"Ironia da historia: no momento em que as mulheres ocidentais conseguem se livrar do patriacardo, elas encontram um novo chefe em casa"

Acho que esta é frase que melhor resume o novo livro da feminista francesa Elisabeth Badinter, Le conflit - la femme et la mère (O conflito - a mulher e a mãe). Fraldas lavaveis, amamentação obrigatoria, parto com dor,
co-sleeping, volta ao lar, são alguns dos alvos de Badinter. Segundo ela, a "maternidade naturalista", que vem ganhando força na França (e no mundo) nos ultimos anos, é a mais nova forma de opressão às mulheres.
O livro vem sendo alvo de muitas criticas, inclusive de outras feministas que dizem que Badinter esta lutando contra a guerra errada. Como trabalhei durante dois anos como baba aqui na França, pude observar muitas familias de perto e como cada uma lidava com essas questões. Tive a sorte de pegar mães e pais muito gente boa em quase todos os casos e geralmente os pais participavam do cotidiano dos bebês tanto quanto as mães. Em todas as vezes as mães trabalhavam fora e alimentavam seus bebês com leite de latinha, exceto uma, que tirava o leite no trabalho e guardava na geladeira. Os pais davam banho, alimentavam, colocavam pra dormir e dividiam as tarefas domesticas com as mães. Elisabeth Badinter diz que essa igualdade entre o pai e mãe foi conquistada justamente por causa da mamadeira e dos outros avanços da modernidade e que o retorno à maternidade naturalista é um retrocesso na maneira de cuidar do bebê, que o priva do contato com o pai e sobrecarrega a mãe.

Essa nova corrente de feminismo coloca a mulher acima dos homens, dizendo que a feminilidade é uma virtude enorme cuja maternidade é o centro. Somente a mãe sabe das necessidade do bebê, somente a mãe pode dar tudo o que o bebê precisa e o pai deve apenas apoiar a mãe na sua nova função. No livro de Edwige Antier,
Confidences de parents, citado na obra de Badinter, diz que o dever do pai depois do nascimento do neném é "reintroduzir a mãe na sua feminilidade (?!), oferecê-la um buquê de flores (?!), tomar conta do bebê para que a jovem mamãe va ao salão de beleza (?!) e dizê-la o quanto ela esta bela (?!)". Alguns detalhes modernos foram acrescentados às ideias conservadoras, como por exemplo, o pai deve assumir todas as tarefas domesticas, para deixar a mãe cuidar do bebê em tempo integral, mas a essência ainda é profundamente tradicional. Alguns livros incentivam às mulheres a ficar com seus bebês 24h por dia durante os três primeiros anos de vida do neném e as estimula a dar de mamar de acordo com a demanda da criança, nada de horarios impostos. Quanto mais mamadas de madrugada, melhor. Bom, quem tem que ficar a disposição de um bebê dessa forma, pode dizer adeus ao emprego, ao lazer e à vida social e conjugal. Alguns depoimentos de mães dizem que elas se sentem devoradas pelos bebês, que elas se sentem uma refeição ambulante, quase como escravas. Amamentar deve ser um prazer, não um sacrificio. E cada vez menos as mulheres têm a chance de escolher, no Brasil ainda mais que na França. Não amamentar por opção é sinônimo de egoismo maternal.

Vender essa ideias como um direito, foi bastante eficaz no processo de volta ao lar das mulheres de paises desenvolvidos (e incluo ai a elite brasileira). Sob o argumento de uma função muito mais importante do que o trabalho, que somente as mulheres têm capacidade suficiente para fazer, elas abriram mão dos poucos direitos conquistados pelas suas mães. Acho que qualquer tipo de diferenciação entre os sexos é uma porta aberta à deterioração das mulheres. Dizer que a mãe cuida melhor do bebê que o pai, é dar mais uma tarefa exclusiva à mulher, é incentivar a desigualdade, é colaborar com as diferenças salariais. "Esse tipo de maternalismo ainda não gerou o matriarcado nem a igualdade dos sexos, mas sim uma regressão da condição feminina. Regressão consentida em nome do amor à sua criança, do sonho da criança perfeita e de
uma escolha moralmente superior. Fatores bem mais eficientes do que pressões exteriores. Todo mundo sabe: nada se compara à servidão voluntaria!".
Aproveito para indicar um blog francês que descobri ha um tempo e que ja me rendeu boas risadas. Ele se chama
Mauvaises Mères (algo como Péssimas Mães) e vai justamente contra essa corrente de "eu não dou potinhos prontos para meu bebê", mas super bem humorado.
*** Respondendo às críticas: dizer que o bebê precisa exclusivamente da mãe e que ninguém mais pode cumprir esse papel obriga a mulher a ficar em casa, e se ela não fizer, vai trabalhar cheia de culpa. Isso não é bem dar liberdade de escolha, né? Pela minha experiência, o bebê se apega a quem cuida dele e passa mais tempo com ele, seja la quem for. Entendo que as mães queiram aproveitar esses momentos, que são maravilhosos, mas ela deve saber que seu bebê não ficara infeliz sem ela ou tera qualquer problema de desenvolvimento se ela não estiver presente o tempo todo, como pregam os "aiatolas da maternidade". Por que o pai também não pode cumprir essa função?
O livro da Elisabeth Badinter é muitissimo complexo e não pode ser simplificado em "ela é contra as mães que largam seus empregos". Se meu texto deu essa impressão, ela é falsa. Mas comentem, mesmo se vocês discordem completamente, vamos enriquecer o debate!