Mostrando postagens com marcador mestrado. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mestrado. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mestrado na França - FAQ

Pelo menos metade dos emails que recebo aqui do blog são de pessoas interessadas em fazer mestrado na França. Eu sempre respondo a todos, porque gosto de incentivar as pessoas a vir, dizer que vale a pena, que não é tão dificil quanto parece (não é dificil de entrar, sair ja é outra historia) e tal. Mas acaba que sempre tenho que escrever emails praticamente iguais com orientações sobre mestrado na França. Então decidi fazer esse tutorial sobre o assunto e deixa-lo com destaque na barra lateral do blog, assim, antes de enviar email, vocês podem procurar se sua duvida ja foi respondida aqui. E este sera um post modelavel, ou seja, cada vez que tiver novidades, eu volto aqui e acrescento mais informações. Como eu não sei tudo sobre o assunto, peço a ajuda de quem passou pelo processo para escrever esse FAQ. Deixem informações nos comentarios e eu subo pra ca.

Quero estudar na França, qual o primeiro passo?
Aconselho a investigar a possibilidade de você tirar um passaporte europeu. Não tem um avo português? Uma bisa italiana? Isso facilitaria muito sua vida, ja que todo o processo seria feito exatamente como se você fosse um cidadão francês, sem essa coisa chata de visto. Mas se não der, não tem problema, você so tera que ter um pouquinho mais de paciência com a famosa burocracia francesa.

Como escolher o curso ideal?
Pesquise pela internet. As universidades em Paris, por exemplo, vão de Paris 1 à Paris 13, então fica facil procurar no google. Mas é bom lembrar que as outras cidades da França têm universidades otimas, como Lyon, Toulouse, etc. Entre em cada uma delas e vai pesquisando os cursos que te interessam. Mande email para as secretarias perguntando sobre prazos, documentos, teste de francês, que eles sempre respondem e assim ja ficam sabendo do seu interesse (uma dica para emails: sempre comece com "bonjour Mme ou M tal" - de preferência não confunda os gêneros como eu ja fiz, os nomes daqui podem confundir - e termine com "bien cordialement, fulano de tal").

Eh dificil entrar?
Não. Entrar no mestrado na França é mais facil que entrar no Brasil, que tem varias provas e tal. Aqui o mestrado é simplesmente o que vem depois da licence (a faculdade em si) e se a pessoa tiver nota pra entrar, acho que 12 no sistema francês, provavelmente tem uma vaga no master. Tem uns cursos mais procurados que outros, é claro. Mas eu arriscaria dizer que para um brasileiro é até mais facil de conseguir uma vaga que um francês. Eles procuram sempre a diversidade, sabe, então esse é um ponto que temos a favor. Acho que para entrar num curso de master, precisa-se basicamente de duas coisas: falar francês e ter um bom dossiê de inscrição, incluido ai um otimo projeto de pesquisa.

Como funciona o visto de estudante?
Todo o processo deve ser feito pelo Campus France, mesmo se for intercâmbio com a universidade do Brasil. Para mais detalhes, olhar nos comentarios.
Morar na França é caro?
Sim, é caro. Mas se organizando bem, da pra viver tranquilamente. Depende muito da cidade que você escolher. Paris, por exemplo, tem os aluguéis mais caros do universo, mas em compensação tem mais oferta de emprego. Se você tiver um francês razoavel, não é dificil encontrar um trabalhinho pra pagar as despesas. Mas venha com uma boa reserva para os primeiros meses até você se instalar.

Bom, esse é o inicio. Se vocês tiverem mais perguntas, dicas, duvidas, etc, deixem aqui nos comentarios que a gente vai organizando um pequeno forum pra quem quiser fazer mestrado na França.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Separatistas e separatistas

Ainda estou de ressaca pela vitoria da Dilma. Muito, muito feliz! E aliviada de poder passar a outra coisa. Achava que as baixarias acabariam, mas estava enganada. Os tucanos não sabem perder e estão fazendo feio, muito feio. Me assusto com certas coisas que vejo escrito na internet, e o pior, nem de anônimos são! As pessoas estão tendo coragem de mostrar o quanto são preconceituosas! Ja faz tempo que estou devendo um post sobre minha segunda dissertação de mestrado, assim como fiz com a primeira, e parece que agora é o momento ideal para tocar nesse assunto. Pra quem não sabe, minha pesquisa foi sobre os movimentos separatistas no sul do Brasil, um tema que sempre me interessou muito, apesar de ser carioca.

Sempre me perguntei por quê o Brasil ficou inteiro, enquanto a colônia espanhola se dividiu em varios paises. Duas explicações me convenceram mais. A primeira é que o Brasil era a unica ex-colônia na América do Sul a ter adotado a monarquia como sistema de governo, o que agradava muito aos ingleses. Esses, que desejavam o fim da escravidão, relevavam um pouco o regime escravista no Brasil, justamente por causa da monarquia. Se o Brasil se fragmentasse, seria cada um por si contra a Inglaterra, e essa ideia não era nem um pouco atraente. A outra explicação é o mero acaso. Acho que o desenrolar de algumas batalhas acabaram decidindo todo o futuro da nação. Houve muitas lutas secessionistas ao longo da historia e esses movimentos foram todos derrotados. Mas qual o peso do acaso nisso tudo? Quem sabe com um pouco de sorte os separatistas não teriam ganho algumas guerras e hoje o mapa da AL seria muito diferente.

