segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Pessimismo à francesa

Assim como morar no exterior nos abre os olhos para aprender sobre nosso próprio país, morar em outro país durante muito tempo e depois sair dele também nos faz perceber melhor as sutilezas do lugar que antes passavam sem serem notados.

Percebi que os franceses são muito, mas muito pessimistas. Mas não foi preciso sair da França para saber disso, você diz. Ou melhor, não foi preciso sequer ir pra França, todo mundo sabe! Sim, sim, concordo. É uma ideia generalizada que paira sobre a cabeça dos franceses, mas que agora eu posso ver exatamente onde estão esses sinais de pessimismo.

Por exemplo, a tão usada expressão "bon courage" nada mais é que uma ode ao pessimismo. Uma vez estávamos no Brasil e o cheri, ao terminar as compras no supermercado, disse "Coragem!" à caixa que estava nos atendendo. Eu logo chamei a atenção dele, não se fala isso no Brasil. Não dizemos "força aí" às pessoas que cruzam nosso caminho porque não partimos do princípio de que elas estejam precisando de encorajamento para continuar trabalhando. Partimos do princípio de que tá todo mundo muito satisfeito de estar ali trabalhando. Tudo bem que isso pode não ser verdade, mas ora, isso é ser otimista.

Estava lendo uma matéria sobre um vendedor francês que, ao contrário da população mundial, gosta das segundas-feiras de manhã. Ele disse que sua mãe inglesa sempre dizia pra ele "enjoy your day!", ao invés do terrível "bon courage". Poxa, isso faz toda a diferença na vida de uma criança, não? Imagina ir pra escola todo dia ao som de "força", "coragem", "fé que você vai conseguir sobreviver a mais um dia". Um horror, esses franceses.

Não é à toa que eles vivem pensando na aposentadoria.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

O punhal de Le Pen

Nas vésperas do segundo turno das eleições presidenciais francesas de 2002, aquela que catastroficamente ficou entre Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen, Mohamed Moulay abria a boca para contar sua tragédia pessoal. Esse argelino tinha passado muitos anos remoendo uma história de terror, mas quando viu seu algoz a um passo de se tornar presidente da república, decidiu falar. Pensando bem acho que ele já sabia que Le Pen não seria eleito, e escândalo nenhum mudaria isso, deve ter sido mais um puxão de orelha nos franceses, como quem diz "prestem bem atenção em quem vocês estão votando".

Mohamed contou ao jornal Le Monde que perdeu seu pai dia 3 de março de 1957, depois de uma visita de uma tropa de paraquedistas franceses. O chefe do grupo era o jovem Jean-Marie Le Pen, "grande, forte e loiro". O pai de Mohamed, Ahmed Moulay, fazia parte do Front de Libération Nationale, partido radical que lutava contra a colonização francesa e acabou consquistando a independência da Argélia (e que mais tarde demonstrou não ser nenhum um pouco democrático, mas isso é outra história). Então, no meio da noite, Le Pen invade a casa da família Moulay e submete Ahmed, que tinha então 42 anos, a um interrogatório macabro. O que se segue são intermináveis horas de tortura com água e eletricidade, sob os olhos aterrorizados da mulher e dos seis filhos de Ahmed. Diante da resistência do argelino em não delatar seus companheiros, Le Pen e sua tropa vão embora deixando um cadáver para trás.

O irônico é que o jovem Jean-Marie Le Pen esqueceu um punhal com seu nome gravado no local do crime. Mohamed, que na época tinha 12 anos, encontra a faca e sem pensar duas vezes a esconde. No dia seguinte Le Pen volta para recuperar o objeto, mas não acha. Trata-se de uma faca da Hitlerjugend, a Juventude Hitlerista, fabricada nos anos 30.


Essa história, Mohamed guardou por 45 anos e decidiu contar apenas quando viu Jean-Marie Le Pen no segundo turno das eleições presidenciais, há exatos 10 anos. O político conservador processou Mohamed e o jornal Le Monde por difamação e perdeu. O punhal foi uma das provas do processo e daqui a um mês será levado de volta para a Argélia, onde se tornará peça de um museu.

Acho assustador pensar que é desse tipo de gente que a política francesa é feita. Que a UMP esteja pensando em fazer aliança com um partido fundado por um assassino. Claro que imagino (e espero) que Jean-Marie Le Pen tenha evoluído e não seja mais a mesma pessoa que invadiu a casa da família Moulay. Muito menos quero julgar Marine Le Pen pelos erros do pai. Mas é a essência que conta, sabe? É o ambiente do qual essas pessoas vieram.

