quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A republica da soja

Algumas pessoas perguntaram sobre meus temas de pesquisa das dissertações, então hoje vou falar um pouco sobre isso. As universidades francesas vêem a presença de um aluno estrangeiro como positiva porque partem do principio que ele vai poder trazer um pouco mais de conhecimento sobre seu pais de origem. Quase sempre os professores querem que o estrangeiro pesquise sobre o proprio pais, ja que teria mais facilidade com a lingua (bibliografia, pesquisa de campo, entrevistas) e um conhecimento prévio maior. Ou seja, levaria 10 vezes menos tempo do que um francês pra fazer o mesmo trabalho. O problema é que nem sempre os estrangeiros estão dispostos a estudar o proprio pais, afinal de contas, se esse fosse o objetivo, era mais facil ter ficado em casa. E esse era meu caso: eu queria ser jornalista da editoria internacional e falar sobre o Brasil não me acrescentaria muita coisa. Então achei um assunto que agradava todo mundo, sabendo que teria ir até la fazer a pesquisa de campo, que era pré-requisito: os brasiguaios, brasileiros que moram no Paraguai.

Muitos amigos brasileiros disseram "Mas Paraguai? Não tem nada de interessante la!". Olha, a primeira vista pode ser, mas depois que comecei a ler sobre o tema vi que tinha na minha frente um prato cheio para a geopolitica. Resumindo bem, o Paraguai abriga uma colônia gigantesca de brasileiros que foram pra la nas décadas de 70/80 por causa do baixo preço das terras e do incentivo do governo paraguaio, mas que hoje são uma praga no pais. Eles ocupam toda a região da fronteira com o Brasil e em muitas cidades se fala português, se vê novela brasileira e se mantém todos os costumes da terrinha. Eles não se misturaram, até as escolas são brasileiras. Até ai tudo bem, o problema é que eles plantam soja transgênica, que esta acabando com o pais. Primeiro por causa da enorme quantidade de agrotoxicos que fica no ar, na terra, na agua. Segundo porque eles estão comprando terras familiares de subsistência para aumentar a produção. Terceiro porque soja não precisa quase de mão-de-obra e os poucos empregos que existe são dados a outros brasiguaios, porque "paraguaio não gosta de trabalhar". Ou seja, esta acontecendo agora um êxodo rural muito grande e o resultado futuro a gente conhece bem: violência urbana.


Dai que o novo governo Lugo (aquele do padre de dois filhos) foi eleito com um discurso de que ia expulsar os brasiguaios do pais e fazer a reforma agraria. As invasões às fazendas estavam à mil e foi nessa época que eu meti os pés no Paraguai depois de 30 horas de ônibus do Rio. Ja tinha pronto na minha cabeça todos os papeis do teatro paraguaio: pobres locais, mocinhos; ricos brasiguaios plantadores de soja, vilões. Em Assunção visitei ongs e associações anti-soja e tudo ia bem. Então fui do outro lado do pais, onde os brasileiros estão concentrados e, numa cidadezinha chamada Santa Rosa del Monday, fui acolhida pela familia de brasiguaios mais doce que existe e que com certeza não cabiam no papel de vilões que eu tinha reservado pra eles.

O pai trabalhava para um grande sojeiro brasileiro (esse sim eu conheci e cabia no estereotipo de vilão) e me levou pra conhecer a imensa fazenda que era um mar verde, até onde os olhos pudessem alcançar. Visitei a maquinaria onde se colocava o "veneno" (como eles proprios chamavam os agrotoxicos) nas sementes, senti o cheiro quimico insuportavel que exalava de la. Entrei nos galpões de tratamento de soja-pos colheita e vi as toneladas de sacas prontas pra exportação. Cruzei tratores passando mais uma camada de veneno nas plantações.

Pausa pra explicação técnica. Pra quem não entende nada de agricultura, a vantagem da soja (e dos outros alimentos) trangênica é sua resistência aos herbicidas e inseticidas. Então pode-se passar um veneno bem forte contra os parasitas sem matar a planta também. Os trangênicos não se reproduzem, são feitos em laboratorios, como a Monsanto, que dominam o mercado vendendo as sementes, e é claro, os agrotoxicos. Mas isso ja é outra historia.

O irônico é que aqui na Europa os agrotoxicos são vistos como o inimigo numero um de uma vida saudavel. Os trangênicos, então, são o proprio demônio! Proibidissimo na Europa! Mas pra onde vai a soja venenosa transgênica do Paraguai? Pra Europa, alimentar as vaquinhas que produzem os camamberts da francesada.

E são os brasiguaios que fazem essa festa toda no terreno do vizinho. Mas ai entram os argumentos deles: vieram porque chamaram. O governo paraguaio abriu as portas do pais aos brasileiros, procurando agricultores mais especializados para colonizar essa parte deserta do territorio paraguaio, justamente a fronteira com o Brasil. Muitos brasileiros responderam ao apelo, venderam tudo o que tinham no Brasil. A maioria era muito pobre. Chegaram numa mata fechada e selvagem e o que mais se ouve dos brasiguaios é “quando cheguei aqui so tinha mato”. Eles abriram a floresta, construiram casas e aos poucos foram preparando terreno para agricultura, como desejava o governo paraguaio. Então eles dizem que depois que todo o trabalho estava feito e era hora de colher os frutos, os paraguaios resolveram atravessar o pais e reivindicar as terras que eles haviam comprado do governo.

