quarta-feira, 20 de maio de 2009

Top 10: expressões francesas

10- Shepa (pronuncia-se 'chepá')
Algo do tio: eu não sei
Shepa é a forma coloquial de dizer je ne sais pas, 'não sei' em português. Eu sempre ficava na duvida entre falar um ou outro e acabava saindo um cepá, que não quer dizer muita coisa, só entregava de vez o meu embaraço com o francês. Essa palavra é da mesma categoria do chuí, que é o diminutivo de je suis (eu sou/estou). Esse é o tipo de expressão que te ferra quando você sai de um curso de francês, onde aprende toda a linguagem formal (para não dizer artificial) e todas as conjugações de verbos, mas que quando encara a vida de verdade se sente super frustrado por não conseguir entender uma palavra do que as pessoas falam, nem as coisas mais simples.

9- Bon courage (pronuncia-se 'boncurraj')Algo do tipo: boa sorte
Ela nao gosta dessa palavra. Bon courage é uma expressão de compaixão, onde a pessoa mostra solidariedade, mas não vai te ajudar (ou porque não pode ou porque não quer mesmo). É um apoio moral. Quando fomos ao Brasil pela ultima vez, meu namorado perguntou se podia dizer ‘coragem’ à caixa do supermercado na hora de ir embora, coisa que ele faz na França. Imagina, acho que a pessoa ia se sentir ofendida e pensar, poxa, meu trabalho é tão ruim que estão tentando me consolar. Atenção, não estamos falando de boa sorte, que é bonne chance. Seu amigo tem que estudar pra uma prova? Bon courage. Ele vai fazer a prova agora? Bonne chance!

8- Franchement (pronuncia-se 'frranchman')Algo do tipo: francamente, sinceramente
Quando não falava francês e ouvia as pessoas conversando na rua, sempre ouvia um tal de French-man e pensava quem era o tal francês que eles estavam falando. Isso porque lingua estrangeira para mim era sinônimo de inglês, então inconscientemente eu procurava algum significado na lingua que eu conhecia). Franchement, acho que francês é bem mais dificil de aprender que inglês.

7- Pas mal (pronuncia-se 'pá mal')Algo do tipo: legal. Ao pé da letra: não é tão ruim
As vezes os franceses são pessoas contidas. Em vez de dizerem muito bom!, excelente!, magnifico!, eles dizem simplesmente, pas mal. Eu até me ofendia, me esforçava pra fazer uma coisa e no final, pas mal. O bolo que você fez? Pas mal. O presente que você me deu ? Pal mal du tout! (variação super empolgada do pas mal). Poxa vida, vamos ousar um pouquinho, meu povo!

6- ça va aller (pronuncia-se 'sa va alê')Algo do tipo: vai ficar tudo bem
Essa é uma expressão de consolo quando alguém esta numa situação dificil ou quando dita pela propria vitima, quer dizer que ela não esta bem no momento, mas vai ficar. Uma vez, quando eu estava tomando conta de um bebê de 1 ano e meio e da sua irmã de 6, o bebê se aproximou dramatico dizendo, dodoi, dodoi. A irmã, depois de examinar o braço dele, sentenciou: não Sacha, isso não é um dodoi, é so uma meleca! E completou irônica, ça va aller! Outra vez eu estava correndo no parque quando vi um cara se estabacar no chão. Perguntei se tava tudo bem, ele respondeu sem graça, ça va aller.

5- Quoi (pronuncia-se 'quá')
Algo do tipo: desconhecido
A giria das girias. Ela é um daqueles vicios de linguagem, que não têm nenhuma função util na frase, esta ali apenas para enfeitar. Podemos excaixa-la praticamente no fim de qualquer frase, mas dê preferência para aquelas onde você se mostra um pouco mais revoltado ou quer mostrar seu ponto de vista. Essa palavra é completamente dispensavel, quoi.

4- Coucou (pronuncia-se 'cu-cu')
Algo do tipo: oie!
Esse eu uso muito com as criancas. Toda vez que um boneco faz uma aparição repentina, ele tem que dizer coucou! Mas não é so para crianças não, é uma forma carinhosa se dizer oi, em qualquer idade. So não vai chegar pro chefe e dizer, coucou chefe! Não pega muito bem. Sabe aquela brincadeira que todos os adultos fazem com os bebês, de se esconder e de repende aparecer: achou! Pois é, em francês é coucou.

