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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Livro - Apocalypse Bébé


Virginie Despentes é uma figura que me intriga muito. Eh verdade que comecei com o maior tapa na cara que uma autora pode dar, que é Baise-moi, mas logo depois li Apocalypse Bébé, seu ultimo livro, e minha perplexidade em relação a ela continua. AB é de longe bem menos punk que Baise-moi, mas ainda assim me incomoda. O livro conta a historia de uma adolescente que desaparece e uma detetive particular (não muito motivada) que é contratada pra encontrar a menina.

Pra mim com certeza o ponto alto é a construção dos personagens. Eles são tão bem-feitos, tão logicos, tão redondinhos, que parece que a autora tem um pos-doc em psicologia. As historias são contadas pelo ponto de vista deles, e como quase todos os personagens têm voz, muitas vezes temos duas versões da mesma historia. Conseguimos simpatizar e solidarizar com ambas e vamos vendo como tudo se encaixa. Da gosto de ler paginas tão bem escritas.

Alguns elementos de Baise-moi estão presentes em AB, principalmente no que diz respeito ao sexo (nao na mesma intensidade). O mundo da Despentes é totalmente depravado e ela nos faz acreditar que tudo aquilo que ela relata é a vida real, nos é que somos conservadores demais. Seu estilo rapido e sem rodeios de escrever também esta presente, o que faz com que a gente leia o livro inteiro sem perceber que ja chegou ao fim. Como em Baise-moi, AB também traz um pedacinho do universo muçulmano, mas sem maior destaque. E as girias sao regra na escrita de Despentes, tive que parar a leitura muitas vezes pra procurar o significado de algumas delas.

Tenho algumas criticas também. Pra começar, não gostei do final. Achei facil demais, apesar de tirar o fôlego (longe de ser previsivel, alias). Mas é so minha opinião, a Dé, por exemplo, gostou. Outra coisa que me incomodou muito foram as passagens machistas, o que é muito curioso, ja que a Despentes é assumidamente feminista. E é interessante ler o livro tendo essa informação porque nossa reação muda completamente. Se o autor fosse um homem, eu bufaria na hora e acharia um absurdo ler tais coisas. Mas como é a Despentes, a feminista, eu lia e pensava que aquilo na verdade era uma critica à sociedade machista, que ela estava apenas denunciando o tratamento dado às mulheres e tal. Mas cara, ela fala coisas tão, mas tão sexistas, tão chocantes e toda hora, que cansa, sabe. Eu não quero ouvir pérolas machistas, nem que elas venham de uma feminista. Isso so serve pra manter as coisas como elas são.

Apocalypse Bébé era um dos favoritos para o ultimo Goncourt, maior prêmio da literatura francesa. O outro favorito era La carte et le territoire, que acabou levando. Li os dois e sinceramente acho que a Despentes merecia mais. Em todo caso, ela é uma promessa das letras por aqui e se continuar escrevendo com certeza leva o prêmio em breve.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Pequenas reflexões sobre o feminismo

Quem acompanha o blog ha um tempinho sabe que eu sou assumidamente feminista. Sempre fui, desde criancinha, apesar de não saber um nome para o que eu sentia. E embora eu sempre tenha me sentido assim, cai muitas vezes nas armadilhas anti-feministas quando era mais nova: ja achei que feministas eram bigodudas mal-amadas, ja achei de verdade que era minha obrigação de mulher usar salto alto e fazer as unhas (o que so me deixava frustrada, porque eu detestava fazer essas coisas), ja soltei pérolas como "não sou feminista, sou feminina", so porque achei a frase um pequeno ato de rebeldia.

Impressionante como a sociedade me fez desviar tanto de um movimento que claramente sempre foi o meu. Quando você é adolescente, você quer apenas agradar todo mundo, ser aceita. E nada mais "cool" que renegar movimentos politicamente corretos, não é? Eh uma tatica muito eficaz, ridicularizar coisas importantes. So que ai uma coisa acontece: a gente cresce. A opinião do outro deixa de pesar tanto e então nos damos a chance de ser um pouquinho menos "cool" e mais espertos.

Hoje eu sou feminista. Faço meu trabalho de formiguinha como todas nos, mas não ouso ir além disso, no sentido de estudar teorias do feminismo e tal. Respeito muito todos que se dedicam a isso, mas não quero que o feminismo tome conta da minha vida. Eh uma luta muito ingrata e eu sofro muito com as injustiças. Acho que a igualdade é resultado de uma evolução muito lenta, feita ao longo de gerações, quase naturalmente. Sim, algumas brigas precisam ser compradas, especialmente no que diz respeito às leis, mas acho que as juizas, médicas e presidentas fazem tanto ou mais pelo feminismo mesmo sem levantar a bandeira, do que as feministas acadêmicas.

Acontece que apesar de feminista, eu não gosto do termo feminista e acho realmente que deveriamos encontrar outra palavra pra nos definir. Primeiro porque esta um pouco ultrapassado. Feminismo lembra o século passado, outras lutas, outro perfil. Sera que não ta na hora de se modernizar? Depois, porque o termo é passivel de erros - muita gente boa acha que feminismo é a versão feminina do machismo. Piadinhas sobre homens, homem-objeto, superioridade da mulher, HTP, comercial da Bom-Bril: tudo isso é feminismo para o senso-comum. E adivinha so: não é. Mas não é por maldade não, as pessoas simplesmente acumulam informações que a sociedade passa pra elas. So que, como a gente sabe, a sociedade é machista e não tem o menor interesse em esclarecer as coisas. Então temos ai um problema estratégico.

Sim, a gente tenta explicar pra todo mundo o que é feminismo. Gastamos um tempão lecionando nossos amigos que podemos ser feminista e largar o emprego pra tomar conta dos filhos; que podemos gostar de moda; que não odiamos os homens. Mas e ai? A maioria das pessoas simplesmente não liga. Não faz parte da realidade delas. Whatever. A maioria não tem o menor interesse em aprender o que é feminismo. Então não da pra ficar batendo na mesma tecla.

Eh natural que elas achem que feminismo e machismo são equivalentes, afinal de contas, as palavras são gramaticalmente equivalentes. E então nos nos desdobramos mais uma vez pra explicar todo o abismo que existe entre os dois termos. Colocamos o feminismo no pedestal e rebaixamos o machismo como o grande vilão da humanidade (e não é?). Mas ca pra nos, sera que não soa um tantinho arrogante tratar o termo feminino como positivo e o mesmo termo masculino como negativo? Não é o melhor exemplo de igualdade que gostariamos de passar. Tudo bem que existe milhares de casos assim na nossa lingua, sempre em desvantagem para as mulheres (aventureiro e aventureira, por exemplo), mas deveriamos dar um bom exemplo para não dar margem à contradições.

Quando eu estava lendo as criticas do livro Baise-moi na internet, descobri que tem também um filme (dizem que é um sick-movie, realmente perturbador) cuja diretora se define não como feminista, mas como antisexista. Fiquei pensando nesse termo por dias. Ele diz muito mais para o senso-comum que o feminismo e acho que nos define melhor atualmente. A nossa luta de agora não é mais pela antecipação feminina, isso ja aconteceu. Nossa luta é pela total igualdade. Lutamos agora tanto pelo direito de sairmos às ruas sem sermos importunadas, tanto quanto lutamos contra a pressão social sobre os meninos que diz que ele tem que importunar meninas na rua para ser homem. Lutamos pelo direito das meninas demostrarem agressividade tanto quanto lutamos pelo direito dos meninos se mostrarem sensiveis.

A verdade é que não lutamos mais apenas pelos direitos das mulheres, mas dos homens também. Então porque continuar insistindo em um termo que repele simpatizantes e não nos define mais como movimento?

sexta-feira, 15 de abril de 2011

A liberdade zombando da igualdade e da fraternidade

Somos obrigados a ter uma opinião sobre tudo, principalmente sobre os assuntos polêmicos. Contra ou favor ao desarmamento? Contra ou a favor à pena de morte? Eu geralmente tenho uma opinião sobre tudo e adoro dar meus palpites. Mas tem certos assuntos que quanto mais eu me informo, mais indecisa eu fico. Por exemplo, até agora eu não sei dizer se acho a intervenção do ocidente na Libia uma coisa boa. Ao mesmo tempo que eu quero muito que aquele palhaço do Kadafi saia de la, eu sei que uma invasão dessas é super perigosa pra população.