Devo surpreender alguns leitores, mas a verdade é que eu nunca pensei na separação do Sul hoje como uma coisa totalmente negativa. Achava a ideia um pouco ingênua, mas não necessariamente ruim. Na Europa tem diversas regiões que brigam por sua independência, como o pais basco, espremido entre a França e a Espanha, que tem sua propria lingua e cultura, mas foi dividido pela estratégia das linhas geograficas. A Africa então, nem se fala! Olhem no mapa, ela é toda quadrada, dividida como colônia europeia sem levar em consideração os povos que ali habitam. Nem preciso ir tão longe, ja que a França era composta de diversos povos diferentes, cada um com seus costumes, que foram obrigados a deixar tudo isso de lado para se tornarem franceses. As linguas locais passaram a ser consideradas dialetos inferiores e usadas por pessoas pouco educadas até que, pouco a pouco, foram desaparecendo (os bisavos do cheri não falavam francês, apenas occitan). Imagina quantos paises diferentes teriamos hoje se fossem levadas em consideração as culturas e não a estratégia militar. Então eu vejo a autodeterminação dos povos como algo positivo.

Mas sera que podemos considerar a separação do Sul como um caso de "autodeterminação dos povos", como pregam as organizações? Sera que colonizadores têm o direito de se dizer um povo à parte, de uma terra que pertence a eles ha tão pouco tempo? Demora quanto tempo para um povo ser considerado um povo? Sera que existe realmente um sentimento de identificação que une os sulistas ou os gauchos? Isso eu não posso responder, porque não sou sulista e nunca morei no sul. Mas quem sou eu pra dizer que uma pessoa deve se sentir mais brasileira do que sulista?

Vocês podem dizer que a discussão sobre o separatismo não é tão profunda e romântica quanto eu estou tentando apresentar, é apenas uma solução racista de reaças que so pensam no proprio umbigo. E eu digo que existe dois tipos de separatistas, aqueles que realmente acreditam que fazem parte de um pais dentro do pais e aqueles que se aproveitam dessa ideia para espalhar seus preconceitos por ai. Eu conversei com muitos separatistas e pude ver a paixão com que alguns falavam do seu estado (principalmente os gauchos) e de sua região. Muitos deles são inclusive de esquerda e votaram na Dilma. Sinto que eles são um pouco frustrados por não terem tido o mesmo destino do Uruguai no passado, pais com o qual se identificam culturalmente. Eh importante lembrar que o sul tem duas vezes mais fronteiras internacionais do que fronteiras com outros estados brasileiros.

Por outro lado, é muito conveniente desejar a separação de uma região do pais que é economicamente mais desenvolvida que as outras. E a verdade é que não temos como ter certeza de que esses separatistas também são xenofobos, mas se escondem atras do discurso de "cultura" e "costumes" para não admitir (quem sabe até para eles mesmos) um certo preconceito contra os nordestinos.

Mas o segundo grupo de separatistas é muito pior, é aquele que vem se destacando na internet nesses ultimos dias. São racistas e preconceituosos que na verdade não querem a separação do Sul, mas a expulsão do Norte/Nordeste. Eles acham que sustentam as duas regiões mais pobres, o que não é verdade. O dinheiro que entra e sai do Sul é bastante equilibrado. Mas esse pessoal não quer saber de nada, so quer espalhar seus preconceitos. Incrivel como as pessoas não têm vergonha de assumir seu lado nazista, dizendo com todas as letras que se acham superiores aos nordestinos. Nunca vi tanto odio contra os nordestinos e acho que a situação é muito grave. Quem defende a separação do Brasil nesse contexto de hoje, pos-eleição, pelos motivos mais equivocados desse mundo, esta assinando um certificado de estupidez e ignorância.

Que fique claro que eu não sou a favor da separação, nem acho que ela possa acontecer, mas procuro entender os bons argumentos de quem pensa diferente. Acho que a beleza do Brasil é justamente a diversidade e dizer que o Sul é a unica região que diverge do resto do Brasil é besteira. Nem vou entrar no mérito de "eleitores do Serra mostram a cara depois das eleições", pois acho que tem muita gente que pode fazer isso melhor do que eu. So quero mostrar um outro lado dos movimentos separatistas que as pessoas não vêem, pois o lado negativo sempre toma mais espaço. Existe gente bacana por tras das organizações sérias, que com certeza estão muito putos com o rumo que essa xenofobia esta tomando. So espero que eles não se aproveitem dessa onda racista para aliar simpatizantes, porque com certeza esse tipo de militante so vai trazer maleficios pras organizações.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A republica da soja

Algumas pessoas perguntaram sobre meus temas de pesquisa das dissertações, então hoje vou falar um pouco sobre isso. As universidades francesas vêem a presença de um aluno estrangeiro como positiva porque partem do principio que ele vai poder trazer um pouco mais de conhecimento sobre seu pais de origem. Quase sempre os professores querem que o estrangeiro pesquise sobre o proprio pais, ja que teria mais facilidade com a lingua (bibliografia, pesquisa de campo, entrevistas) e um conhecimento prévio maior. Ou seja, levaria 10 vezes menos tempo do que um francês pra fazer o mesmo trabalho. O problema é que nem sempre os estrangeiros estão dispostos a estudar o proprio pais, afinal de contas, se esse fosse o objetivo, era mais facil ter ficado em casa. E esse era meu caso: eu queria ser jornalista da editoria internacional e falar sobre o Brasil não me acrescentaria muita coisa. Então achei um assunto que agradava todo mundo, sabendo que teria ir até la fazer a pesquisa de campo, que era pré-requisito: os brasiguaios, brasileiros que moram no Paraguai.

