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sexta-feira, 15 de abril de 2011

A liberdade zombando da igualdade e da fraternidade

Somos obrigados a ter uma opinião sobre tudo, principalmente sobre os assuntos polêmicos. Contra ou favor ao desarmamento? Contra ou a favor à pena de morte? Eu geralmente tenho uma opinião sobre tudo e adoro dar meus palpites. Mas tem certos assuntos que quanto mais eu me informo, mais indecisa eu fico. Por exemplo, até agora eu não sei dizer se acho a intervenção do ocidente na Libia uma coisa boa. Ao mesmo tempo que eu quero muito que aquele palhaço do Kadafi saia de la, eu sei que uma invasão dessas é super perigosa pra população.

O outro assunto do momento que eu definitivamente não consigo formar uma opinião é a proibição da burca na França. Ja falei muito sobre o assunto aqui, e aqui, e até agora não tenho uma posição. Se por um lado proibir uma pessoa de se vestir como ela quer é uma afronta à liberdade pessoal, por outro lado temos que levar em consideração o contexto de opressão das mulheres de burca. Essa é uma velha batalha das feministas francesas. Eu queria muito que as mulheres que usam burca percebessem que elas não são resistentes ou provocadoras, como gostam de pensar. Elas não levantam um debate util. Queria que elas entendessem que jogam anos de luta feminista no lixo, que assumem que são seres inferiores, que se subordinam aos homens. Usar burca não é rebeldia: é burrice. Se é uma escolha completamente pessoal, por que não tem homens que usam a burca? E o pior: se é uma escolha de cada mulher, por que são os homens que organizam protestos contra a lei e ameaçam com ataques terroristas se o governo não voltar atras?


Até hoje eu so vi duas burcas na França, as duas em Saint-Denis, suburbio norte de Paris com grande concentração de muçulmanos. Da ultima vez o vulto preto estava atravessando a rua com um carrinho de bebê e eu, que estava no ponto de ônibus, fiquei olhando pra tentar observar melhor. Levantei de onde eu estava e fiquei encarando mesmo, até porque eu não sabia se ela tinha me visto ou não. Achei estranho que ela parou de repente e ficou imovel. Depois colocou a mão na cintura (acho) e continuou parada. E eu olhando tentando entender o que tava acontecendo. Dai ela retomou o passo e foi embora. So alguns minutos depois é que me veio na cabeça que ela poderia estar me encarando, do tipo "ta olhando o que minha filha?". E eu senti muita pena dela. Porque ela nem foi capaz de demonstrar seu descontetamento com meu olhar fixo, ela sequer pôde protestar contra a minha insistência. Quer dizer, acho que ela até tentou, mas eu não fazia ideia se ela tava olhando pra mim ou pro céu, se ela estava fazendo cara de brava ou não, se a postura dela era de alguém que se sentia agredida ou agressiva. Uma forma de protesto não muito eficaz, convenhamos.

A questão é: sera que uma lei é a melhor forma de combater a burca? Com certeza é a solução mais pratica, não veremos mais vultos pretos andando por ai e assustando as criancinhas, mas a mentalidade continua la. Acho que é a mesma coisa de bater nos filhos pra educar - vai funcionar superficialmente, mas a lição que fica é que ele pode fazer merda se os pais não estiverem olhando. Ja com a conversa, a criança entende porque não deve fazer merda e não vai fazer mesmo se os pais não estiverem por perto.


Os defensores da burca sabem jogar com as armas que o ocidente fornece. Eles não perdem tempo em bradar aos quatro ventos aquele discurso de que não podemos dizer às mulheres o que elas devem vestir, mas são os primeiros a ditar o que elas não devem vestir e fazer e dizer e agir e comprar e comer e pensar. Eles debocham da cara dos humanistas que defendem a liberdade de escolha, cobram coerência, jogam na cara as contradições. E são argumentos dificeis de rebater, porque a linha é tênue e tudo o que você diz pode ser usado contra você. Como se a liberdade tivesse se tornado de repente a bandeira mais preciosa do Islã.

Apenas em casos especificos previamente determinados pelos homens, é claro.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mulheres na eleição 2012

No ultimo post, a Lola, perguntou por quê as candidatas francesas estão perdendo espaço nas eleções presidenciais do ano que vem. Ela citou a Ségolène Royal e a Martine Aubry e lembrou que a França nunca teve uma presidente mulher.

Engraçado como nem sequer tinha passado na minha cabeça essa luta de gêneros na politica francesa. Mas é porque acho que ela não tem espaço. O fato de ser mulher não é uma desvantagem, nem uma vantagem na vida publica, acho realmente que não tem a menor diferenciação. Sim, parece meio incoerente dizer isso sabendo que nunca uma mulher foi presidente, mas eu acho mesmo que é so uma questão de tempo. Se o PS se decidir pela Aubry, na proxima eleição teremos três candidatas de peso: a propria Aubry, a Le Pen e a Eva Joly. Menção honrosa para a Arlette Laguiler, candidata de extrema-esquerda que detém o recorde de candidaturas em eleições presidenciais: seis, com a sétima a caminho. Ela não tem chances não por ser mulher, mas porque os partidos comunistas geralmente não têm muitos votos.

Então o problema não é representatividade. Elas estão no poder, da extrema-direita à extrema-esquerda. Elas são ativas e militantes, cada qual com sua luta, como expliquei em detalhes neste post convidado no blog da Luciana. O unico partido grande que não tem uma possivel candidata mulher é justamente a UMP, o partido do governo, que parece insistir num Sarkozy completamente rejeitado pela população.

No caso especifico do Partido Socialista e a diminuição da popularidade das duas candidatas (Royal e Aubry) em favorecimento de Dominique Strauss-Kahn é simples. Strauss-Kahn pertence ao PS, mas na verdade ele segue uma linha mais de direita - o cara é diretor geral do FMI, oras! - então ele rouba votos do Sarkozy, coisa que as duas canditatas, mais de esquerda, não conseguem. Os eleitores do Sarkozy estão decepcionados e procurando alternativas. Então entre um candidato classico do PS e a extrema-direita, eles preferem a extrema-direita da Marine Le Pen. Mas se eles tiverem a opção de votar numa esquerda mais endireitada, que é justamente a proposta de Strauss-Kahn, muitos iriam com o PS. Isso faz com que a preferência geral dos franceses caia sobre o diretor geral do FMI, mas não quer dizer que a preferência do PS seja ele. Os filiados socialistas não querem Strauss-Kahn, porque simplesmente ele não os representa. Então o PS vai ter que tomar uma decisão estratégica importante: ou seguir firme aos principios do partido e indicar Martine Aubry ou correr menos riscos de perder a eleição com Dominique Strauss-Kahn.

Ségolène Royal ja saiu da corrida porque não tem as qualidades necessarias para ser presidente. Pessoalmente acho que foi um erro apresenta-la da ultima vez. Ela não tem carisma, não tem jogo de cintura,  não é durona, não sabe falar em publico (seus discursos dão vergolha alheia, são piores do que minhas apesentações orais no mestrado quando eu não falava francês direito). Parece que ela esta sempre meio perdidona, insegura. Muita gente tem verdadeira antipatia por ela.

Então o fato delas serem mulheres não interfere em nada nesse caso. Justamente como deveria ser, né? E pensando bem, ha chances de irem duas mulheres para o segundo-turno: se o PS escolher Aubry e a UMP insistir em Sarkozy, é bem provavel que Marine Le Pen (extrema-direita) e Martine Aubry disputem a presidência. E claro que o PS ganha. Não seria nada mal, heim?

domingo, 13 de março de 2011

E tudo volta ao normal

Pequeno post de domingo pra complementar o assunto da pesquisa de opinião favoravel à Marine Le Pen, candidata do Front National. Foram inumeras contestações ao método empregado pela Harris Interactive: escolha de uma candidata pouco popular do PS, questionarios feitos pela internet, entrevistados que teriam sido pagos para responder, etc, etc, etc.

No meio disso tudo, uma nova pesquisa foi publicada pelo jornal La Dépêche du Midi, feita dessa vez pela CSA, dando vantagem ao Partido Socialista. Satisfeitos agora? Nem vou falar que ja sabia porque fica chato, né? :) A diferença é que eles usaram o nome de outro canditato, o Dominique Strauss-Kahn. Então ficou assim: 30% para o PS, 21% para o Front National e 19% para a UMP com Sarkozy. Triste para o petit Nicolas.

YMCA? Não, Front National

Estou até torcendo pra continuar assim, porque como ja disse, o FN nunca vai ganhar uma eleição presidencial, pelo menos não nos proximos anos. Eles sequer têm um plano de governo, so sabem ficar repetindo aquelas baboseiras racistas pra tentar chamar atenção. Eles são apenas um partido que se sustenta em velhinhos que vivem repetindo "no meu tempo que era bom". Inofensivos. E mesmo supondo que ganhem, o que podem fazer pior do que esta fazendo Sarkozy? Apenas continuar sua politica de privatizações, enriquecimento dos ricos, cerco aos imigrantes e outras coisinhas que a UMP ja esta fazendo muito bem. Se o Front Nacional decidisse mandar embora todos os estrangeiros legais ou ilegais de uma vez, a economia cairia. Retorno da pena de morte como pregam? Dificilmente a sociedade francesa aceitaria. Proibição de abortos? Du-vi-do.

Se acontecer um segundo turno entre eles e o PS, é vitoria na certa para o PS. E seria muito bom ver Sarkozy completamente humilhado (mais ainda do que ele ja esta) no fim do seu mandato.

segunda-feira, 7 de março de 2011

França extrema-direita?