O outro assunto do momento que eu definitivamente não consigo formar uma opinião é a proibição da burca na França. Ja falei muito sobre o assunto aqui, e aqui, e até agora não tenho uma posição. Se por um lado proibir uma pessoa de se vestir como ela quer é uma afronta à liberdade pessoal, por outro lado temos que levar em consideração o contexto de opressão das mulheres de burca. Essa é uma velha batalha das feministas francesas. Eu queria muito que as mulheres que usam burca percebessem que elas não são resistentes ou provocadoras, como gostam de pensar. Elas não levantam um debate util. Queria que elas entendessem que jogam anos de luta feminista no lixo, que assumem que são seres inferiores, que se subordinam aos homens. Usar burca não é rebeldia: é burrice. Se é uma escolha completamente pessoal, por que não tem homens que usam a burca? E o pior: se é uma escolha de cada mulher, por que são os homens que organizam protestos contra a lei e ameaçam com ataques terroristas se o governo não voltar atras?


Até hoje eu so vi duas burcas na França, as duas em Saint-Denis, suburbio norte de Paris com grande concentração de muçulmanos. Da ultima vez o vulto preto estava atravessando a rua com um carrinho de bebê e eu, que estava no ponto de ônibus, fiquei olhando pra tentar observar melhor. Levantei de onde eu estava e fiquei encarando mesmo, até porque eu não sabia se ela tinha me visto ou não. Achei estranho que ela parou de repente e ficou imovel. Depois colocou a mão na cintura (acho) e continuou parada. E eu olhando tentando entender o que tava acontecendo. Dai ela retomou o passo e foi embora. So alguns minutos depois é que me veio na cabeça que ela poderia estar me encarando, do tipo "ta olhando o que minha filha?". E eu senti muita pena dela. Porque ela nem foi capaz de demonstrar seu descontetamento com meu olhar fixo, ela sequer pôde protestar contra a minha insistência. Quer dizer, acho que ela até tentou, mas eu não fazia ideia se ela tava olhando pra mim ou pro céu, se ela estava fazendo cara de brava ou não, se a postura dela era de alguém que se sentia agredida ou agressiva. Uma forma de protesto não muito eficaz, convenhamos.

A questão é: sera que uma lei é a melhor forma de combater a burca? Com certeza é a solução mais pratica, não veremos mais vultos pretos andando por ai e assustando as criancinhas, mas a mentalidade continua la. Acho que é a mesma coisa de bater nos filhos pra educar - vai funcionar superficialmente, mas a lição que fica é que ele pode fazer merda se os pais não estiverem olhando. Ja com a conversa, a criança entende porque não deve fazer merda e não vai fazer mesmo se os pais não estiverem por perto.


Os defensores da burca sabem jogar com as armas que o ocidente fornece. Eles não perdem tempo em bradar aos quatro ventos aquele discurso de que não podemos dizer às mulheres o que elas devem vestir, mas são os primeiros a ditar o que elas não devem vestir e fazer e dizer e agir e comprar e comer e pensar. Eles debocham da cara dos humanistas que defendem a liberdade de escolha, cobram coerência, jogam na cara as contradições. E são argumentos dificeis de rebater, porque a linha é tênue e tudo o que você diz pode ser usado contra você. Como se a liberdade tivesse se tornado de repente a bandeira mais preciosa do Islã.

Apenas em casos especificos previamente determinados pelos homens, é claro.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ainda sobre o islamismo na França

Sobre o meu post anterior e seus comentarios, não devemos confundir imigração com o aumento do islamismo na França. Apesar de os dois estarem de certa forma relacionados, são completamente diferentes. Vocês não vão me ouvir nunca falar mal de imigração, até porque eu acho o fim da picada imigrantes falarem mal de imigração. Acho sim, que a França, assim como todos os colonizadores, vacilaram muito com os paises subdesenvolvidos e eles deveriam ter todo o direito de vir pra Europa recuperar o que foi tirado deles. Em vez de reclamar do fluxo migratorio ilegal, os paises desenvolvidos deveriam ser obrigados a ajudar o desenvolvimento dos paises pobres, assim ninguém mais iria querer vir. Acho essa coisa de preservar a pureza dos franceses ou de qualquer outro "povo" uma tremenda besteira, eu queria mesmo era que todo mundo se misturasse de vez pra acabar com qualquer tipo de racismo.

O negocio é que não são apenas os imigrantes que estão trazendo o Islã pra Europa. Como eu ja disse, os imigrantes da geração passada chegaram na França com o desejo de ter uma vida melhor, então eles não estavam preocupados em rezar cinco vezes por dias ou em saber qual direção exatamente ficava Meca, eles estavam ocupados trabalhando, ganhando seu dinheirinho, não tinham tempo a perder e foram se desligando da religião. Mas dai que seus filhos e netos, que apesar de não serem mais magrebinos, viraram alvo de preconceito na França: não conseguem emprego por causa do sobrenome, são acusados de gentalha pelo governo francês, etc etc, então eles fazem o que ha de mais humano - se mostram exageradamente orgulhosos de suas raizes. E se usar veu incomoda esses franceses estupidos, vamos la comprar um veu bem bonito. Quem sabe eu não faria a mesma coisa?

E tem a conversão de alguns franceses ao islã. Não chega a ser um fenômeno, mas existe. Eu conheço uma francesa de 20 anos que passou a usar o veu por causa do namorado. Então o assunto não é imigração, mas o aumento da religião muçulmana na França.

Como disse o José Fernando, cujo comentario alias, foi melhor que meu post, o problema é o fundamentalismo religioso, seja ele islâmico, catolico, evangélico, budista. Talvez eu não tenha sido clara no ultipo post, ja que não usei palavras como radical ou fundamentalista, mas é que eu acho que toda religião pura é radical e fundamentalista. O catolico de verdade é tão radical quanto o muçulmano, a diferença é que quase não existe mais catolicos de verdade nos paises ocidentais. As pessoas se dizem catolicas por convenção, mas ninguém deixa de ir à praia domingo pra ir à missa. Agora, os muçulmanos são diferentes, eles realmente seguem a religião, eles não comem porco, eles fazem o Ramadã e ficam 40 dias sem comer durante o dia! A gente não come carne na semana santa e ja acha que esta fazendo um grande sacrificio.

Acho sim, que quando religião toma espaço demais na vida publica é um retrocesso no desenvolvimento humano. Sobre religião e mulheres, ja falei no texto "Quando deus é o chefe do homem e o homem é o chefe da mulher" (acho que esse foi o post mais popular do blog, inclusive uns retardatarios islâmicos que descobriram o texto meses depois dele ser publicado e se manisfestaram com toda a educação e o respeito que as religiões ensinam #ironia). Então me preocupa essa onda de conservadorismo, como disse a Aline nos comentarios, que nesse momento esta vindo na forma de islamismo. Meu problema não é com o islã, nunca vou dizer que os muçulmanos são o problema da França. O problema é o retrocesso, que seria exatamente o mesmo se todos os franceses decidissem voltar às suas raizes catolicas. Seria resgatar o espirito francês? Não, seria simplesmente um retrocesso tão grave quanto o que estamos discutindo agora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A invasão islâmica na França

Antes de vir pra França eu era muito interessada no mundo arabe. Queria aprender a lingua, estudar mais a politica desses paises, tentar entender mais a religião muçulmana. Achava que os rebeldes islâmicos eram incompreendidos, que o ocidente esmagava sua cultura, seu povo. Até minha monografia de conclusão de curso foi sobre o Hamas. Dai duas coisas importantes aconteceram: passei a ter mais contato com o feminismo e vim pra Paris.

Então, do ponto de vista feminista, é impossivel defender a religião muçulmana. Defesa da igualdade dos gêneros e islamismo definitivamente não andam juntos. Que fique claro que acho que todas as religiões oprimem as mulheres, mas hoje eu quero falar apenas da islâmica. No inicio eu até engoli aquela velha historia de que na verdade os muçulmanos respeitam tanto a mulher, que as protegem com véus, burcas e paredes. Eles valorizam tanto a mulher, que seria um absurdo elas terem que trabalhar fora. Eles acham que as mulheres são tão melhores que os homens, que so elas sabem como cuidar de bebês e tomar conta da casa de maneira digna. Poxa, esse truque deve ser mais velho que Maomé! 

Depois, morando em Paris, fui tendo muito mais contato com os arabes. Conheci muita gente bacana, como a familia de um dos bebês que tomei conta: por parte de pai, os avos eram argelinos muçulmanos e por parte de mãe, eles eram argelinos judeus. Mas nenhum deles era praticante. O chéri tem um tio argelino, muçulmano de origem, mas também não praticante, que é comunista e super gente boa. Mas eu também comecei a perceber que toda vez que um cara falava grosserias na rua quando uma menina passava, ele era arabe. Comecei a me indignar com os diversos casos de poligamia, de humilhação feminina e de violência doméstica praticados pelos muçulmanos. Quem mora em Paris sabe que tem muito arabe morando aqui. Tipo, muito muito. E tem todo um movimento sociologico, que resumindo bem, chega a conclusão que os primeiros imigrantes meio que abandonaram a religião ao chegar na França, ocupados em ganhar a vida, mas seus descendentes, que eram (e continuam sendo) excluidos pela sociedade acabaram abraçando o islâmismo ja esquecido por seus pais, como para ter uma identidade propria. E assim, a religião muçulmana cresce muitissimo no pais. E com ela, as praticas altamente patriarcais (mais ainda do que as nossas).