Muitos amigos brasileiros disseram "Mas Paraguai? Não tem nada de interessante la!". Olha, a primeira vista pode ser, mas depois que comecei a ler sobre o tema vi que tinha na minha frente um prato cheio para a geopolitica. Resumindo bem, o Paraguai abriga uma colônia gigantesca de brasileiros que foram pra la nas décadas de 70/80 por causa do baixo preço das terras e do incentivo do governo paraguaio, mas que hoje são uma praga no pais. Eles ocupam toda a região da fronteira com o Brasil e em muitas cidades se fala português, se vê novela brasileira e se mantém todos os costumes da terrinha. Eles não se misturaram, até as escolas são brasileiras. Até ai tudo bem, o problema é que eles plantam soja transgênica, que esta acabando com o pais. Primeiro por causa da enorme quantidade de agrotoxicos que fica no ar, na terra, na agua. Segundo porque eles estão comprando terras familiares de subsistência para aumentar a produção. Terceiro porque soja não precisa quase de mão-de-obra e os poucos empregos que existe são dados a outros brasiguaios, porque "paraguaio não gosta de trabalhar". Ou seja, esta acontecendo agora um êxodo rural muito grande e o resultado futuro a gente conhece bem: violência urbana.


Dai que o novo governo Lugo (aquele do padre de dois filhos) foi eleito com um discurso de que ia expulsar os brasiguaios do pais e fazer a reforma agraria. As invasões às fazendas estavam à mil e foi nessa época que eu meti os pés no Paraguai depois de 30 horas de ônibus do Rio. Ja tinha pronto na minha cabeça todos os papeis do teatro paraguaio: pobres locais, mocinhos; ricos brasiguaios plantadores de soja, vilões. Em Assunção visitei ongs e associações anti-soja e tudo ia bem. Então fui do outro lado do pais, onde os brasileiros estão concentrados e, numa cidadezinha chamada Santa Rosa del Monday, fui acolhida pela familia de brasiguaios mais doce que existe e que com certeza não cabiam no papel de vilões que eu tinha reservado pra eles.

O pai trabalhava para um grande sojeiro brasileiro (esse sim eu conheci e cabia no estereotipo de vilão) e me levou pra conhecer a imensa fazenda que era um mar verde, até onde os olhos pudessem alcançar. Visitei a maquinaria onde se colocava o "veneno" (como eles proprios chamavam os agrotoxicos) nas sementes, senti o cheiro quimico insuportavel que exalava de la. Entrei nos galpões de tratamento de soja-pos colheita e vi as toneladas de sacas prontas pra exportação. Cruzei tratores passando mais uma camada de veneno nas plantações.

Pausa pra explicação técnica. Pra quem não entende nada de agricultura, a vantagem da soja (e dos outros alimentos) trangênica é sua resistência aos herbicidas e inseticidas. Então pode-se passar um veneno bem forte contra os parasitas sem matar a planta também. Os trangênicos não se reproduzem, são feitos em laboratorios, como a Monsanto, que dominam o mercado vendendo as sementes, e é claro, os agrotoxicos. Mas isso ja é outra historia.

O irônico é que aqui na Europa os agrotoxicos são vistos como o inimigo numero um de uma vida saudavel. Os trangênicos, então, são o proprio demônio! Proibidissimo na Europa! Mas pra onde vai a soja venenosa transgênica do Paraguai? Pra Europa, alimentar as vaquinhas que produzem os camamberts da francesada.

E são os brasiguaios que fazem essa festa toda no terreno do vizinho. Mas ai entram os argumentos deles: vieram porque chamaram. O governo paraguaio abriu as portas do pais aos brasileiros, procurando agricultores mais especializados para colonizar essa parte deserta do territorio paraguaio, justamente a fronteira com o Brasil. Muitos brasileiros responderam ao apelo, venderam tudo o que tinham no Brasil. A maioria era muito pobre. Chegaram numa mata fechada e selvagem e o que mais se ouve dos brasiguaios é “quando cheguei aqui so tinha mato”. Eles abriram a floresta, construiram casas e aos poucos foram preparando terreno para agricultura, como desejava o governo paraguaio. Então eles dizem que depois que todo o trabalho estava feito e era hora de colher os frutos, os paraguaios resolveram atravessar o pais e reivindicar as terras que eles haviam comprado do governo.

Querer dividir tudo em bem e mal é tão ingênuo, né? O que existe são decisões tomadas de acordo com o contexto do momento. A banca disse que estava obvio no meu trabalho que eu tinha ido pro Paraguai pensando uma coisa, mas que mudei de ideia, o que foi bem positivo. Em suma, eu adorei ter estudado esse tema, adorei ter ido no Paraguai quebrar a cara, adorei ter conhecido todo mundo que conheci. Adorei um pouco menos escrever cem paginas sobre isso.


Meu segundo tema foi escolhido sabendo que eu não poderia fazer pesquisa de campo, o que seria bem menos emocionante. Escolhi uma coisa que sempre me intrigou, os movimentos separatistas no Sul do Brasil. Foi interessante, mas acho que so o fato de não ter ido até la me desestimulou muito. Fiz tudo pela internet, pelos livros, pelas teorias. Nada de grandes aventuras em um pais desconhecido, o maximo de emoção que tive foi pegar o ônibus até a biblioteca mais proxima. Agora da pra entender minha frustração, né?

