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segunda-feira, 21 de março de 2011

Mocinhos e bandidos


E o mundo tem um novo inimigo. Kadafi é muito facil de ser odiado: aquela expressão antipatica no rosto, aquelas excentricidades, aqueles discursos arrogantes, aquela vaidade, aquela obstinação cega. Décadas no poder - perfeito, nos amamos odiar ditadores. E ele parece se encaixar tão bem no papel de vilão, que a gente atribui a Kadafi todos os defeitos do mundo, alguns até inexistentes.

Eh que nos temos essa mania de procurar bonzinhos e malvados em todas as historias. Então muitas vezes caimos no erro de acreditar que um malvado so vai fazer coisas mas e que todos os outros vilões estarão do lado dele. Foi assim que ouvi muitas pessoas falando na aliança entre Kadafi e Ahmadinejad, ou em como a Al Qaeda esta apoiando o governo libiano, ou no fanatismo religioso de Kadafi e em como ele fere os direitos femininos.

Não é bem assim. Pra começar, se tem uma coisa positiva na ditadura libiana é justamente esse afastamento da religião, tão atipico em governos islâmicos. E é justamente por isso que os radicais muçulmanos da região estão adorando o espetaculo da queda de Kadafi, pois eles têm fortes esperanças de instaurar um governo islâmico depois que essa bagunça acabar. Os indices sociais da Libia também não são tão ruins. O IDH, que mede a qualidade de vida da população, é mais elevado no pais africano do que no Brasil, por exemplo. A desigualdade social também é bem menor do que a nossa (alias, dificil achar um pais mais desigual que o nosso). E é por isso que Kadafi continua tendo apoio de alguns grupos de libianos.

Não me entendam mal, não defendo Kadafi. Até porque não existem argumentos para defender alguém que abre fogo contra a propria população. So estou querendo apontar alguns erros que temos tendência a repetir. Não ha mocinhos e bandidos, ha apenas decisões tomadas de acordo com a necessidade do momento. Alguns tomam decisões mais erradas (ou em nome de valores considerados injustos) do que os outros.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ainda sobre o islamismo na França

Sobre o meu post anterior e seus comentarios, não devemos confundir imigração com o aumento do islamismo na França. Apesar de os dois estarem de certa forma relacionados, são completamente diferentes. Vocês não vão me ouvir nunca falar mal de imigração, até porque eu acho o fim da picada imigrantes falarem mal de imigração. Acho sim, que a França, assim como todos os colonizadores, vacilaram muito com os paises subdesenvolvidos e eles deveriam ter todo o direito de vir pra Europa recuperar o que foi tirado deles. Em vez de reclamar do fluxo migratorio ilegal, os paises desenvolvidos deveriam ser obrigados a ajudar o desenvolvimento dos paises pobres, assim ninguém mais iria querer vir. Acho essa coisa de preservar a pureza dos franceses ou de qualquer outro "povo" uma tremenda besteira, eu queria mesmo era que todo mundo se misturasse de vez pra acabar com qualquer tipo de racismo.

O negocio é que não são apenas os imigrantes que estão trazendo o Islã pra Europa. Como eu ja disse, os imigrantes da geração passada chegaram na França com o desejo de ter uma vida melhor, então eles não estavam preocupados em rezar cinco vezes por dias ou em saber qual direção exatamente ficava Meca, eles estavam ocupados trabalhando, ganhando seu dinheirinho, não tinham tempo a perder e foram se desligando da religião. Mas dai que seus filhos e netos, que apesar de não serem mais magrebinos, viraram alvo de preconceito na França: não conseguem emprego por causa do sobrenome, são acusados de gentalha pelo governo francês, etc etc, então eles fazem o que ha de mais humano - se mostram exageradamente orgulhosos de suas raizes. E se usar veu incomoda esses franceses estupidos, vamos la comprar um veu bem bonito. Quem sabe eu não faria a mesma coisa?

E tem a conversão de alguns franceses ao islã. Não chega a ser um fenômeno, mas existe. Eu conheço uma francesa de 20 anos que passou a usar o veu por causa do namorado. Então o assunto não é imigração, mas o aumento da religião muçulmana na França.

Como disse o José Fernando, cujo comentario alias, foi melhor que meu post, o problema é o fundamentalismo religioso, seja ele islâmico, catolico, evangélico, budista. Talvez eu não tenha sido clara no ultipo post, ja que não usei palavras como radical ou fundamentalista, mas é que eu acho que toda religião pura é radical e fundamentalista. O catolico de verdade é tão radical quanto o muçulmano, a diferença é que quase não existe mais catolicos de verdade nos paises ocidentais. As pessoas se dizem catolicas por convenção, mas ninguém deixa de ir à praia domingo pra ir à missa. Agora, os muçulmanos são diferentes, eles realmente seguem a religião, eles não comem porco, eles fazem o Ramadã e ficam 40 dias sem comer durante o dia! A gente não come carne na semana santa e ja acha que esta fazendo um grande sacrificio.

Acho sim, que quando religião toma espaço demais na vida publica é um retrocesso no desenvolvimento humano. Sobre religião e mulheres, ja falei no texto "Quando deus é o chefe do homem e o homem é o chefe da mulher" (acho que esse foi o post mais popular do blog, inclusive uns retardatarios islâmicos que descobriram o texto meses depois dele ser publicado e se manisfestaram com toda a educação e o respeito que as religiões ensinam #ironia). Então me preocupa essa onda de conservadorismo, como disse a Aline nos comentarios, que nesse momento esta vindo na forma de islamismo. Meu problema não é com o islã, nunca vou dizer que os muçulmanos são o problema da França. O problema é o retrocesso, que seria exatamente o mesmo se todos os franceses decidissem voltar às suas raizes catolicas. Seria resgatar o espirito francês? Não, seria simplesmente um retrocesso tão grave quanto o que estamos discutindo agora.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A invasão islâmica na França

Antes de vir pra França eu era muito interessada no mundo arabe. Queria aprender a lingua, estudar mais a politica desses paises, tentar entender mais a religião muçulmana. Achava que os rebeldes islâmicos eram incompreendidos, que o ocidente esmagava sua cultura, seu povo. Até minha monografia de conclusão de curso foi sobre o Hamas. Dai duas coisas importantes aconteceram: passei a ter mais contato com o feminismo e vim pra Paris.

Então, do ponto de vista feminista, é impossivel defender a religião muçulmana. Defesa da igualdade dos gêneros e islamismo definitivamente não andam juntos. Que fique claro que acho que todas as religiões oprimem as mulheres, mas hoje eu quero falar apenas da islâmica. No inicio eu até engoli aquela velha historia de que na verdade os muçulmanos respeitam tanto a mulher, que as protegem com véus, burcas e paredes. Eles valorizam tanto a mulher, que seria um absurdo elas terem que trabalhar fora. Eles acham que as mulheres são tão melhores que os homens, que so elas sabem como cuidar de bebês e tomar conta da casa de maneira digna. Poxa, esse truque deve ser mais velho que Maomé! 