Tudo indica que a progressão do islamismo na França sera um assunto muito presente da pauta das eleições presidenciais francesas no ano que vem, talvez tomando até o lugar do debate sobre a imigração. A extrema-direita, representada por Marine Le Pen, não tem papas na lingua e critica abertamente a "invasão" do islã. A direita, representada pelo proprio presidente Sarkozy, ja demonstrou concretamente que também não é favoravel à tolerância islâmica. A esquerda? Bom, a esquerda tenta se calar ao maximo, porque sabe que esse é um assunto muito espinhoso e mesmo os franceses mais liberais tendem a ser contra a progressão do islã na Europa. A revista L'Express publicou uma reportagem sobre o assunto dizendo que 76% da classe média (média de verdade, não como no Brasil) acha que o islamismo progride demais no pais, segundo sondagem do Ifop. Outra pesquisa, feita pelo jornal Le Monde, confirma que 42% dos franceses pensam que a presença de uma comunidade muçulmana na França constitui uma ameaça para o pais. Mesmo entre a esquerda essa corrente é concreta. Em 20 anos, a porcentagem dos franceses contra o uso do véu religioso na rua aumentou 28 pontos (o véu, assim como qualquer simbolo religioso como cruzes e quipas, são proibidos em predios publicos como escolas e hospitais, mas não na rua).

Ano passado o governo tentou forçar um debate sobre identidade nacional que não colou muito. Mas no fundo, acho que a coisa é essa mesmo, um debate sobre identidade nacional. Ninguém sabe muito bem definir o que é ser francês: os mais tradicionais podem falar da guerra, de patriotismo, da lingua; os mais moderninhos podem falar da mistura gostosa que ja conhecemos no Brasil faz tempo. Mas se é dificil definir o que é francês, fica mais facil definir o que não é, especialmente quando se passeia na rua cruzando dezenas de lojas halal, vendo mulheres cada vez mais escondidas em seus panos pretos, vendo dezenas de pessoas rezando voltadas pra Meca atrapalhando a calçada. Quando é um ou outro, a gente abraça com força a diversidade e adota um discurso bonito de tolerância, mas quando começa a ser demais, a esquerda francesa (e eu também) começa a coçar a cabeça.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Dilma, Carla e a miss

E o ano de 2011 começa em grande estilo com Dilminha na presidência. Sim, vai ser duro, vai ter muita gente besta criticando o que não importa e quem sabe com um pouco de fé na oposição, até o que importa, como politica por exemplo. De qualquer forma, é um passo gigantesco na igualdade de gêneros no Brasil. Como a Lola disse, não é porque temos uma mulher na presidência que a partir de agora todo o sexismo se evapora, mas pelo menos se discute. O meu medo é as mulheres de direita se deixarem levar pela antipatia que sentem pelo PT e acabarem adotando uma postura machista como forma de desafiar a esquerda. Espero que elas tenham consciência do quão contraproducente seria essa decisão.

Ja no primeiro dia tivemos a prova de como essa luta sera longa. Enquanto Dilma brilhava em simbolos e representações, o povo desviava o olhar para o obvio e a imprensa ja bradava satisfeita que uma mulher bonita havia roubado a cena da cerimônia de posse, fazendo questão de nos lembrar, caso tenhamos tido a audacia de esquecer por 5 minutos, que aparência e bom casamento é um papel que cai melhor à mulher do que a presidência de um pais. Porque se perguntarmos pro senso comum qual das duas entre Dilma e Marcela é mais poderosa, corremos o risco de ouvir o absurdo. 

Ouvi muitas comparações entre Marcela Temer e Carla Bruni. Ouvi gente desejando a morte de Dilma para ter uma primeira-dama jovem e bonita como a primeira-dama francesa. O que esse pessoal não sabe é que Carla Bruni é um produto de exportação, porque aqui na França ela so é motivo de piadas. Acho que nunca ouvi uma referência à Carla sem ironia no meio. Os franceses de esquerda se aproveitam do ridiculo obvio da situação para rir da cara do presidente e mesmo os franceses de direita se sentem desconfortaveis. Como eles são mais velhos, mais conservadores, mais Familia Tradição e Propriedade, não gostaram nenhum pouco de ver seu presidente, que deveria ser alguém sério e reservado, nas paginas das revistas de fofocas ao lado de uma modelo-atriz-cantora que ja posou nua. Jacques Chirac, tratava sua esposa de vous, caramba, e chega Sarkozy e chama sua modelinho de Carlita. Com certeza isso não agrada a direita. Não é à toa que o petit Nicolas tem a popularidade super baixa.

Mas o que todo mundo sabe é que Carlita tem la sua função. Se na França sua função é dar assunto pra programas humoristicos, no exterior sua função é agradar as massas, coisa que ela faz muitissimo bem com suas caras e bocas de princesa comportada. Mas o interessante é que esse teatrinho não funciona em todos os paises, apenas nos mais subdesenvolvidos, aqueles onde a função principal da mulher continua sendo a de enfeitar. Tudo bem que na Inglaterra eles adoram uma fofoquinha e uma primeira-dama como a Carla Bruni deve agradar os ingleses. Mas a mise-en-scene é feita mesmo com a gente, os bobos do sul. Até o WikiLeaks revelou telegramas que admitiam como o governo francês se utilizava muito bem da Carla Bruni em suas visitas ao Brasil. O governo brasileiro não se deixou influenciar, mas se dependesse da população, ja teriamos uns 50 Rafales entulhados na garagem.

E ai fica a brasileirada torcendo para ter uma primeira-dama bonitona como a Carla. O que é uma vergonha para os franceses seria motivo de orgulho para os brasileiros. Imagino o constrangimento dos franceses se além de modelo-cantora-atriz, a primeira dama tivesse 40 anos menos que seu marido. Acho que rolava até impeachment. Quando temos a chance de provar que estamos mais na frente do que os paises desenvolvidos na igualdade dos gêneros elegendo uma mulher ao cargo maximo, estragamos tudo no minuto seguinte falando da miss ali ao lado.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Amor materno, esse inominavel

Deixo um pouco de lado as eleições e mudo de assunto, apesar da campanha estar pegando fogo e eu ter milhões de coisas passando pela mente. Mas dessa vez escolho apenas ler e ouvir o que os outros têm a dizer. Falem nos blogs, no twitter, no facebook que estou ouvindo. Mas vou deixar o discurso para quem esta mais preparado que eu, porque agora a coisa ficou feia.

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Foi a Rita que lançou o debate no post dela sobre a Madame Bovary e a questão ficou martelando aqui na minha cabeça. A Rita achou um absurdo como a madame deixou sua filha em segundo plano quando decidiu fugir com o amante. A criança foi tratada como um detalhe chatinho que deveria ser solucionado, e não como um dos personagens fundamentais na vida daquela mãe. Dai a Iara rebateu dizendo que ela tinha que levar em consideração o contexto historico, pois naqueles tempos as relações entre mães, pais e filhos na França eram diferentes. E o assunto coincidiu em aparecer (ou talvez eu tenha prestado atenção nele so por causa da conversa das meninas) no meio de duas leituras que fiz essa semana. Não eram o assunto principal, aparecerem apenas como complemento da historia.

A primeira saiu do livro Historia do Brasil, de Boris Fausto, numa parte em que fala sobre um abolicionista mestiço, Luis Gama. Seu pai era um português rico e sua mãe uma negra africana livre. "Gama foi vendido ilegalmente como escravo pelo pai empobrecido, sendo enviado para o Rio e depois para Santos. Junto com outros cem escravos, descalço e faminto, subiu a Serra do Mar. Fugiu da casa de seu senhor, tornou-se soldado e, mais tarde, poeta, advogado e jornalista em São Paulo". Prestem atenção na primeira frase - o cara foi vendido como escravo pelo proprio pai!

A segunda veio de um livro da estante magica que estava folheando. Ele conta a historia dos filhos e netos de Clovis, um rei francês do ano de 481. Naquela época, todos os filhos homens de um rei, eram automaticamente reis também. E por causa disso os reinos iam diminuindo. E para assumir tal cargo vitalicio, era obrigatorio ter os cabelos compridos, para se diferenciar dos plebeus. Clovis teve quatro filhos e quando um deles morreu, deixou por sua vez, três herdeiros. Os tios (os outros filhos de Clovis) não queriam dividir seus reinos, então sequestraram os sobrinhos e mandaram uma carta para a mãe dos meninos: "O que você prefere, que a gente corte o cabelo deles ou que matemos os três?". A mãe, do alto de seu instinto materno respondeu que se eles não pudessem reinar, era preferivel que morressem.