Uma pesquisa de opinião divulgada ha dois dias no jornal Le Parisien esta causando um fuzuê entre os franceses (o mais perto de um carnaval que eles conseguiram chegar). Pra quem não esta acompanhando, o resultado da pesquisa sobre as eleições presidenciais deu um favoritismo à Marine Le Pen, candidata do partido xenofobo e de extrema-direita, Front National. Le Pen teria alcançado 23% das intenções de votos. Nicolas Sarkozy (UMP) e Martine Aubry (PS) apareceriam empatados com 21% cada.

E então tem gente gritando aos quatro ventos que a França é um pais racista e xenofobo, que a extrema-direita esta a um passo de ganhar as presidenciais e que os franceses não querem mais saber de politica social, querem mais é expulsar todo mundo. Pera la, né? Pra começar, tem muita gente duvidando da credibilidade dessa informação por varios motivos. Antes de tudo, a pesquisa de opinião da Harris Interactive foi feita pela internet. Eu mesma de vez em quando recebo uns questionarios deles e quando o assunto me interessa, até respondo. Mais ainda temos um problema mais funcional: ao contrario do Front National, os outros grandes partidos ainda não definiram seus candidatos. O Partido Socialista anda numa eterna lenga-lenga pra saber quem indicar. A Segolène Royal deu uma de espertinha e anunciou sua candidatura ha uns meses, mas parece que ninguém levou muito a sério, pois ela não tem muitas chances mesmo. Então por que a pesquisa tomou a decisão que nem o proprio partido consegue tomar? Além do mais, a Aubry aparece como a ultima colocada do PS na preferência dos eleitores. Sera que a pesquisa não a escolheu de proposito? As opções de candidatos, além da Aubry, são Dominique Strauss-Kahn (diretor geral do FMI, não tão de esquerda assim e que aparece como o preferido do eleitorado) e François Holland, que foi capa da revista Le Point da semana passada com o titulo "O homem que amedronta Sarkozy" (muito exagerado, diga-se de passagem).

Mesmo a UMP ainda não sabe quem apresentar. Sim, o caminho natural seria tentar a reeleição de Sarkozy, mas o cara anda tão, mas tão impopular que a direção do partido esta hesitante. Sarkozy esta batendo todos os recordes de rejeição, seria uma manobra arriscada demais: ninguém mais quer o baixinho. Então a competição ja começa injusta, com alguns candidatos ja oficiais e outros não. Acho um tremendo erro da midia não apresentar esses fatos e ja sair por ai falando que a Le Pen é favorita. Como disse Alain Duhamel, du très mauvais journalisme.

O Front Nacional é aquele tipo de partido que sempre vai existir, mas nunca vai ganhar - pelo menos não em condições normais de temperatura e pressão (semelhanças com os partidos comunistas não é mera coicidência). Ele vai sempre eleger deputados e tal, porque com certeza tem seu publico. Eh tipo o Bolsonaro, que sempre vai conseguir se eleger para cargos menores, pois tem eleitores fieis, mas nunca vai conseguir passar disso. Então alguém fala "Ah, mas o Le Pen (o pai) ja foi pro segundo turno". Sim, mas vocês ja entenderam por que?

O primeiro turno das eleições de 2002 foi muito disputado. Acontece que todo mundo ficou muito embolado. Chirac teve menos de 20%, Le Pen 16,86%, Lionel Josepin (PS) 16,18%, François Bayrou 6,84% e todos aqueles candidatos nanicos de esquerda em seguida. O Front Nacional roubou a cena e pegou a vaga no segundo turno que tradicionalmente pertence ao Partido Socialista. Mas isso não quer dizer que os franceses se tornaram todos uns retrogrados, significa apenas que a esquerda cometeu seu eterno erro de fragmentação. Tanto que Chirac se elegeu com incriveis 82% de votos - um segundo turno nunca foi tão facil. Le Pen NUNCA ganharia. E a esquerda se viu obrigada a votar num candidato da direita, seu pior pesadelo.

Somados, os partidos de direita e esquerda conseguiram mais ou menos a mesma porcentagem de votos, sem contar o François Bayrou, que é centro. Ou seja, foi uma total falta de estratégia. Se apenas um dos partidos nanicos de esquerda tivessem feito aliança com o PS (e dois deles normalmente fazem), eles iam pro segundo turno.

O interessante é que tem gente dizendo que em 2012 a historia pode se repetir, mas dessa vez a favor da esquerda. A UMP esta tão impopular, que pode ser que o Front Nacional pegue novamente o segundo turno, mas dessa vez contra o Partido Socialista. Se isso acontecer, é so o PS correr pro abraço. Parece que a esquerda esta mais espertinha e ja esta tentando se unir. O Partido Verde tem uma candidata com potencial, a Eva Joly, mas o partido ja deixou a entender que se ela não tiver chances reais de vitoria, apoiarão o PS. Ou seja, a grande popularidade do Front National pode ser uma boa noticia para a esquerda. Eh improvavel que o partido de Sarkozy deixe a situação chegar a esse ponto, afinal de contas eles são bons em estratégias. Mas que existe uma possibilidade, ah isso existe. E vou arriscar dizer que ela não é pequena não.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ainda sobre o islamismo na França

Sobre o meu post anterior e seus comentarios, não devemos confundir imigração com o aumento do islamismo na França. Apesar de os dois estarem de certa forma relacionados, são completamente diferentes. Vocês não vão me ouvir nunca falar mal de imigração, até porque eu acho o fim da picada imigrantes falarem mal de imigração. Acho sim, que a França, assim como todos os colonizadores, vacilaram muito com os paises subdesenvolvidos e eles deveriam ter todo o direito de vir pra Europa recuperar o que foi tirado deles. Em vez de reclamar do fluxo migratorio ilegal, os paises desenvolvidos deveriam ser obrigados a ajudar o desenvolvimento dos paises pobres, assim ninguém mais iria querer vir. Acho essa coisa de preservar a pureza dos franceses ou de qualquer outro "povo" uma tremenda besteira, eu queria mesmo era que todo mundo se misturasse de vez pra acabar com qualquer tipo de racismo.

O negocio é que não são apenas os imigrantes que estão trazendo o Islã pra Europa. Como eu ja disse, os imigrantes da geração passada chegaram na França com o desejo de ter uma vida melhor, então eles não estavam preocupados em rezar cinco vezes por dias ou em saber qual direção exatamente ficava Meca, eles estavam ocupados trabalhando, ganhando seu dinheirinho, não tinham tempo a perder e foram se desligando da religião. Mas dai que seus filhos e netos, que apesar de não serem mais magrebinos, viraram alvo de preconceito na França: não conseguem emprego por causa do sobrenome, são acusados de gentalha pelo governo francês, etc etc, então eles fazem o que ha de mais humano - se mostram exageradamente orgulhosos de suas raizes. E se usar veu incomoda esses franceses estupidos, vamos la comprar um veu bem bonito. Quem sabe eu não faria a mesma coisa?

E tem a conversão de alguns franceses ao islã. Não chega a ser um fenômeno, mas existe. Eu conheço uma francesa de 20 anos que passou a usar o veu por causa do namorado. Então o assunto não é imigração, mas o aumento da religião muçulmana na França.

Como disse o José Fernando, cujo comentario alias, foi melhor que meu post, o problema é o fundamentalismo religioso, seja ele islâmico, catolico, evangélico, budista. Talvez eu não tenha sido clara no ultipo post, ja que não usei palavras como radical ou fundamentalista, mas é que eu acho que toda religião pura é radical e fundamentalista. O catolico de verdade é tão radical quanto o muçulmano, a diferença é que quase não existe mais catolicos de verdade nos paises ocidentais. As pessoas se dizem catolicas por convenção, mas ninguém deixa de ir à praia domingo pra ir à missa. Agora, os muçulmanos são diferentes, eles realmente seguem a religião, eles não comem porco, eles fazem o Ramadã e ficam 40 dias sem comer durante o dia! A gente não come carne na semana santa e ja acha que esta fazendo um grande sacrificio.

Acho sim, que quando religião toma espaço demais na vida publica é um retrocesso no desenvolvimento humano. Sobre religião e mulheres, ja falei no texto "Quando deus é o chefe do homem e o homem é o chefe da mulher" (acho que esse foi o post mais popular do blog, inclusive uns retardatarios islâmicos que descobriram o texto meses depois dele ser publicado e se manisfestaram com toda a educação e o respeito que as religiões ensinam #ironia). Então me preocupa essa onda de conservadorismo, como disse a Aline nos comentarios, que nesse momento esta vindo na forma de islamismo. Meu problema não é com o islã, nunca vou dizer que os muçulmanos são o problema da França. O problema é o retrocesso, que seria exatamente o mesmo se todos os franceses decidissem voltar às suas raizes catolicas. Seria resgatar o espirito francês? Não, seria simplesmente um retrocesso tão grave quanto o que estamos discutindo agora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A invasão islâmica na França

Antes de vir pra França eu era muito interessada no mundo arabe. Queria aprender a lingua, estudar mais a politica desses paises, tentar entender mais a religião muçulmana. Achava que os rebeldes islâmicos eram incompreendidos, que o ocidente esmagava sua cultura, seu povo. Até minha monografia de conclusão de curso foi sobre o Hamas. Dai duas coisas importantes aconteceram: passei a ter mais contato com o feminismo e vim pra Paris.

Então, do ponto de vista feminista, é impossivel defender a religião muçulmana. Defesa da igualdade dos gêneros e islamismo definitivamente não andam juntos. Que fique claro que acho que todas as religiões oprimem as mulheres, mas hoje eu quero falar apenas da islâmica. No inicio eu até engoli aquela velha historia de que na verdade os muçulmanos respeitam tanto a mulher, que as protegem com véus, burcas e paredes. Eles valorizam tanto a mulher, que seria um absurdo elas terem que trabalhar fora. Eles acham que as mulheres são tão melhores que os homens, que so elas sabem como cuidar de bebês e tomar conta da casa de maneira digna. Poxa, esse truque deve ser mais velho que Maomé! 