*As fotos são minhas (exceto a do agrotoxico) e ilustraram a dissertação.

sábado, 24 de julho de 2010

Defesa da dissertação - ano II

Passei dois anos pensando que quando terminasse o mestrado sobraria tempo livre pra fazer todas as coisas que gostaria de fazer e não dava. Minha motivação pra terminar as dissertações foi pensar em tudo o que eu faria depois do trabalho acabado: nos passeios desapressados, nos longos banhos de banheira, nas visitas aos amigos, nos varios posts que escreveria tranquilamente para o blog. Mas cadê o tempo? Quanta propaganda enganosa contei para mim mesma! Meu dia não tem 30h, como achei que teria depois do mestrado! Ainda mais com minha mãe em Paris.

Então vou começar contando como foi a defesa da dissertação, antes que passe tempo demais. Não posso dizer que havia me preparado bastante, escrevi apenas um texto de uma pagina pra ir me guiando, enquanto fazia observações espontâneas (trabalhar na radio realmente esta me ajudando a perder o medo de falar em publico e improvisar). Ano passado fiz power point, decorei cada linha do que ia dizer, fiquei nervosa à toa e no fim não adiantou nada, então esse ano fui bem relax. Quer dizer, quase, porque minha mãe estava pra chegar na minha casa e eu estava preocupada se o esquema da chave tinha dado certo, mas nada dela ligar pra me tranquilizar.

Esse ano não tinha ninguém na faculdade, ja que a maior parte da turma vai defender so a partir de setembro, então não pude bater-papo e trocar dicas pra passar o tempo. Ao invés disso fiquei 40 minutos (20 de atraso e 20 de antecedência) olhando para meu telefone esperando minha mãe ligar e xingando mentalmente os professores que não me chamavam pra acabar com aquilo de uma vez.

Confesso que não estava esperando uma nota excelente, ja que eu achei meu trabalho do ano passado melhor (e feito com mais vontade, diga-se de passagem) do que o desse ano. Estava consciente que não haveria grandes elogios, mas eu nunca tive intenção de fazer um doutorado ou seguir carreira acadêmica, eu so queria mesmo aprender e essa parte da dissertação era so um detalhe chato e sem importância pessoal. A nota minima para passar é 10, ja que na França a nota maxima é 20 e uma nota excelente é 17. Ninguém nunca tira a nota maxima. Ano passado eu tinha que tirar no minimo 14 pra poder passar pro segundo ano do mestrado, mas esse ano não tinha essa preocupação.

As professoras chamaram e eu comecei minha apresentação. Fui interrompida no meio e uma delas delas disse "Isso tudo a gente ja sabe, conte alguma coisa nova. O que você mudaria no seu trabalho?". Acho que se eu tivesse uma terceira dissertação pra defender na França (bate na madeira) não prepararia nada, porque é perda de tempo. Pô, a gente perde o maior tempão preparando a apresentação e acaba sempre improvisando tudo. Mas até que foi legal desse jeito, pois a coisa descambou mais pra uma conversa informal e não teve aquele climão. Mas isso é na minha faculdade, viu gente? Não sei se nas outras universidades os professores também fazem isso. La eles não gostam muito de formalidades não, para minha sorte.

A primeira coisa que falaram, era que tinha um erro de francês (na verdade de digitação) no titulo. De novo. Duas dissetações, dois erros no titulo. Que coisa! Olha que otima primeira impressão que me esforço em passar para os professores! Pensei que minha média ja tinha caido pra uns 7.

Criticas, muitas criticas. Alguns elogios. A critica que me tocou mais foi uma parte em que eu escrevi algo como "esse trabalho vai tentar analisar se as razões do conflito são de origem historica, cultural, economica ou simplesmente ideologica" e ela rebateu: "Como você estudou aqui dois anos e ainda fala em 'simplesmente ideologica'? As maiores guerras do mundo foram feitas por ideologia!". Ops. Eu não quis dizer que era simples, foi so um vicio de linguagem, sabe? Mas fiquei super sem jeito.

Alias, elas analisaram mais o meu francês esse ano do que no ano passado. Pegavam cada palavra, cada frase pra discutir como se eu tivesse deliberadamente escolhido cada uma delas, mas que na verdade, em muitos casos era apenas fruto da correção. Isso rendeu o climax da minha defesa, ja que uma das professoras disse em determinado momento:

          - Achei muito interessante a escolha dessa palavra aqui. Eh verdade que ela cabe nessa situação, mas pode ser extremamente controversa. Foi uma decisão bem particular de ter falado em 'tal palavra' nessa situação. Quais razões que te levaram a escolhe-la?

A essa altura eu achei que ja estava tarde demais pra dizer que eu não sabia sequer o significado da tal palavra, que provavelmente ela foi trocada na correção e me passou completamente despercebida. Eu que não ia admitir isso e então comecei, confiante por fora, gelatina por dentro:

          - Bom, eu acho que essa palavra traduz exatamente o contexto desse caso particular. Eu hesitei um pouco, mas acabei tendo certeza de que ela cabia bem nesse caso especifico, apesar de extrema. Você não acha? Ela fez um "hum-hum" e continuou. Ufa!

No final das contas, tive uma nota bem maior do que a esperada: 14, a mesma do ano passado. Ueba! Com um porém: tenho que corrigir umas coisinhas até setembro, mas é coisa basica que não vai dar muito trabalho. Na verdade posso escolher entre ficar com 13 com o trabalho atual, ou passar pra 14 com as correções. Mas como são mudanças simples, vou fazer. Resultado final: feliz, uma tonelada a menos das costas, com menção bien, livre e pronta para a proxima etapa!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Dor nas costas

Não pessoal, meu silêncio não é luto pela equipe da França. Até queria comentar a novelinha francesa, mas estou sem tempo mesmo. A minha propria novela da dissertação esta tirando todas as minhas forças.