E fui lembrando de diversos outros casos de "desapego familiar" em épocas e contextos diferentes, como os indios brasileiros, que vendiam a propria mãe ou outros membros da familia como escravos para os portugueses, e assim por diante. Exemplos desse tipo estão documentados em varios registros do passado, seja ele distante ou relativamente recente. A biblia é uma fonte infinita de exemplos, como quando Abraão ia matar o proprio filho porque deus pediu; ou Lo, que ofereceu suas filhas ao estupro em Sodoma, porque o sexo homosexual consentido era pecado.

Na França de antigamente, as familias nobres mandavam suas crianças para serem cuidadas por babas no campo, onde ficavam até crescerem sem ter contato com sua familia. E minha professora de francês ainda acrescentou que muitas vezes as crianças morriam e as babas, para não perderem o salario, as substituiam por outras, que acabavam assumindo o trono e entrando de fininho na familia real. E ninguém percebia a diferença. Cuidar de crianças naquela época era um trabalho indigno, mesmo se as tais crianças fossem seus proprios filhos.

Eh claro que não podemos afirmar que essas historias não eram regra absoluta, mas esta provado que elas estavam longe de ser exceções. E eu me pergunto o por quê desse desapego, menosprezo até, com os familiares e sobretudo com os filhos, ja que dizem que o amor por um filho é maior do que o mundo. Elas amavam menos os filhos antigamente? Claro que não, a cultura de antes que era diferente.

Isso tudo so me da mais certeza de que o tal do instinto materno é uma construção da nossa sociedade. Se antigamente era aceitavel vender o filho como escravo ou sacrifica-lo em nome de um bem maior, não existia o tal do instinto materno ou paterno para colocar a vida e o bem-estar da cria em primeiro lugar, custe o que custar. Hoje consideramos tais praticas como barbaridades e matar um filho é o pior crime que alguém pode cometer. Essa mudança mostra apenas como nossa sociedade evoluiu. Hoje o bem-estar e o desenvolvimento dos filhos é uma prioridade na vida das pessoas. Nos preocupamos cada vez mais em educar os novos habitantes do planeta, nos preocupamos com seu futuro, nos preocupamos em dar as melhores condições para que ele tenha uma vida saudavel, consciente e cidadã. E os amamos profundamente. Isso não é instinto materno, é a evolução da nossa sociedade.

Pensei também que uma outra explicação seria a de que antigamente as crianças eram tão frageis e morriam tão facilmente que as pessoas tentavam não se apegar demais para não sofrer, mas isso não teria nada de instintivo, seria racional, pessimista e tremendamente calculista. 

Ora, chamar de instinto materno o amor consciente, construido e planejado que sentimos pelos nossos filhos é tirar o mérito da nossa humanidade. Talvez as pessoas falam em instinto pra tentar exprimir um amor que ultrapassa o entendimento, um amor tão incondicional, inexplicavel e inominavel que creditamos ingenuamente ao instinto. Mas é so olhar pra nossa historia que essa teoria vai por agua a baixo. Não é instinto, é apenas muito, muito amor. Amor não tem nome mesmo, e a gente não precisa procurar um.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mulheres não são pessoas, são pessoas de saias

O site de informações francês Rue89 publicou uma reportagem muito interessante sobre como os sinais indicativos dos banheiros femininos e masculinos denunciam todo o machismo da nossa sociedade. Vou tentar reescrever aqui as principais ideias do texto, ja que a maior parte dos leitores do blog não fala francês. De qualquer forma vale ir no site para ver todas as fotos.

A matéria separa as plaquinhas em diferentes categorias. A primeira categoria é talvez a mais popular, quando identificam o homem como o universal e a mulher como apenas uma variante sua. São aqueles classicos sinais que representam o homem como uma pessoa e a mulher como uma pessoa, de saia.



No Irã, as mulheres são pessoas com véus:


As vezes, os homens são pessoas e as mulheres são pessoas com cintura:


Por fim, uma placa que conclui descaradamente o que esse modelo pensa das mulheres: os homens são pessoas e as mulheres não são homens, então elas não podem ser consideradas exatamente "pessoas", né? Mas porque querer ser uma pessoa quando se pode ser uma flor tão bela e delicada?


Uma outra categoria é quando mulher e homem são diferenciados pelas suas atitudes desejadas. As poses esperadas de cada um, o comportamento distinto que um homem e uma mulher devem ter:


Os homens sempre viris e dominantes e as mulheres sempre doces, reservadas e submissas. Acho essa ultima placa muito reveladora: a mocinha de olhos fechados, cabeça baixa, sem boca e o garotão de tatuagem, exibindo os musculos, com um sorrisão na cara.

Existe também a categoria que afirma que homens têm pintos e mulheres têm peitos. Os seios femininos muitas vezes são considerados o equivalente feminino do pênis.


Até tem alguns banheiros que fazem a diferenciação entre penis e vagina, mas são raros.

A placa seguinte reune varios modelos que ja vimos:


Ela mostra o homem como universal e a mulher como sua variação de saia e batom. Também tem a distinção anatomica de um penizinho e uma vagininha. E ainda contém uma expressão de gênero: no balãozinho feminino esta escrito "shopping" e no masculino "football".

Algumas placas reafirmam os preconceitos de comportamento sexual que a sociedade tenta impôr. O heterossexual masculino é considerado como predador, ao ponto que as pessoas reconheçam a situação representada e achem graça na brincadeira.


Essa representação serve como desculpa para os homens efetivamente predadores e serve até como um incentivo para aqueles que não são.

A separação de banheiros por gênero presume que os usuarios são todos heterossexuais e que os homens são agressores pontenciais, enquanto as mulheres são seres passivos e vulneraveis. Além, é claro, de exluir os transexuais, travestis e afins.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A moda em tamanho grande

Acho otimo que finalmente alguns setores da moda estejam dando mais atenção às gordinhas. Ja vi reportagens sobre modelos de 90kg e estilistas costurando em tamanhos bem mais generosos. So conseguia pensar "mas como ninguém tinha feito isso antes?", porque mercado ha de sobra. O problema é que em algumas tentativas, a marca ofende justamente seu publico alvo.

Nas ultimas semanas tenho visto varias propagandas de uma marca de lingeries que se chama Sans Complexe. Ela vende em tamanhos grandes e joga a carta da aceitação do corpo. O problema é que todas as modelos que ela diz serem gordinhas, são magras! Tão contra-producente...

"O tamanho manequim esta ultrapassado"

Se você for enorme de gorda como essa modelo, pare de se preocupar!

Coitada da Elodie, era tão complexada por ter esses peitões...
Porque a gente sabe que a pressão para seios pequenos é enorme, não é?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Como um machista me transformou em feminista

Esse post foi feito para o Concurso de blogueiras da Lola. Participem também!

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Eu sei exatamente quando virei feminista, ainda que na época eu não soubesse que aquilo tinha nome.

Eu devia estar na quinta ou sexta série e pegava carona com uma professora da escola onde eu estudava. Quer dizer, com a professora não, porque ela não dirigia, mas com seu marido. E aos poucos fui percebendo o quanto eu detestava esse cara. Ele era cinico, hipermachista, debochado, falava mal dos outros, criticava todo mundo e achava que existia uma linha clara entre o comportamento desejavel de uma mulher e de um homem.

Um dia eu cheguei feliz contando da minha competição de natação do fim de semana. Disse que tinha tido um otimo resultado, que minha treinadora me elogiou e que todo mundo estava muito orgulhoso de mim. E eu so devo ter dito isso porque não estava conseguindo segurar meu contentamento, porque normalmente eu evitava falar perto dele. Eles fizeram perguntas sobre a natação e eu falei que eu competia, que viajava com minha equipe, que treinava todos os dias, que fazia até musculação. Eu não conseguiria descrever precisamente a reação dele, um misto de desprezo e deboche: "Ptzzzzzz............. Agora so falta querer fazer futebol". E começou um discurso sobre como meninas não deveriam fazer esportes assim, como isso as deixam brutas e masculinizadas. E eu não consegui responder nada, so disse em tom de desafio que estava procurando um time de futebol pra jogar.