Mohamed Moulay morreu há dois dias, aos 67 anos.

*Informações tiradas dessa matéria do Le Monde.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A esquerda francesa no caminho certo



A princípio, o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais francesas pode assustar, afinal de contas ver a extrema-direita conquistar quase um quinto do eleitorado parece realmente preocupante. Mas depois de uma análise mais fria, a esquerda francesa pode suspirar aliviada: ela está exatamente onde deveria estar. É claro que o risco sempre existe, mas o cenário político atual privilegia o partido Socialista de François Hollande como nunca antes.

Essa é a quinta vez que um presidente tenta a reeleição na história recente da França, mas é a primeira vez que o candidato-presidente não termina na frente no primeiro turno, o que reflete a grande rejeição de Nicolas Sarkozy. O atual presidente bateu recordes de impopularidade durante todo seu governo, o que leva a crer que seu partido teria melhores chances se tivesse apresentado um outro candidato, alguém com a imagem menos desgastada. A campanha popular contra Sarkozy foi provavelmente mais eficiente que a campanha pró-François Hollande. O site de informação francês Rue 89, por exemplo, criou o aplicativo "600 razões para não votar Sarkozy" que se espalhou rapidamente pela internet. O que garantiu o sucesso do aplicativo foi a relevância dos 600 motivos, pesquisados minuciosamente pelo jornalista Samuel Duhamel. Entre as razões estão: "Porque ele enviou o exército francês ao Chade em fevereiro de 2008 para manter o ditador Idriss Déby no poder", ou ainda "Porque uma viagem de 24h à ilha de Reunião por 1,6 milhões de euros (quase 4 milhões de reais) saídos do bolso do contribuinte é jogar dinheiro pela janela", sempre com suas devidas fontes.

Desta forma, é natural que os eleitores da UMP que rejeitam a figura de Sarkozy busquem alternativas e o caminho encontrado por parte deles foi o da extrema-direita de Marine Le Pen. Irônico que um dos objetivos da campanha de Sarkozy tenha sido justamente abocanhar parte do eleitorado lepenista, mas na verdade perdeu votos para ela. A candidata do Front National adotou um discurso mais leve em relação ao pai, repudiou a ideia de que seria racista e soube passar uma postura menos radical, mas sempre mantendo uma posição anti-imigração. Em um momento de crise, esse tipo de discurso é tentador para os operários. Voilà os 18%.

A grande preocupação agora é para onde vão esses eleitores. Marine Le Pen já garantiu que não apoiará Nicolas Sarkozy e incentivará seus admiradores a votarem nulo. É pouco provável os votos irem em peso para o presidente, pois os eleitores lepenistas não seguem a lógica da direita versus esquerda, é sobretudo um voto de protesto. Ora, protesto contra Sarkozy. Então somar as pontuações da direita não significa nada nessas eleições.

Todas as pesquisas apontam para uma vitória de François Hollande do segundo turno, nenhuma dá a vitória para Sarkozy. Se os prognósticos estiverem corretos, existe uma grande possibilidade que pela primeira vez a França seja governada por uma maioria de esquerda em todas as suas esferas políticas. A esquerda já conta com uma maioria nas prefeituras, nos conselhos regionais e no senado. Mas a conquista mais importante acontecerá em junho desse ano nas eleições legislativas, de onde sai a força do governo. Se o partido Socialista conseguir a presidência, a tendência é conseguir também as legislativas e se o quadro se confirmar, será a oportunidade de ouro para a esquerda francesa mostrar seu valor, justamente em um momento que o país se mostra com uma mentalidade cada vez mais conservadora.

*Texto escrito antes da possível junção da UMP com o FN (que na verdade não muda muita coisa nas presidenciais, mas nas legislativas). Outro texto meu sobre as eleições foi publicado aqui.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Conselhos práticos para quem vai deixar a França

Já alertei aqui o quanto Paris pode ser rancorosa quando decidimos deixá-la. Todos foram testemunhas de que enfrentei todo tipo de agressividade de sua parte - como eu disse: "os golpes mais baixos que uma cidade pode dar numa pessoa". Felizmente alguns desses golpes podem ser evitados se você estiver preparado, então decidi dar umas dicas de como se livrar da ira de Paris no dia que você resolver ir embora.