Depois, morando em Paris, fui tendo muito mais contato com os arabes. Conheci muita gente bacana, como a familia de um dos bebês que tomei conta: por parte de pai, os avos eram argelinos muçulmanos e por parte de mãe, eles eram argelinos judeus. Mas nenhum deles era praticante. O chéri tem um tio argelino, muçulmano de origem, mas também não praticante, que é comunista e super gente boa. Mas eu também comecei a perceber que toda vez que um cara falava grosserias na rua quando uma menina passava, ele era arabe. Comecei a me indignar com os diversos casos de poligamia, de humilhação feminina e de violência doméstica praticados pelos muçulmanos. Quem mora em Paris sabe que tem muito arabe morando aqui. Tipo, muito muito. E tem todo um movimento sociologico, que resumindo bem, chega a conclusão que os primeiros imigrantes meio que abandonaram a religião ao chegar na França, ocupados em ganhar a vida, mas seus descendentes, que eram (e continuam sendo) excluidos pela sociedade acabaram abraçando o islâmismo ja esquecido por seus pais, como para ter uma identidade propria. E assim, a religião muçulmana cresce muitissimo no pais. E com ela, as praticas altamente patriarcais (mais ainda do que as nossas).

Tudo indica que a progressão do islamismo na França sera um assunto muito presente da pauta das eleições presidenciais francesas no ano que vem, talvez tomando até o lugar do debate sobre a imigração. A extrema-direita, representada por Marine Le Pen, não tem papas na lingua e critica abertamente a "invasão" do islã. A direita, representada pelo proprio presidente Sarkozy, ja demonstrou concretamente que também não é favoravel à tolerância islâmica. A esquerda? Bom, a esquerda tenta se calar ao maximo, porque sabe que esse é um assunto muito espinhoso e mesmo os franceses mais liberais tendem a ser contra a progressão do islã na Europa. A revista L'Express publicou uma reportagem sobre o assunto dizendo que 76% da classe média (média de verdade, não como no Brasil) acha que o islamismo progride demais no pais, segundo sondagem do Ifop. Outra pesquisa, feita pelo jornal Le Monde, confirma que 42% dos franceses pensam que a presença de uma comunidade muçulmana na França constitui uma ameaça para o pais. Mesmo entre a esquerda essa corrente é concreta. Em 20 anos, a porcentagem dos franceses contra o uso do véu religioso na rua aumentou 28 pontos (o véu, assim como qualquer simbolo religioso como cruzes e quipas, são proibidos em predios publicos como escolas e hospitais, mas não na rua).

Ano passado o governo tentou forçar um debate sobre identidade nacional que não colou muito. Mas no fundo, acho que a coisa é essa mesmo, um debate sobre identidade nacional. Ninguém sabe muito bem definir o que é ser francês: os mais tradicionais podem falar da guerra, de patriotismo, da lingua; os mais moderninhos podem falar da mistura gostosa que ja conhecemos no Brasil faz tempo. Mas se é dificil definir o que é francês, fica mais facil definir o que não é, especialmente quando se passeia na rua cruzando dezenas de lojas halal, vendo mulheres cada vez mais escondidas em seus panos pretos, vendo dezenas de pessoas rezando voltadas pra Meca atrapalhando a calçada. Quando é um ou outro, a gente abraça com força a diversidade e adota um discurso bonito de tolerância, mas quando começa a ser demais, a esquerda francesa (e eu também) começa a coçar a cabeça.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O perfil do francês médio

A revista Le Point comemorou seu 2000° numero com uma reportagem especial sobre os franceses. São 50 paginas sobre o novo francês: quem ele é, como ele vive, quais são suas aspirações. Achei bem interessante, tem muitos dados e estatisticas, pena que tudo é comparado com outros paises da Europa e o Brasil nem é citado. Alias, se fosse uma pesquisa brasileira sobre os franceses com certeza a primeira pergunta seria "quantos banhos os franceses tomam por dia". Logico que esse dado nem aparece na reportagem, tamanho o absurdo da desconfiança.

Talvez eu faça outros posts sobre essa reportagem, mas nesse eu vou reproduzir o perfil do francês médio traçado pela revista, que eu achei bem criativo. Pois bem, o francês médio é... uma francesa. Ela se chama Nathalie Martin e tem 40 anos (52% da população da França é feminina. Na verdade nascem 105 meninos para 100 meninas, mas os meninos têm um risco de mortalidade maior, então aos 25 elas se tornam maioria). Nathalie Martin é o nome mais comum no pais e 40 anos é a média da idade de todos os franceses. Estatisticamente Nathalie vai morrer aos 72 anos. Nossa francesa mede 1,62m, pesa 62kg, calça 37. Se ela fosse homem mediria 1,76m, pesaria 77kg e calçaria 41.

Nathalie é catolica como 64% dos seus compatriotas, mas não vai à igreja. Apenas 4,5% dos catolicos vão à missa domingo. Ela se casou aos 29 anos e teve o primeiro filho um ano depois. O Estado gasta 8 mil euros por ano na educação de cada filho seu (ela tera 2 ou 3). Seu casamento tem 40% de chance de terminar em divorcio. Nathalie é assalariada, mas não ocupa um posto de chefia. As mulheres representam três quartos dos assalariados, mas apenas 9% delas são chefes. Ela estudou até o segundo grau, como 55% dos franceses de mais de 15 anos. Nossa francesa trabalha 35h por semana desde os 21 anos e ganha um salario de 1.405 euros, menos que seu equilavente homem. Mesmo assim ela economiza 16% do seu salario. Nathalie anda com 37 euros na carteira. Ela se aposentara em 2032 e tera ficado pouco mais de um ano desempregada em toda sua vida.

A cada ano, Nathalie produz 390kg de lixo e seu carro percorre 12 mil km. Ela vai 3 vezes ao ano ao cinema, assiste 1.138 horas de TV anuais e ouve 15 horas de radio por semana. Como uma boa francesa, Nathalie gosta de tecnologia: anualmente passa 28h falando no celular, envia mais de mil SMS e gasta 833 horas navegando na internet. Sua conta mensal de celular é de 38 euros. No seu Facebook ela conta 130 amigos, mas na vida real tem apenas 6 bons companheiros. Nossa francesa é heterosexual (apenas 4% da população declara ter tido relações sexuais com pessoas do mesmo sexo), transa 9 vezes por mês e teve sua primeira relação aos 17 anos. Nathalie tem 21% de chances de ser infiel no casamento.

A francesa média mora numa cidade com mais de dois mil habitantes, como 77% da população. Ela é proprietaria de uma casa de 91m² que deve ocupar durante 15 anos. Nathalie gasta 21 minutos para chegar no trabalho.

Voila! Essa é nossa francesa tipica. Suspeito que a Nathalie Martin é um tantinho diferente da Maria da Silva...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Dilma, Carla e a miss

E o ano de 2011 começa em grande estilo com Dilminha na presidência. Sim, vai ser duro, vai ter muita gente besta criticando o que não importa e quem sabe com um pouco de fé na oposição, até o que importa, como politica por exemplo. De qualquer forma, é um passo gigantesco na igualdade de gêneros no Brasil. Como a Lola disse, não é porque temos uma mulher na presidência que a partir de agora todo o sexismo se evapora, mas pelo menos se discute. O meu medo é as mulheres de direita se deixarem levar pela antipatia que sentem pelo PT e acabarem adotando uma postura machista como forma de desafiar a esquerda. Espero que elas tenham consciência do quão contraproducente seria essa decisão.

Ja no primeiro dia tivemos a prova de como essa luta sera longa. Enquanto Dilma brilhava em simbolos e representações, o povo desviava o olhar para o obvio e a imprensa ja bradava satisfeita que uma mulher bonita havia roubado a cena da cerimônia de posse, fazendo questão de nos lembrar, caso tenhamos tido a audacia de esquecer por 5 minutos, que aparência e bom casamento é um papel que cai melhor à mulher do que a presidência de um pais. Porque se perguntarmos pro senso comum qual das duas entre Dilma e Marcela é mais poderosa, corremos o risco de ouvir o absurdo. 

Ouvi muitas comparações entre Marcela Temer e Carla Bruni. Ouvi gente desejando a morte de Dilma para ter uma primeira-dama jovem e bonita como a primeira-dama francesa. O que esse pessoal não sabe é que Carla Bruni é um produto de exportação, porque aqui na França ela so é motivo de piadas. Acho que nunca ouvi uma referência à Carla sem ironia no meio. Os franceses de esquerda se aproveitam do ridiculo obvio da situação para rir da cara do presidente e mesmo os franceses de direita se sentem desconfortaveis. Como eles são mais velhos, mais conservadores, mais Familia Tradição e Propriedade, não gostaram nenhum pouco de ver seu presidente, que deveria ser alguém sério e reservado, nas paginas das revistas de fofocas ao lado de uma modelo-atriz-cantora que ja posou nua. Jacques Chirac, tratava sua esposa de vous, caramba, e chega Sarkozy e chama sua modelinho de Carlita. Com certeza isso não agrada a direita. Não é à toa que o petit Nicolas tem a popularidade super baixa.

Mas o que todo mundo sabe é que Carlita tem la sua função. Se na França sua função é dar assunto pra programas humoristicos, no exterior sua função é agradar as massas, coisa que ela faz muitissimo bem com suas caras e bocas de princesa comportada. Mas o interessante é que esse teatrinho não funciona em todos os paises, apenas nos mais subdesenvolvidos, aqueles onde a função principal da mulher continua sendo a de enfeitar. Tudo bem que na Inglaterra eles adoram uma fofoquinha e uma primeira-dama como a Carla Bruni deve agradar os ingleses. Mas a mise-en-scene é feita mesmo com a gente, os bobos do sul. Até o WikiLeaks revelou telegramas que admitiam como o governo francês se utilizava muito bem da Carla Bruni em suas visitas ao Brasil. O governo brasileiro não se deixou influenciar, mas se dependesse da população, ja teriamos uns 50 Rafales entulhados na garagem.

