quarta-feira, 13 de maio de 2009

Controvérsias

Semana passada algumas mulheres fizeram um protesto em uma piscina publica no centro de Paris a favor da igualdade dos sexos. Elas apareceram todas sem a parte de cima do biquini, dizendo, se eles podem, por que nos não podemos? Se a resposta parece obvia para a maioria das pessoas, é a prova de como o machismo esta enraizado em nossas mentes.

Para mim, essa historia de não poder mostrar o peito parte do mesmo principio daquele que diz que as mulheres devem usar véu ou burca, em certos paises muçulmanos. Eh exatamente a mesma coisa. Eles dizem que os seios das mulheres é um simbolo da sexualidade. Ora, so é um simbolo da sexualidade porque os homens decidiram que seria desse jeito. Assim como os cabelos, o rosto ou até a mulher inteira é um simbolo da sexualidade feminina para certas culturas, então vamos esconde-la rapido, sempre com o argumento de protege-la, é claro.

O mais engraçado é que geralmente as pessoas que dizem detestar as praticas da religião islamica, são os primeiros a condenar a igualdade dos peitos entre homens e mulheres. Eles dizem que não tem como comparar, que é diferente. Sim, é diferente porque é sua cultura. Porque a cultura do outro é burra, a sua sim tem logica.

Existem aqueles que não entendem como as proprias mulheres islâmicas aceitam se esconder debaixo de véus, mas imaginem dizer para as nossas mulheres que a partir de hoje elas deveriam ficar sem camisa quando fizessem atividades do dia-a-dia, assim como o homem. Por mais que fosse legal, a grande maioria delas não faria, por estar acostumada de outra forma.

E se você, homem, for contra, que va protestar na piscina usando um sutiã.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Rebequinha

Ela foi a primeira criança que tomei conta quando cheguei à Paris. Arranjei esse emprego na primeira semana, na época me pareceu normal, mas hoje sei que é quase impossivel encontrar um trabalho assim rapido, sem falar francês e quase sem experiência. Rebeca ja chegou me trazendo sorte.

A pequena franco-brasileira de 2 anos tinha acabado de chegar na França, assim como eu, e não entendia uma palavra de francês. Quando falavam com a gente na rua, a gente não entendia, mas não tinha problema, pois entendiamos muito bem uma à outra, e continuavamos nosso caminho sem dar muita bola pros outros.

Ela era a unica pessoa no mundo todo que gostava de me ouvir cantar e eu aproveitava a audiência pra soltar a voz nos classicos coelhinho, minhoca e janelinha, com a devida interpretação dos gestos, é claro.

A gente se divertia juntas. Idas e vindas ao parque cantando como doidas no meio da rua. Faziamos castelos de areia, montavamos quebra-cabeças, assistiamos Pingu, perseguiamos pombos, seu esporte favorito. Ensaiamos nossas primeiras palavras em francês.

Ficamos juntas por três ou quatro meses apenas, depois disso eu nunca mais a vi. Sempre fiquei de ir visita-la, mas sempre acontecia alguma coisa, e depois trabalho, faculdade, a vida vai levando, sabe como é. Dois anos se passaram.

Sempre penso nela.

So que agora, a verdade é que eu tenho medo de ir visita-la e ela não me reconhecer.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

O desprazer de escrever

Eu sempre gostei de escrever. Acho que a gente se expressa melhor escrevendo, pois temos tempo de pensar, escolher as palavras, mudar de idéia, e ficar assim até o texto refletir exatamente o que queremos dizer. Dependendo da complexidade do assunto (e da inspiração, é claro), chega a ser um processo doloroso que no fim é recompensado por um orgulho proprio que diz: foi duro, mas valeu a pena.

Mas essa regra não vale para escrever numa lingua estrangeira. Aqui na França, quando tenho que entregar algum trabalho na faculdade, pesquiso, penso, escrevo, escrevo, escrevo e no final, o resultado é uma bosta. Quer dizer, à primeira vista para mim fica bom, mas quando peço pra alguém corrigir vejo que esta tudo errado. Resultado: perdi completamente o prazer de escrever. As vezes bolava frases que, de acordo com minha formação tupiniquim, estavam bem impactantes e ficava bem orgulhosa delas, até o meu namorado perguntar: "O que você quis dizer com essa frase? Ela não tem sentido". FRUSTRANTE. Uma vez ele estava de mal-humor e disse: "eu teria menos trabalho se ao invés de te corrigir, escrevesse tudo eu mesmo". Ele é assim, super romântico quando esta irritado.