Acho que esse foi meu primeiro contato direto com o machismo. Como filha unica de pais separados, sempre morei so com minha mãe, então não havia papeis pré-determinados em casa. Não tinha um irmão para uma possivel diferença de tratamento ou responsabilidade. Não tinha um pai dentro de casa para exercer uma possivel autoridade sobre minha mãe (o que eu acho que não aconteceria de qualquer forma). O que eu via era minha mãe trabalhar em dois empregos, sustentar a casa sozinha, me criar sozinha (com a ajuda da minha avo), dirigir feito uma louca pra me levar pras mil atividades que eu fazia e em seu tempo livre dar festas enormes, cheias de amigos e viajar por ai. Como alguém ousava me dizer que a mulher era limitada em relação ao homem? Era uma provocação muito grande.

A cada dia que passava eu odiava mais o cara. Mas era uma relação estranha, porque ao mesmo tempo eu não me permitia odia-lo. Achava que eu não devia odiar ninguém, que ele era o marido da minha professora querida e que era muito feio essa aversão que eu sentia por ele. Engraçado como as coisas são. Passei a somatizar meu odio por ele. Todo dia de manhã eu passava mal. Todo dia eu dizia pra minha mãe que estava doente, que não podia ir à escola. Todo dia eu descia atrasada e o cara reclamava do meu atraso. Ia até a escola passando mal, calada. Tinha pesadelos sobre o carro quebrando no caminho e eu presa com o cara durante horas. Era um percurso rapido, mas tenso. Quando chegava na escola, que eu adorava, esquecia completamente o mal-estar, até a manhã do dia seguinte.

Eu não sabia como responder o cara, com certeza não estava preparada pra isso. Mas tentava alfineta-lo com minhas armas, sobre coisas que eu sabia que o incomodavam, sobre como as meninas da minha turma da natação eram fortes, sobre como a minha mãe levava uma vida boa com liberdade de fazer o que ela quisesse, sobre todas as minhas futuras possiveis profissões, como bombeira, advogada, jornalista, deputada. Mas sabia que isso não era suficiente, então entendi que o principal não era vencê-lo com argumentos que me faltavam, mas com ações. Entendi que nosso duelo seria a longo prazo. Sem poder vencer com palavras, tive que deixa-lo la com seus preconceitos, falando sozinho e ir viver a minha vida.

E acho que é essa filosofia que venho seguindo desde então. Porque acho que fazemos mais pelo feminismo nos tornando médicas, juizas, jogadoras de futebol ou pedreiras, e não deixando nos dominar por homem nenhum, do que decorando a teoria do feminismo e nos enchendo de argumentos contra os machistas de plantão. Alguém ja conseguiu mudar um machão? Deixemos eles falando sozinhos, vamos viver nossas vidas e mostrar na pratica até onde podemos ir. Porque enquanto aquele cara estava no sofa dele propagando asneiras àqueles que orbitavam em sua vidinha ordinaria, eu conheci o mundo, aprendi duas linguas, fiz mestrado e continuo fazendo minha natação, quando da.

Daria tudo pra ver a cara de bunda dele quando a Dilma for presidente.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Casabianda, uma "falsa boa ideia"

Continuando o post meio sem noção de ontem, que tomou um rumo completamente diferente do que eu tinha imaginado, nem cheguei perto do assunto que eu realmente queria falar: uma prisão sem grades na França. Ela se chama Casabianda e fica na ilha de Corsega. Parece que ja existe ha mais de 60 anos, mas so agora os franceses foram dar atenção a ela.

Casabianda é uma prisão a céu aberto, onde os prisioneiros andam com as chaves de suas celas (ou quartos) penduradas no pescoço. Eles trabalham em plantações orgânicas, pescam, dirigem tratores e ganham entre 9 e 25 euros por dia. Não ha fugas, os presos acham que eles têm tanta sorte de estar la, que ninguém pensa em fugir. A ultima fuga foi ha 25 anos e o fugitivo decidiu voltar pra cadeia por conta propria. Em suma, Casabianda é uma prisão humanizada.

Eu acharia a ideia excelente, mas tem um porém que me indigna muito: 81% dos detendos de Casabianda são delinquentes sexuais, incluindo ai pedofilia e estupro. Se ontem eu me empolguei um pouco e acabei saindo totalmente do assunto, foi pra mostrar que eu acredito na reabilitação dos criminosos se dermos a eles uma oportunidade de mudar de vida. Acho mesmo que grande parte dos ladrões, traficantes e drogados são vitimas do sistema e merecem uma ajuda pra sair do buraco. Mas os estupradores? Os pedofilos? Eles não são vitimas do sistema! Alguns deles são doentes mentais, principalmente entre os pedofilos, e outros acham simplesmente que têm o direito de estuprar mulheres, que com um pouco de sorte sairão impunes. Casabianda é a prova de que eles saem impunes!

Por que os crimes contra as mulheres são sempre tratados como crimes menores? Por que eles têm direito a uma vida boa (eles têm praia particular e fazem churrascos regularmente) enquanto suas vitimas estão traumatizadas pra vida toda? Eles não estão nem aprendendo uma profissão ou coisa que o valha, pois a maior parte deles tem uma boa formação acadêmica e tinha bons empregos antes de ser preso. Alguns são médicos, outros engenheiros. Eles estão la apenas para curtir a vida, como se estivessem de férias. Jogam tênis e golfe. Isso não é uma segunda chance, é impunidade.

Os prisioneiros tem o direito de andar com canivetes enquanto os guardas da prisão andam desarmados. Os outros 19% dos presos, aqueles que não são delinquentes sexuais, sofrem um tipo de "preconceito". Existe uma hieraquia entre os presos em Casabianda e os pedofilos e estupradores estão no topo dela. No refeitorio, por exemplo, os criminosos comuns so sentam pra comer depois que os criminosos sexuais entregam seus pratos.

Essa prisão é so o reflexo da sociedade, que minimiza os crimes contra mulheres (e às vezes até exalta) e faz as vitimas sofrerem duas vezes: a primeira com o crime em si e a segunda em ver que seu algoz ainda se da bem. Como diriam os franceses, essa prisão é uma fausse bonne idée. Para saber mais sobre Casabianda, aqui tem uma matéria da revista Le Point, em francês.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Ainda a maternidade, segundo a Badinter

Voltando ao livro da Elisabeth Badinter, que acabou dando uma boa discussão no outro post, vou tentar explicar uma teoria interessante. Na verdade o livro é tão rico e com subtemas de assuntos tão variados, que daria pra fazer uns 50 posts diferentes sobre ele.

No ultimo capitulo, Badinter analisa o caso das francesas buscando no passado explicações para fenômenos atuais. A França tem hoje a segunda maior taxa de natalidade da Europa, perdendo apenas para a Irlanda, que não é adepta a uma politica de abortamento como a França (com 210 mil abortos anuais). A autora justifica essa alta fertilidade por causa da maneira de gerir a maternidade das francesas. Ao contrario de paises onde a presença da mãe tradicional é supervalorizada, como a Italia (mamma italiana), a Alemanha (mutter alemã) e o Japão (kembo japonesa), a França nunca fez muita pressão para uma maternidade perfeita.

"A sociedade do século 18 admitiu muito bem as babas e as amas-de-leite, assim como as sociedades dos séculos 20 e 21 acham legitimo o uso da mamadeira e a contratação de terceiros para tomar conta dos nenéns logo depois do nascimento. A creche e a escola maternal - invenção francesa - para as crianças de dois anos e meio, três anos são as provas do consentimento social a esse modelo materno a tempo parcial. Nem as mães, nem as sogras, nem mesmo os pais têm algo a reclamar. Esta subentendido que é a nova mãe que deve escolher seu modo de vida de acordo com seus interesses e os interesses da criança. Não existe qualquer pressão moral ou social para ser mãe em tempo integral, nem mesmo durante o primeiro ano do bebê. A sociedade francesa admitiu desde muito tempo que a mulher não é a unica responsavel pela criança"

Segundo Elisabeth Badinter, essa liberdade de criar os filhos como quiser é um dos fatores mais importantes na alta taxa de natalidade francesa. Logico que a politica financeira de incentivo à natalidade também é importante, mas não é definitiva. Por exemplo, as francesas são as pareas da amamentação: apenas metade delas amamentam na saida da maternidade; em três ou quatro meses esse numero baixa para 17% e nos seis meses de vida do bebê elas são apenas 11% a aleitar. Por outro lado a Austria, a Alemanha, a Italia, o Portugal, por exemplo, têm indices muito mais altos de amamentação, assim como da adoção da maternidade em tempo integral, em compensação, têm os indices mais baixos de natalidade do mundo.

Quanto mais a sociedade pressiona as mulheres a serem mães perfeitas e a se dedicarem de corpo e alma à tarefa de ser mãe, mais elas debandam da maternidade, com medo de toda a pressão social que vão sofrer. "Quanto mais leve é o peso das responsabilidades maternas, quanto mais respeitarmos as escolhas da mãe e da mulher, mais elas serão inclinadas a tentar a experiência, mesmo de repeti-la".