3- Hop-la! (pronuncia-se 'ôplá!')
Algo do tipo: ???
Caracteriza o fim de uma ação. Essa é dificil de explicar porque não temos uma equivalência em português. Sabe aquela ultima cereja que voce põe no bolo, ela fica super bem acompanhada de um hop-la! Na verdade eu nem sei como se escreve, ja que é mais uma expressão oral mesmo. Na minha aula de mestrado, o professor estava dando maus exemplos de apresentações orais (ok, eu sou o melhor deles). Ele disse que tinha um aluno que a cada vez que virava a pagina das anotações, dizia 'hop-la!', acompanhando o movimento. Eu não consegui parar de rir, imaginando a cena.

2- Voila (pronuncia-se 'voalá')Algo do tipo: aqui está, ou pronto
Voila é uma variação mais formal do hop-la! Os franceses dizem o tempo todo. Também serve como um tipo de ‘viu, eu te avisei!’, voila, voce derrubou o copo. Se alguém come muito, você pode dizer (ou de preferência apenas pensar) voila alguém que gosta de comer. Quando você termina de assinar um documento, pode dizer, voila!

1 – Oh-la-la (pronuncia-se uh-la-lá)
Algo do tipo: caraca! (para os cariocas, é claro)
O grande classico francês. Eu achava que era mito, assim como quase tudo que a gente diz da Franca, mas não é não! O uh-la-la esta presente no vocabulario diario dos franceses, principalmente nos jogos de futebol. Nesse caso, como a empolgação é grande, o locutor pode ficar repetindo os 'las' varias vezes, proporcionalmente ao tamanho da jogada. Eu que odeio futebol, assisto so pra ouvir o cara falando uh-la-la-la-la-la-la-la……. Ao contrario do que a gente pensa, essa expressão não é usada tanto para elogios, mas para preocupações. Tipo, oh-la-la, vai chover a semana toda, putain! (Essa ultima palavra fico devendo para um top 10 palavrões, ;)

domingo, 17 de maio de 2009

Ah, esses motoristas parisienses...

Aconteceu logo quando cheguei na França. Peguei um onibus para ir na casa de uma amiga que morava fora de Paris e como estava meio perdida, comecei a prestar bastante atenção no display eletrônico que informa sobre as estações, sobre quanto tempo falta para chegar etc.

"Seja bem-vindo" ... "Chegamos em Mont Rouge dentro de 15 minutos" ... "Tome cuidado com seus pertences" ... "O motorista esta solteiro" ... "Agradecemos a preferência" ...

Perai! Volta la! Como assim 'o motorista esta solteiro'?? Duvidei do meu francês. Fiquei esperando passar de novo, não acreditei quando passou de novo, comecei a olhar pros lados e vi uma amiga cutucando a outra e mostrando a mensagem. Todas as mulheres do ônibus começaram a sorrir, inclusive eu.

Olhares furtivos das moças ao motorista, olha que ele é bem bonitinho! E ainda tem senso de humor. Sera que funcionou?

Paris tem dessas coisas.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Controvérsias

Semana passada algumas mulheres fizeram um protesto em uma piscina publica no centro de Paris a favor da igualdade dos sexos. Elas apareceram todas sem a parte de cima do biquini, dizendo, se eles podem, por que nos não podemos? Se a resposta parece obvia para a maioria das pessoas, é a prova de como o machismo esta enraizado em nossas mentes.

Para mim, essa historia de não poder mostrar o peito parte do mesmo principio daquele que diz que as mulheres devem usar véu ou burca, em certos paises muçulmanos. Eh exatamente a mesma coisa. Eles dizem que os seios das mulheres é um simbolo da sexualidade. Ora, so é um simbolo da sexualidade porque os homens decidiram que seria desse jeito. Assim como os cabelos, o rosto ou até a mulher inteira é um simbolo da sexualidade feminina para certas culturas, então vamos esconde-la rapido, sempre com o argumento de protege-la, é claro.

O mais engraçado é que geralmente as pessoas que dizem detestar as praticas da religião islamica, são os primeiros a condenar a igualdade dos peitos entre homens e mulheres. Eles dizem que não tem como comparar, que é diferente. Sim, é diferente porque é sua cultura. Porque a cultura do outro é burra, a sua sim tem logica.