Na verdade acho que tive sorte de ter que fazer uma pequena mudança dois meses antes de fazer a grande mudança, então tive mais tempo de me organizar, mas como normalmente as pessoas não são expulsas do seu próprio apartamento, acho válido dar uns toques.

Roupas e livros
Logo que decidir voltar pro Brasil, aproveite cada visita que tiver para ir mandando as tralhas. Lembre-se que os brasileiros que visitam a Europa podem levar até duas malas de 32kg enquanto nós, que compramos as passagens saindo da Europa, podemos levar apenas uma mala de 24kg. Sim, o mundo é injusto. Deixe a vergonha de lado e peça pra galera ir levando suas coisas aos poucos, dando prioridade para os livros, que são mais pesados. Quanto à melhor forma de levar o que sobrou eu não posso ajudar, já que sou uma pessoa pesapegada que conseguiu enfiar tudo em uma malinha de 23,500kg (e sem pesar!). Sei que dá pra enviar por navio, mas tem gente que prefere pagar excesso de bagagem, que custa 100 euros cada mala extra.

Apartamento
Normalmente os contratos de aluguel exigem um pré aviso de um mês antes de deixar o apartamento. Não esqueça da caução: tenha certeza de que tudo está em ordem para não levar calote do proprietário, já que você não estará mais por perto para resolver qualquer perrengue.

TV-Internet-Telefone
Foi de longe o que me deu mais problema. É importante saber que a cada vez que eles ligarem oferecendo uma oferta nova, canais gratuitos ou qualquer outra mudança, é um contrato novo que se inicia. Mas também não é nada de grave, já que podemos interromper o contrato no caso de uma mudança para o estrangeiro. O ideal é mandar uma carta pedindo o cancelamento do serviço um mês antes de partir. Tem que pegar um modelo de resiliation na internet dizendo que vai se mudar, pedir pra alguém no Brasil assinar uma carta em francês dizendo que você vai morar na casa dela. Não esqueça de uma cópia do passaporte da pessoa e um comprovante de residência. Então poste no correio com o comprovante de entrega, que é a parte mais importante. Há casos das empresas dizerem que nunca receberam nada. Normalmente demora uma semana. Daí eles tem que mandar pra sua casa um documento pedindo pra você depositar o material que emprestaram na loja mais próxima no prazo de 15 dias. Você vai lá, deposita o material e pega um comprovante. Se tiver caução, como no meu caso, pergunte quando e como vai receber o dinheiro. Aproveite e peça pro cara dar uma olhada no computador pra ver se está tudo certo (porque no meu caso eles estavam prestes a descontar 500 euros por engano). Depois disso, vá ao seu banco e faça uma opposition à empresa, para impedí-la de tirar dinheiro da sua conta. Isso é muito importante, porque muita gente tem problema com empresas que continuam a cobrar por um serviço que já foi cancelado! E como você estará no Brasil, não poderá resolver tudo isso e acabará perdendo uma grana à toa.

Celular
É mais ou menos no mesmo esquema da TV aí de cima. A diferença é que não tem material a ser devolvido. Eles dão um prazo de 15 dias para cancelar o serviço depois que recebem a carta. Mas no meu caso, por exemplo, demorou mais de 15 dias apenas para eles receberem a carta! Só fui ter a confirmação depois que já estava no Brasil. Então se você não se importar de ficar um tempinho sem celular, sugiro que mande a cartinha um mês antes de ir embora.

*Comprar um celular com contrato de dois anos, mesmo que você vá embora daqui a dois meses, é uma boa ideia, já que podemos cancelar o contrato em caso de mudança de país. Muita gente aproveita os bons preços para chegar no Brasil com um IPhone novinho (e ser logo roubado, mas aí é outra história).

Banco
Os bancos da França são bem práticos. Se você quiser cancelar sua conta, tudo o que tem a fazer é transferir seu dinheiro para uma conta no Brasil e fechar tudo. Se ainda tiver um pagamento pra receber ou uma conta que vai cair depois de sua partida, também não tem problema, você pode fechar sua conta por email. Mas antes vá conversar com o responsável e explique a situação. Se você quiser manter sua conta, pode acompanhá-la pela internet e continuar fazendo suas transações por email. Dá pra fazer tudo à distância, mas antes é preciso ir lá pessoalmente e bater um papinho com o gerente.

Alguma outra dica?

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A nova pequena

E eu, que fingi todo o tempo ser o grande da relação, reconheci meu lugar, me arrependi, pedi desculpas e disse que queria voltar atras. Paris me disse que era tarde demais.