O mesmo fenômeno esta acontecendo no Brasil, que ja tem uma taxa de natalidade menor do que a francesa. Ja ouvi muitas mães brasileiras reclamando das pressões sociais sobre os cuidados dos bebê. Acho que esse jeito despachado do brasileiro é um fator muito negativo para as gravidas e novas mamães, porque todos se acham no direito de dar conselhos, de contar sua experiência como se fosse regra a ser seguida, de achar que podem por a mão na barriga sem a menor cerimônia e de julgar, caso a mãe não esteja fazendo o que a pessoa considera o certo. Sempre tem alguém para reclamar. Se a mãe trabalha fora, vão reclamar que ela é omissa, se deixa tudo pra ficar em casa, vão reclamar que é submissa, dependendo do ambiente social de cada pessoa.

Não é à toa que muitas mulheres estão abdicando da ideia de procriar ou então adiam o maximo possivel. Ter um filho têm se tornado uma tarefa tão dificil, tão estressante, tão exclusiva que quem não sente que tem o "dom de ser mãe" ou não consegue se ver realizada 100% na maternidade, prefere nao arriscar. Quem não tem paciência para fazer papinhas de legumes sempre frescos, de tentar as fraldas lavaveis, de gastar todo o seu dinheiro com o bebê, de frequentar cursos pré-partos ou de amamentar, coisas imprencindiveis para ser uma boa mãe, segundo essa nova onda de maternidade naturalista, muitas vezes prefere abrir mão de ter filhos a enfrentar a ira da sociedade. No melhor dos casos, decide ter um filho so.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Mães indignas

"Ironia da historia: no momento em que as mulheres ocidentais conseguem se livrar do patriacardo, elas encontram um novo chefe em casa"
Acho que esta é frase que melhor resume o novo livro da feminista francesa Elisabeth Badinter, Le conflit - la femme et la mère (O conflito - a mulher e a mãe). Fraldas lavaveis, amamentação obrigatoria, parto com dor, co-sleeping, volta ao lar, são alguns dos alvos de Badinter. Segundo ela, a "maternidade naturalista", que vem ganhando força na França (e no mundo) nos ultimos anos, é a mais nova forma de opressão às mulheres.

O livro vem sendo alvo de muitas criticas, inclusive de outras feministas que dizem que Badinter esta lutando contra a guerra errada. Como trabalhei durante dois anos como baba aqui na França, pude observar muitas familias de perto e como cada uma lidava com essas questões. Tive a sorte de pegar mães e pais muito gente boa em quase todos os casos e geralmente os pais participavam do cotidiano dos bebês tanto quanto as mães. Em todas as vezes as mães trabalhavam fora e alimentavam seus bebês com leite de latinha, exceto uma, que tirava o leite no trabalho e guardava na geladeira. Os pais davam banho, alimentavam, colocavam pra dormir e dividiam as tarefas domesticas com as mães. Elisabeth Badinter diz que essa igualdade entre o pai e mãe foi conquistada justamente por causa da mamadeira e dos outros avanços da modernidade e que o retorno à maternidade naturalista é um retrocesso na maneira de cuidar do bebê, que o priva do contato com o pai e sobrecarrega a mãe.

Essa nova corrente de feminismo coloca a mulher acima dos homens, dizendo que a feminilidade é uma virtude enorme cuja maternidade é o centro. Somente a mãe sabe das necessidade do bebê, somente a mãe pode dar tudo o que o bebê precisa e o pai deve apenas apoiar a mãe na sua nova função. No livro de Edwige Antier, Confidences de parents, citado na obra de Badinter, diz que o dever do pai depois do nascimento do neném é "reintroduzir a mãe na sua feminilidade (?!), oferecê-la um buquê de flores (?!), tomar conta do bebê para que a jovem mamãe va ao salão de beleza (?!) e dizê-la o quanto ela esta bela (?!)". Alguns detalhes modernos foram acrescentados às ideias conservadoras, como por exemplo, o pai deve assumir todas as tarefas domesticas, para deixar a mãe cuidar do bebê em tempo integral, mas a essência ainda é profundamente tradicional. Alguns livros incentivam às mulheres a ficar com seus bebês 24h por dia durante os três primeiros anos de vida do neném e as estimula a dar de mamar de acordo com a demanda da criança, nada de horarios impostos. Quanto mais mamadas de madrugada, melhor. Bom, quem tem que ficar a disposição de um bebê dessa forma, pode dizer adeus ao emprego, ao lazer e à vida social e conjugal. Alguns depoimentos de mães dizem que elas se sentem devoradas pelos bebês, que elas se sentem uma refeição ambulante, quase como escravas. Amamentar deve ser um prazer, não um sacrificio. E cada vez menos as mulheres têm a chance de escolher, no Brasil ainda mais que na França. Não amamentar por opção é sinônimo de egoismo maternal.

Vender essa ideias como um direito, foi bastante eficaz no processo de volta ao lar das mulheres de paises desenvolvidos (e incluo ai a elite brasileira). Sob o argumento de uma função muito mais importante do que o trabalho, que somente as mulheres têm capacidade suficiente para fazer, elas abriram mão dos poucos direitos conquistados pelas suas mães. Acho que qualquer tipo de diferenciação entre os sexos é uma porta aberta à deterioração das mulheres. Dizer que a mãe cuida melhor do bebê que o pai, é dar mais uma tarefa exclusiva à mulher, é incentivar a desigualdade, é colaborar com as diferenças salariais. "Esse tipo de maternalismo ainda não gerou o matriarcado nem a igualdade dos sexos, mas sim uma regressão da condição feminina. Regressão consentida em nome do amor à sua criança, do sonho da criança perfeita e de uma escolha moralmente superior. Fatores bem mais eficientes do que pressões exteriores. Todo mundo sabe: nada se compara à servidão voluntaria!".

Aproveito para indicar um blog francês que descobri ha um tempo e que ja me rendeu boas risadas. Ele se chama Mauvaises Mères (algo como Péssimas Mães) e vai justamente contra essa corrente de "eu não dou potinhos prontos para meu bebê", mas super bem humorado.


*** Respondendo às críticas: dizer que o bebê precisa exclusivamente da mãe e que ninguém mais pode cumprir esse papel obriga a mulher a ficar em casa, e se ela não fizer, vai trabalhar cheia de culpa. Isso não é bem dar liberdade de escolha, né? Pela minha experiência, o bebê se apega a quem cuida dele e passa mais tempo com ele, seja la quem for. Entendo que as mães queiram aproveitar esses momentos, que são maravilhosos, mas ela deve saber que seu bebê não ficara infeliz sem ela ou tera qualquer problema de desenvolvimento se ela não estiver presente o tempo todo, como pregam os "aiatolas da maternidade". Por que o pai também não pode cumprir essa função?

O livro da Elisabeth Badinter é muitissimo complexo e não pode ser simplificado em "ela é contra as mães que largam seus empregos". Se meu texto deu essa impressão, ela é falsa. Mas comentem, mesmo se vocês discordem completamente, vamos enriquecer o debate!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quando deus é o chefe do homem e o homem é o chefe da mulher

O livro "Tirs Croisés", de Caroline Fourest e Fiammetta Venner fala sobre como os principios do integrismo e do extremismo é praticamente o mesmo nas religioes catolica, judia e muçulmana. O primeiro capitulo aborda a situaçao das mulheres nessas três religioes (na sua forma mais fundamentalista) e como todas elas sao usadas para oprimir o sexo feminino.

Os judeus ultra-ortodoxos começam o dia com a oraçao: "louvado seja deus que nao me criou mulher". Ele acreditam que por causa do pecado original de Eva, todas as mulheres foram condenadas a sofrer. No livro sagrado esta escrito que as mulheres sao castigadas de nove formas: o sangue da mestruaçao e da virgindade; o fardo da gravidez; o sofrimento do parto; a responsabilidade de criar os filhos; sua cabeça coberta; os furos nas orelhas como escravas por toda a vida, que serve seu mestre; e finalmente, nao ser credivel como testemunha. O interessante é que a maior parte desses "castigos" sao inflingidos pelos homens, nao pelos céus. Até mesmo por nao permitir a mulher a escolha do aborto e de outros métodos para nao passar pelo fardo da gravidez se ela nao quiser. A judia ultra-ortodoxa so serve para ser mae e se nao consegue cumprir a tarefa é excluida da comunidade. O homem pode facilmente se separar, mas a mulher precisa da autorizaçao do marido para conseguir.

