Somos obrigados a ter uma opinião sobre tudo, principalmente sobre os assuntos polêmicos. Contra ou favor ao desarmamento? Contra ou a favor à pena de morte? Eu geralmente tenho uma opinião sobre tudo e adoro dar meus palpites. Mas tem certos assuntos que quanto mais eu me informo, mais indecisa eu fico. Por exemplo, até agora eu não sei dizer se acho a intervenção do ocidente na Libia uma coisa boa. Ao mesmo tempo que eu quero muito que aquele palhaço do Kadafi saia de la, eu sei que uma invasão dessas é super perigosa pra população.
O outro assunto do momento que eu definitivamente não consigo formar uma opinião é a proibição da burca na França. Ja falei muito sobre o assunto aqui, e aqui, e até agora não tenho uma posição. Se por um lado proibir uma pessoa de se vestir como ela quer é uma afronta à liberdade pessoal, por outro lado temos que levar em consideração o contexto de opressão das mulheres de burca. Essa é uma velha batalha das feministas francesas. Eu queria muito que as mulheres que usam burca percebessem que elas não são resistentes ou provocadoras, como gostam de pensar. Elas não levantam um debate util. Queria que elas entendessem que jogam anos de luta feminista no lixo, que assumem que são seres inferiores, que se subordinam aos homens. Usar burca não é rebeldia: é burrice. Se é uma escolha completamente pessoal, por que não tem homens que usam a burca? E o pior: se é uma escolha de cada mulher, por que são os homens que organizam protestos contra a lei e ameaçam com ataques terroristas se o governo não voltar atras?
Até hoje eu so vi duas burcas na França, as duas em Saint-Denis, suburbio norte de Paris com grande concentração de muçulmanos. Da ultima vez o vulto preto estava atravessando a rua com um carrinho de bebê e eu, que estava no ponto de ônibus, fiquei olhando pra tentar observar melhor. Levantei de onde eu estava e fiquei encarando mesmo, até porque eu não sabia se ela tinha me visto ou não. Achei estranho que ela parou de repente e ficou imovel. Depois colocou a mão na cintura (acho) e continuou parada. E eu olhando tentando entender o que tava acontecendo. Dai ela retomou o passo e foi embora. So alguns minutos depois é que me veio na cabeça que ela poderia estar me encarando, do tipo "ta olhando o que minha filha?". E eu senti muita pena dela. Porque ela nem foi capaz de demonstrar seu descontetamento com meu olhar fixo, ela sequer pôde protestar contra a minha insistência. Quer dizer, acho que ela até tentou, mas eu não fazia ideia se ela tava olhando pra mim ou pro céu, se ela estava fazendo cara de brava ou não, se a postura dela era de alguém que se sentia agredida ou agressiva. Uma forma de protesto não muito eficaz, convenhamos.
A questão é: sera que uma lei é a melhor forma de combater a burca? Com certeza é a solução mais pratica, não veremos mais vultos pretos andando por ai e assustando as criancinhas, mas a mentalidade continua la. Acho que é a mesma coisa de bater nos filhos pra educar - vai funcionar superficialmente, mas a lição que fica é que ele pode fazer merda se os pais não estiverem olhando. Ja com a conversa, a criança entende porque não deve fazer merda e não vai fazer mesmo se os pais não estiverem por perto.
Os defensores da burca sabem jogar com as armas que o ocidente fornece. Eles não perdem tempo em bradar aos quatro ventos aquele discurso de que não podemos dizer às mulheres o que elas devem vestir, mas são os primeiros a ditar o que elas não devem vestir e fazer e dizer e agir e comprar e comer e pensar. Eles debocham da cara dos humanistas que defendem a liberdade de escolha, cobram coerência, jogam na cara as contradições. E são argumentos dificeis de rebater, porque a linha é tênue e tudo o que você diz pode ser usado contra você. Como se a liberdade tivesse se tornado de repente a bandeira mais preciosa do Islã.
Apenas em casos especificos previamente determinados pelos homens, é claro.