Não é uma questão de gramatica, mas de construção de idéias. Acho que eu escrevo em português, mas com palavras em francês. Pelo menos ja sinto uma grande diferença de um ano pra ca, até meus "revisores" ja elogiaram, mas ainda não é suficiente. Alias, tenho varios revisores: meu namorado, minha sogra, alguns amigos e até a avo de um bebê que eu tomava conta, que foi super fofa e se ofereceu mais de uma vez pra fazer o serviço. Não sei o que seria de mim sem eles.

A ma noticia é que tenho que escrever uma dissertação de 150 paginas para o mestrado.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Coisas para visitar em Porte Dorée - Foire du Trône

Nada melhor do que a primavera para dar uma levantada nos ânimos franceses. A expectativa do verão, do sol e das sonhadas férias chegam junto com o perfume das flores. Semana passada, em um dia de vento, eu olhei pela janela e vi uma chuva de flores que vinham voando da floresta aqui do lado e iam se espalhando pela calçada.

Mas aqui em Porte Dorée, primavera é sobretudo sinônimo de Foire du Trône. Explico.

Foire du Trône é um parque de diversão temporario que se instala no mês de abril e vai embora no 1° de junho. A feira é enorme e não é por nada não, mas tem uns brinquedos sinistrões que eu não vou nem a pau. Os vizinhos não partagem da minha alegria com a chegada da feira, ja que o bairro naturalmente pacato vira um salvem-se quem puder. Os metrôs lotam e o povo desce em massa na estação de Porte Dorée, que num dia habitual de inverno, so desce eu e mais uns dois. Dezenas de viaturas policiais ocupam as redondezas. Dai a rua fica uma bagunça boa e do meu apartamento ouço gritos dos grupos de adolescentes que passam embaixo. Da pra entender porquê os vizinhos não apreciam muito, mas para mim essa movimentação faz lembrar um pouco o Brasil. So faltava olhar da janela e ver uma barraca de churrasquinho.



quarta-feira, 8 de abril de 2009

A linha 13

Sabe a pior coisa da minha faculdade? Eh conseguir chegar la. Ela fica em Saint Denis, fora de Paris, num suburbio considerado 'quente'. Sabe aquela época em que se queimaram centenas de carros e a França aparecia todo dia no jornal? Pois é la mesmo, a minha fac. Mas eu so dei esse detalhe para vocês se localizarem melhor, pois não tenho do que reclamar da area, muito menos das pessoas. Acho mesmo super simpatico o acampamento permanente de ciganos que tem atras da universidade.

O chato é que eu moro do outro lado da cidade e demoro 1h pra chegar. Mas não é so isso, afinal quando eu trabalhava em Ipanema demorava mais. O problema é que troco de metrô quatro vezes, e o pior: pego a bendita linha 13.

A linha 13 so pode ser uma criação do coisa-ruim para castigar os mais pecadores dentre nos. Eu que ja detesto metrô, peguei trauma de vez. Li uma vez que ha em média 4,5 pessoas por metro quadrado nos vagões. Façam as contas. Na pratica ja sabia disso faz tempo. Tem até um funcionario em cada porta, para assegurar o fechamento. Nunca tinha visto isso na vida. Fora os engarrafamentos de trens, que obriga o piloto a parar a cada 20m naquele tunel escuro (morro de medo).

Ja fiquei presa por pane de sinalização, pane de energia, viajante passando mal, até suicidio na linha! Pelo menos tenho sempre uma desculpa pronta para os atrasos.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Homesick

Depois de dois longos anos morando em Paris eu passei a me achar, assim, meio parisiense. Passei a achar conveniente as pessoas não puxarem conversa no ponto de ônibus, comecei a levar a baguete debaixo do braço, como disse em algum post abaixo, passei até mesmo achar que não era tão grave assim não ter tantos amigos como tinha no Brasil... E pasmem: achava até que ja estava acostumada com o frio. Fora a aparência: pele branquissima, cabelos longos e sem corte, um ar meio ao léu... Ou seja, super adaptada. Quando viajei nas férias pra Portugal cheguei a ficar com saudades de Paris, pra mim essa tinha sido a prova final. Cheguei a duvidar se conseguiria viver no Brasil de novo.

Foi então que aconteceu: passei dois meses no Brasil e joguei toda minha parisiandade conquistada em dois anos pela janela! Cortei o cabelo, peguei um bronze. Foi inexplicavelmente bom encontrar minha mãe, meu pai, minha avo, (quase) toda a minha familia e pessoas queridas. Que prazer de ir à praia, de tomar um açai, de ver novela! Que coisa boa falar na lingua que você conhece melhor e todos entenderem cada palavra! Carne, muita carne! Amigos, vocês são a melhor coisa que o Rio de Janeiro pode me oferecer.