No catolicismo radical a situaçao das mulheres é a mesma. Sao Paulo era um dos que mais pregava a dominaçao masculina. Ele disse: "O chefe de todo homem, é deus; o chefe da mulher, é o homem". Os militantes integristas cristaos dizem que a funçao da mulher é ser portadora de homens (a Maria Mariana aprendeu bem a liçao e saiu repetindo isso por ai). O interessante é que eles descobriram que era muito mais eficaz quando as proprias mulheres pregavam isso, nao os homens. O que aconteceu foi uma situaçao curiosa: as mulheres ultra-conservadoras deixaram seus lares para militar pelo dever das mulheres de ficar em casa. Ah ta.

Os militantes cristao prolife (nome altamente contestavel) lutam essencialmente contra o aborto. Um caso que me chocou no livro foi o de uma menina americana de treze anos que foi morta pelo pai porque ia fazer um aborto. Ela tinha sido vitima de estupro. Quem estuprou foi o pai dela.

O islamismo com certeza é o mais famoso pelas atrocidades que faz com suas mulheres. Poligamia, burcas, mutilaçao genital, apedrejamento, a lista é longa e violenta. Mas o que as autoras argumentam é que a maior parte dessas coisas todas simplesmente nao estao no Corao. Maomé era muito menos sexista do que os profetas das duas religioes precedentes, até porque muito tempo ja tinha se passado. Mas os integristas muçulmanos, nao satisfeitos com o status que o Corao da a mulher, que ja nao é nada bom, inventa, reinterpreta, pega idéias emprestadas de outras religioes para oprir as mulheres bem do jeitinho que eles querem. Em nenhum momento o livro sagrado diz que as mulheres devem usar véu, por exemplo. Existem algumas passagens onde ele descreve que algumas mulheres usam, mas é so uma descriçao, nao uma recomendaçao.

O livro fala muito da Arabia Saudita e eu fiquei surpresa de saber que um pais tao rico é tao reacionario, juro que pensei que eles fossem mais democraticos. Elas contam que em 2002 houve um incêndio na escola das meninas e que as alunas se precipitaram para a unica porta entre os muros altos (para protegê-las, claro) que o colégio tinha. A diretora so podia ligar para os bombeiros depois de pedir autorizaçao à presidência da educaçao feminina. A porta era trancada por fora e o guardiao nao abriu porque as meninas nao tinham autorizaçao para sair. Quando os bombeiros chegaram, a policia religiosa nao as deixou sair porque elas estavam sem véu. Resultado, quinze meninas morreram. E nao deixaram os transeuntes ajudar as sobreviventes para evitar o contato misto.

A diferença entre essas três religioes é que o judaismo e o catolicismo sao restritos à esfera pessoal, enquanto o islamismo é legitimado por muitos Estados. Uma adultera pode se defender da ira do marido judeu ultra-ortodoxo pedindo ajuda ao governo, mas o que fazer quando a barbarie é justificada pelo Estado? O pai assassino e estuprador esta preso, mas onde guardar a raiva quando, na Arabia Saudita, um estuprador sai livre enquanto sua vitima é apedrejada até a morte por adultério?

Parece surreal no mundo em que vivemos, com toda a ciência que temos, que tem gente que ainda acredite em religiao. Mas tudo bem, cada um pode acreditar no que quiser, mas o Estado tem a obrigaçao de saber separar as coisas. A laicidade é um passo fundamental no avanço da humanidade. O governo tem a obrigaçao de dar os mesmos direitos para todos os individuos, sejam eles homens ou mulheres e nao justificar a dominaçao masculina por livros escritos ha milhares de anos. Enquanto a violência contra a mulher for apoiada oficialmente, é metade da força intelectual e fisica de um pais que esta sendo prejudicada. Como evoluir assim?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Quando a lei falha

Um caso me chamou atenção nesses ultimos dias no jornal. Uma mulher de 42 anos foi sequestrada enquanto corria no parque. O surpreendente é que ela conseguiu avisar a policia ligando do seu celular de dentro da mala do carro, onde foi colocada, e ainda conseguiu dar placa do carro do seu agressor! A policia começou as buscas imediatamente e o caso logo apareceu na midia. O dono do carro foi encontrado e informou que seu veiculo era usado pelo caseiro. Algumas horas depois, o caseiro apareceu com a maior cara lavada e negou o sequestro.

Duzentos policiais à pé, à cavalo e em helicoptero foram mobilizados para procurar a vitima, na região onde eles conseguiram captar o sinal do seu celular. Nada, não conseguiram encontra-la. Começaram a fazer pressão no caseiro (que alias se chama Manuel Ribeiro da Cruz, ja viram nome mais francês do que esse?) e logo descobriram que ele havia sido condenado em 2002 pelo estupro de uma criança de 13 anos. Ele havia sido condenado a 11 anos de prisão, mas foi liberado depois de 5 anos, com a condição de participar de reuniões do AA. Diante de sua determinação em negar a culpa, a policia fez um exame de DNA de suas unhas e encontrou o DNA da vitima. Eu juro que ainda tinha esperança de que encontrassem a moça viva, como nas séries policiais, mas não teve jeito, assassino indicou onde tinha deixado o corpo da mulher e ele foi logo encontrado.

A partir dai a discursão tomou um novo rumo aqui na França. Esse é o tipo de caso que pode pressionar uma mudança de lei, ou novas medidas de repressão. Como pode o cara estuprar uma criança de 13 anos e ser solto cinco anos depois? O ministro do interior, Brice Hortefeux, disse que essa morte poderia ter sido evitada, vide o passado do criminoso. Pronto, a polêmica foi oficialmente lançada. E então o porta-voz do UMP, o partido do Sarkozy, trouxe de volta o debate de usar ou não a castração quimica. Ele disse: "Sera que não devemos decidir pela pratica da castração quimica para individuos como esse?". O PS criticou dizendo que a direita esta tão obcecada com a segurança nacional que esta tomando medidas estapafurdias. Acho que essa é a primeira vez que sou obrigada a concordar com a direita. Não tolero crimes sexuais. O argumento de que é uma punição cruel não cola pra mim. E nem acho que seja cruel, afinal de contas não vão cortar o pinto do cara fora, é so um remédio que tira o desejo sexual da pessoa. Tudo bem que tem varios efeitos colaterais, mas se é para evitar estupros e até mortes, eu acho que é muito valido.

Eu coloco os crimes sexuais numa categoria à parte. Em relação aos criminosos comuns, eu acredito no argumento da falta de educação e da desigualdade social, e compreendo suas escolhas. Eu que não ia ficar sentadinha olhando meu irmão passar fome enquanto a madame passeia com seu poodle. Mas estupro não tem nenhum entendimento. E se o desejo sexual é tão forte a ponto de uma pessoa atacar alguém, pôr na mala de um carro, estuprar e depois matar, ora, nada mais natural, com o avanço cientifico que temos, do que tirar o desejo sexual do cara com um remedinho. A Dinamarca, a Bélgica, a Alemanha ja usam esse método. Sera que a França sera a proxima?

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Só para constar

A Priscila perguntou nos comentarios do ultimo post, se tem alguma novidade no caso das burcas na França. Tem sim Priscila, então resolvi contar o final da historia.
O jornal Le Monde publicou o resultado de dois estudos feitos por dois orgãos, o SDIG e o DCRI, que chegaram a conclusão que 367 mulheres usam a burca na França. Muito barulho por nada, né? A gente aqui discutindo sobre esse novo "fenômeno" e depois descobre que tudo era uma farsa, que miseras 367 mulheres se sujeitam à isso.
O estudo mostrou ainda que a grande maioria dessas mulheres usam a burca por vontade propria. A maior parte delas tem menos de 30 anos e 26% delas são francesas convertidas ao Islã. Quase todas moram em grandes aglomerações urbanas.
O motivo da burca? Provocação. Jovens que querem provocar a familia e a sociedade. A pesquisa cita o caso de quinze burcas que se encontraram em um centro comercial de Marseille num dia de 'solde' e nem sequer fizeram compras. Ficaram la, exibindo suas burcas para os passantes. Se desse pra ver seus rostos, aposto que veriamos um sorrisinho de satisfação.
Ainda de acordo com a pesquisa, os muçulmanos na França abominam a burca, comparam os radicais à defensores de seitas e temem que a religião muçulmana fique ainda mais estigmatizada por causa dessa historia toda.
Pra provocar a sociedade algumas pessoas colocam mil piercings, outras fazem o estilo punk, outras raspam a cabeça (eu escolhi essa) e outras, adivinham!, usam burca! Ah se a moda pega no Brasil!

domingo, 2 de agosto de 2009

Quem está no leme?