E ai fica a brasileirada torcendo para ter uma primeira-dama bonitona como a Carla. O que é uma vergonha para os franceses seria motivo de orgulho para os brasileiros. Imagino o constrangimento dos franceses se além de modelo-cantora-atriz, a primeira dama tivesse 40 anos menos que seu marido. Acho que rolava até impeachment. Quando temos a chance de provar que estamos mais na frente do que os paises desenvolvidos na igualdade dos gêneros elegendo uma mulher ao cargo maximo, estragamos tudo no minuto seguinte falando da miss ali ao lado.

domingo, 12 de dezembro de 2010

A justiça policial e um ministro sem noção

Tenho impressão que a policia é a instituição mais corrompida da França. Não é à toa que é uma das profissões mais detestadas pelos franceses. Todo mundo sabe que existe bons e maus policiais, mas a ideia geral é que eles são brutos, arrogantes, violentos e se aproveitam da posição de superioridade em relação ao cidadão comum. Por aqui, ter um policial na familia esta longe de ser um orgulho para os parentes. Enfim, não é uma profissão respeitada e o senso comum tem uma péssima impressão dessa classe profissional. A policia francesa ja foi condenada pela Anistia Internacional por maus-tratos, racismo, uso excessivo da força e pela impunidade para os policiais infratores.

Dai que a justiça francesa resolveu mostrar um pouco de dignidade e condenou sete policiais por falsas acusações contra um homem. Em setembro, um policial foi ferido na perna, atropelado depois de uma perseguição. Ele e seus colegas fizeram um pacto verbal para acusar o homem que perseguiam, mas a verdade é que foi uma viatura policial que causou o acidente. O homem em questão foi acusado de tentativa de homicidio de um policial, crime passivel à perpetuidade. Ao longo do processo, contradições entre os envolvidos começaram a aparecer e eles acabaram confessando a farsa. Na ultima sexta-feira, foram condenados de seis meses à um ano de prisão. Três deles foram condenados ainda por violência policial durante o interrogatorio do suspeito, que teve que ficar sete dias em casa por causa das agressões sofridas. Como os policiais precisam ter ficha limpa para exercerem sua profissão, os sete serão expulsos da policia.

Até que enfim uma boa noticia, não? Justiça sendo feita, dando o exemplo para outros policiais e limpando a corrupção de dentro da policia. Mas parece que nem todo mundo pensa assim. Primeiro foi uma manifestação de cerca de 200 policiais contra a decisão da justiça, revoltados com a condenação. Depois foi o ministro do interior, Brice Hortefeux (famoso por suas posições reacionarias e racistas) que declarou que "nossa sociedade não deve confundir o alvo: é contra os delinquentes e os criminosos que temos que lutar". Sim, monsieur Hortefeux, que tal começarmos pelos policiais corruptos?

Achei que eu estava perdendo alguma coisa, que não estava entendendo a historia inteira, tamanho o absurdo de suas declarações. Como condenar a justiça por ter feito enfim seu trabalho? Acho que essa historia ainda vai dar o que falar, mas espero que a justiça siga firme. A policia finalmente esta se sentindo vulneravel face à justiça e uma reviravolta daria aos policiais a certeza absoluta que estão acima da lei. Ja esta mais do que na hora de acabar com a tirania policial na França.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

E se nos mostrassem o que não queremos ver?

Ontem à noite estava vendo um filme sobre a segunda guerra mundial e torci o nariz quando a câmera deu close em dois corpos mutilados jogados num canto. Eu sempre achei que mostrar cenas morbidas, de cadaveres dilacerados e tal era de extremo mal gosto e servia apenas para o prazer bizarro que certas pessoas têm de ver essas coisas. Tipo aquele video Faces da Morte, sabe? Que mostra gente morrendo na frente das câmeras. Sempre fugi dessas coisas e não entendo como ha publico para esse tipo de espetaculo. Eu sentia o mesmo em relação ao jornalismo. Trabalhei no jornal da TV Brasil (quando ainda era TVE) e parte do meu trabalho era olhar as imagens que recebiamos da Reuters. Ficava irritada com a quantidade de corpos em estado inimaginaveis, mesmo de crianças, que apareciam na minha frente. Achava que os jornalistas não deveriam nunca expôr essas imagens.

Mas...

Ha uns três anos li o livro do jornalista inglês Robert Fisk, A Grande Guerra pela Civilização. Para mim, Fisk é a referência sobre cobertura de guerra, o cara é brilhante. Ele trabalha no The Independent (que ja respeito pela sua posição independente), mora no Libano e cobriu diversos conflitos no Oriente Médio. Dai que ele defende a publicação de fotos e videos barbaros, com corpos dilacerados, com crianças mortas, com braços espalhados pelo chão. Justamente para mostrar que a guerra não se resume aos numeros, às estatisticas, às estratégias. Ele viu coisas tão terriveis que acha que se todos vissem o que ele viu, o mundo seria pacifista. A verdade é que ouvir "treze pessoas morreram e trinta ficaram feridas" entra por um ouvido e sai pelo outro, mas ver as treze pessoas mortas e as trinta feridas nos jogaria na cara a barbarie que esta acontecendo logo ali, enquanto estamos sentados confortavelmente em nossos sofas. Porque a guerra é muito diferente do que acontece nos filmes. Quando um cara é atingido, raramente acontece como na TV que a bala entra no peito, mancha um pouco a camisa e tchum, ele morre. A realidade é bem mais feia que isso e a guerra de verdade é inimaginavel pra mim ou pra você.

Quem sabe se formos confrontados com a realidade, não nos comovemos mais, não vemos mais claramente o absurdo da coisa e fazemos uma maior pressão para o fim dessas guerras. Se o Bush fosse obrigado a ver cada um dos corpos dos inocentes que ele matou, quem sabe ele não tomaria decisões mais sabias no Iraque? Porque é muito facil continuar quando se tira toda a humanidade do conflito, quando a morte de crianças se torna "efeito colateral", quando a dor se converte em estatisticas e quando o sofrimento se transforma em numeros.

Continuo dividida. Ao mesmo tempo que acho os argumentos dele muito validos, não gostaria de dar de cara com fotos chocantes cada vez que abrisse os jornais. Sera que precisamos mesmo de um estimulo visual para termos mais empatia com os povos que sofrem?

sábado, 27 de novembro de 2010

O verdadeiro problema do Rio

Meu entusiasmo com uma possivel mudança no Rio diminuiu bastante. Tudo bem que nesse momento estamos todos precisando de um pouco de otimismo e esperança, mas acho que o caminho é muito mais longo do que a gente quer crer. Estou gostando de ver os cariocas unidos, apoiando a policia e certos de que dias melhores virão. Mas temos que assumir que mudanças reais estão ainda muito longe de acontecer. Porque, como sempre, o buraco é mais embaixo. A dura verdade é que o problema do Rio não é o trafico de drogas.

Podem prender todos os traficantes, podem acabar com trafico, podem até legalizar as drogas que a violência vai continuar. Esse é so um dos meios encontrados pelos bandidos para ganhar dinheiro. Se não tiver drogas tera assalto, sequestro, e sabe-se la o que mais. Nos ultimos anos temos ouvido muito dizer que a educação é a solução, que trabalhos sociais são indispensaveis, que escolinhas de esportes ajudam as crianças a se manterem longe de problemas. Eh verdade que todas essas coisas são indispensaveis, mas sozinhas elas não se sustentam. Parece que com esse discurso a classe média quer lavar as mãos de qualquer responsabilidade, ja que educação é papel do governo. Fico surpresa que se fale tão pouco na real raiz do problema: a desigualdade social.

Enquanto houver tamanha disparidade entre os salarios, havera violência. Fiz uma pequena pesquisa pra comprovar essa teoria e vou expor aqui alguns dados. Pra começar, acho que todos sabem que o Brasil é um dos paises mais desiguais do mundo. A brilhante ideia dos militares de aumentar o bolo pra depois dividir não deu certo e até hoje sofremos as consequências. Não deu certo simplesmente porque ninguém nunca quer dividir. Pra se ter uma idéia, os 10% mais ricos do Brasil ganham em média 51 vezes mais que os 10% mais pobres. Esse numero é pior que o Peru (30 vezes), o México (25 vezes), a China (21 vezes). Entre os paises desenvolvidos, a comparação chega a ser humilhante: EUA (16 vezes), Portugal (15 vezes), França (9 vezes), Japão (4,5). Esse grafico sobre desigualdade que tirei da Wikipedia também nos ajuda a ter uma ideia do absurdo:


A violência esta muito mais ligada à desigualdade social do que à pobreza sozinha. Pessoas extremamente pobres convivendo com pessoas extremamente ricas se revoltam, sobretudo porque não ha quase nenhuma possibilidade de mudar de classe social, por mais que o capitalismo te queira convencer do contrario. O grafico abaixo que eu fiz mostra como desigualdade social e violência caminham lado a lado:

Desigualdade e violência em 21 paises:

A linha azul representa o coeficiente de Gini, um calculo que mede a desigualdade; a linha vermelha mostra a taxa de homicidios por 100 habitantes; e a linha pontilhada verde representa a porcentagem da população abaixo da linha de pobreza de cada pais. Os numeros foram transformados em uma escala de 0 a 1 para facilitar a comparação de indices diferentes. Vemos claramente que a violência tem relação direta com a desigualdade social e que a pobreza interfere pouco. E podemos perceber também que mesmo se o Brasil diminuir pela metade seus homicidios, ainda assim estara muito longe da média entre os paises desenvolvidos.