Ainda não acabou.

Quando (ou se) tiver um final feliz, eu volto aqui uma tonelada mais leve.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Vida pos-dissertação

U-la-la! Um mês sem postar aqui no bloguinho. Deu até uma sensação estranha de vazio, de não precisar olhar pra ver se tem comentarios. Mas o sacrificio valeu a pena, ja que consegui estudar de verdade e estou quase  terminando a dissertação. Tenho que entregar a versão final dia 15 de junho e depois disso, que du bonheur! Ou em bom português, vai ser so felicidade!

 Acho que nem me preocupo mais com a defesa em si, passei tanto tempo escrevendo, corrigindo, pesquisando fazendo mapas e tabelas, rescrevendo tudo de novo, que 20 minutos de apresentação oral e debate com os professores vira fichinha. Além do mais, a apresentação do ano passado foi tranquila, apesar das criticas.

Ja fiz uma listinha das coisas que quero fazer depois que terminar o mémoire (juro que tenho uma listinha de verdade!) e ela esta ficando cada vez maior. Pessoas pra encontrar, museus para visitar, livros para ler por prazer. Quem bom, assim não corro risco de ficar meio perdida depois que não tiver mais o compromisso de estudar sem parar. Pretendo fazer também o segundo pique-nique do blog, aproveitando que o verão em Paris apareceu de vez.

Nesse mês perdi bons assuntos que eu poderia ter falado aqui no blog, mas daqui pra frente não vou deixar mais escapar nenhum! Estou de volta à blogsfera!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ultimo recurso

Então, como alguns perceberam, eu apaguei sem querer meu ultimo post. Dai entrei num dilema pensando se reescrevia ou não. Acontece que tenho apenas um mês pra entregar minha dissertação e não tenho nada pronto ainda! Quer dizer, tenho os dois primeiros capitulos sem todos os 50 mapas que devo fazer e varias correções necessarias. O terceiro e ultimo capitulo eu não tinha nenhuma linha até ontem.

Vou contar um segredo: eu não gosto de dissertações. Adoro pesquisar, aprender, apurar, fazer questionarios pra saber a opinião das pessoas, mas acho que poderia explicar tudo em uma reportagem de cinco paginas! Escrever 100 paginas sobre o mesmissimo assunto é uma coisa que não entra muito na minha cabeça, principalmente porque quase ninguém vai ter paciência de ler. Dai eu não fico com muita vontade de escrever, mas sempre tenho aquela pressão de terminar. Eh uma coisa horrivel que se transforma quase em dor fisica! Sério: doi. Dai eu enrolo, vou limpar as gavetas, vou limpar a cozinha, vou regar a plantinha e não sai nada. E pimba!, quando me dou conta ja é maio.

Então tive que tomar uma decisão. Ou eu adio o prazo e entrego em setembro (que é o que 90% da minha turma vai fazer) e passo o verão todo sofrendo como aconteceu no ano passado; ou eu me sacrifico durante um mês, estudando sério todos os dias e termino esse trabalho logo. Por mais inclinada à primeira opção que eu estava, optei pela segunda. Ontem, ja no espirito da nova Amanda, consegui escrever 5 paginas das 30 previstas para o terceiro capitulo. Mas essa dedicação significa que vou abandonar o bloguinho durante esse mês. Pode até ser que eu apareça por aqui pra escrever alguma coisa, mas não quero ter a obrigação de vir atualizar o espaço. Tenho certeza que minhas leitoras compreenderão!

Logico que tem a possibilidade de eu escrever como uma louca e minha professora achar que não esta assim tão bom e que eu deveria passar meu verão refazendo todo o trabalho que ja fiz. E olha que não é muito impossivel não! Mas bom, pelo menos eu tenho que tentar, né?

sábado, 13 de março de 2010

Mestrado na França

Alguem ai tem o segredo da motivaçao? Sem querer desanimar aqueles que querem fazer mestrado na França, às vezes me pergunto se vale mesmo a pena pra mim, ralar tanto por um diploma. No curso de mestrado do Brasil a gente tem que entregar uma dissertaçao no final do curso, uma coisa que a gente tenha se interessado e pesquisado ao longo dos dois anos. Dependendo da faculdade, o trabalho deve ter umas 70 paginas. Pois aqui na França a coisa é um pouco diferente.
Aqui os cursos do primeiro e do segundo ano podem ser completamente independentes. Ou seja, a pessoa pode fazer um ano em uma universidade e depois tentar o outro ano em uma instituiçao diferente, em outra area. E nao é todo mundo que consegue passar para o segundo ano, eu diria que 70% das pessoas passam. Na minha universidade, por exemplo, eles exigem que os lunos se locomovam até a area estudada, para a pesquisa de campo. Eu fui até o Paraguai, teve gente foi foi à Espanha, ao Ira, ao Senegal, à China, etcetcetc. Dai escrevemos nossa primeira dissertaçao, entre 100 e 200 paginas. Se a pessoa conseguir passar para o ano seguinte, geralmente ela pode escolher entre pesquisa e profissional. Se escolher essa ultima, ela tera que fazer um estagio em alguma empresa durante 4 ou 6 meses, com um salario de bosta e depois redigir um dossier sobre o estagio, de 50/100 paginas. Se escolher a pesquisa, como a maioria, tem que escrever uma segunda dissertaçao de 150 paginas.