Tem gente que muda de pais e acaba não se sentindo nem uma coisa nem outra, se sente estrangeiro em todo lugar. Eu tinha medo disso acontecer comigo, mas agora eu sei e admito: sou brasileira e nunca vou deixar de sê-lo. Amo a informalidade com que o brasileiro encara a vida e super me contradizendo no ultimo post: o Brasil é o melhor lugar do mundo!

(pelo menos pra mim)



quinta-feira, 19 de março de 2009

Os melhores do mundo

Estou no Brasil há mais de um mês. Taí a explicação para meu sumiço. É tão bom rever a família, os amigos, que a gente até esquece das outras coisas, mesmo aquelas que são a razão original (ou a desculpa?) da vinda para o Brasil, como a pesquisa da minha dissertação de mestrado, por exemplo. Mas isso já é outra história.

Não vou mentir, estranhei muito quando cheguei. Dois anos fora é muita coisa! A gente acostuma, pega as manias locais e quando volta tem um pequeno choque cultural em sua própria casa! Passamos a ver as coisas com um olhar mais de fora e fica mais fácil perceber nossos defeitos. Só que depois de uma semana já estava tudo normal de novo, exceto por um detalhe que não consegui engolir até agora: a mania que temos de querer ser os melhores do mundo.

Melhores em quê? Isso não tem a menor importância! O negócio é ter as palavrinhas mágicas "do mundo" no final da frase, e como você a começa, depende da sua criatividade, e olha, tem gente que se esmera. Quem nunca ouviu um brasileiro dizer, todo cheio de orgulho, que o Brasil tem as praias mais bonitas do mundo, sendo que provavelmente a pessoa nunca saiu do país. As mulheres mais bonitas do mundo! Sei não heim... Mas a minha preferida é "o brasileiro é o povo mais simpático e receptivo do mundo!". Aiaiai, só em dizer isso não me parece nada simpático.

Lendo um jornal de Minas descobri a última aquisição brasileira dos mais mais do mundo. O título: O Brasil passa a ser o país que tem mais incidência de raios do mundo! Que maravilha, mais um pra coleção! E mais abaixo na matéria o autor soltou a clássica "o povo brasileiro é o povo mais feliz do mundo!", sim porque esse tipo de frase a gente encaixa seja lá em que matéria for, de futebol à guerra no Iraque, que sempre dá um efeito legal, não é mesmo?

Antes de sair da França, vi uma reportagem que apresentava o pior time de futebol do mundo. Adivinha de onde era? Acertou, do Brasil é lógico! Eles se auto-intitularam os piores do mundo, pois o negócio é ser do mundo, não importa em que.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Top 10 - Mitos sobre a França e franceses

10 - A tal da baguete debaixo do braço
Não vou dizer que é lenda, mas do jeito que as pessoas contam parece ser a coisa mais anti-higiênica do mundo! Um belo dia eu passei no supermercado, fiz compras e no caminho de casa parei na padaria. Ops, mão direita ocupada, mão esquerda ocupada, onde vou enfiar essa baguete? Sem por nenhum momento pensar no que vocês estão pensando, tive a brilhante idéia de apoia-la delicadamente entre meu corpo e meu braço, foi então que me dei conta de que de fato eu estava carregando uma baguete debaixo do braço! E posso dizer que é muito util! Os brasileiros so não fazem isso porquê não é fisicamente vantajoso carregar um pãozinho francês assim.

9 - La mode
Moda é uma das primeiras coisas que se pensa quando se fala em França, mais especificamente Paris. Mas excluindo a alta costura e coisa e tal, não acho que o povo francês tenha o dom de se vestir bem. Acho até que os brasileiros se preocupam mais com as roupas, pois somos cheios de regras chatinhas de não repetir dois dias seguidos, mesmo que ela esteja limpa. Aqui se você pega o metrô todo dia na mesma hora vai reconhecendo as pessoas pelo rosto, mas pelas roupas também! Se for no inverno então! Todo mundo so tem um casacão que usa todos os dias, é sério!

8 - Gastronomia
O senso-comum diz que a comida francesa é otima. E é verdade. O mito é que ela venha em porções de passarinho, servida por um garçon magrelo com bigode esnobe e a conta exorbitante. Bom, nos restaurantes chiques deve ser assim mesmo, mas nesses eu nunca fui. O problema é que as agências de viagens ficam empurrando esses pros turistas. Os restaurantes de gente normal são bem diferentes: têm porções generosas, a comida é excelente, os garçons são (geralmente) simpaticos e conta... bom a conta deixa pra la. Brincadeira, nada que te leve a falência (15 euros comparado aos 50 dos chiques ta bom, né?)