Depois, morando em Paris, fui tendo muito mais contato com os arabes. Conheci muita gente bacana, como a familia de um dos bebês que tomei conta: por parte de pai, os avos eram argelinos muçulmanos e por parte de mãe, eles eram argelinos judeus. Mas nenhum deles era praticante. O chéri tem um tio argelino, muçulmano de origem, mas também não praticante, que é comunista e super gente boa. Mas eu também comecei a perceber que toda vez que um cara falava grosserias na rua quando uma menina passava, ele era arabe. Comecei a me indignar com os diversos casos de poligamia, de humilhação feminina e de violência doméstica praticados pelos muçulmanos. Quem mora em Paris sabe que tem muito arabe morando aqui. Tipo, muito muito. E tem todo um movimento sociologico, que resumindo bem, chega a conclusão que os primeiros imigrantes meio que abandonaram a religião ao chegar na França, ocupados em ganhar a vida, mas seus descendentes, que eram (e continuam sendo) excluidos pela sociedade acabaram abraçando o islâmismo ja esquecido por seus pais, como para ter uma identidade propria. E assim, a religião muçulmana cresce muitissimo no pais. E com ela, as praticas altamente patriarcais (mais ainda do que as nossas).

Tudo indica que a progressão do islamismo na França sera um assunto muito presente da pauta das eleições presidenciais francesas no ano que vem, talvez tomando até o lugar do debate sobre a imigração. A extrema-direita, representada por Marine Le Pen, não tem papas na lingua e critica abertamente a "invasão" do islã. A direita, representada pelo proprio presidente Sarkozy, ja demonstrou concretamente que também não é favoravel à tolerância islâmica. A esquerda? Bom, a esquerda tenta se calar ao maximo, porque sabe que esse é um assunto muito espinhoso e mesmo os franceses mais liberais tendem a ser contra a progressão do islã na Europa. A revista L'Express publicou uma reportagem sobre o assunto dizendo que 76% da classe média (média de verdade, não como no Brasil) acha que o islamismo progride demais no pais, segundo sondagem do Ifop. Outra pesquisa, feita pelo jornal Le Monde, confirma que 42% dos franceses pensam que a presença de uma comunidade muçulmana na França constitui uma ameaça para o pais. Mesmo entre a esquerda essa corrente é concreta. Em 20 anos, a porcentagem dos franceses contra o uso do véu religioso na rua aumentou 28 pontos (o véu, assim como qualquer simbolo religioso como cruzes e quipas, são proibidos em predios publicos como escolas e hospitais, mas não na rua).

Ano passado o governo tentou forçar um debate sobre identidade nacional que não colou muito. Mas no fundo, acho que a coisa é essa mesmo, um debate sobre identidade nacional. Ninguém sabe muito bem definir o que é ser francês: os mais tradicionais podem falar da guerra, de patriotismo, da lingua; os mais moderninhos podem falar da mistura gostosa que ja conhecemos no Brasil faz tempo. Mas se é dificil definir o que é francês, fica mais facil definir o que não é, especialmente quando se passeia na rua cruzando dezenas de lojas halal, vendo mulheres cada vez mais escondidas em seus panos pretos, vendo dezenas de pessoas rezando voltadas pra Meca atrapalhando a calçada. Quando é um ou outro, a gente abraça com força a diversidade e adota um discurso bonito de tolerância, mas quando começa a ser demais, a esquerda francesa (e eu também) começa a coçar a cabeça.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Sul do Sudão, o caçula problematico

A midia brasileira não costuma se interessar muito pela Africa. Enquanto aqui na França a Tunisia vem ocupando o lugar de maior destaque na seção internacional nas ultimas semanas, nos jornais brasileiros sai uma notinha ali, outra la. Sim, temos que levar em consideração o passado colonial entre a França e o continente africano e o fato de muitas destas nações falarem francês, mas poxa, a Africa não deveria ser desprezada assim por nos. E se até a Tunisia foi esquecida, que dira o Sudão.

O Sul do Sudão acabou de votar um referendo popular pela sua independência do Norte do Sudão e deve se tornar em breve o 52° pais africano - quase 99% dos votantes optaram pela separação. Mas os problemas da região estão muito longe de chegar ao fim. O Sudão, como a gente conhece hoje, teve uma historia dificil, conquistou sua independência apenas em 1956 e passou quase esse tempo todo em guerra civil. A primeira delas aconteceu na independência e durou até 72. A segunda começou em 1983 e terminou em 2005. Como quase todas as nações africanas, seu territorio foi demarcado por acordos politicos, não por fronteiras naturais que separaram uma cultura da outra ao longo dos séculos. Podem perceber que o mapa da Africa é todo quadradinho, sinal que tem alguma coisa errada. No Sudão, o norte é ocupado por arabes muçulmanos e o sul, por africanos cristãos. A paz entre os dois grupos so veio em 2005 com a assinatura de um acordo que dava ao sul o status de região autônoma. A capital Cartum fica no norte, mas o sul abriga importantes reservas de petroleo.

O Norte do Sudão inclui Darfur

O problema é que o Sul do Sudão ainda nem nasceu e ja esta condenado. Assim que for oficializado, o novo pais entrara automaticamente em ultima posição em todas as classificações internacionais: 90% da população vive com menos de um dolar por dia; a mortalidade infantil atinge 10% das crianças de até 5 anos; a mortalidade no parto é mais elevada do mundo; quase toda a população é analfabeta; a metade dos funcionarios publicos (eles são 300 mil! graças ao clientelismo) nunca frequentou a escola primaria. Em 2005 havia apenas três cirurgiões no Sul do Sudão. O potencial agricola do pais é totalmente inexplorado e todo tipo de alimento (e todo o resto) é importado.

Na verdade, a comunidade internacional é quem sustenta o Sul do Sudão - 85% dos serviços de educação e saude são fornecidos por estrangeiros. Mas a desorganização é tanta, que o pais não consegue investir todo o dinheiro disponivel e acaba perdendo a vez. O Banco mundial ofereceu 500 milhões de dolares, mas a falta de uma estrutura capaz de absorver e investir esse dinheiro, fez com que apenas metade do investimento fosse utilizado. Os organismos internacionais não sabem nem por onde começar, ja que tudo pode ser considerado emergência.

Eh nesse contexto de calamidade que a população votou unânime pela independência do Sul do Sudão. Mas os especialistas ja estão preocupados, prevendo uma guerra civil interna. Se antes o inimigo era representado pelo norte, agora não terão mais quem culpar diretamente e começarão a disputar entre si. O geopolitologo francês Marc Lavergne explicou nesse artigo que existem ainda outros obstaculos para o nascimento do novo pais, entre eles a dificil demarcação de fronteiras, as tribos nômades que circulam entre norte e sul dependendo da época do ano (eles são 11 milhões, quase um quarto da população), a grande quantidade de sul-sudaneses que moram no norte e que se tornarão estrangeiros, a incapacidade do Sul de extrair seu petroleo, a partilha da enorme divida externa do Sudão.

Espero que nos proximos dias a gente ouça falar mais do Sudão.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As linguas regionais da França

Sempre acho engraçado quando alguém me pergunta como se ja estou acostumada a viver numa outra cultura. Ja disse que eu nao acho que vivo numa "outra cultura". As diferenças com o Brasil sao minimas, afinal de contas nosso pais foi criado à imagem e semelhança da Europa. Mas tem coisas que a colonizaçao nao consegue (ou provavelmente nem quer) imitar. Enquanto nossa identidade cultural europeia foi abafando nossas raizes indigenas numa luta desigual, na Europa, os diferentes povos tentam sobreviver dentro da sociedade predominante. Por isso às vezes é dificil para nos, brasileiros acostumados com a centralizaçao e o senso pratico de uma naçao colonizada, imaginar que na França, esse pais tao desenvolvido, se fala outras linguas além do francês.