Acabar com o trafico nas favelas tem que ser apenas o inicio de uma politica conjunta entre todas as esferas do poder e da sociedade. Parece que os responsaveis pela segurança publica estão fazendo um bom trabalho prendendo os bandidos, mas apenas isso não é suficiente. A repressão sozinha nunca foi a solução pra nada. Teria que entrar sim a educação, os projetos sociais, mas acima de tudo a sociedade tem que estar disposta a dividir o bolo. Chegou a hora. Não da pra querer paz sem abrir mão de alguns privilégios. Não é na base da porrada que o problema da violência vai acabar, é na base da justiça - ela é unica via duravel. Não adianta nada o exército, a marinha e a aeronautica invadirem as favelas, se os pobres continuam pobres. Outros marginais vão surgir, se não com o trafico de drogas, com outra coisa.

Dividir o bolo é dificil porque todo mundo se acha pobre, ja que todos se nivelam para cima, nunca para baixo, se comparando com aquele tio rico ou com o vizinho bem de vida. Mas nos, classe média, precisamos sair da bolha que vivemos e assumirmos que somos a elite do Brasil e que não adianta nada continuarmos nos comparando com milionarios se a maioria da população vive na miséria.

 E ai, você esta disposto a dividir seu pedaço?

Guerra no Rio

Quando decidi morar na França fiquei triste por deixar meus amigos e minha familia, é claro. Porém, fiquei duas vezes feliz: a primeira por chegar em um lugar novo e a segunda por sair do Rio. Acho que eu devo ser uma das poucas cariocas que diz não gostar de morar no Rio. Poxa, eu vivia com medo! Tinha medo de sair à noite e voltar de madrugada, tinha medo quando cruzava uma viatura de policia na linha vermelha, tinha medo de ir da minha casa na Tijuca para a casa da minha avo em Olaria, passando por varias favelas e ouvindo tiros pelo caminho. Acontece que o meu Rio não é Ipanema, Leblon, Gavea. O meu Rio é Olaria, Ramos, Penha, Complexo do Alemão e somente aos 17 anos, Tijuca.

E eu não tinha medo so por mim. Quando minha mãe ia sozinha pra casa da minha avo eu morria de preocupação até ela ligar pra dizer que tinha chegado. Eu também morria de medo pela minha familia por parte de mãe que mora numa rua de acesso ao morro do alemão e pela familia do meu pai que mora na Penha, cercada de favelas. Quando eu fui embora continuei preocupada, claro, mas era menos pontual, porque eu não sabia quando minha mãe estava indo pra minha avo ou quando o bicho estava pegando nos morros. Mas às vezes eu ligava pro meu pai e ouvia os tiros no telefone.

O mais impressionante é a normalidade com que a gente encara a violência. Isso ficou ainda mais claro depois que vim morar fora do pais. Para mim, era absolutamente normal ouvir barulho de tiro e rajadas de metralhadoras. O cheri me zoava cada vez que eu ouvia um barulho e dizia "Xiiii, é tiro". Uma vez, logo no inicio, quase me joguei no chão achando que tinha tiro bem perto da gente. Imaginem o ridiculo da cena! Mas para mim ja era reflexo de sobrevivência! No começo desconfiava de crianças negras que detectava com o canto do olho e quando olhava pra elas me sentia a pior das pessoas: via crianças como qualquer outra, de mochila indo pra escola. Mas é isso que nos, cariocas, fazemos: desconfiamos de crianças negras que cruzamos na rua! E ainda as chamamos de trombadinhas. Eh dificil admitir, é muito triste, mas é verdade.

Cheguei ao ponto de acreditar que o Rio era um caso perdido. Não tem mais solução, pensava. E todo mundo à minha volta também pensava o mesmo. Imaginem a minha surpresa e felicidade ao conversar com cariocas que diziam que a violência no Rio estava melhorando com a nova politica implantada pelo governador Sérgio Cabral, com suas UPPs. Minha mãe disse que o caminho para a casa da minha avo estava bem tranquilo, meus amigos do Grajau disseram que as favelas em voltas estavam numa paz que nunca tinham visto antes, mas uma coisa me preocupava: todo mundo dizia que os bandidos estavam sendo expulsos de suas comunidades e se concentrando no gigante Complexo do Alemão e o dia que a policia invadisse o Alemão a coisa ia ficar feia.

Achei normal a reação dos bandidos para tentar pôr a população em pânico para que ela fizesse pressão para acabar com essa politica que os esta prejudicando. Mas a população não é boba e pela primeira vez esta totalmente do lado da policia. Acho que a grande maioria dos cariocas é favor de ir até o fim, como se essa fosse uma batalha final de uma guerra que durou décadas. E eu pensei, poxa minha familia ja vive sob risco constante, então pelo menos dessa vez é por um bom motivo e quem sabe, pela ultima vez. Como estou longe não sei exatamente qual o clima do Rio nesse momento, mas meu amigo Flavio me deu uma ideia do otimismo geral:

"Eu realmente acho que alcançamos um divisor de águas. O clima na cidade é estranho demais. As pessoas estão com medo, mas o que se destaca mais é o engajamento da população, a coragem. Todos estão do lado da polícia, e finalmente conseguimos ver a polícia do nosso lado. Lá na Penha, as pessoas estavam dando água para os PMs!!! Onde já se viu isso no RJ!!! É a hora, e todos já sacaram isso. A sensação é de que não dá pra voltar atrás, agora é só ir pra frente. Mudou alguma coisa na cidade, não sei se pra melhor ou pior, mas alguma coisa mudou claramente.

Amanda, o Brasil é o país do futuro? A Tânia esteve aqui e disse que é o que mais se fala por aí. E eu acredito nisso, acho que em 4-5 anos essa cidade vai se transformar absurdamente. Limpeza, segurança, educação das pessoas, trânsito, Lagoa Rodrigo de Feitas, Baía de Guanabara... isso tudo vai mudar, seja por bem ou por mal. Seja profundamente ou só uma maquiagem para o mundo ver, mas essa cidade já começou o seu processo de mudança.

Nesses últimos dias de "atentados terroristas" e guerra declarada, Amanda, você tem que ver as declarações das pessoas nas ruas, ninguém se prende muito ao momento, todos falam da esperança no futuro. As pessoas estão muito conscientes de que precisam pagar por 20 e tantos anos de descaso com a segurança pública. Então estão falando assim mesmo: Temos que passar por isso, para isso acabar e chegarmos em um lugar melhor. O clima é muito diferente (acho que dá para notar pelo tom desse texto que escrevi, né?)".

Achei muito emocionante o que ele escreveu, mas não posso simplesmente gritar "agora é a hora, a policia tem que acabar com a festa dos bandidos", quando minha familia é refém dessa disputa. Eles estão la, presos dentro da casa que julgam mais segura, com medo. Minha priminha de um ano esta la. Quem foi trabalhar não conseguiu voltar e primos foram dormir na casa de amigos. Com certeza ter minha familia la no meio da guerra me faz ter uma postura diferente do que eu teria se eles não tivessem la. Provavelmente eu nem estaria tão interessada no assunto, estaria acompanhando meio de longe, entusiasmada com as mudanças que estão acontecendo e torcendo pra o exército invadir logo pra devolver a paz no Rio. Mas sera que para chegar à paz temos que passar pela guerra? Adorei a iniciativa da ONG Rio de Paz que propõe uma negociação de rendição dos bandidos, para que o alemão não se transforme em um campo de guerra. O pior é ler na internet mensagens de odio dizendo que não tem esse negocio de rendição, tem que invadir e matar todo mundo, jogar uma bomba de preferência!

Porque eu sei que é muito improvavel que aconteça algum dano fisico na minha familia se eles continuarem se escondendo, mas so esse terror, esse medo constante, ja é uma violência tremenda. Imagina dormir com medo de uma bala perdida invadir sua casa, imagina temer que bandidos te obriguem a escondê-los no meio da madrugada? Imagina ouvir barulho de tiros sem cessar? Helicopteros voando no seu telhado?

Estar longe não ajuda. Fico grudada nas informações, querendo saber de todos os detalhes. Quero muito que tudo isso termine de uma vez. Eu estou na França, mas o meu coração, mais do que nunca, esta no Rio.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Poder sobre os desesperados: o sonho da elite conservadora que esta escorrendo pelas mãos

Ontem ouvi um dialogo na televisão francesa que me chocou profundamente. Uma mulher que trabalha numa agência de empregos estava falando como o sistema que liga as empresas aos desempregados precisa ser dinamizado. Ela explicava que às vezes era obrigada a exigir um processo longo e trabalhoso, geralmente bem longe da residência do desempregado, para um trabalho de apenas dois dias. Disse que a pessoa desiste, que não quer se colocar nessa situação de merda por causa de dois dias de trabalho. Ai um jornalista, Eric Zemmour, conhecido por suas posições racistas e conservadores, respondeu indignado: "Isso é um absurdo, isso é so porque eles têm allocation familiales (tipo um bolsa-familia francês, com a diferença que o montante é maior)". A moça disse que sinceramente, ela achava que nem se eles não tivessem, iriam. E o cara, do alto da sua arrogância, alegou que "Se eles estivessem passando fome, iriam" (s'ils crevaient de faim). 

O mais triste é pensar que se na França esse tipo de frase desumana merece destaque na televisão, no Brasil ela é senso-comum, passa completamente despercebida e aposto que tem muita gente que até agora não viu nada de chocante na afirmação do cara.Quantas pessoas ja não ouvi reclamando na internet do bolsa-familia, que agora ta dificil arranjar empregada porque ela prefere receber 100 euros do governo do que um salario de 300 pra trabalhar como escrava. O argumento é o mesmo do cara da TV: é melhor que eles estejam morrendo de fome mesmo, porque ai vão fazer qualquer coisa para a gente. Eh muito bom quando a pessoa ja não tem mais dignidade, esta desesperada, pois ela aceita trabalhar por comida e roupa velha. A gente da uns trocados e ela vira nossa escrava. O bolsa-familia devolveu o poder de decisão de gente tão humilhada, devolveu o respeito perdido, devolveu a dignidade.