- Por favor!
- Non.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nunca subestime um coração partido

Deixar Paris está sendo o fim de relacionamento mais difícil que já tive na vida. Eu estou bem, já me conformei, já tenho uma outra cidade na minha vida, estou fazendo novos planos e aproveitando minha liberdade. O problema é ela: Paris está se revelando muito mais rancorosa do que eu imaginava.

Paris está me sabotando desde que eu voltei de férias apaixonada por outras cidades do sul da França. Espedaillac foi um golpe muito forte, eu sinto. Quando disse que os vilarejos são muito mais lindos do que a capital, eu sei que de alguma forma ela ouviu e se ofendeu. Quando eu me maravilhei com a Corse, tenho certeza que Paris pensou: "ela nunca olhou pra mim com essa admiração". E desde então ela anda fazendo da minha vida um inferno.

Depois de cinco anos de convivência, ela conhece muito bem meus pontos fracos e não hesita um segundo em utilizá-los contra mim. Ela me ataca na alma com toda a falta de gentileza que seus piores habitantes podem ter. Ela me mostra toda sua grosseria, sua ambição cega, sua mesquinharia. Ela aponta o dedo na minha cara, ri e me faz chorar em público. Ela me atinge no bolso através de sistemas complexos sobre o qual não tenho o menor controle. Ela me mostra o que há de pior na humanidade, ela me faz ter pensamentos furiosos e cheios de ódio, mostrando também o que há de pior em mim.

Sequer a reconheço mais. No início do nosso relacionamento ela me deu tudo. Ela me deu um lar, um emprego. Ela me ensinou muitas coisas, aprendi tanto! Ela me deu até um diploma, mas as coisas mais importantes que aprendi não foram em sala de aula. Paris me ensinou uma língua nova. Paris me ensinou a sempre olhar os dois lados da história. Ela me ofereceu tudo o que havia de melhor nela e eu peguei. Realmente me senti acolhida. Se no início não tinha muitos amigos, eu não me importava. Quando uma tristezinha ou uma solidão batia, eu saia de casa, ia admirar a beleza lá fora e tudo ficava bem novamente. Quem precisa de amigos quando se tem Paris?, eu pensava. E ela adorava ouvir esse tipo de coisa. Foi nossa melhor época juntas.

Com o tempo fui fazendo amigos e deixei de olhar tanto para cima para olhar mais para baixo, tomando cuidado com o caminho na volta pra casa de madrugada. Ela não estava totalmente satisfeita, mas acabou se conformando porque via que eu estava mais feliz. Mas nos sabíamos que nosso relacionamento já não era o mesmo. Eu já não podia mais suportar o metrô lotado que ela me oferecia. Passei a pegar ônibus. Eu comecei a reclamar da multidão, dos turistas, dos preços. Ela se ofendeu. O ganha-pão que ela oferecia passou a ser insuficiente para meu crescimento. Minha existência na cidade começou a parecer sem sentido e então eu decidir por um ponto final na nossa relação e ir embora.

Foi aí que Paris se decidiu a me prejudicar como podia. Ela me deu os golpes mais baixos que uma cidade pode dar numa pessoa. O que ela não percebe, é que isso tudo que ela está fazendo só me dá mais vontade de ir embora e a cada dia que passa eu tenho mais certeza de que tomei a boa decisão. Sim, amei Paris e vou continuar a amá-la pra sempre, mas de uma forma diferente. Ela sempre terá um espaço no meu coração - o que vivemos juntas não se esquece jamais. Mas ela precisa entender que esse joguinho sujo não serve pra nada. Não é melhor dizermos adeus sem mágoas, sem rancores, apenas lembrando os bons momentos?

Não me leve a mal, Paris. Sou nômade demais pra ficar numa cidade só. Mas nunca vou esquecer tudo o que você fez por mim, nem das vezes que você piscou quando me viu passar. So peço por favor, me deixe ir em paz.

Depois da tempestade...

domingo, 4 de setembro de 2011

Leitura de férias: La vie devant soi, Romain Gary

Não, minhas férias ainda não acabaram. Mas depois de rodar todos os campings imagináveis do sul da França (algo entre 10 e 15) voltamos pra Argelès pra poder passar uma semaninha tranquila antes de voltar à babilônia.