Sim, o francês é a unica oficial, mas as linguas regionais pertecem formalmente ao patrimônio da França desde 2008, graças a uma revisão na Constituição, bem tardia diga-se de passagem. Eh verdade que até bem pouco tempo, essas linguas eram consideradas inferiores, chamadas de patois (patoa) e as pessoas que falavam eram discriminadas. Puro preconceito. De algumas decadas pra ca, o orgulho de pertencer a um desses grupos e de falar a lingua de seus ancestrais foi aumentando. Mas infelizmente na mesma proporçao que a fluência desses dialetos foi diminuindo no cotidiano das pessoas.

Uma velhinha francesa me disse que o francês dominou todo o territorio nacional por causas das guerras mundiais. Como era muito dificil os soldados conseguirem se comunicar entre si cada um falando um dialeto diferente, eles foram obrigados a aprender o francês. Mas em casa, eles continuavam falando sua lingua. Também com a obrigatoriedade da educaçao formal, as crianças começaram a ser alfabetizadas em francês, mas em casa ele nem passava perto. A familia do cheri, por exemplo, vem do sul da França. Sua bisavo falava occitan como primeira lingua, mas ja entendia francês. Sua avo ja fez a transiçao do francês como primeira lingua, mas ainda falava occitan. Sua mae ja nao aprendeu occitan. Aos poucos as linguas dominadas foram perdendo a força, mas hoje em dia elas ainda sao faladas, por velhinhos em sua maioria, dependendo da regiao e da familia. Os jovens até têm interesse em aprender, mas quem tem tempo hoje em dia? E convenhamos, se for pra aprender outra lingua, o inglês ou espanhol têm muito mais utilidade. O mapa abaixo mostra onde o occitan ainda é utilizado.


Treze linguas regionais sao ensinadas nas escolas publicas francesas, contando com os territorios ultra-mar (Tahiti, Nova Caledônia, etc). Contando so a regiao metropolitana da França, que é como eles chamam o hexagono francês na Europa, elas somam oito: basque, breton, catalan, occitan, corse, gallo, francique e alsacien

Inutil dizer que esse fenômeno acontece em toda a Europa. Achei um mapa legalzinho que separa o continente de acordo com as linguas faladas e com seus povos historicos (mas nao sei se é certo falar de "povos" nesse caso - me falta uma palavra melhor).

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Top 10 - As piores reformas Sarkozistas


Como disse o ex-primeiro ministro Dominique de Villepin ha dois dias: "Sarkozy representa hoje um dos principais problemas da França". Para quem estava querendo saber o que o presidente francês anda fazendo com seu pais, aqui vai uma pequena amostra do seu poder de destruição.
 

10- Expulsão dos ciganos
A França tem uma população de ciganos estimada entre 300 e 400 mil pessoas. Boa parte delas são originarias de paises da Europa oriental, como a România e a Bulgaria. Elas vivem em trailers e geralmente não ficam muito tempo no mesmo lugar, apesar de ter muitos ciganos instalados e levando uma vida mais ou menos como a nossa. O governo Sarkozy decidiu que os ciganos não eram mais bem-vindos na França e decidiu manda-los de volta aos seus paises de origem. Neste ano ja foram expulsos mais de 8 mil ciganos. O governo faz questão de divulgar os numeros de seu sucesso e alardear como estão conseguindo mandar de volta "de maneira voluntaria" os ciganos, mas faz papel de bobo, porque metade deles ja esta de volta na França. Criticado pela ONU, por outros paises europeus e por associações de direitos humanos, o governo francês esta respondendo a diversos processos por discriminação.

9- Lei Hadopi
Uma tentativa muito equivocada de punir a pirataria na internet. Trata-se de rastrear os downloads ilegais dos usuarios através do seu provedor. Na verdade a medida é super ultrapassada, ja que as pessoas entram na internet dos restaurantes, dos parques (a prefeitura oferece gratuitamente), dos vizinhos. Ja falei sobre a lei Hadopi aqui. Ela finalmente entrou em vigor, mas de pernas bambas e coração fraco. Os primeiros emails estão sendo enviados e junto com eles, vieram as primeiras reclamações de quem jura de pés juntos que não fez nenhum download ilegal. Uma das maiores operadoras do pais, a Freebox, se recusou a mandar as notificações, pois achou uma brecha na lei que lhe da o direito de preservar a privacidade dos seus clientes. A polêmica esta longe do fim.

8- Trabalho no domingo
No Brasil estamos acostumados com todo o comércio aberto no domingo, mas na França, a pausa dominical é algo muito importante, é um direito fundamental do funcionario. Ha um ano, a administração Sarkozy criou uma nova lei de trabalho aos domingos, favorecendo as empresas em detrimento dos funcionarios. Dependendo de sua localização, as empresas podem abrir domingo sem pagar nada a mais aos seus empregados. Na teoria, o trabalho dominical é voluntario, mas na pratica quem não aceita é mandado embora, por outros motivos, claro. Conheci uma funcionaria de loja de roupas que disse que antes da lei ela ja trabalhava aos domingos sem ganhar nada e que a medida so serviu para regularizar a pratica ilegal da loja. Ela continuou sem beneficios.

7- Aumento do poder policial
Como ministro do interior, Sarkozy ja vinha dando uma amostra de sua grande simpatia pela repressão policial, mas como presidente ele teve o poder de pôr suas ideias em pratica. Ja falei da violência policial aqui e disse que até a Anistia Internacional ja condenou as forças de ordem francesas. Sarkozy disse inumeras vezes que ele da todo seu apoio às forças policiais, que a prioridade do seu governo é a segurança nacional e que isso implica repressão, mesmo que seja contra estudantes protestando. Em 2008, o uso do taser foi permitido pelos agentes municipais e, entre indas e vindas atualmente é permitido, apesar dos sérios riscos alertados pelas organizações de saude e de direitos humanos.

6- Reforma das universidades
A Lei Pécresse (nome da ministra da educação francesa) quer transformar o sistema universitario do pais. Para quem não sabe, as universidades francesas hoje são gratuitas, acessiveis a todos e de qualidade. Temos que pagar apenas a inscrição, que custa menos de 500 euros com plano de saude, mas os bolsistas (que ja ganham em torno de 400 euros por mês) ficam isentos dessa taxa. A nova lei quer dar total autonomia para as universidades em 2012. Se hoje elas são financiadas igualmente pelo governo, no futuro elas poderão conseguir "patrocinios" de empresas interessadas na mão-de-obra que vai sair de la. Mas o que vai acontecer com os cursos da area de humanas, que não são tão rentaveis como os tecnologicos e biologicos? A qualidade vai cair, pois tera bem menos investimento. As universidades também terão, alias ja estão tendo, liberdade para selecionar quem entra e cobrar quanto quiser pela matricula. A universidade Paris-Dauphine vai aumentar sua taxa de inscrição de 231 euros para algo entre 1.500 e 4.000 euros. Em bom português: o governo esta privatizando as universidades. Sarkozy ja cansou de babar o ovo de Harvard, sim, aquela que custa 45 mil dolares por ano. 