Eh por isso que eu não admito que falem mal do bolsa-familia. E é por isso que eu tenho um grande problema em respeitar alguém de direita, porque simplesmente acho inadimissivel que discordem de um programa tão justo e humano. Podem me chamar de radical, de intolerante, mas a verdade é que eu quero distância de pessoas que vêm cheias de ironia e falam "E ai, ta feliz com a eleição? Agora vamos continuar sustentando os pobres". E falam isso sem tomar o menor conhecimento de causa, sem ter ideia que além de salvar a vida de muita gente, esse dinheiro movimenta a economia local, gera empregos, diminui a migração interna, diminui a violência e vai até mesmo evitar essa pessoa preconceituosa e alienada de ter seu celular de ultima geração roubado.

Eric Zemmour por acaso acha que se tiver gente passando fome na França todos vão se sacrificar para trabalhar dois dias num emprego de merda ou sera que alguns deles vão se revoltar com a situação e começar uma onda de violência? Porra, a coisa é tão simples que me da sono tentando explicar a essas pessoas que ajudar o proximo é ajudar a si mesmo. Vou mandar esse cara dar uma voltinha no pais dos sonhos dele, o Brasil (ainda!), pra ele ver qual o resultado da politica que gostaria de implantar.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia do armisticio e indicação de BD

Hoje é feriado de Armisticio na França, dia que marca o fim da primeira guerra mundial ou a Grande Guerra, como ficou conhecida na época (coitados, mal sabiam que ainda tinha mais vindo pela frente). Estar na França me deu mais consciência sobre as duas guerras mundiais, porque na escola quando eu as estudava parecia uma coisa muito distante, quase irreal. Acho que eu colocava a mitologia grega no mesmo patamar da historia mundial - acontecimentos tão surreais que eu não me identificava. Primeiro que tudo acontecia numa terra distante, que eu nem sonhava em pisar um dia. E depois porque o passado pra mim entrava tudo na mesma categoria: ido. Não importava muito se era na idade média ou ha 20 anos antes de eu nascer, era tudo velho. Não é à toa que eu sempre fui péssima para decorar datas historicas, errava facilmente de século e não tinha muita noção da sequencia dos acontecimentos (aqui jogo parcialmente a culpa nas escolas: como elas conseguem fazer um assunto interessante como historia ficar chato?).

Vir para a França me aproximou da historia mundial no tempo e no espaço. Eh so dar uma voltinha em qualquer bairro de Paris para rapidamente achar um monumento em homenagem aos herois das duas guerras mudiais. Em muitos prédios têm placas com inscrições do tipo "Homenagem à fulano de tal, morto pelas tropas nazistas em frente à esse prédio no dia tal". Eu sempre leio todas, fico pasma, olho em volta e penso como cada rua aqui tem historias pra contar. Eh estupido, eu sei, mas so me dei conta de como a segunda guerra mundial é recente ao ouvir pessoas me contando como era a vida sob a ocupação alemã. Tipo, aquela pessoa ali na minha frente viveu o nazismo! Ela é uma testemunha viva de uma das maiores catastrofes humanas! Poxa, a 2GM acabou apenas 10 anos antes dos meus pais nascerem! E o que são 10 anos? Nada! (acho que a gente so se da conta que 10 anos são nada quando fica um pouco mais velha, por isso não conseguia entender as coisas antes).

Hoje, infelizmente não existe mais nenhum soldado sobrevivente da 1GM na França. Quando cheguei ha 3 anos haviam apenas dois, mas morreram nesse tempo. O ultimo pediu que não fizessem nenhuma cerimonia especial, que ja estavam planejando, por respeito aos seus companheiros que morreram nas trincheiras e não tiveram a oportunidade de ter sequer um enterro. Essa guerra matou 13 milhões de pessoas, entre civis e militares. Eh muita gente. Eh muito triste.



Aproveito esse dia para indicar uma BD (historia em quadrinho) sobre a primeira guerra mundial- C'était la guerre des tranchées, de Jacques Tardi. Gostei muito porque não tem um personagem so, são varias historias de varios soldados, todas tragicas (o que não é tragico numa guerra?) uma mais tocante que a outra. A sorte - ou o azar - levou cada soldado pra uma situação diferente e eles fizeram seu melhor para sair dela da melhor forma possivel. Mérito para como o autor conseguiu passar a mensagem de que a guerra é uma guerra entre os grandes, que ficam atras de seus mapas tomando café, enquanto os pequenos se fodem no front. Soldados inimigos que em um contexto diferente poderiam ser melhores amigos. Gente simples que mata com remorso, sem saber porque esta matando, mas sentindo que tem alguma coisa de muito errada naquilo tudo.

O autor é filho de um militar e claramente pacifista. Ele critica a imbecilidade das guerras: "Apenas na França ha 930 hectares de cemitérios militares, boa terra pra beterraba, mas somente cruzes brotam à superficie! Se todos os mortos franceses desfilassem em filas de quatro no 14 de julho (comemoração da Revolução Francesa), seriam necessarios 6 dias e 5 noites antes do ultimo nos mostrar sua face livida".

Que tenham sempre flores frescas nos monumetos aos soldados.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Top 10 - As piores reformas Sarkozistas


Como disse o ex-primeiro ministro Dominique de Villepin ha dois dias: "Sarkozy representa hoje um dos principais problemas da França". Para quem estava querendo saber o que o presidente francês anda fazendo com seu pais, aqui vai uma pequena amostra do seu poder de destruição.
 

10- Expulsão dos ciganos
A França tem uma população de ciganos estimada entre 300 e 400 mil pessoas. Boa parte delas são originarias de paises da Europa oriental, como a România e a Bulgaria. Elas vivem em trailers e geralmente não ficam muito tempo no mesmo lugar, apesar de ter muitos ciganos instalados e levando uma vida mais ou menos como a nossa. O governo Sarkozy decidiu que os ciganos não eram mais bem-vindos na França e decidiu manda-los de volta aos seus paises de origem. Neste ano ja foram expulsos mais de 8 mil ciganos. O governo faz questão de divulgar os numeros de seu sucesso e alardear como estão conseguindo mandar de volta "de maneira voluntaria" os ciganos, mas faz papel de bobo, porque metade deles ja esta de volta na França. Criticado pela ONU, por outros paises europeus e por associações de direitos humanos, o governo francês esta respondendo a diversos processos por discriminação.

9- Lei Hadopi
Uma tentativa muito equivocada de punir a pirataria na internet. Trata-se de rastrear os downloads ilegais dos usuarios através do seu provedor. Na verdade a medida é super ultrapassada, ja que as pessoas entram na internet dos restaurantes, dos parques (a prefeitura oferece gratuitamente), dos vizinhos. Ja falei sobre a lei Hadopi aqui. Ela finalmente entrou em vigor, mas de pernas bambas e coração fraco. Os primeiros emails estão sendo enviados e junto com eles, vieram as primeiras reclamações de quem jura de pés juntos que não fez nenhum download ilegal. Uma das maiores operadoras do pais, a Freebox, se recusou a mandar as notificações, pois achou uma brecha na lei que lhe da o direito de preservar a privacidade dos seus clientes. A polêmica esta longe do fim.

8- Trabalho no domingo
No Brasil estamos acostumados com todo o comércio aberto no domingo, mas na França, a pausa dominical é algo muito importante, é um direito fundamental do funcionario. Ha um ano, a administração Sarkozy criou uma nova lei de trabalho aos domingos, favorecendo as empresas em detrimento dos funcionarios. Dependendo de sua localização, as empresas podem abrir domingo sem pagar nada a mais aos seus empregados. Na teoria, o trabalho dominical é voluntario, mas na pratica quem não aceita é mandado embora, por outros motivos, claro. Conheci uma funcionaria de loja de roupas que disse que antes da lei ela ja trabalhava aos domingos sem ganhar nada e que a medida so serviu para regularizar a pratica ilegal da loja. Ela continuou sem beneficios.

7- Aumento do poder policial
Como ministro do interior, Sarkozy ja vinha dando uma amostra de sua grande simpatia pela repressão policial, mas como presidente ele teve o poder de pôr suas ideias em pratica. Ja falei da violência policial aqui e disse que até a Anistia Internacional ja condenou as forças de ordem francesas. Sarkozy disse inumeras vezes que ele da todo seu apoio às forças policiais, que a prioridade do seu governo é a segurança nacional e que isso implica repressão, mesmo que seja contra estudantes protestando. Em 2008, o uso do taser foi permitido pelos agentes municipais e, entre indas e vindas atualmente é permitido, apesar dos sérios riscos alertados pelas organizações de saude e de direitos humanos.

6- Reforma das universidades
A Lei Pécresse (nome da ministra da educação francesa) quer transformar o sistema universitario do pais. Para quem não sabe, as universidades francesas hoje são gratuitas, acessiveis a todos e de qualidade. Temos que pagar apenas a inscrição, que custa menos de 500 euros com plano de saude, mas os bolsistas (que ja ganham em torno de 400 euros por mês) ficam isentos dessa taxa. A nova lei quer dar total autonomia para as universidades em 2012. Se hoje elas são financiadas igualmente pelo governo, no futuro elas poderão conseguir "patrocinios" de empresas interessadas na mão-de-obra que vai sair de la. Mas o que vai acontecer com os cursos da area de humanas, que não são tão rentaveis como os tecnologicos e biologicos? A qualidade vai cair, pois tera bem menos investimento. As universidades também terão, alias ja estão tendo, liberdade para selecionar quem entra e cobrar quanto quiser pela matricula. A universidade Paris-Dauphine vai aumentar sua taxa de inscrição de 231 euros para algo entre 1.500 e 4.000 euros. Em bom português: o governo esta privatizando as universidades. Sarkozy ja cansou de babar o ovo de Harvard, sim, aquela que custa 45 mil dolares por ano. 