7 - Xenofobia
Essa historia de que os franceses são xenofobos, que não aceitam nada que vem de fora, é pura balela. So pra se ter uma idéia, dois terços das pessoas que moram em Paris não nasceram em Paris. Aqui tem tanto arabe, latino-americanos, negros, asiaticos, que não da nem pra pensar em xenofobia. Tudo bem que eles não estão 100% integrados ainda, mas uns 70%. Esse discurso preconceituoso vem massivamente dos idosos e da extrema-direita (é diferente do Brasil por acaso?)

6 - Lingua inglesa
Como ja expliquei no post anterior, os franceses se esforçam sim para aprender inglês! Eh que eles são ruinzinhos mesmo, coitados. :) E estão mais abertos do que nos para incorporar palavras inglesas no vocabulario cotidiano, coisa que deixaria os brasileiros mais patriotas de cabelo em pé. Hot-dog, weekend, stop no sinal de transito, são algumas das inumeras palavras usadas.

5 - A venerada Sorbonne
A Sorbonne é uma espécie de entidade religiosa para os brasileiros. Ta, tudo bem que eu não passei, mas se eu tivesse passado nem ia querer, ta! Na verdade, pelo que me disseram, todas as universidades de Paris tinham esse nome, mas aos poucos elas foram mudando de nome e agora restam 3 Sorbonnes, das 13 universidades de Paris. E isso não quer dizer que são as melhores. Os brasileiros acham que "a" Sorbonne é tão boa quanto Harvard, isso para os franceses é piada. Tem um curso chamado Civilização Francesa que os brasileiros adoram! Sentem toda a gloria de maio de 68! (na verdade eu passei sim, mas em vez de fazer o curso em dois anos teria que fazer em três. Mas eu teria preferido a minha, de qualquer forma).

4 - França, um pais pequeno
Comparado com o Brasil, a França é minuscula. Mas acontece que aqui não tem espaços vazios! A cada 500m tem uma cidadezinha super charmosa para se conhecer. A gente tem a impressão que se pegar um carro e dirigir, vai conhecer o pais rapidinho, e não é verdade. Pra começar, a França não é tão pequena assim: a extensão do territorio dela é como se fosse de Brasilia ao Rio de Janeiro, longinho pessoal. Sem contar que têm castelos maravilhosos em todos os cantinhos e da vontade de parar pra ver tudo. A vantagem é que aqui existem trens de alta velocidade, os TGVs, que facilitam muito as viagens.

3 - Frieza
Quantas vezes ja ouvi falar em como os brasileiros são calorosos e os franceses são frios. Discordo plenamente. Depende muito mais da pessoa do que de sua nacionalidade. Ta, na França os filhos saem de casa mais cedo do que no Brasil, mas é por uma questão de praticidade, pois geralmente saem para estudar em outra cidade. Mesmo se os pais moram na mesma cidade, como o governo ajuda no aluguel dos estudantes, eles preferem ter seu proprio cantinho. E os pais franceses veem isso como um bom passo à independência, ao contrario dos brasileiros que querem que os filhos não consigam sobreviver sem eles.

2 - Antipatia
Moro em Paris ha dois anos e somente uma unica vez alguém foi grosso comigo sem motivo: justamente a caixa da torre Eiffel, ela que deveria ter sido a mais simpatica. Se você teve uma ma experiência, saiba que geralmente as pessoas não são assim! Desconfio que o pessoalque trabalha com turismo em Paris esta um pouco de saco cheio. Eh a velha historia, imagina o jornaleiro perto do museu do Louvre, o coitado deve ouvir perguntas em todas as linguas do mundo o dia inteiro, da um desconto, né? Mas fora dos pontos turisticos, todo mundo sempre me respondeu bem, mesmo quando eu não falava francês!

1 - Sobre o bendito banho
Não sei ainda a origem desse mito. Se alguém souber, me conte. Mas pobres dos franceses, que a cada vez que cruzam o caminho de algum brasileiro, são obrigados a escutar a cruel pergunta: "é verdade que os franceses não tomam banho? Não, não é verdade, caramba! Então da proxima vez que você encontrar com um francês no Brasil, pense duas vezes antes de fazer a piada, porque provavelmente ele ja ouviu varias antes e não vai achar muita graça na sua.
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