5- Bouclier fiscal
O "escudo fiscal" foi criado pelo governo Sarkozy para diminuir os impostos pagos pelos ricos. A medida limita o imposto em até 50% da renda do contribuinte e esta custando aos cofres publicos cerca de 700 milhões de euros neste anos de 2010, mais de um bilhão e meio de reais. O principal argumento de quem é a favor do bouclier é o de que se uma pessoa ganha 100 por mês, nada mais justo garantir que ela receba pelo menos 50. Mas se o resto da população recebe 0,3? Não me parece nada justo. Ao mesmo tempo, o governo decidiu excluir uma lei fiscal que beneficiava os casais no primeiro ano de casamento. Como o bouclier fiscal beneficia apenas quem tem uma renda bastante elevada, na pratica a medida tira dos pobres e da pros ricos. O escândalo foi tão grande que o governo ja esta estudando sua supressão. As eleições de 2012 têm um papel importante nessa decisão, pois como Sarkozy anda muito impopular, a queda dessa reforma pode trazer alguns votos. Mesmo os leitores do jornal de direita Le Figaro, são a favor do fim da medida, como mostra uma enquete na qual 78% votou a favor da supressão.

4- Aposentadoria aos 62 anos
Quem tem algum contato com os franceses sabe que aposentadoria é algo sagrado pra eles. Trabalham a vida toda pra se aposentar, então imaginem o escândalo que foi o anuncio do aumento de dois anos na vida util de um funcionario. Muitas greves ja aconteceram. A oposição denuncia varios pontos criticos da nova lei, por exemplo, em como ela vai prejudicar as mulheres que escolheram trabalhar meio periodo para se dedicarem mais aos filhos. Mas provavelmente a maior preocupação seja o plano a longo prazo da reforma, ja que ela tem validade até 2018, ou seja, daqui a oito anos eles pretendem extender ainda mais a idade para se aposentar, especula-se em 67 anos. Eh realmente uma situação dificil para uma população que esta envelhecendo, mas a oposição alega que quando começaram a trabalhar havia um contrato moral de aposentadoria aos 60 anos, então não podem simplesmente modifica-lo.

3- Reforma da saude
Muita gente aposta que a proxima grande bomba do governo Sarkozy sera a reforma da seguridade social. Atualmente as mudanças ja acontecem, de forma timida, mas firmes. Na França, quando a pessoa vai ao médico, normalemente ela paga a consulta que custa 22 euros e mais tarde é reembolsada pelo governo. Antigamente o reembolso era quase integral, mas vem diminuindo a cada ano. Ha três anos fui ao médico e paguei 7 euros. Esse ano paguei 17, pois não tenho médico de familia. Os remédios também são reembolsados, mas muitos deles estão saindo da lista de reembolso e os que ficam, a porcentagem devolvida é cada vez menor. E apesar do preço da consulta estar estabelecido em 22 euros, cada vez mais os médicos estão aumentando a tarifa, o que é contra lei, mas totalmente negligenciado no atual governo.

2- Reforma dos professores
Na França a grande maioria das crianças frequentam a escola publica, que é considerada de excelente qualidade. Mas desde 2007 o governo decidiu suprimir radicalmente as vagas de professores e a politica adotada foi a de subistituir apenas a metade dos funcionarios aposentados. por ano Então foram suprimidas 8.700 vagas em 2007, 11.200 em 2008, 13.500 em 2009 e 16.000 en 2010. E ja foram anunciados novos cortes para o ano que vem. Além disso, o governo esta contratando cada vez menos professores especializados, como professores de inglês nativos, por exemplo. Agora é a professora de matematica ou historia que da aulas de linguas, muitas vezes sem sequer falar inglês. Como o numero de efetivos diminuiu muito, o tempo de treinamento diminuiu também e agora os professores saem do concurso direto para a sala de aula. Outro problema é que, adivinhem, faltam professores. Quando um fica doente, não tem substitutos. O governo Sarkozy ja sugeriu que para resolver esse problema, a solução seria colocar os estudantes de segundo grau para segurar as pontas.

1- Controle da imprensa
Não é exatamente uma lei ou reforma, mas talvez seja até mais importante que elas. Desde o inicio do mandato sarkozista ja aconteceram varios escândalos sobre a relação entre a midia e o presidente. Alguns leves, como o photoshop da barriga do presidente na praia para não fazer feio, outras mais sérias, como a demissão do apresentador do telejornal da TF1, porque falou mal do Petit Nicolas. O jornalista estava ha 21 anos no cargo e deveria deixa-lo apenas em 2012. Sarkozy ja demonstrou seu descontentamento contra o Canal Plus e recentemente o Petit Journal denunciou a constante vigilância que sofreu sua equipe em Deauville, cidade onde os chefes de Estado francês, russo e alemã estavam reunidos. A ong Reporteres Sem Fronteiras divulgou mês passado o ranking de liberdade de imprensa no mundo e a França aparece em 44° posição. Em 2002 ela estava em 11°. Segundo a lista, atualmente a França tem menos liberdade de imprensa quea Namibia, a Costa Rica e a Africa do Sul.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Separatistas e separatistas

Ainda estou de ressaca pela vitoria da Dilma. Muito, muito feliz! E aliviada de poder passar a outra coisa. Achava que as baixarias acabariam, mas estava enganada. Os tucanos não sabem perder e estão fazendo feio, muito feio. Me assusto com certas coisas que vejo escrito na internet, e o pior, nem de anônimos são! As pessoas estão tendo coragem de mostrar o quanto são preconceituosas! Ja faz tempo que estou devendo um post sobre minha segunda dissertação de mestrado, assim como fiz com a primeira, e parece que agora é o momento ideal para tocar nesse assunto. Pra quem não sabe, minha pesquisa foi sobre os movimentos separatistas no sul do Brasil, um tema que sempre me interessou muito, apesar de ser carioca.

Sempre me perguntei por quê o Brasil ficou inteiro, enquanto a colônia espanhola se dividiu em varios paises. Duas explicações me convenceram mais. A primeira é que o Brasil era a unica ex-colônia na América do Sul a ter adotado a monarquia como sistema de governo, o que agradava muito aos ingleses. Esses, que desejavam o fim da escravidão, relevavam um pouco o regime escravista no Brasil, justamente por causa da monarquia. Se o Brasil se fragmentasse, seria cada um por si contra a Inglaterra, e essa ideia não era nem um pouco atraente. A outra explicação é o mero acaso. Acho que o desenrolar de algumas batalhas acabaram decidindo todo o futuro da nação. Houve muitas lutas secessionistas ao longo da historia e esses movimentos foram todos derrotados. Mas qual o peso do acaso nisso tudo? Quem sabe com um pouco de sorte os separatistas não teriam ganho algumas guerras e hoje o mapa da AL seria muito diferente.