Bom, estou na redaçao da minha segunda pesquisa, mas essa semana nao progredi muito. Fiquei sentada na frente do computador e so escrevi duas (!) paginas!! Acho meio injusto ter acabado de 'parir' uma dissertaçao super trabalhosa e ainda ter que fazer outra igualzinha, sobre um tema diferente. O pior é que apesar de nao avançar na escritura, acabo nao fazendo mais nada da vida, porque fico presa à essa dissertaçao. Se alguem tiver dicas de motivaçao, to aceitando, viu?

Minha pesquisa desse ano é sobre o Sul do Brasil. Leitores sulistas, vocês aceitam responder um questionario bem rapidinho? Deixem seus emails, por favor, ou mandem um para lourenco.ama@gmail.com .

Semana passada resolvi experimentar uma enquetezinha pra ver como era. A pesquisa era sobre a pena de morte e 27 pessoas participaram. 22 delas se disseram contra a medida. Eu ja desconfiava que o pessoal que lê esse blog tinha essa posiçao, mas como nos comentarios do post sobre o assunto alguns se disseram a favor, fiquei curiosa pra saber a opiniao de todos. Vou pensar em temas para as proximas enquetes.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Defesa da dissertação

Achei que não fosse ficar nervosa com a apresentação do meu mémoire. O pior ja tinha passado! Passar um ano pesquisando, fazendo entrevista, lendo, indo até o Paraguay de ônibus, passando horas e horas entre uma cidade e outra, escrevendo em francês, pedindo pra outras pessoas corrigirem, me desesperando em ver que tudo o que escrevi estava errado, organizando capitulos, esperando impacientemente a opinião da professora, bom, eu achava que meu sofrimento ja estava de bom tamanho. Mas é claro que eu estava errada.
Minha professora marcou a data a defesa duas semanas antes. Decidi que não ia me preocupar na primeira semana, ia curtir as férias e so na segunda começaria a me preparar. A segunda semana chegou rapido demais e eu fingi que não vi. Deixei passar um dia, depois o outro, depois so mais um e opa!, a dissertação é amanhã e eu não tenho nada preparado! Tratei de me apressar e fiz uma apresentação bonitinha no power point e ensaiei varias vezes o que ia dizer. Ja conhecia bem assunto, então me sentia preparada pra explicar meu trabalho. Até queria que questões fossem levantadas, pra poder mostrar meu ponto de vista. E depois da radio, perdi muito o medo de falar pra outras pessoas. Então estava tranquila.
No dia seguinte quis chegar bem cedo pra poder preparar o equipamento da apresentação do Power Point. Meu primeiro estresse foi descobrir que a secretaria estava doente e so ela tinha a chave da sala onde estava o projetor. Ou seja, toda a minha apresentação foi por agua à baixo. Me enfiei numa sala vazia e fiquei que nem uma louca falando sozinha, ensaiando a minha nova apresentação, sem imagens, sem mapas, sem graficos. Voltei ao meu departamento e encontrei uma menina do meu curso que também ia defender naquele dia. Começamos a conversar sobre os nossos colegas que ja tinham defendido. Ela estava mais informada que eu. Eu perguntava:
- E fulano?
- Não passou.
- E sicrano?
- Também não.
- E beltrano?
- Ih, esse a professora disse que não dava nem pra ir pra defesa!
Foi nesse momento que a gente ouviu gritos da sala ao lado. Era a defesa de um garoto do nosso curso, que aparentemente, estava indo mal. A professora falava alto e agressivamente: "O trabalho esta muito mal feito, você não foi feito para a geopolitica!". Acho que foi mais ou menos ai que comecei a entrar em pânico. Eu era a proxima.
Minha orientadora chegou e simpaticamente aumentou o meu panico dizendo que tinha um erro de gramatica no titulo do meu trabalho. No ti-tu-lo. A pouca segurança que eu tinha foi pro ralo. Entramos na sala eu e a banca composta de duas professoras e fiquei feliz de não ter pego a diretora, que não mede as palavras e pouco se lixa se você vai se ofender ou não. Ela da a melhor aula do curso, mas é extremamente intimidante. Comecei minha apresentação e foi tudo bem. Depois foi a vez delas de dar o parecer. Olha, 80% dos que elas falaram foram criticas e 20% elogios. Mas a impressão que elas deram foi que não precisavamos perder tempo com o que estava bom, então era melhor nos concentrarmos onde poderiamos melhorar. E isso significava que meu trabalho não estava uma merda completa, so que tinham pontos onde eu poderia ter feito melhor. Depois me perguntaram se eu queria continuar com o mesmo tema no segundo ano. Eu respondi um sonoro e traumatizado "NAO". Não aguento mais esse assunto! Se eu ver um paraguaio na rua eu mato! Nota final: 14/20. Otimo! Passei pro segundo ano.
Agora tudo o que tenho que fazer é repetir tudo o que fiz no primeiro ano e me matar de escrever outro mémoire. Não é otimo?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O desprazer de escrever

Eu sempre gostei de escrever. Acho que a gente se expressa melhor escrevendo, pois temos tempo de pensar, escolher as palavras, mudar de idéia, e ficar assim até o texto refletir exatamente o que queremos dizer. Dependendo da complexidade do assunto (e da inspiração, é claro), chega a ser um processo doloroso que no fim é recompensado por um orgulho proprio que diz: foi duro, mas valeu a pena.