5- Bouclier fiscal
O "escudo fiscal" foi criado pelo governo Sarkozy para diminuir os impostos pagos pelos ricos. A medida limita o imposto em até 50% da renda do contribuinte e esta custando aos cofres publicos cerca de 700 milhões de euros neste anos de 2010, mais de um bilhão e meio de reais. O principal argumento de quem é a favor do bouclier é o de que se uma pessoa ganha 100 por mês, nada mais justo garantir que ela receba pelo menos 50. Mas se o resto da população recebe 0,3? Não me parece nada justo. Ao mesmo tempo, o governo decidiu excluir uma lei fiscal que beneficiava os casais no primeiro ano de casamento. Como o bouclier fiscal beneficia apenas quem tem uma renda bastante elevada, na pratica a medida tira dos pobres e da pros ricos. O escândalo foi tão grande que o governo ja esta estudando sua supressão. As eleições de 2012 têm um papel importante nessa decisão, pois como Sarkozy anda muito impopular, a queda dessa reforma pode trazer alguns votos. Mesmo os leitores do jornal de direita Le Figaro, são a favor do fim da medida, como mostra uma enquete na qual 78% votou a favor da supressão.

4- Aposentadoria aos 62 anos
Quem tem algum contato com os franceses sabe que aposentadoria é algo sagrado pra eles. Trabalham a vida toda pra se aposentar, então imaginem o escândalo que foi o anuncio do aumento de dois anos na vida util de um funcionario. Muitas greves ja aconteceram. A oposição denuncia varios pontos criticos da nova lei, por exemplo, em como ela vai prejudicar as mulheres que escolheram trabalhar meio periodo para se dedicarem mais aos filhos. Mas provavelmente a maior preocupação seja o plano a longo prazo da reforma, ja que ela tem validade até 2018, ou seja, daqui a oito anos eles pretendem extender ainda mais a idade para se aposentar, especula-se em 67 anos. Eh realmente uma situação dificil para uma população que esta envelhecendo, mas a oposição alega que quando começaram a trabalhar havia um contrato moral de aposentadoria aos 60 anos, então não podem simplesmente modifica-lo.

3- Reforma da saude
Muita gente aposta que a proxima grande bomba do governo Sarkozy sera a reforma da seguridade social. Atualmente as mudanças ja acontecem, de forma timida, mas firmes. Na França, quando a pessoa vai ao médico, normalemente ela paga a consulta que custa 22 euros e mais tarde é reembolsada pelo governo. Antigamente o reembolso era quase integral, mas vem diminuindo a cada ano. Ha três anos fui ao médico e paguei 7 euros. Esse ano paguei 17, pois não tenho médico de familia. Os remédios também são reembolsados, mas muitos deles estão saindo da lista de reembolso e os que ficam, a porcentagem devolvida é cada vez menor. E apesar do preço da consulta estar estabelecido em 22 euros, cada vez mais os médicos estão aumentando a tarifa, o que é contra lei, mas totalmente negligenciado no atual governo.

2- Reforma dos professores
Na França a grande maioria das crianças frequentam a escola publica, que é considerada de excelente qualidade. Mas desde 2007 o governo decidiu suprimir radicalmente as vagas de professores e a politica adotada foi a de subistituir apenas a metade dos funcionarios aposentados. por ano Então foram suprimidas 8.700 vagas em 2007, 11.200 em 2008, 13.500 em 2009 e 16.000 en 2010. E ja foram anunciados novos cortes para o ano que vem. Além disso, o governo esta contratando cada vez menos professores especializados, como professores de inglês nativos, por exemplo. Agora é a professora de matematica ou historia que da aulas de linguas, muitas vezes sem sequer falar inglês. Como o numero de efetivos diminuiu muito, o tempo de treinamento diminuiu também e agora os professores saem do concurso direto para a sala de aula. Outro problema é que, adivinhem, faltam professores. Quando um fica doente, não tem substitutos. O governo Sarkozy ja sugeriu que para resolver esse problema, a solução seria colocar os estudantes de segundo grau para segurar as pontas.

1- Controle da imprensa
Não é exatamente uma lei ou reforma, mas talvez seja até mais importante que elas. Desde o inicio do mandato sarkozista ja aconteceram varios escândalos sobre a relação entre a midia e o presidente. Alguns leves, como o photoshop da barriga do presidente na praia para não fazer feio, outras mais sérias, como a demissão do apresentador do telejornal da TF1, porque falou mal do Petit Nicolas. O jornalista estava ha 21 anos no cargo e deveria deixa-lo apenas em 2012. Sarkozy ja demonstrou seu descontentamento contra o Canal Plus e recentemente o Petit Journal denunciou a constante vigilância que sofreu sua equipe em Deauville, cidade onde os chefes de Estado francês, russo e alemã estavam reunidos. A ong Reporteres Sem Fronteiras divulgou mês passado o ranking de liberdade de imprensa no mundo e a França aparece em 44° posição. Em 2002 ela estava em 11°. Segundo a lista, atualmente a França tem menos liberdade de imprensa quea Namibia, a Costa Rica e a Africa do Sul.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Patriota ou nacionalista?

Quando postei o texto de ontem, confesso que fiquei com medo dos comentarios que viriam. Porque não é obvio defender os separatistas nesse momento em que racistas estão usando das mesmas armas para sustentar preconceitos. Mesmo em tempos normais defender separatistas não é muito bem visto. A Lola, por exemlo, sempre faz referências negativas a eles. Mas vocês foram otimas! Ninguém me cruxificou!

Eu pensei na razão pela qual uma fragmentação do Brasil não me incomoda e cheguei a uma conclusão simples: eu não amo o Brasil. Digo, a nação. Não sou uma patriota. Pode parecer contrasenso depois de toda a campanha pela Dilma que fiz, mas eu explico. Amo as pessoas e acho que a Dilma é a mulher certa pra cuidar delas. Eh dificil explicar a diferença entre as duas coisas, porque dizer que a Dilma é boa para o Brasil é quase a mesma coisa que dizer que a Dilma é boa para a população, ja que uma esta interligada à outra. Mas por exemplo, eu não dou a minima para a soberania brasileira. Se o Brasil decide entrar em guerra contra seus vizinhos para expandir seus territorios eu ia achar que era piada, tamanho o absurdo. Eu nunca aceitaria fazer parte de uma guerra, caso o RS pegasse em armas para fazer sua independência. Po, se o povo acha que viveria melhor assim, dou meu apoio.

Não sou patriota, acho que o patriotismo so atrapalha o desenvolvimento humano. Fico torcendo para que um dia todas as fronteiras acabem e vivamos num mundo sem muros, mas acho que ainda falta muito pra isso acontecer. A unica diferença entre o patriota e o nacionalista é que o primeiro é de esquerda e o segundo, de direita. Mas o pensamento é praticamente o mesmo. Lembro que na minha fase patriota, quando achava um absurdo as pessoas so comprarem bandeiras brasileiras na época da copa e não saber cantar o hino nacional de tras pra frente, comecei a ver nas ruas cartazes que diziam "Halloween é o cacete, viva a cultura nacional" e coisas desse tipo. Achei o maximo, finalmente alguém estava tomando iniciativa contra essa invasão estadunidense no nosso pais. Entrei no site e tive uma tremenda surpresa ao descobrir que era uma organização de extrema direita, com viés militar, inclusive. Fiquei besta e percebi como os extremos se encontram, como num circulo. O comunismo tem mais em comum com a extrema-direita do que gostaria de admitir. E foi assim que essa ideia de patriotismo foi saindo da minha cabeça.

Hoje eu acho engraçado como os brasileiros no exterior exibem suas bandeiras tupiniquins com o maior orgulho. Hoje eu também acho que os hinos nacionais deveriam ser extintos ou pelo menos atualizados -estão super ultrapassados falando de guerras, sangue e inimigos com palavras que ninguém entende. Quando acontece um acidente de avião, minha primeira preocupação não é saber quantos brasileiros estavam viajando, porque sinceramente, isso não é importante. A vida de um brasileiro pra mim não vale mais do que a vida de um senegalês ou de um americano. Estava lendo um quadrinho sobre a 1°GM (outro dia falo sobre ele) e tinha uma parte onde os alemães chegaram por uma estrada com mulheres e crianças belgas como escudo e os franceses receberam ordem de atirar mesmo assim, porque as mulheres e crianças não eram "dos nossos".

Eu não ligo para nacionalidades, naturalidades e essas coisas que não escolhemos ao nascer. Porém ligo para outras caracteristicas que a gente vai adquirindo ao longo da vida, que é o respeito pelo proximo, a educação, a gentileza, o interesse em fazer do nosso mundo um lugar melhor para se viver. Isso é importante. Todo mundo sabe que idiotas e gênios existem em todo lugar, mas todo mundo também insiste em generalizar, eu inclusive. Eh um exercicio diario que precisa de bastante esforço, mas que no fim das contas, vale a pena.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Separatistas e separatistas

Ainda estou de ressaca pela vitoria da Dilma. Muito, muito feliz! E aliviada de poder passar a outra coisa. Achava que as baixarias acabariam, mas estava enganada. Os tucanos não sabem perder e estão fazendo feio, muito feio. Me assusto com certas coisas que vejo escrito na internet, e o pior, nem de anônimos são! As pessoas estão tendo coragem de mostrar o quanto são preconceituosas! Ja faz tempo que estou devendo um post sobre minha segunda dissertação de mestrado, assim como fiz com a primeira, e parece que agora é o momento ideal para tocar nesse assunto. Pra quem não sabe, minha pesquisa foi sobre os movimentos separatistas no sul do Brasil, um tema que sempre me interessou muito, apesar de ser carioca.