Devo surpreender alguns leitores, mas a verdade é que eu nunca pensei na separação do Sul hoje como uma coisa totalmente negativa. Achava a ideia um pouco ingênua, mas não necessariamente ruim. Na Europa tem diversas regiões que brigam por sua independência, como o pais basco, espremido entre a França e a Espanha, que tem sua propria lingua e cultura, mas foi dividido pela estratégia das linhas geograficas. A Africa então, nem se fala! Olhem no mapa, ela é toda quadrada, dividida como colônia europeia sem levar em consideração os povos que ali habitam. Nem preciso ir tão longe, ja que a França era composta de diversos povos diferentes, cada um com seus costumes, que foram obrigados a deixar tudo isso de lado para se tornarem franceses. As linguas locais passaram a ser consideradas dialetos inferiores e usadas por pessoas pouco educadas até que, pouco a pouco, foram desaparecendo (os bisavos do cheri não falavam francês, apenas occitan). Imagina quantos paises diferentes teriamos hoje se fossem levadas em consideração as culturas e não a estratégia militar. Então eu vejo a autodeterminação dos povos como algo positivo.

Mas sera que podemos considerar a separação do Sul como um caso de "autodeterminação dos povos", como pregam as organizações? Sera que colonizadores têm o direito de se dizer um povo à parte, de uma terra que pertence a eles ha tão pouco tempo? Demora quanto tempo para um povo ser considerado um povo? Sera que existe realmente um sentimento de identificação que une os sulistas ou os gauchos? Isso eu não posso responder, porque não sou sulista e nunca morei no sul. Mas quem sou eu pra dizer que uma pessoa deve se sentir mais brasileira do que sulista?

Vocês podem dizer que a discussão sobre o separatismo não é tão profunda e romântica quanto eu estou tentando apresentar, é apenas uma solução racista de reaças que so pensam no proprio umbigo. E eu digo que existe dois tipos de separatistas, aqueles que realmente acreditam que fazem parte de um pais dentro do pais e aqueles que se aproveitam dessa ideia para espalhar seus preconceitos por ai. Eu conversei com muitos separatistas e pude ver a paixão com que alguns falavam do seu estado (principalmente os gauchos) e de sua região. Muitos deles são inclusive de esquerda e votaram na Dilma. Sinto que eles são um pouco frustrados por não terem tido o mesmo destino do Uruguai no passado, pais com o qual se identificam culturalmente. Eh importante lembrar que o sul tem duas vezes mais fronteiras internacionais do que fronteiras com outros estados brasileiros.

Por outro lado, é muito conveniente desejar a separação de uma região do pais que é economicamente mais desenvolvida que as outras. E a verdade é que não temos como ter certeza de que esses separatistas também são xenofobos, mas se escondem atras do discurso de "cultura" e "costumes" para não admitir (quem sabe até para eles mesmos) um certo preconceito contra os nordestinos.

Mas o segundo grupo de separatistas é muito pior, é aquele que vem se destacando na internet nesses ultimos dias. São racistas e preconceituosos que na verdade não querem a separação do Sul, mas a expulsão do Norte/Nordeste. Eles acham que sustentam as duas regiões mais pobres, o que não é verdade. O dinheiro que entra e sai do Sul é bastante equilibrado. Mas esse pessoal não quer saber de nada, so quer espalhar seus preconceitos. Incrivel como as pessoas não têm vergonha de assumir seu lado nazista, dizendo com todas as letras que se acham superiores aos nordestinos. Nunca vi tanto odio contra os nordestinos e acho que a situação é muito grave. Quem defende a separação do Brasil nesse contexto de hoje, pos-eleição, pelos motivos mais equivocados desse mundo, esta assinando um certificado de estupidez e ignorância.

Que fique claro que eu não sou a favor da separação, nem acho que ela possa acontecer, mas procuro entender os bons argumentos de quem pensa diferente. Acho que a beleza do Brasil é justamente a diversidade e dizer que o Sul é a unica região que diverge do resto do Brasil é besteira. Nem vou entrar no mérito de "eleitores do Serra mostram a cara depois das eleições", pois acho que tem muita gente que pode fazer isso melhor do que eu. So quero mostrar um outro lado dos movimentos separatistas que as pessoas não vêem, pois o lado negativo sempre toma mais espaço. Existe gente bacana por tras das organizações sérias, que com certeza estão muito putos com o rumo que essa xenofobia esta tomando. So espero que eles não se aproveitem dessa onda racista para aliar simpatizantes, porque com certeza esse tipo de militante so vai trazer maleficios pras organizações.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A republica da soja

Algumas pessoas perguntaram sobre meus temas de pesquisa das dissertações, então hoje vou falar um pouco sobre isso. As universidades francesas vêem a presença de um aluno estrangeiro como positiva porque partem do principio que ele vai poder trazer um pouco mais de conhecimento sobre seu pais de origem. Quase sempre os professores querem que o estrangeiro pesquise sobre o proprio pais, ja que teria mais facilidade com a lingua (bibliografia, pesquisa de campo, entrevistas) e um conhecimento prévio maior. Ou seja, levaria 10 vezes menos tempo do que um francês pra fazer o mesmo trabalho. O problema é que nem sempre os estrangeiros estão dispostos a estudar o proprio pais, afinal de contas, se esse fosse o objetivo, era mais facil ter ficado em casa. E esse era meu caso: eu queria ser jornalista da editoria internacional e falar sobre o Brasil não me acrescentaria muita coisa. Então achei um assunto que agradava todo mundo, sabendo que teria ir até la fazer a pesquisa de campo, que era pré-requisito: os brasiguaios, brasileiros que moram no Paraguai.

Muitos amigos brasileiros disseram "Mas Paraguai? Não tem nada de interessante la!". Olha, a primeira vista pode ser, mas depois que comecei a ler sobre o tema vi que tinha na minha frente um prato cheio para a geopolitica. Resumindo bem, o Paraguai abriga uma colônia gigantesca de brasileiros que foram pra la nas décadas de 70/80 por causa do baixo preço das terras e do incentivo do governo paraguaio, mas que hoje são uma praga no pais. Eles ocupam toda a região da fronteira com o Brasil e em muitas cidades se fala português, se vê novela brasileira e se mantém todos os costumes da terrinha. Eles não se misturaram, até as escolas são brasileiras. Até ai tudo bem, o problema é que eles plantam soja transgênica, que esta acabando com o pais. Primeiro por causa da enorme quantidade de agrotoxicos que fica no ar, na terra, na agua. Segundo porque eles estão comprando terras familiares de subsistência para aumentar a produção. Terceiro porque soja não precisa quase de mão-de-obra e os poucos empregos que existe são dados a outros brasiguaios, porque "paraguaio não gosta de trabalhar". Ou seja, esta acontecendo agora um êxodo rural muito grande e o resultado futuro a gente conhece bem: violência urbana.


Dai que o novo governo Lugo (aquele do padre de dois filhos) foi eleito com um discurso de que ia expulsar os brasiguaios do pais e fazer a reforma agraria. As invasões às fazendas estavam à mil e foi nessa época que eu meti os pés no Paraguai depois de 30 horas de ônibus do Rio. Ja tinha pronto na minha cabeça todos os papeis do teatro paraguaio: pobres locais, mocinhos; ricos brasiguaios plantadores de soja, vilões. Em Assunção visitei ongs e associações anti-soja e tudo ia bem. Então fui do outro lado do pais, onde os brasileiros estão concentrados e, numa cidadezinha chamada Santa Rosa del Monday, fui acolhida pela familia de brasiguaios mais doce que existe e que com certeza não cabiam no papel de vilões que eu tinha reservado pra eles.