Existem aqueles que não entendem como as proprias mulheres islâmicas aceitam se esconder debaixo de véus, mas imaginem dizer para as nossas mulheres que a partir de hoje elas deveriam ficar sem camisa quando fizessem atividades do dia-a-dia, assim como o homem. Por mais que fosse legal, a grande maioria delas não faria, por estar acostumada de outra forma.

E se você, homem, for contra, que va protestar na piscina usando um sutiã.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Rebequinha

Ela foi a primeira criança que tomei conta quando cheguei à Paris. Arranjei esse emprego na primeira semana, na época me pareceu normal, mas hoje sei que é quase impossivel encontrar um trabalho assim rapido, sem falar francês e quase sem experiência. Rebeca ja chegou me trazendo sorte.

A pequena franco-brasileira de 2 anos tinha acabado de chegar na França, assim como eu, e não entendia uma palavra de francês. Quando falavam com a gente na rua, a gente não entendia, mas não tinha problema, pois entendiamos muito bem uma à outra, e continuavamos nosso caminho sem dar muita bola pros outros.

Ela era a unica pessoa no mundo todo que gostava de me ouvir cantar e eu aproveitava a audiência pra soltar a voz nos classicos coelhinho, minhoca e janelinha, com a devida interpretação dos gestos, é claro.

A gente se divertia juntas. Idas e vindas ao parque cantando como doidas no meio da rua. Faziamos castelos de areia, montavamos quebra-cabeças, assistiamos Pingu, perseguiamos pombos, seu esporte favorito. Ensaiamos nossas primeiras palavras em francês.

Ficamos juntas por três ou quatro meses apenas, depois disso eu nunca mais a vi. Sempre fiquei de ir visita-la, mas sempre acontecia alguma coisa, e depois trabalho, faculdade, a vida vai levando, sabe como é. Dois anos se passaram.

Sempre penso nela.

So que agora, a verdade é que eu tenho medo de ir visita-la e ela não me reconhecer.


sexta-feira, 1 de maio de 2009

O desprazer de escrever

Eu sempre gostei de escrever. Acho que a gente se expressa melhor escrevendo, pois temos tempo de pensar, escolher as palavras, mudar de idéia, e ficar assim até o texto refletir exatamente o que queremos dizer. Dependendo da complexidade do assunto (e da inspiração, é claro), chega a ser um processo doloroso que no fim é recompensado por um orgulho proprio que diz: foi duro, mas valeu a pena.

Mas essa regra não vale para escrever numa lingua estrangeira. Aqui na França, quando tenho que entregar algum trabalho na faculdade, pesquiso, penso, escrevo, escrevo, escrevo e no final, o resultado é uma bosta. Quer dizer, à primeira vista para mim fica bom, mas quando peço pra alguém corrigir vejo que esta tudo errado. Resultado: perdi completamente o prazer de escrever. As vezes bolava frases que, de acordo com minha formação tupiniquim, estavam bem impactantes e ficava bem orgulhosa delas, até o meu namorado perguntar: "O que você quis dizer com essa frase? Ela não tem sentido". FRUSTRANTE. Uma vez ele estava de mal-humor e disse: "eu teria menos trabalho se ao invés de te corrigir, escrevesse tudo eu mesmo". Ele é assim, super romântico quando esta irritado.

Não é uma questão de gramatica, mas de construção de idéias. Acho que eu escrevo em português, mas com palavras em francês. Pelo menos ja sinto uma grande diferença de um ano pra ca, até meus "revisores" ja elogiaram, mas ainda não é suficiente. Alias, tenho varios revisores: meu namorado, minha sogra, alguns amigos e até a avo de um bebê que eu tomava conta, que foi super fofa e se ofereceu mais de uma vez pra fazer o serviço. Não sei o que seria de mim sem eles.

A ma noticia é que tenho que escrever uma dissertação de 150 paginas para o mestrado.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Coisas para visitar em Porte Dorée - Foire du Trône

Nada melhor do que a primavera para dar uma levantada nos ânimos franceses. A expectativa do verão, do sol e das sonhadas férias chegam junto com o perfume das flores. Semana passada, em um dia de vento, eu olhei pela janela e vi uma chuva de flores que vinham voando da floresta aqui do lado e iam se espalhando pela calçada.

