, deve ser por isso que ele tem um sotaque meio caipira (mentira!). So que além da turma do Mauricio e da Disney, da invasão de mangas e umas revistas de super-herois e tal, não sobra muita coisa de BD no Brasil. Se eu estiver errada, me corrijam.

Aqui os quadrinhos ocupam boa parte das livrarias e a variedade é inacreditavel! Tem pra todos os gostos: humor, infantil, biografia, drama, terror, love story, erotico, ação, Historia… Até vi uma parodia que achei de muito mal gosto: Câncer and the City. So pra vocês verem que tem de tudo mesmo. Também li um que falava de pedofilia. Geralmente eles vem em capa dura e custam 10 euros, o que acho caro, se comparado ao preço dos livros. Eu pego muitos na biblioteca municipal, que é de graça.

O ultimo que li foi ‘Isnougoud’, que é a historia de um vizir que quer ser califa no lugar do califa (eles usam essa frase toda hora "être calife à la place du calife"). Eh bem engraçadinho. Descobri essa semana que tem um desenho animado também. Outro que li foi L’age d’or (a idade de ouro), que é sobre uma velhinha e seus amigos. Algo do tipo, Urbano, o aposentado. O proximo que quero comprar se chama Le goût du chlore (o gosto do cloro), que é sobre os encontros na piscina de uma ex-campeã de natação e um cara que nada por recomendações médicas.

Tenho dois grandes preferidos. O primeiro é Le retour à la terre (O retorno à terra), que é sobre um casal que sai da cidade pra se instalar no campo. Eh hilario! Esse vale muito a pena! Se você esta na França, compre. Tem 4 volumes, so li 3. E o outro é Persepolis, o BD que deu origem ao filme, que também é muito bom. Eu ri, chorei, aprendi, me choquei, me revoltei, tudo com esse livrinho. Ele conta a historia em primeira pessoa de uma menina iraniana através de todas as mudanças de seu pais e depois o peso de ser iraniana na Europa. Na verdade é uma autobiografia. Tem no Brasil tambem, traduzido ainda por cima.

BDs são uma otima forma de estudar francês, porque você acaba entendendo as palavras que não sabe pelo contexto e pelas figuras, nem precisa olhar no dicionario.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...