Querer dividir tudo em bem e mal é tão ingênuo, né? O que existe são decisões tomadas de acordo com o contexto do momento. A banca disse que estava obvio no meu trabalho que eu tinha ido pro Paraguai pensando uma coisa, mas que mudei de ideia, o que foi bem positivo. Em suma, eu adorei ter estudado esse tema, adorei ter ido no Paraguai quebrar a cara, adorei ter conhecido todo mundo que conheci. Adorei um pouco menos escrever cem paginas sobre isso.


Meu segundo tema foi escolhido sabendo que eu não poderia fazer pesquisa de campo, o que seria bem menos emocionante. Escolhi uma coisa que sempre me intrigou, os movimentos separatistas no Sul do Brasil. Foi interessante, mas acho que so o fato de não ter ido até la me desestimulou muito. Fiz tudo pela internet, pelos livros, pelas teorias. Nada de grandes aventuras em um pais desconhecido, o maximo de emoção que tive foi pegar o ônibus até a biblioteca mais proxima. Agora da pra entender minha frustração, né?

*As fotos são minhas (exceto a do agrotoxico) e ilustraram a dissertação.

9 comentários:

Priscila_Sodre disse...

Oi,
muito interessante a sua dissertação. Conheço uma pessoa do Paraguay que mora no Brasil.Interessa fazer a pesquisa inversa? rs
Sobre o segundo tema, dá muito o que falar. O pessoal do Sul tem uma cultura extremamente bairrista, e essa questão da separação é mesmo visível. Falo porque sou baiana mas estava morando lá. Caso queira depoimentos para análise do discurso, conheço algumas pessoas de lá que habitam várias regiões do Rio Grande do Sul. =)
até.

Cris disse...

ADOREI!
Poxa, mas pq nao veio fazer a pesquisa? Queria muito saber os detalhes da "aventura separatista" no Sul! Tb to frustrada ;) kkk Brincadeira.

asnalfa disse...

Quer dizer que exodo rural causa violencia???
kkkkkkkkkkkkkkkkkk
Que ideia de comunista viu!!!
Pura piada! Pq o caboquinho nao pode trabalhar, preferindo roubar??? Falta de vergonha na cara (ou seja, de bons exemplos)!

Rita disse...

Oi, Amanda

Não fica chateada por eu não comentar sobre sua pesquisa envolvendo o Paraguai, mas confesso que mal posso esperar pelo post sobre a pesquisa em torno do separatismo no sul. Sorry.

Bj
Rita

Patrick disse...

Compartilhei o seu texto no meu google buzz e fiquei surpreso com os comentários dos meus amigos. Ainda há muita gente pensando que soja transgênica é mais resistente a pragas, quando na realidade é mais resistente aos agrotóxicos de um determinado fabricante. Parabéns pelo texto e pelo trabalho!

Aline Mariane disse...

Uau, parabéns pelo trabalho!!! E obrigada por dividir com a gente! O tema é sem dúvidas super interessante e seu resultado, então, mais ainda! Fiquei super curiosa, se ainda tem ânimo para escrever mais, tem leitora!!

Ontem descobri que ração de cachorro e gato é 95% soja. Advinha só de onde ela vem?!
Acho interessante, ainda, a lavagem cerebral que temos no Brasil, como se soja fosse uma coisa saldável (vide os suquinhos tipo Ades) e o grande substituto da proteína animal. Por aqui não, já reparou? Os vegetarianos franceses que conheço nunca viram "carne" de soja... Oops, o tema não é soja, empolguei! hehe

Fiquei contente em saber que os profs franceses querem que a gente estude o Brasil. Espero que por aqui também!

Estou (estamos!) esperando um post sobre a segunda dissertação!!
Bjss!

disse...

Muito interessante o seu tema de dissertação. Eu não conhecia absolutamente nada sobre esse assunto!

Fabiana Dias disse...

Muito bacana!
Você traduziu super bem o academicismo pra uma linguagem leve e interessante!
Instigante a sua pesquisa!
Parabéns!
Agora quero um post sobre os movimentos separatistas do sul, isso muito me interessa!
beijo

Paulo Renato disse...

Descobri teu blog há pouco. Sou gaúcho e deves ter constatado que no Rio Grande do Sul o sentimento de autonomia e independência é muito grande, mas a maioria de nós não quer se separar do Brasil. Precisamos reescrever um novo pacto federativo, diminuindo o centralismo de Braília.

Apesar de falarmos em 'Pátria Gaúcha', há mais gaúchos dispostos a serem presidentes do Brasil do que presidentes do Rio Grande do Sul, eh eh...

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