Mas aqui em Porte Dorée, primavera é sobretudo sinônimo de Foire du Trône. Explico.

Foire du Trône é um parque de diversão temporario que se instala no mês de abril e vai embora no 1° de junho. A feira é enorme e não é por nada não, mas tem uns brinquedos sinistrões que eu não vou nem a pau. Os vizinhos não partagem da minha alegria com a chegada da feira, ja que o bairro naturalmente pacato vira um salvem-se quem puder. Os metrôs lotam e o povo desce em massa na estação de Porte Dorée, que num dia habitual de inverno, so desce eu e mais uns dois. Dezenas de viaturas policiais ocupam as redondezas. Dai a rua fica uma bagunça boa e do meu apartamento ouço gritos dos grupos de adolescentes que passam embaixo. Da pra entender porquê os vizinhos não apreciam muito, mas para mim essa movimentação faz lembrar um pouco o Brasil. So faltava olhar da janela e ver uma barraca de churrasquinho.



quarta-feira, 8 de abril de 2009

A linha 13

Sabe a pior coisa da minha faculdade? Eh conseguir chegar la. Ela fica em Saint Denis, fora de Paris, num suburbio considerado 'quente'. Sabe aquela época em que se queimaram centenas de carros e a França aparecia todo dia no jornal? Pois é la mesmo, a minha fac. Mas eu so dei esse detalhe para vocês se localizarem melhor, pois não tenho do que reclamar da area, muito menos das pessoas. Acho mesmo super simpatico o acampamento permanente de ciganos que tem atras da universidade.

O chato é que eu moro do outro lado da cidade e demoro 1h pra chegar. Mas não é so isso, afinal quando eu trabalhava em Ipanema demorava mais. O problema é que troco de metrô quatro vezes, e o pior: pego a bendita linha 13.

A linha 13 so pode ser uma criação do coisa-ruim para castigar os mais pecadores dentre nos. Eu que ja detesto metrô, peguei trauma de vez. Li uma vez que ha em média 4,5 pessoas por metro quadrado nos vagões. Façam as contas. Na pratica ja sabia disso faz tempo. Tem até um funcionario em cada porta, para assegurar o fechamento. Nunca tinha visto isso na vida. Fora os engarrafamentos de trens, que obriga o piloto a parar a cada 20m naquele tunel escuro (morro de medo).

Ja fiquei presa por pane de sinalização, pane de energia, viajante passando mal, até suicidio na linha! Pelo menos tenho sempre uma desculpa pronta para os atrasos.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Homesick

Depois de dois longos anos morando em Paris eu passei a me achar, assim, meio parisiense. Passei a achar conveniente as pessoas não puxarem conversa no ponto de ônibus, comecei a levar a baguete debaixo do braço, como disse em algum post abaixo, passei até mesmo achar que não era tão grave assim não ter tantos amigos como tinha no Brasil... E pasmem: achava até que ja estava acostumada com o frio. Fora a aparência: pele branquissima, cabelos longos e sem corte, um ar meio ao léu... Ou seja, super adaptada. Quando viajei nas férias pra Portugal cheguei a ficar com saudades de Paris, pra mim essa tinha sido a prova final. Cheguei a duvidar se conseguiria viver no Brasil de novo.

Foi então que aconteceu: passei dois meses no Brasil e joguei toda minha parisiandade conquistada em dois anos pela janela! Cortei o cabelo, peguei um bronze. Foi inexplicavelmente bom encontrar minha mãe, meu pai, minha avo, (quase) toda a minha familia e pessoas queridas. Que prazer de ir à praia, de tomar um açai, de ver novela! Que coisa boa falar na lingua que você conhece melhor e todos entenderem cada palavra! Carne, muita carne! Amigos, vocês são a melhor coisa que o Rio de Janeiro pode me oferecer.

Tem gente que muda de pais e acaba não se sentindo nem uma coisa nem outra, se sente estrangeiro em todo lugar. Eu tinha medo disso acontecer comigo, mas agora eu sei e admito: sou brasileira e nunca vou deixar de sê-lo. Amo a informalidade com que o brasileiro encara a vida e super me contradizendo no ultimo post: o Brasil é o melhor lugar do mundo!

(pelo menos pra mim)



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