Mas essa regra não vale para escrever numa lingua estrangeira. Aqui na França, quando tenho que entregar algum trabalho na faculdade, pesquiso, penso, escrevo, escrevo, escrevo e no final, o resultado é uma bosta. Quer dizer, à primeira vista para mim fica bom, mas quando peço pra alguém corrigir vejo que esta tudo errado. Resultado: perdi completamente o prazer de escrever. As vezes bolava frases que, de acordo com minha formação tupiniquim, estavam bem impactantes e ficava bem orgulhosa delas, até o meu namorado perguntar: "O que você quis dizer com essa frase? Ela não tem sentido". FRUSTRANTE. Uma vez ele estava de mal-humor e disse: "eu teria menos trabalho se ao invés de te corrigir, escrevesse tudo eu mesmo". Ele é assim, super romântico quando esta irritado.

Não é uma questão de gramatica, mas de construção de idéias. Acho que eu escrevo em português, mas com palavras em francês. Pelo menos ja sinto uma grande diferença de um ano pra ca, até meus "revisores" ja elogiaram, mas ainda não é suficiente. Alias, tenho varios revisores: meu namorado, minha sogra, alguns amigos e até a avo de um bebê que eu tomava conta, que foi super fofa e se ofereceu mais de uma vez pra fazer o serviço. Não sei o que seria de mim sem eles.

A ma noticia é que tenho que escrever uma dissertação de 150 paginas para o mestrado.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

A linha 13

Sabe a pior coisa da minha faculdade? Eh conseguir chegar la. Ela fica em Saint Denis, fora de Paris, num suburbio considerado 'quente'. Sabe aquela época em que se queimaram centenas de carros e a França aparecia todo dia no jornal? Pois é la mesmo, a minha fac. Mas eu so dei esse detalhe para vocês se localizarem melhor, pois não tenho do que reclamar da area, muito menos das pessoas. Acho mesmo super simpatico o acampamento permanente de ciganos que tem atras da universidade.

O chato é que eu moro do outro lado da cidade e demoro 1h pra chegar. Mas não é so isso, afinal quando eu trabalhava em Ipanema demorava mais. O problema é que troco de metrô quatro vezes, e o pior: pego a bendita linha 13.

A linha 13 so pode ser uma criação do coisa-ruim para castigar os mais pecadores dentre nos. Eu que ja detesto metrô, peguei trauma de vez. Li uma vez que ha em média 4,5 pessoas por metro quadrado nos vagões. Façam as contas. Na pratica ja sabia disso faz tempo. Tem até um funcionario em cada porta, para assegurar o fechamento. Nunca tinha visto isso na vida. Fora os engarrafamentos de trens, que obriga o piloto a parar a cada 20m naquele tunel escuro (morro de medo).

Ja fiquei presa por pane de sinalização, pane de energia, viajante passando mal, até suicidio na linha! Pelo menos tenho sempre uma desculpa pronta para os atrasos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Inversão de valores

Estava ansiosa para assistir a aula da melhor professora do meu curso. Ela é fera na geopolitica, a mulher sabe de tudo que esta acontecendo no mundo e suas causas historicas. Hoje era obvio que ela falaria sobre a carnificina israelense na Palestina. Estava esperando ela massacrar moralmente Israel e quebrar a cara da israelense da turma que apoia as medidas tomadas por seu governo. Qual foi a minha surpresa quando ela começou a defender Israel! Ela tentou ser neutra, mas nessa situação se você não condena Israel, esta do lado dele. Nessa guerra não existe imparcialidade.

Cheguei à conclusão que existe duas possiveis explicações para a posição dela. A primeira hipotese é a de que fazendo tanto esforço para sair do obvio, chegou à essa conclusão torta. Digo isso porque ela adora causar polêmica, mais de uma vez anunciou com um brilho nos olhos: "o que vou dizer agora com certeza vai chocar vocês". Ou seja, ela pode ter provocado mesmo, esperando uma reação agressiva de nossa parte ou no minimo uma reflexão mais profunda.

A segunda hipotese é a de que ela, como a geopolitica que é, perdeu completamente seu lado humanitario. Sim, pelo lado geopolitico podemos admirar a estratégia de Israel, a esperteza de suas ações. Porque afinal de contas, o principio basico da tatica militar é o atacar o mais fraco e se tornar mais poderoso. Mas o problema é que a guerra não é um problema matematico, como os jornais israelenses querem fazer o povo acreditar, mas uma questão humana de vida e morte. As pessoas têm que entender que um palestino vale mais do que o Estado de Israel e um israelense vale mais do que a Palestina. E a geopolitica que se foda.

Uma matéria muito boa sobre o assunto, do meu idolo Robert Fisk: http://www.fazendomedia.com/2009/internacional0108.htm

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Arrasando na oratoria

Meu primeiro dia de aula foi ha mais de um mês e desde la não tive tempo de escrever. Foi um engano pensar que teria mais tempo livre ao deixar o trabalho e voltar pra universidade. Apesar de ter bem menos carga horaria, tem muito trabalho pra fazer em casa! Do primeiro dia até aqui muita coisa aconteceu. Fiz varios amigos, aprendi um monte de coisas interessantes, mas também entrei em crise e achei que nunca iria conseguir acompanhar o curso. A crise ja passou (ou quase), mas se um dos episodios dramaticos merece ser contado, é a minha apresentação oral.

Na faculdade eu achava que minhas apresentações orais não tinham como ser piores. Sim, tinham: em francês.