Desisti de postar durante a viagem por vários motivos. Primeiro porque nem sempre tinha uma conexão boa, depois porque postar fotos era algo muito, muito complicado. Carregar a tablete nos campings também nem sempre era possível. E eu não queria perder meu precioso tempo de férias lutando contra todos esses empecilhos e provavelmente me irritando muito. Sem contar o cheri que reclama que eu passo tempo demais na internet. Não faço ideia de onde ele tira tamanha calúnia. :D

Mas tenho tanta coisa pra contar que nem sei como vou fazer pra organizar. Provavelmente vou virar blog monotemático por um tempinho. Mas antes de começar a maratona, aproveito para indicar um livro maravilhoso que li esses dias, presente de despedida das mães das crianças que tomei conta até julho - La vie devant soi, de Romain Gary.

Ja tinha ouvido falar do autor, pois ele conseguiu um fato inédito: ganhou o prêmio Goncourt, o mais importante da língua francesa, duas vezes. Normalmente, um escritor só pode ganhar uma vez na vida, mas Gary driblou as regras do jogo com um artifício simples - um pseudônimo. Na verdade, La vie devant soi, de 1975, é assinado por Émile Ajar, personagem que seu sobrinho aceitou encarnar por oito anos (alias, o falso escritor morava em Caniac, aquela cidadezinha do avô do cheri que falei no post do Lot). O primeiro Goncourt, Gary ganhou com Racines du ciel, de 1956. Quer prova maior de que o cara é bom?

Fui procurar o título do livro em português e vocês podem imaginar o tamanho da minha surpresa ao descobrir que a primeira tradução saiu em... 2011! A má notícia é que acho que é em português de Portugal. Mas não tenho certeza, não dá pra pesquisar muito aqui. Então procurem aí: Uma vida a sua frente, Romain Gary (Émile Ajar). Se não me engano tem um filme também. Hoje eu tô que tô pra dar informações, heim? Quando voltar pra Paris procuro tudo direitinho.

O livro conta a história de Momo, um orfão de mãe que mora na pensão da madame Rosa, uma judia idosa, mas do ponto de vista do próprio Momo. Como ele é uma criança não-escolarizada, a linguagem é limitada, assim como seu entendimento do mundo. A gente entra na cabeça de Momo e é capaz de entender toda a confusão mental dele. Por exemplo, mais pro fim do livro tem um diálogo incrível dele com um médico, e se eu copiar as falas de Momo aqui ninguém vai entender uma palavra dos absurdos non-senses que ele está falando. Mas depois de acompanhar toda sua vida, aquelas frases têm um sentido, a gente entende! E entendemos também o médico, que fica ali parado com cara de ué, sem entender nada. Genial.

Parece que Momo é uma pessoa em seu estado mais puro, uma criança que ainda não aprendeu a domar seus instintos. Inocência misturada com uma maturidade forçada. O livro é de um humor trágico, uma amargura necessária, mas sobretudo uma linda história de um amor atípico. Uma verdadeira obra de arte, não sei porque ele não é mais famoso fora da França. Virou um dos meus preferidos de todos os tempos junto com Cem anos de solidão e Metaphisyque des tubes, da Nothomb.

O primeiro parágrafo mal traduzido por mim:
"A primeira coisa que posso dizer é que a gente morava no sexto andar a pé e que para madame Rosa, com todos aqueles quilos que ela tinha e apenas duas pernas, era uma verdadeira fonte de vida cotidiana, com todas as suas penas e preocupações. (...) Sua saúde também não era boa e eu posso afirmar desde o começo que ela era uma mulher que merecia um elevador".

domingo, 21 de agosto de 2011

Calanques, o caminho até as águas cristalinas

Tínhamos nosso dia bem programado: acordar às 6h30, sair do camping às 7h, chegar na cidade de Cassis às 7h50, pegar o ônibus municipal que nos leva até o centro às 8h, chegar no centro às 8h15 e começar a trilha para os calanques imediatamente. O guia dizia que a trilha até onde queríamos ir demorava 2h, então pensamos que daria pra fazer mais rápido e chegar lá antes das 10h. Ficaríamos uma horinha na praia (calanque é praia, já explico), depois estaríamos de volta no máximo uma da tarde. Mas existe o imprevisto, esse lindo.