O pai trabalhava para um grande sojeiro brasileiro (esse sim eu conheci e cabia no estereotipo de vilão) e me levou pra conhecer a imensa fazenda que era um mar verde, até onde os olhos pudessem alcançar. Visitei a maquinaria onde se colocava o "veneno" (como eles proprios chamavam os agrotoxicos) nas sementes, senti o cheiro quimico insuportavel que exalava de la. Entrei nos galpões de tratamento de soja-pos colheita e vi as toneladas de sacas prontas pra exportação. Cruzei tratores passando mais uma camada de veneno nas plantações.

Pausa pra explicação técnica. Pra quem não entende nada de agricultura, a vantagem da soja (e dos outros alimentos) trangênica é sua resistência aos herbicidas e inseticidas. Então pode-se passar um veneno bem forte contra os parasitas sem matar a planta também. Os trangênicos não se reproduzem, são feitos em laboratorios, como a Monsanto, que dominam o mercado vendendo as sementes, e é claro, os agrotoxicos. Mas isso ja é outra historia.

O irônico é que aqui na Europa os agrotoxicos são vistos como o inimigo numero um de uma vida saudavel. Os trangênicos, então, são o proprio demônio! Proibidissimo na Europa! Mas pra onde vai a soja venenosa transgênica do Paraguai? Pra Europa, alimentar as vaquinhas que produzem os camamberts da francesada.

E são os brasiguaios que fazem essa festa toda no terreno do vizinho. Mas ai entram os argumentos deles: vieram porque chamaram. O governo paraguaio abriu as portas do pais aos brasileiros, procurando agricultores mais especializados para colonizar essa parte deserta do territorio paraguaio, justamente a fronteira com o Brasil. Muitos brasileiros responderam ao apelo, venderam tudo o que tinham no Brasil. A maioria era muito pobre. Chegaram numa mata fechada e selvagem e o que mais se ouve dos brasiguaios é “quando cheguei aqui so tinha mato”. Eles abriram a floresta, construiram casas e aos poucos foram preparando terreno para agricultura, como desejava o governo paraguaio. Então eles dizem que depois que todo o trabalho estava feito e era hora de colher os frutos, os paraguaios resolveram atravessar o pais e reivindicar as terras que eles haviam comprado do governo.

Querer dividir tudo em bem e mal é tão ingênuo, né? O que existe são decisões tomadas de acordo com o contexto do momento. A banca disse que estava obvio no meu trabalho que eu tinha ido pro Paraguai pensando uma coisa, mas que mudei de ideia, o que foi bem positivo. Em suma, eu adorei ter estudado esse tema, adorei ter ido no Paraguai quebrar a cara, adorei ter conhecido todo mundo que conheci. Adorei um pouco menos escrever cem paginas sobre isso.


Meu segundo tema foi escolhido sabendo que eu não poderia fazer pesquisa de campo, o que seria bem menos emocionante. Escolhi uma coisa que sempre me intrigou, os movimentos separatistas no Sul do Brasil. Foi interessante, mas acho que so o fato de não ter ido até la me desestimulou muito. Fiz tudo pela internet, pelos livros, pelas teorias. Nada de grandes aventuras em um pais desconhecido, o maximo de emoção que tive foi pegar o ônibus até a biblioteca mais proxima. Agora da pra entender minha frustração, né?

*As fotos são minhas (exceto a do agrotoxico) e ilustraram a dissertação.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Gentileza gera gentileza

O jornal Le Monde publicou ha duas semanas uma reportagem sobre um novo tipo de joguinho que anda rodando pela internet: "je perds donc je pense" (perco, logo penso). O objetivo desses jogos não é a vitoria, mas a compreensão do funcionamento de certos mecanismos da sociedade. O Food Import Follies simula a importação anual de alimentos nos Estados Unidos. O jogador tem que fiscalizar os alimentos que entram e se tiver uma falha, a população é contaminada. A dificuldade vai aumentando com os anos, ja que em 1997 a carga de importação era de 2 milhões de carregamentos e em 2006, esse numero mais que quadriplicou.

Tem também o Oiligarchy, esse mais demoradinho, que simula a industria do petroleo. O jogador é o gerente de uma companhia petrolifica e tem que se expandir o maximo possivel, sem se preocupar com o meio ambiente, a população dos paises pobres onde a companhia pretende se instalar e outras coisinhas inconvenientes como estas. O problema é que no fim as reservas de petroleo acaba de qualquer jeito, então por mais inescrupuloso e bom jogador que você seja, o final é sempre previsivel.

Mas o meu preferido, de longe, é o September 12th. Não vou comentar pra não estragar a graça do jogo, mas achei genial! Tão simples, como tem gente que ainda não consegue entender essa logica?

terça-feira, 29 de junho de 2010

Mapas

Uma das coisas que mais gostei de aprender no meu curso de geopolitica, foi a fazer mapas. Ta certo que tem que ser muito paciente, mas as possibilidades são infinitas e eu acabo sempre me divertindo. O cheri foi mais longe e esta terminando o mestrado de cartografia, então é otimo, porque sempre posso pedir umas dicas pra ele. Navegando na internet, descobri que existe muita gente doida por mapas, de ver paises em mancha de ketchup e mapa mundi em sucrilhos. Exatamente como os religiosos rezam diante de manchas na janela em forma de virgem maria.

Achei um site sobre os mapas mais esdruxulos, interessantes, originais e engraçados. Por exemplo, o mapa mundial feito com sapatos:


Ou ainda, a Europa no formato da Marge Simpson:


Cartões de natal em formatos de paises:


Esse pessoal inventa cada uma... Mas fora as brincadeiras, os mapas de verdade são feitos para informar mais explicitamente o que os textos levariam paginas para conseguir. O objetivo principal de um mapa bem feito é a pessoa olhar pra ele e entender imediatamente o que ele quer dizer. Por isso não adianta tentar dar muitas informações de uma vez so, que vai confundir todo mundo. Existe varias regrinhas de cores e itens indispensaveis, como titulo, escala, fonte e legenda. Mas uma vez que a gente aprende o basico, tudo fica mais facil.

Achei um mapa excelente e super dificil de fazer (nem imagino como) em que o autor consegue cumprir essa regra de percepção imediata com muita eficiência:



Esse é um mapa topografico da criminalidade da cidade de São Francisco. Onde tem mais crimes, a altura é maior. Então a gente sabe imediatamente onde estão concentrados os focos dos diversos delitos e chega rapidamente a conclusão de qual é a parte mais perigosa da cidade. Tão simples e tão claro!

Achei também alguns mapas com dados curiosos sobre a França:

"Consumo de cerveja"


"Pratica de bocha"

Olhando as figuras, da pra ver claramente que o norte da França bebe mais cerveja que o sul, especialmente a fronteira com a Bélgica e com a Alemanha. No segundo mapa a gente nota que no sul a petanque (que é um esporte parecido com a bocha, eu sei, muito sem-graça) é muito popular. E acredite, não so entre os velhinhos!

