segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Pessimismo à francesa

Assim como morar no exterior nos abre os olhos para aprender sobre nosso próprio país, morar em outro país durante muito tempo e depois sair dele também nos faz perceber melhor as sutilezas do lugar que antes passavam sem serem notados.

Percebi que os franceses são muito, mas muito pessimistas. Mas não foi preciso sair da França para saber disso, você diz. Ou melhor, não foi preciso sequer ir pra França, todo mundo sabe! Sim, sim, concordo. É uma ideia generalizada que paira sobre a cabeça dos franceses, mas que agora eu posso ver exatamente onde estão esses sinais de pessimismo.

Por exemplo, a tão usada expressão "bon courage" nada mais é que uma ode ao pessimismo. Uma vez estávamos no Brasil e o cheri, ao terminar as compras no supermercado, disse "Coragem!" à caixa que estava nos atendendo. Eu logo chamei a atenção dele, não se fala isso no Brasil. Não dizemos "força aí" às pessoas que cruzam nosso caminho porque não partimos do princípio de que elas estejam precisando de encorajamento para continuar trabalhando. Partimos do princípio de que tá todo mundo muito satisfeito de estar ali trabalhando. Tudo bem que isso pode não ser verdade, mas ora, isso é ser otimista.

Estava lendo uma matéria sobre um vendedor francês que, ao contrário da população mundial, gosta das segundas-feiras de manhã. Ele disse que sua mãe inglesa sempre dizia pra ele "enjoy your day!", ao invés do terrível "bon courage". Poxa, isso faz toda a diferença na vida de uma criança, não? Imagina ir pra escola todo dia ao som de "força", "coragem", "fé que você vai conseguir sobreviver a mais um dia". Um horror, esses franceses.

Não é à toa que eles vivem pensando na aposentadoria.

18 comentários:

Beth disse...

E devo dizer, por experiencia própria (mas não minha) que quando chega a dita aposentadoria, eles falam que não tem nada o que fazer, ou que o contrário, se tem muito o que fazer (a casa ocupa muito tempo e não se tem tempo pra curtir), que o clima é horroroso (dai vc pode acrescentar, muito frio ou muito quente), bref, 'cê sabe. Um povo eternamente resmungão, não muda.

Helena disse...

Também tenho essa percepção quando escuto e leio as notícias, parece que os franceses sempre preferem ver "the dark side of life". Perguntei uma vez pra uma francesa porque ela gostava do Brasil e preferia morar aqui e ela disse que um dos motivos era esse, que os franceses eram muito rabugentos, hehehe. Com a crise, agora, imagino que devam estar ainda mais.

Tão bom te ler! Tinha que ter um post por semana, no mínimo :P

Mari disse...

nesse quesito me identifico com a francesada! Também sou pessimista e acho todo otimista um iludido, haha!Esse clima uhuu a vida é linda que existe no Brasil me irrita profundamente!
Mas sabe que eu ouço muito mais por aqui bonne continuation que bon courage? Ouço mais bon courage quando estou falando de uma situação especificamente chata, senão acabo ouvindo mais bonne journée, excellente semaine, etc.

Adoro tanto o pessimismo quanto a politesse porque convenhamos, no Brasil muitas vezes nem bom dia se da, quanto mais "enjoy your day"!


Rita disse...

Putz, me senti bem francesa agora que você falou esse negócio de viver pensando na aposentadoria. Que coisa triste. Vou ali chorar.

bj
rita

Renata Inforzato disse...

Concordo com a Mari e também ouço mais Bonne Journée e similares. Mas será que nós, brasileiros, somos otimistas ou conformados?

Vejo por mim mesma: trabalhei tanto tempo sem um contrato de CLT, com deveres de CLT, mas sem os direitos e ainda achava ótimo, pois estava trabalhando na área...

Já aqui eles acham que um CDD (uma espécie de contrato temporário, mas que dá direitos) é ruim, sendo que se metade dos trabalhadores do Brasil tivesse um CDD já estaria feliz.

Então, será que otimismo ou conformismo?

bjos

bjsss

Luciana Nepomuceno disse...

Eu ri, porque ontem ouvi aqui em Lisboa uma piada sobre pessimismo que parece adaptada das tirinhas das cobras (do Verissimo) dos anos 80:

- se continuar assim, logo estaremos todos pedindo esmola!

- sim, mas a quem...?

Nina disse...

Os alemaes tbm sao meio assim, eles trabalham feito loucos (meu Deus,oh povo que trabalha!) e dizem SEMPRE qd perguntamos como estao as coisas no trabalho: ahh é bom, mas estressante. Eu acho que eles tem mt paranoia com esse lance de trabalhar, e só pensam na aposentadoria tbm.
Meu marido chega em casa com uma cara da acabado, enquanto, eu, qd trabalhava,sempre vinha feliz e sempre com novidades pra contar sobre o dia.. ele,quer é distancia das coisas que o lembre o dia no trabalho :-( cruzes...acho entediante.

Mas sabe, acharia bonitinho ouvir um "coragem"! Teu marido deve ter visto a cara de cansada da pessoa no caixa, nao?

Os alemaes dizem que eles vivem pra trabalhar, enquanto os franceses e italianos, trabalham pra viver e que curtem mt a mais a vida que eles aqui...

MoiselleMad disse...

rs... bacana o post!
o "pas mal" também é bem nesse estilo...

Helena disse...