Pra dizer a verdade não sei se existe uma palavra em português pra dizer "calanque", e nem posso procurar agora porque estou sem internet (estou no barco rumo à Corse!). Mas calanque é um braço de mar num terreno montanhoso, tipo uma fissura nas falésias que formam uma praia. Isso na teoria. Na prática é mais simples de explicar: putaquepariuquecoisamaislinda! O negócio é que é meio difícil de chegar, tem que ir de trilha, ou de barco. Decidimos ir no En-Vau, que é o terceiro saindo de Cassis. O primeiro era um calanque-porto, cheio de barco e impróprio pra banho. O segundo era bonitinho, mas as falésias não eram completas. O terceiro que era "o" lugar. Era lá que queríamos chegar, de preferência antes de todo mundo.

Mas em vez de sair às 7h, saimos 7h45. Chegamos em Cassis 8h30 e descobrimos que o primeiro ônibus era só 9h. Saiu atrasado. Começamos a trilha já bem tarde, subimos uma montanha enorme, fiquei exausta já na primeira meia hora. A boa notícia é que não cruzamos com ninguém no caminho e fiquei toda feliz pensando que como o caminho era difícil, pelo menos não teria muita gente no calanque. Aliás, se fôssemos nos basear pela quantidade de pessoas que víamos na trilha, não teria ninguém. Subimos uma montanha e fomos parar em cima das falésias. Estava cheio de plaquinhas avisando do perigo de quedas, pois as pontas eram cobertas de vegetação seca, que escondia as beiradas. Então se a gente pegasse a trilha errada, corria o risco de cair no vazio. Pra completar o drama, dois dias antes, quando ainda nem sabia que meu percurso incluia andar sobre falésias perigosas, sonhei que caia de uma! Eu caminhava até a ponta, escorregava numa pedrinha e caia lá embaixo espatifada. Pelo menos meu sonho serviu pra eu ser mais prudente.

Subimos e descemos duas montanhas até chegar no segundo calanque. Levei um choque quando vi, que coisa maravilhosa!



Depois estranhei a quantidade de pessoas naquela praia se não tinha ninguém na trilha. Várias crianças, elas não iriam encarar as falésias mortais! Será que todos tinham ido de barco? Ansiosos pra chegar no terceiro calanque, fomos logo retomando nosso rumo. Dessa vez tinham algumas pessoas andando com a gente. Meldels do céu, o que era aquela trilha? Nunca fiz uma tão complicada, coberta de pedrinhas que deslizavam à medida que íamos pisando nelas. Sem falar do sol, que já estava a pino e queimando sem piedade. Eu, que não suo, estava pingando. Se subir era difícil, descer era ainda pior, porque escorregava muito. E era muito perigoso, se caisse num lugar mais íngreme, já era. Mas estávamos no meio de uma das paisagens mais lindas que já vi na vida.


tem duas pessoas ali embaixo, achou?

Chegamos finalmente no terceiro calanque. Duas horas de trilha pra chegar no nosso paraíso selvagem. Hã, selvagem?


A época do ano não é a melhor pra quem procura exclusividade. Até que não tinha muita gente, se considerarmos como a cidade de Cassis estava cheia. Mas valeu a pena, a paisagem era grandiosa e a água do mar translúcida (fria demais pro meu gosto, mas a gente releva).


eu ali no meio!

No caminho de volta até o segundo calanque, encontramos um cara magrinho com uma expressão de choro que disse "eu só tô pensando na volta, não vou aguentar". O chato dessa trilha é isso mesmo, a gente tá na praia, naquele paraíso, preocupado com a dificuldade da volta. No segundo calanque, vimos que a galera estava tomando uma trilha diferente da que viemos. Pombas, não acredito que tinha outra, mais fácil! Seguimos todo mundo e mal pude acreditar. Se por um lado eu estava frustrada de ter andado à toa na ida, por outro eu estava feliz de saber que a volta seria bem mais curta e que não incluia falésias mortais. E cá pra nós, o caminho de ida foi bem mais lindo e eu nunca teria feito se soubesse que tinha outro. Fiz o cheri jurar que ele não sabia.

Achamos que a trilha original era facil demais e decidimos dificultar andando ali por cima, ó!

Chegamos em Cassis depois das 3h da tarde, famintos porque não previmos levar almoço. Dispensamos os sandubas a 10 euros que a cidade de rico oferecia e compramos os nosso no supermercado mesmo.

No caminho de volta, cheri passou numa estrada entre as montanhas e eu fiquei dividida entre fechar os olhos de medo ou olhar a paisagem. Maldito sonho, viu.


Foi um dos melhores dias da viagem. Principalmente agora que lembro dele no aconchego da minha cadeirinha.
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