Sempre me perguntei por quê o Brasil ficou inteiro, enquanto a colônia espanhola se dividiu em varios paises. Duas explicações me convenceram mais. A primeira é que o Brasil era a unica ex-colônia na América do Sul a ter adotado a monarquia como sistema de governo, o que agradava muito aos ingleses. Esses, que desejavam o fim da escravidão, relevavam um pouco o regime escravista no Brasil, justamente por causa da monarquia. Se o Brasil se fragmentasse, seria cada um por si contra a Inglaterra, e essa ideia não era nem um pouco atraente. A outra explicação é o mero acaso. Acho que o desenrolar de algumas batalhas acabaram decidindo todo o futuro da nação. Houve muitas lutas secessionistas ao longo da historia e esses movimentos foram todos derrotados. Mas qual o peso do acaso nisso tudo? Quem sabe com um pouco de sorte os separatistas não teriam ganho algumas guerras e hoje o mapa da AL seria muito diferente.

Devo surpreender alguns leitores, mas a verdade é que eu nunca pensei na separação do Sul hoje como uma coisa totalmente negativa. Achava a ideia um pouco ingênua, mas não necessariamente ruim. Na Europa tem diversas regiões que brigam por sua independência, como o pais basco, espremido entre a França e a Espanha, que tem sua propria lingua e cultura, mas foi dividido pela estratégia das linhas geograficas. A Africa então, nem se fala! Olhem no mapa, ela é toda quadrada, dividida como colônia europeia sem levar em consideração os povos que ali habitam. Nem preciso ir tão longe, ja que a França era composta de diversos povos diferentes, cada um com seus costumes, que foram obrigados a deixar tudo isso de lado para se tornarem franceses. As linguas locais passaram a ser consideradas dialetos inferiores e usadas por pessoas pouco educadas até que, pouco a pouco, foram desaparecendo (os bisavos do cheri não falavam francês, apenas occitan). Imagina quantos paises diferentes teriamos hoje se fossem levadas em consideração as culturas e não a estratégia militar. Então eu vejo a autodeterminação dos povos como algo positivo.

Mas sera que podemos considerar a separação do Sul como um caso de "autodeterminação dos povos", como pregam as organizações? Sera que colonizadores têm o direito de se dizer um povo à parte, de uma terra que pertence a eles ha tão pouco tempo? Demora quanto tempo para um povo ser considerado um povo? Sera que existe realmente um sentimento de identificação que une os sulistas ou os gauchos? Isso eu não posso responder, porque não sou sulista e nunca morei no sul. Mas quem sou eu pra dizer que uma pessoa deve se sentir mais brasileira do que sulista?

Vocês podem dizer que a discussão sobre o separatismo não é tão profunda e romântica quanto eu estou tentando apresentar, é apenas uma solução racista de reaças que so pensam no proprio umbigo. E eu digo que existe dois tipos de separatistas, aqueles que realmente acreditam que fazem parte de um pais dentro do pais e aqueles que se aproveitam dessa ideia para espalhar seus preconceitos por ai. Eu conversei com muitos separatistas e pude ver a paixão com que alguns falavam do seu estado (principalmente os gauchos) e de sua região. Muitos deles são inclusive de esquerda e votaram na Dilma. Sinto que eles são um pouco frustrados por não terem tido o mesmo destino do Uruguai no passado, pais com o qual se identificam culturalmente. Eh importante lembrar que o sul tem duas vezes mais fronteiras internacionais do que fronteiras com outros estados brasileiros.

Por outro lado, é muito conveniente desejar a separação de uma região do pais que é economicamente mais desenvolvida que as outras. E a verdade é que não temos como ter certeza de que esses separatistas também são xenofobos, mas se escondem atras do discurso de "cultura" e "costumes" para não admitir (quem sabe até para eles mesmos) um certo preconceito contra os nordestinos.

Mas o segundo grupo de separatistas é muito pior, é aquele que vem se destacando na internet nesses ultimos dias. São racistas e preconceituosos que na verdade não querem a separação do Sul, mas a expulsão do Norte/Nordeste. Eles acham que sustentam as duas regiões mais pobres, o que não é verdade. O dinheiro que entra e sai do Sul é bastante equilibrado. Mas esse pessoal não quer saber de nada, so quer espalhar seus preconceitos. Incrivel como as pessoas não têm vergonha de assumir seu lado nazista, dizendo com todas as letras que se acham superiores aos nordestinos. Nunca vi tanto odio contra os nordestinos e acho que a situação é muito grave. Quem defende a separação do Brasil nesse contexto de hoje, pos-eleição, pelos motivos mais equivocados desse mundo, esta assinando um certificado de estupidez e ignorância.

Que fique claro que eu não sou a favor da separação, nem acho que ela possa acontecer, mas procuro entender os bons argumentos de quem pensa diferente. Acho que a beleza do Brasil é justamente a diversidade e dizer que o Sul é a unica região que diverge do resto do Brasil é besteira. Nem vou entrar no mérito de "eleitores do Serra mostram a cara depois das eleições", pois acho que tem muita gente que pode fazer isso melhor do que eu. So quero mostrar um outro lado dos movimentos separatistas que as pessoas não vêem, pois o lado negativo sempre toma mais espaço. Existe gente bacana por tras das organizações sérias, que com certeza estão muito putos com o rumo que essa xenofobia esta tomando. So espero que eles não se aproveitem dessa onda racista para aliar simpatizantes, porque com certeza esse tipo de militante so vai trazer maleficios pras organizações.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Violência nas manifestações *Com update

Prometo que mudo de assunto em breve! Mas teve um ponto que eu não comentei, que é a violência nas manifs e o CRS - Companhies Républicaines de Sécurité, a policia responsavel em manter a ordem publica, ou seja, aquela que esta presente nas manifestações populares.

Acho que não preciso nem falar que todos os manifestantes conscientes, que são a esmagadora maioria, são absolutamente contra qualquer tipo de violência nas ruas. Por varios motivos. Primeiro pelo obvio: ninguém gosta de violência. Quebrar o patrimônio publico é totalmente contraproducente. Depois porque inibe as pessoas a se unirem à manifestação, afinal de contas, ninguém quer correr riscos, muito menos levar seus filhos para um lugar perigoso. Não é pela violência que os manifestantes vão atrair outros manifestantes: quanto mais pacifico, mais chances de simpatia geral. Outra razão importante é que os atos de vandalismo tiram o foco do que é importante de verdade, que é a manifestação em si. Como ja disse nos comentarios, a midia deixa de falar sobre os milhões de manifestantes para falar das dezenas de casseurs ("quebradores").

Então quem são os casseurs? São jovens a fim de brigar e de chamar atenção. Eles não têm nada a ver com as manifestações e se aproveitam pra tocar o terror. Eles têm raiva da policia, mas são tão ingênuos que não percebem que vandalizando, estão do lado dela. O xis da questão é que os vândalos são tão uteis para a policia, que na falta deles, frequentemente ela assume o lugar dos vândalos. Como sempre, o buraco é mais embaixo e a situação é bem mais complicada do que a gente pensa. Quem frequenta passeatas sabe bem que às vezes policiais da CRS se fingem casseur para iniciar a confusão e dar matéria para os jornais. Ha um ano atras saiu uma reportagem no Le Monde sobre isso que deu o que falar, pena que não achei pra linkar aqui. Ja vi muita gente falando que viu jovens quebrando tudo, depois indo tranquilamente bater papo com os guardinhas.

E agora não é diferente. A internet ta bombando com denuncias desse tipo e as caixas de comentarios dos jornais estão lotadas com depoimentos de manifestantes que viram policiais disfarçados de casseurs. O problema é que ninguém tem prova. Mas todo mundo sabe que essa é uma pratica comum deles. Os CRS, em sua maior parte, são jovens tão sedentos de baderna quanto os proprios casseurs. Eh facil recolhece-los: eles são bem mais fortinhos que a média dos franceses, são seguros de si e têm um ar muito arrogante. Tem alguns videos circulando na internet que acusam os baderneiros de serem policiais. O primeiro é em Paris, a cena começa pouco depois dos 20":


A gente vê um casseur quebrando o vidro da Opera Bastille, dai vem um senhor manifestante tentar impedi-lo e logo depois chega um outro casseur dando uma voadora no senhorzinho, mas notem que ele tem um cassetete da policia. Quem estava la diz ter certeza de que os dois vândalos eram do CRS, inclusive o proprio coroa também acha, ele deu entrevista logo depois. Esse foi o unico episodio de confusão em Paris. Em Nanterre, cidade vizinha da capital, aconteceu um quebra-quebra perto de uma escola bloqueada e eu vi um depoimento de uma estudante dizendo aos prantos que os casseurs quebravam tudo enquanto a policia ficava olhando.

Tem um outro video, esse em Lyon, onde aparecem dois policiais à paisana com adesivos de sindicatos, protegidos pela policia, enquanto os manifestantes os vaiavam:



Vejam bem, eu não estou de forma alguma dizendo que os vândalos não existem, que eles são todos policiais disfarçados. Quem dera se fosse assim! Mas todo mundo sabe que uma vez a baderna iniciada, a coisa descamba rapidante, e é essa a função dos falsos casseurs: incentivar o quebra-quebra dando o exemplo. Eh muito mais facil vandalizar quando ja tem alguem fazendo isso. E também não estou dizendo que é o governo quem manda  os CRS fazerem isso. Eu não sei como a coisa funciona. Mas é impossivel negar essa pratica, ela existe, e todos os franceses sabem disso.

Update: O jornal Le Monde publicou hoje à tarde uma reportagem muito completa sobre esse assunto. Eh o Porte Dorée pautando a midia francesa, minha gente! ;)
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