Voltei aqui porque no final de semana estava falando exatamente sobre isso com dois amigos franceses, um que mora em Nova York há sete anos e outro que mora no Canadá há cinco anos. O assunto era o preço do pão aqui e lá onde eles moram, e daí que o amigo que mora no Canadá disparou a falar algo que eu gostaria de ter gravado pra enviar como comentário aqui, hehehe. Resumindo, ele disse que na França a baguette custa 1 euro, mas todo mundo SEMPRE reclama do preço. Ele disse que no Canadá custa 4 dólares, as pessoas acham caro, mas elas não passam seus dias reclamando do preço da baguette. Daí ele disse mais ou menos isso: "É preciso sair da França para perceber como as pessoas lá reclamam e parecem infelizes, nada nunca está bom. E viajando pelo mundo a gente vê que a situação dos franceses é boa, mas eles nunca vão parar de reclamar, é cansativo. Toda vez que vou para lá percebo isso e ouço sempre as mesmas reclamações."

Acho que é isso, é preciso sair daí para perceber. Quando estamos imersos na cultura, talvez não vejamos com tanta clareza.

Sobre otimismo X conformismo. Eu sou a primeira a rebater quem diz que brasileiro é conformado. Na Paulista, toda semana tem alguma manifestação: greve dos bancários, greve dos correios, manifestação por mais cicliovia, contra Código Florestal, a favor do casamento gay, e por aí vai. O trem deu problema? Um monte de gente protestando (e outros aproveitando para quebrar tudo também). Sinceramente, as pesquisas sempre dizem que o otimismo faz bem à saúde, faz as pessoas felizes. Qual o problema nisso?

Sobre o CDI x CDD: quem disse qu é preciso um CDI pra ser feliz? Cada um pensa de um jeito diferente. Tem franceses que preferem viver de CDD em CDD pra viajar, descansar, fazer outras coisas entre um emprego e outro. Pode ser (uma hipótese) no comentário da Renata, que o fato de trabalhar na área dela valia mais do que ter um contrato certinho e que pesando os dois lados, ela se sentia bem com isso. Já uma outra pessoa mais certinha ia preferir ser CLT e faze algo que nem gosta tanto. É aquela velha história de ver o copo meio cheio, meio vazio. Nada nunca vai ser perfeito perfeitinho, mas a gente tem que ver os dois lados (bom e ruim) e medir qual pesa mais pra felicidade. A impressão é que no fundo, os franceses até veem o lado positivo, mas fazem questão de enfatizar o lado ruim :D

Beijos!

Amanda disse...

É Helena, acho que eles partem do princípio de que sempre dá pra ficar melhor, mas à oitava potência. Verdade que muitas vezes os privilegiados não fazem ideia de como vivem bem. O cheri tem um primo comunista que uma vez teimou em dizer que os subúrbios franceses eram iguaizinhos às favelas cariocas. Oi? Eles não tem noção mesmo.

Isso me lembra também uma vez lá na Austrália em que eu me meti numa passeata contra a reeleição do então primeiro-ministro e um dos slogans da manif era "Uma outra Austrália é possível". Oi de novo? A única coisa que eu conseguia pensar era, por que diabos alguém quer outra Australia? E numa dessas reuniões na sede (sim, eu me meti nas reuniões comunistas pra aprender inglês) eu tentei explicar meu ponto de vista de brasileira e eles entenderam um pouquinho (ou então balançaram a cabeça afirmativamente fingindo que estavam entendendo meu inglês capenga). Mais tarde tbm percebi os defeitos do país, como o sistema de saúde caro.

Enfim, sempre dá pra melhorar, mas é preciso saber reconhecer os privilégios, senão não dá pra ser feliz!

Helena disse...

Assino embaixo!
Eu acho que todo francês reclamão tinha que passar uma temporada num país bem pobre para ver o quanto eles são privilegiados. Ah, se nossas favelas fossem como algumas banlieues... Não que lá seja bom, longe disso, mas pelo menos as pessoas têm comida e casa.

Amanda, tu sempre me surpreende! Numa reunião comunista na Austrália? Genial! :D

Mariana disse...

Amandita, adoro ler sus histórias! A reuniao comunista na Austrália: você arasou. hauahaua As sutilezas da linguagem dizem muito de um povo mesmo, nao é? Observo isso aqui na Espanha. E sobre o tema do conformismo x otimismo, no meu caso, sinto que no momento da vida em que estou, 24 anos, acho que o lance é trabalhar tipo alemOa (rsrs) mas na boa, eu já decidi que nao me permito ficar triste mais de 2 dias. É um saco, insuportável! Melhor é mesmo sorrir pra vida e melhorar alguma coisa no seu dia. Um beijo enorme!

antoine412 disse...

Eu acho que pessoa em Paris sao agora muito mais agradavel que 15 anos atras. Pode aprovar e accompanhar gente - www.passeioemparis.com.br

Antoine

Camila disse...

Minha teoria é que os franceses, numa mania esquisita de elogiar pela negativa, acabam cultivando essa imagem pessimista. Ex: quando provam um prato delicioso, dizem: c'est pas mauvais. Pq nao dizem logo que ta delicioso, que é muito mais simples? Nunca vou entender esse sistema de elogio invertido.
Mas tirando essa mania, vc tem razão, ils râlent ces français!

disse...

amandaaaaaaaaa cade voce, mulher? estou com saudades dos seus textos!!!

MM disse...

Oi Amanda. Nada de um novo blog?

MM disse...

Oi Amanda. Como você viu, a Lucy reativou o blog dela. Claro, do jeito dela. Publicou um ótimo post e sumiu outra vez. Eu torço muito para que um dia você retorne à blogsfera porque aprecio muito seus textos e suas opiniões.
José Fernando

Ana disse...

Descobri seu blog esse ano e estou lendo tudo. Fico impressionada como suas opiniões são boas e se demonstraram tão acertadas suas previsões anos depois. Acabei de ler sobre o islamismo, sobre a imigração, sobre religião, sobre feminismo, etc. e concordei muito!
Volte a escrever, por favor!

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