Acho que no Brasil os jornais ainda não usam muito os mapas para explicar melhor os conflitos ou mesmo so pra esclarecer melhor uma situação. E é uma pena, ja que é um meio muito eficiente de entender e contextualizar os problemas. Aqui na França, os melhores catografos trabalham em jornais e o Le Monde Diplomatique tem fama de fazer os melhores mapas. Tem até um programa de televisão, o Le dessous des cartes, que explica geopolitica através de mapas e narrações muito esclarecedoras. O Brasil bem que podia importar algumas dessas ideias.



Le dessous des cartes - Bombarder l'Iran
envoyé par gloubi77. - L'actualité du moment en vidéo.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O mundo cansou da politica de Israel, so os politicos continuam calados

Parece bobagem, mas uma das coisas mais importantes que aprendi nos ultimos anos foi que não podemos reduzir um conflito em bonzinhos x vilões. Ninguém quer ser vilão e, dependendo do ponto de vista, todo mundo é heroi. O que existe são motivações, interesses, versões, contexto historico. Sempre devemos procurar entender as razões de ambos os lados.

Mas tem certos casos em que simplesmente não ha justificativas. Ontem, Israel atacou barcos humanitarios que tentavam furar o bloqueio imposto na Faixa de Gaza. Eles levavam remédios, alimentos e material de construção (item proibido no pais pela estratégia israelense). Tropas israelenses atacaram os barcos e mataram uma dezena de ativistas pacificos, alegando que eles eram terroristas perigosissimos armados de facas, tacos de beisebol e duas pistolas (duas pistolas para 750 pessoas). Entre os embarcados havia uma cineasta brasileira, que hoje esta presa em Israel e sera deportada para os EUA, onde vive. Ela conta um pouco sobre o projeto aqui, antes do incidente de um dia atras.

Esse acontecimento é um escândalo tremendo, pois mostra o desprezo que o exército israelense tem com a vida humana e a convicção que possuem de que podem passar por cima de todas as lei humanitarias internacionais sem serem punidos. Mas esse caso é diferente. Primeiro, porque não são palestinos que eles mataram. Não são arabes. São europeus. São brancos. Todo mundo sabe que no mercado, a vida européia vale mais. Depois, porque as vitimas, além de européias, eram civis cansados de esperar soluções oficiais que não chegam nunca. Cansaram de ouvir falar em  "negociações de paz" ou "estratégias de reconciliação". Tem gente com fome, porra! Tem gente morrendo nos postos de controle de Israel sem poder ir pro hospital enquanto os representantes oficiais continuam se dando tapinhas nas costas.

O mundo cansou. Pronto. Civis resolveram tomar o papel que os politicos provaram ser incompetentes demais para desempenhar. Diplomatas, sobreviventes do holocausto, premios nobel da paz (de acordo com Israel, terroristas da pior estirpe) decidiram entrar num barco para lembrar ao mundo as barbaridades que se fazem contra os palestinos. E quando são recebidos à bala (em aguas internacionais) nossos queridos representantes so têm a dizer que estão "trabalhando para entender as circunstâncias da tragédia", como declarou o atual nobel da paz, Barack Obama. Longe de ser uma condenação, não? Tragédia é quando temos uma catastrofe natural, quando o acontecimento é inevitavel - a chacina de ontem poderia ter sido evitada.

Sou otimista e acho que essa "tragédia" pode sim dar uma nova perspectiva para o conflito israelo-palestino. No meu exercicio de tentar entender os dois lados, consigo compreender as motivações tanto dos palestinos quanto dos israelenses, e acho que ambas são validas. Mas tenho a convicção de que um dos lados utiliza meios inaceitaveis, injustos, cruéis e inumanos para conseguir seu objetivo.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Medicina de guerra no Haiti

O tratamento médico dado às vitimas do terremoto no Haiti deixou claro a diferença entre a medicina (e os valores) americana e a francesa. O jornal Le Monde publicou uma matéria na qual os médicos franceses denunciam o excessivo numero de amputações praticadas pelos americanos, em grande parte feitas sem necessidade. Eles reclamam que os profissionais norte-americanos se preocupam apenas com as estatisticas, com os numeros de pacientes tratados, não importando a qualidade do tratamento. Um médico parisiense argumentou que "a amputação é um gesto de salvação e de ultimo recurso, quando um membro esta esmagado ou condenado. Mas os americanos recorrem a ela sistematicamente, sem parar e pensar em uma outra solução, orgulhosos desses abates que lhes permite de exibir numeros impressionantes de pacientes".

As equipes francesas ficaram horrorizadas com casos de fraturas sendo tratados com amputações. E em grande parte dos casos, os pacientes eram dispensados 2h depois das intervenções, sem nenhum acompanhamento de recuperação, muito menos psicologico. Sophie Grosclaude, cirurgiã ortopedista francesa, disse que confrontou um médico americano dizendo que eles tinham material para tratar os ferimentos de outra forma, e o médico respondeu "Pra que? Esse é um pais pobre, não tem um acompanhamento médico sério, melhor amputar logo, é limpo e definitivo". A cirurgiã se disse chocada da opinião do americano, como se os haitianos fossem um povo pouco evoluido, que não merece a medicina ocidental.

A reportagem não traz a versão americana dos fatos, mas nao é dificil imaginar seus argumentos: eram muitos pacientes, situação de catastrofe - melhor salvar 100 vidas amputando todos, do que perder tempo curando 50, enquanto outros 50 morreriam ao lado. Os casos simples tratados com amputações teriam sido excessões, poderiam ter sido realmente erros médicos, mas teria sido o preço a ser pago para salvar outras vidas, os famosos "efeitos colaterais". Sim, esses argumentos são validos, mas por que so os americanos pensariam assim? Sera que os outros profissionais também não seriam capazes de julgar a gravidade da situação? Não acredito que a formação deles permitiria de perder tempo demais com um paciente em vez de salvar varios outros. Eles são muito preparados e não reclamariam à toa. Não tenho duvidas que outros aspectos contam muito mais nesse caso.

Eh um verdadeiro confronto de valores e a explicação esta na propria sociedade. Na França, o acesso à saude é um direito de todas as pessoas, inclusive os imigrantes, os pobres, os mendigos, os ilegais, os drogados. A saude é gratuita (principalmente para esses grupos mais carentes) e de qualidade. Os médicos franceses têm consciência de que fazem um trabalho social acima de tudo, que devem tratar todos os pacientes como iguais. Ja nos Estado Unidos, saude de qualidade é para quem pode pagar. Os médicos pedem o dinheiro antes de tratar os pacientes e se a pessoa não tiver, não é raro que ela morra no corredor ou a caminho de uma clinica publica, com profissionais menos qualificados.

Então se um médico francês vai para o Haiti com toda a bagagem social que recolheu na França, é logico que trate os pacientes como faz no seu pais. O médico americano ja vai com a ideia de que esta fazendo caridade, então o paciente tem a obrigação de ficar muito grato com a sua intervenção e boa vontade. Ele esta tratando pacientes gratuitamente e se não estivesse la, provavelmente a vitima morreria, então perder um braço passa a ser um detalhe.

Por causa do sentimento de superioridade americana, o Haiti esta condenado a ter uma geração de amputados, dificultando ainda mais o desenvolvimento do pais, que ja era tão fragil.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vacina or not vacina?