Na véspera pedi ao meu namorado pra ser minha platéia, pra ter certeza de saber tudo o que queria falar. Comecei bem gaguejante, tentando consciliar meus pensamentos com minhas falas, mas levando bem a sério! Quando olhei pra minha platéia, ele estava sorrindo, a cabeça meio quebrada pro lado, uma cara absoluta de piedade. Tipo uma atitude de "ta péssimo, mas olha so pra ela, esta se esforçando tando, tadinha". Fiquei pe da vida! Reclamei dizendo que ele não estava levando à sério, que eu estava dando o melhor de mim, etc etc. Não importava o que eu dizia, o maldito sorriso piedoso não saia do rosto dele e tudo o que ele fez foi se aproximar e me dar um beijo na testa. Que raiva!

No dia seguinte fui para a aula. Os outros alunos começaram a se apresentar. Eles não tinham a menor vergonha e sabiam exatamente o que estavam dizendo. Fiquei intimidada. Mas eles falavam tão rapido e tão monocorde que na verdade ninguém estava realmente prestando atenção. La fui eu. Quando comecei a falar quebrei a morosidade da sala de aula e involuntariamente obtive a atenção geral. Razões: 1- Falava devagar, palavra por palavra; 2- Usava o vocabulario mais simples pra explicar um assunto super complexo, o que lembrava uma criança de 10 anos; 3- Falava bem alto (tenho certa tendência a falar mais alto do que pretendo). Tentei me concentrar no que estava dizendo. Uma trapalhada so. Esquecia as palavras, me perdia completamente. Em um momento houve um silêncio aterrador, parecia que eu fiquei calada por uma eternidade e tudo o que conseguia pensar era, diz alguma coisa, cacete! Sem contar com a minha brilhante conclusão de uma frase: "Mas isso não é importante". Todo mundo riu achando que era piada. Dai quando eles viram que continuei séria, a graça acabou rapidamente.

Foi ai que aconteceu. No meio de um raciocinio, fui olhar para a turma pra ver se eles estavam acompanhando bem e me dei conta de que todos eles tinham exatamente o mesmo sorriso de piedade e a mesma cabeça de ladinho que meu namorado na véspera! E tenho certeza de que se não fosse completamente fora das regras acadêmicas e sociais, cada um deles iria se levantar e me dar um beijo na testa.

Resumindo: catastrofe total. Mas sabe que depois fiquei mais tranquila? Porque eu pensei, pronto, dessa vez sim não tem como ser pior! Então da proxima vez por pior que seja ja vai ser melhor do que essa. E eu tinha razão! Essa semana apresentei o segundo trabalho e fui muuuuito melhor! Acho que a expectativa do pessoal estava tão baixa, que todo mundo me elogiou depois.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Primeiro dia de aula

Estava nervosa, frio na barriga. Sentei na ultima fileira, bem do lado da porta - saida de emergência, nunca se sabe... A professora atrasou 20 minutos e durante todo esse tempo a turma ficou sentada e muda, como se estivéssemos fazendo prova. Se um dos 80 alunos ousasse falar com seu vizinho, cochichava pra não quebrar o silêncio. Eu não quis ser diferente e fiquei quietinha esperando a prof chegar. Pois ela chegou e depois de 5 minutos de apresentações soltou: "A primeira fileira esta vazia. Esse pessoal que senta atras tem que perder essa mentalidade de colégio e amadurecer um pouco! Vocês estão no mestrado e escolheram estar aqui por conta propria, ninguém obrigou". Ai ai ai, levei uma bronca logo de cara. Todos os alunos olharam pra tras pra ver bem os relaxados.

Chamada. Ela disse que não fazia, mas como era o primeiro dia ia fazer. Sabia que a ordem alfabética era pelo sobrenome, e não pelo nome como no Brasil. Pensei "O meu é L então vai ser na metade". Estava concluindo esse pensamento quando ouvi chamarem meu outro sobrenome, aquele que começa com A e que eu nunca uso. Opa! Mas é pra responder o que? Presente? Aqui? Eu? "Moi! Moi! C'est moi!" , disse sacudindo os braços. E fiz questão de dizer bem alto antes que ela reclamasse que eu sentei no fundo e ainda queria falar baixo. Não queria levar minha segunda bronca. Todo mundo olhou pra mim e eu não entendi porquê. Depois eu fui percebendo que ninguém responde nada durante a chamada, so levantam educadamente a mão.

Quando a aula começou de verdade fiquei super feliz porque me dei conta de que aquilo era exatamente o que eu queria fazer. Isso é o que eu amo, geopolitica. Parecia que ela lia meus pensamentos: "O motivo principal de vocês estarem aqui é terem vontade de entender um pouco mais o mundo". Tudo é muito mais complexo do que pensamos e isso que é interessante.

Cheguei la às 8h da manhã e sai as 18h. No fim do dia, ja não aguentava mais! Tivemos aula de 13 às 18h SEM PAUSA! Oh-là-là! No Rio eu estudava 4h por dia, mas todo dia. Aqui eles tentaram concentrar tudo num dia so pra facilitar a vida de quem mora longe (eu). Mas não sei se foi uma boa idéia não, no fim parecia que o professor tava falando em chinês. E graças ao primeiro bebê que cuidei na França que quase fez com que eu quebrasse a coluna, não aguentava mais de dor por ficar sentada o dia todo. Peguei metro lotado e 1:15h depois cheguei em casa e dormi cedo como ha muito tempo não fazia.

amigos 0 broncas 1
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...