Durante o ano em que morei no Brasil com o cheri notei uma coisa que normalmente passaria despercebida: as pessoas levam os homens mais a sério no dia-a-dia. O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, é simples. Ele não falava uma palavra de português, então quando saiamos juntos, era sempre eu quem interagia com as pessoas na rua, pedia informações, pedia a conta pro garçom, pedia a coxinha na lanchonete. E quando alguém nos perguntava alguma coisa, era eu quem respondia. Dai comecei a perceber que os desconhecidos SEMPRE se dirigiam à ele, e não à mim. Seja pra pedir direções, para perguntar o que iamos comer ou somente comentar como estava quente, as palavras eram sempre para ele e eu deveria ser somente um ser sorridente que concordaria com tudo. E essas pessoas ficavam um pouco atordoadas quando eu me intrometia e respondia primeiro. E depois dava a impressão que eu tinha que justificar a mudez dele, de alguma forma mostrar que ele era estrangeiro, para não passar como bobo.

Bobo porque deixa a garota tomar a atitude? De onde saiu esse preconceito e, pior, como ele foi parar mesmo dentro da minha cabecinha liberal também? A gente esta tão acostumado com situações machistas pequenas, que acabamos toma-las como normais. E o mais grave é que se o cheri pudesse responder às perguntas, eu nem iria perceber como era ele o alvo intelectual das pessoas e como eu era uma coadjuvante. Ia passar normalmente, uma coisinha bem corriqueira, e a vida seguiria.

Para minha dissertação de mestrado fui ao Paraguay fazer minha pesquisa de terreno e o cheri foi comigo. Ja tinha ouvido falar que la existia um machismo mais forte que no Brasil (isso é possivel?). Algumas pessoas que entrevistei, não todas, deixaram isso bem claro. Eu explicava que a pesquisa era minha, que eu estava fazendo uma dissertação, eu fazia as perguntas e mesmo assim eles respondiam para o cheri. Olhando para ele, como se a minha presença fosse decorativa. Ta certo que o cheri tem presença de espirito, participa, se interessa, mas poxa, porque as pessoas respondiam so pra ele? Parecia que eu era sua secretaria, tomando notas da reunião.

(engraçado foi uma vez em Assunção que fomos tomar cerveja com um amigo paraguaio, e eu ja revoltada com esse machismo, vi que a garçonete trouxe uma garrafa de cerveja e dois copos, que ela colocou na frente de cada um dos meninos e me deixou sem nenhum. Ja tava explodindo de indignação, mas me explicaram que la eles dividem os copos, que ela tinho sido até generosa deixando dois, pois normalmente todo mundo divide um so. De qualquer forma fiz questão de pedir um terceiro copo pra mim).

Dai notei que quando cheguei na França, quando as pessoas pediam informações na rua, elas olhavam para nos dois. E me acostumei a deixa-lo sempre responder por causa do meu pobre francês, o que me deixa frustrada. Acaba sempre dando a impressão que ele é o cara de atitude e eu uma concordante sorridente. Dai também passou a me dar vontade de, de alguma forma, mostrar que eu era estrangeira, não uma passiva.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Burcas: diferentes pontos de vista

Volto ao assunto das burcas porque queria dividir o que li no Courrier International. Para quem não conhece, essa revista reune algumas das melhores reportagens publicadas em diversos paises durante a semana, traduzidas para o francês. Vou copiar alguns trechos que achei mais interessantes. A tradução para o português é minha.

Opressão do lado de la, opressão do lado de ca: "Onde vai?", "A Paris, claro! Na França, a burca vai ser proibida", "Você esta longe de estar pronta para um vestidinho de verão, olha essas pernas!", "Merda!",
‘Em Paris, ser contra a burca é ser de esquerda. Em Londres, é defender a extrema-direita. (…) Os principios republicanos de igualdade e de laicidade são tão profundamente enraizados no espirito francês que eles pertencem tanto a esquerda quanto a direita. (…) O discurso de Sarkozy significa que a França vai proibir seus cidadãos de usar a burca? Provavelmente não. Seu discurso deve ser antes de tudo considerado como como uma manobra politica. Ele quer reafirmar frente ao seu partido sua fidelidade aos ideais da Republica francesa e de lucro ainda ganhar a posição incerta da esquerda. (…) Visto da Grã-Betanha, os ideais franceses de igualdade e laicidade, muitas vezes mal-interpretados, parecem principios autoritarios e preconceituosos’, The Times, Londres.

‘A Franca aboliu a escravidão em 1848. E esta fora de questão hoje deixa-la se reinstalar sob a forma da burca’, ABC, Madri.

‘Diferentemente dos gurus do multiculturalismo, que inundam os escritorios europeus com iniciativas paternalistas sobre o Islã, Sarkozy não tem meias palavras: preservar a pluraridade de crenças de uma democracia é uma coisa, mais dai a permitir a segregação da mulher sob pretextos religiosos, esta fora de questão’, La Vanguardia, Barcelona.

‘Na sua luta pela igualdade, a França ao invés de encorajar o multiculturalismo, como fazemos na Inglaterra, se esforça em diminuir as diferenças e prega a integração. Essa vontade de abolir uma representação exterior do fundamentalismo muçulmano é uma prova da dificuldade do Estado francês de absorver um grupo de imigrantes que não quer ceder à sua laicidade. (…) Não sei quantas mulheres "escolheram" usar a burca, mas pensar que elas escolheram de boa vontade se cobrir com essa roupa triste é não entender o conceito de livre escolha pelo qual as feministas lutaram’, The Independent, Londres.

‘Quando passeamos voluntariamente pelo mundo como um espectro preto, impomos ao outro nossa necessidade egoista de nos taparmos. Eh um ato de agressão. Eh a liberdade que zomba da igualdade e da fraternidade’, De Volkskrant, Amsterdã.

‘Os arabes adoram lutar em batalhas previamente perdidas e adoram falar sobre os outros para chamar atenção sobre seus proprios problemas. E agora alguns se fazem mais democratas que os franceses e querem dar lições sobre os direitos das mulheres – sendo que em seus proprios paises as mulheres são privadas dos direitos mais elementares. (…) Seria mais util aceitar os direitos dos outros e entender que a unica forma de abordar as diferenças é tendo um debate construtivo. Isso provaria que procuramos nosso lugar (o lugar dos arabes) entre as nações e que não somos simples massas cegas pela colera’, Emarat Al-Youm, Dubai.

‘Quando Obama foi na Normandia para a comemoração do Desembarque e perguntaram o que ele achava da proibição do véu na França (note que a informaçao é falsa), ele reafirmou o que ja tinha dito no Cairo, "nos EUA, temos por principio não dizer às pessoas o que elas devem vestir". Uma atitude na qual os franceses fariam bem em se inspirar’, The Christian Science Monitor, Boston.

‘Uma vitima da moda ocidental é tão prisioneira de suas roupas do que uma mulher em burca. A liberdade real, para Hegel, não significa fazermos tudo o que queremos, mas nos liberarmos do condionamento social usando a razão. (…) Vão argumentar que as mulheres de burca são mais oprimidas que aquelas que se dobram à ditadura das revistas de moda. Efetivamente, eu sempre fico triste quando vejo uma mulher de burca – mas isso é problema meu’, The Sydney Morning Herald, Sydney.

‘Primeiro, Sarkozy não crê no Islã, senão ele saberia a alta estima que esta religião da as mulheres. Segundo, ele pertence a uma cultura que é injusta com as mulheres’, Gulf News, Dubai.

‘A partir do momento que as mulheres participam da vida da comunidade, usando essa roupa por escolha pessoal e não ameaçando a seguranca nacional do pais, qual o direito que temos de lhes dizer que tal roupa é mais libertaria que outra? Mais que tudo, a proibição da burca é um atentado aos direitos das mulheres’, The National, Abou Dhabi.

‘ A invasão do véu na Europa nos traz somente vitorias superficiais. Não ha nada do que se vangloriar de ter ter metido um pedaço de pano nas cabeças das mulheres na Champs-Elysées parisiene ou na Trafalgar londrina. Ja que nossas cabeças estão vazias e não são capazes nem de melhorar nossa situação deploravel, nem de oferecer ao mundo nada de positivo’, Al-Jarida, Koweit.

‘Algumas pessoas vão evocar a "liberdade pessoal" para refutar qualquer proibição. Esse argumento solido em si mesmo, perde muito de sua pertinência quando é posto à prova do contexto. (…) Esta na hora de parar com essas atitudes negativas que não somente desrespeitam a mulher, mas sobretudo desfiguram uma religião que como todas as outras é direcionada a encaminhar o homem à etica, ao amor e à espiritualidade. (…) Não estariam eles se excluindo eles mesmos de uma sociedade na qual deveriam se integrar para depois se dizerem vitimas de injustiça e de excusão?’, Courrier International, Paris.

Voila, tirem suas proprias conclusões.

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