Os politicos franceses, leitores assiduos aqui do bloguinho, é claro, gostaram muito da minha ideia de revender as vacinas da gripe A e decidiram por a mão na massa. Domingo passado o governo anunciou a venda do excesso de vacina para os paises pobres, dizendo que poxa, não é justo manter todas as vacinas aqui com a gente enquanto tem nações mais carentes que não conseguiram comprar nenhuma dosinha quando a gente entrou em pânico achando que o virus ia matar metade dos terraqueos e resolveu comprar todos os antidotos disponiveis, aproveitando do nosso poder e riqueza. Agora que vimos que fizemos papel de bobos, ja que a doença não é tão devastadora assim, mostramos toda nossa generosidade vendendo nossos estoques dessas gotas sagradas para vocês, pobres, que não conseguiram comprar antes. Com juros claro.

Os numeros são enormes. O governo francês gastou 869 milhões de euros na compra de 94 milhões de vacinas. Mas somente 5 milhões de pessoas se vacinaram. E foi comprovada a eficacidade da dose unica, ou seja, não é necessario tomar a vacina novamente depois de 20 dias, como teria sido cogitado. Não precisa ser um gênio da matematica pra ver que tem vacina pra caramba sobrando e o governo não vai deixa-las mofando no canto enquanto perde seu rico dinheirinho. A ordem é passar o problema pra frente. A França não é a unica, outros paises ricos também ja estão dando um jeito de se livrar de suas doses. A Alemanha, que havia comprado 50 milhões (e apenas 6 milhões de pessoas se vacinaram), ja conseguiu vender 20 milhões; A Holanda comprou 34 milhões, mas revendeu 19 milhões ja em novembro, olha que esperta.

Eu acabei não tomando a vacina, mas foi mais por negligência do que por decisão. Amanhã eu decido, amanhã eu decido e acabei não tomando nunca. Acho que vou passar a dizer que depois de muito refletir e debater com especialistas, achei mais seguro não me vacinar. Eh mais honroso. Sequer vou falar do meu medo de agulhas. Mas olha, se eu pegar essa gripe vou ficar fula da vida. Ai, quem sabe eu não deva me vacinar de vez...? Bom, amanhã eu decido.

domingo, 8 de novembro de 2009

Piada sem graça

"O arquipelago da Palestina Oriental", segundo o atlas do Le Monde Diplomatique (clique para aumentar)

A excelente publicaçao francesa Le Monde Diplomatique cometeu uma gafe das grandes. Nao sei se foi um golpe de marketing (o que nao é muito o estilo do jornal) ou uma tentativa legitima e ingênua de fazer humor com coisas que nao devem ser engraçadas, mas o fato é que esse mapa ai de cima saiu nao so no atlas do LMD, mas em pôster. O mapa representa o territorio palestino como ilhas e Israel desaparece, dando lugar ao mar. Seria até interessante para mostrar como o territorio palestino é injustamente recortado por causa da ocupaçao israelense, mas o primeiro erro essencial esta justamente ai: se o territorio fosse realmente um arquipelago, a circulaçao seria possivel atraves de barcos, o que nao é acontece na realidade, pois o transito é controlado por Israel e o direito de ir e vir nao é um direito dos palestinos.

Mas tudo bem, se fosse so esse o problema seria compreensivel. So que o mapa vai mais longe na sua piada e a legenda mostra o itinerario dos barcos, as praias, os portos, as estaçoes balnearias, as areas de camping (?), assim, como se fosse um lugar que as pessoas vao para passar as férias. As cores usadas sao frias, bem diferentes das cores quentes normalmente usadas em mapas para mostrar zonas de conflitos. Tem ainda algumas areas designadas como colonias israelenses, destacadas com um azul bem claro, quase divino, em vez de um vermelho para mostrar a gravidade do problema. Tem até uma "Ilha do Mel" ali no meio. Que maravilha de lugar, heim? Nem sombra de Jerusalém.

Muita gente adorou a "sacada", mas outras ficaram realmente decepcionadas. Se eu fosse um palestino ficaria revoltadissima por retratarem o cenario de um conflito onde meus compatriotas morrem todos os dias, como uma colônia de férias. O humor é muito eficaz para desdramatizar uma situaçao em crise, até mesmo para ridiculariza-la. Fiquei espantada que o LMD, que é uma publicaçao séria e comprometida tenha pisado na bola tao feio assim.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quando os pobres votam extrema direita

Os franceses gostam de politica. Acho que na verdade é o assunto preferido deles, em qualquer nivel social. E aqui a esquerda e a direita estão bem divididas e pertencer à um grupo ou outro é uma questão de logica. Ou pelo menos era. Os mais ricos votam direita porque querem abrir o pais ao capitalismo, à competição de mercado, para terem mais lucro pessoal. Os mais pobres votam esquerda para lutar contra um modelo opressor que so beneficia a elite. So que nos ultimos tempos, cidades pobres tradicionalmente comunistas passaram a ser grandes eleitores da extrema direita. Assim, de um extremo ao outro sem passar pelo meio termo.


O mapa acima mostra o salario médio por pessoa na região parisiense. Quanto mais vermelho, mais ricos. A gente percebe bem onde estão os afortunados: no sudoeste de Paris e um pouco no sudeste. Os pobres estão concentrados no norte, em cidades como Saint-Denis, Bobiny, Bangnolet. Agora olhem para esse outro mapa:

Ele mostra a força da extrema direita na Île-de-France (região onde fica Paris). Quanto mais escuro, mais a extrema direita tem votos. Os dois mapas não estão na mesma escala, então quem não conhece bem a região pode ficar um pouco perdido. Paris é no meio daquele tumulto la no centro. E a gente pode ver que a parte norte de Paris esta bem escura.
Por que os pobres passaram a votar extrema direita? Porque aconteceu um fenômeno interessante. Antigamente essas cidades eram habitadas exclusivamente pelos operarios de fabricas e trabalhadores braçais, todos com grandes tradições sindicais, totalmente politizados. Votavam sempre extrema-esquerda. Dai um belo dia chegaram os imigrantes, que também eram pobres e acabaram se instalando nos mesmos bairros dos operarios. Passaram a disputar as vagas de empregos com eles e os operarios não gostaram muito dessa historia.
Encontraram no discurso da extrema direita, que é contra a imigração, uma possivel saida para seus problemas e passaram a votar neles. Os novos imigrantes, que não tem raizes sindicais e trabalhistas, não ligam para a politica e não votam. Muitos não podem nem votar porque estão ilegais e os que podem nem estão inscritos nas listas eleitorais. O nivel de abstenção em eleições nessas cidades do norte agora são muito altos.
Eh assim que os partidos ultra-conservadores estão ganhando terreno em zonas carentes. Ja nas areas ricas, apesar da direita ter grande parte dos votos, a extrema-direita não faz muito sucesso. Acho que quem tem uma educação privilegiada sabe que o Le Pen não vai trazer nenhum beneficio para a França.
Uma outra consequência desse fenômeno pode ser notada. Por não se sentirem representados politicamente, os imigrantes e seus descendentes procuram outras formas de lutarem por seus direitos, queimando carros, por exemplo, como aconteceu em 2005 e em quase todas as noites nos suburbios parisienses.
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