quarta-feira, 27 de julho de 2011

Sintomas graves de parisienses

Eu ia até fazer um Top 10, mas logo vi que a lista é infinita. Se você mora em Paris ha algum tempo, esta na hora de fazer um check up e descobrir se ainda conserva seu espirito brasileiro ou se ja apresenta perigosos sinais de metamorfose em um tipico parisiense.


Sintomas mais comuns:

- saber a temperatura que vai fazer nos proximos dias
- achar as sobremesas do brasil doces demais
- não comer mais queijo e presunto no café da manhã
- achar que um apartamento de dois quartos é luxo
- não puxar mais assunto quando ouve alguém falar português na rua, como fazia antigamente
- passar cinco minutos procurando um equivalente em portugues para uma palavra em francês que representa exatamente aquilo que vc quer dizer (e que geralmente não existe em português)
- saber nomear mais ministros franceses que ministros brasileiros
- não entender como os brasileiros podem trabalhar tanto e ter tão poucas férias
- ser mais pontual
- ficar irritado quando o turistão fica parado do lado esquerdo da escada rolante no metrô
- aprender a se virar: fazer faxina, cozinhar (bem!), consertar eletrodomesticos, montar moveis, muitas vezes até cortar o proprio cabelo
- descobrir qual é a melhor padaria do bairro e implicar com as outras
- esperar os soldes pra fazer compras
- no inverno, não sair mais com cinco casacos, três calças, sete meias, luvas, gorro de lã e cachecol, como fazia antigamente
- programar as férias para o mês de agosto
- se for mulher achar os biquinis brasileiros pequenos demais e se for homem jurar que nunca mais veste uma sunga na vida
- chamar Mc Donalds de McDo
- dizer os numeros de telefones em dezenas
- achar que o rosé é um vinho subjulgado no Brasil

Se você sentir algum sintoma não listado, por favor deixe na caixa de comentarios para podermos prevenir os recém-chegados dessa terrivel ameaça.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A criança n°1

A criança n°1 foi a forma que Paris encontrou de dizer "Ei, Amanda, você é bem-vinda aqui!". Todo mundo dizia que era super dificil de encontrar trabalho na cidade, sem falar francês então - era impossivel. E eu, menos de uma semana depois de ter chegado, ja estava cuidando dela. Ja falei da criança n°1 aqui, quando era mais descuidada.

Na verdade, foi a criança n°1 que me ensinou a ser baba. Não a trocar fraldas (ela ja não precisava mais delas), nem a por pra dormir (ela era uma das duas unicas crianças que tomei conta que precisava de companhia pra dormir. As duas eram.... hã.... brasileiras), muito menos a brincar (isso ja eu sabia muito bem). Mas foi com ela que aconteceu a experiência mais aterrorizante que tive com os pequenos e com certeza foi isso que me tornou uma boa baba.

Nos iamos sempre numa piscininha de areia que ficava lotada de piticos. Eram mães, pais, babas e bebês pra todo canto. Dai um dia, depois de fazer mil castelinhos, decidi sentar no banco pra descansar enquanto a criança n°1 brincava com seus amigos do dia. Abri a bolsa pra pegar um jornal e nem cheguei a abri-lo, foi quando uma mãe louca levantou e começou a falar alto e rapido. Eu, que tinha acabado de chegar e não falava nem bonjour, tentei prestar atenção e ouvi:

- Rnkfvrrrrrrrrrrkjfbvk! lkefvnrrrrrrrrrrrrjenvje! Njen ejffklern oegrrrrrrrrjen lenvef ejnn!!!!!!

E a moça ia ficando cada vez mais histérica e ninguém respondia pra ela. E eu olhando, intrigada, querendo saber o que ia acontecer naquela cena sem legendas. Todas as mães/babas/pais começaram a olhar entre si. Dai eu vi a mulher apontando pra fora do cercadinho e gritando mais alto, esperando alguma reação. Então passou pela minha cabeça que alguma criança devia ter fugido e seu responsavel incompetente ainda não tinha se dado conta. A mulher se deu por vencida e saiu correndo ela mesma. Como pode, minha gente, uma criança sair e a pessoa não notar? Ainda bem que a minha criança n°1 esta aqui quietinha e....

CADÊ A CRIANCA NUMERO 1?

Pânico.

Levantei e sai correndo com todos os olhos das mães/pais/babas mirados na minha nuca. Eu pude sentir cada um deles, juro. E ainda pude ler seus pensamentos, o que é ainda pior. Mas o pior mesmo, minha gente, era que a criança n°1 estava correndo em direção à rua e se não fosse a mãe louca, sabe la onde ela teria ido. Quando as alcancei, a mãe começou a brigar comigo e dizer um monte de coisa que eu não entendia num tom bem agressivo. E eu so pude ficar murmurando "je suis desolée", na falta de argumentos melhores. A melhor parte foi que eu ainda tive que voltar na piscininha de areia buscar os brinquedos da criança n°1. Foi a marcha da vergonha, parecia que aquele parquinho tinha uns 5km.

Juro que não tirei os olhos da criança n°1 por mais de 20 segundos. Eu pisquei e ela simplesmente se teletransportou de um lugar pro outro! Como era possivel? Foi a mãe dela mesmo que havia me dito que eu podia ler enquanto ela brincava (e eu sequer tive tempo de ler)! O pior foi eu não entender francês e não poder ter tomado uma atitude a tempo. Fiquei me sentindo a pior das criaturas. Fiquei tão mal, mas tão mal, que pensei que aquele trabalho não era pra mim, que eu devia procurar outra coisa. Contei pra mãe dela o ocorrido e ela disse que ah, essas coisas acontecem mesmo, criança é fogo. Fiquei mais tranquila. Mas a partir desse dia eu fiquei neurotica em ter os pequenos sempre à vista. Passei a triplicar, quadruplicar a segurança deles e escolher passear em lugares que não sejam tão cheios.

Hoje acho que foi um aprendizado. Tudo bem que eu podia ter aprendido de uma maneira menos humilhante, mas ta valendo. Por causa disso eu atingi a incrivel marca de zero crianças perdidas em 4 anos de baba! Sou muito boa mesmo, podem falar.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meus pequenos emprestados

Pois é. Acho que minha vida de baba esta acabando. Foram mais de quatro anos tomando conta de criancinhas de 3 meses à 6 anos, a maioria bem calminha, alguns pestinhas e todos fofos. Ainda cuido de um bebê às quartas, mas so até o fim do mês. O meu contrato dos outros dias das semanas acabou na sexta e estou de férias por tempo indeterminado. Quer dizer, férias, mas sempre cheia de coisa pra fazer. Acho que cuidar dos meus bebês da menos trabalho do que todas as coisas que tenho que resolver em breve, todos os projetos que teimam em nao sair do papel (ou da minha cabeça). Mas estou muito empolgada, parece que foi um ciclo que se fechou e com um outro que esta prestes a se abrir.

Vou sentir saudades das minhas criancinhas. Quer dizer, ja sinto. Os primeiros bebês que cuidei ja estao indo pra escola de mochilinha, todos serelepes e faladeiro. Fico boba so de olhar quando encontro na rua. Como aquela coisinha que nao conseguia nem sentar ja fala francês melhor que eu?! 

Uma pena que eu nunca pude falar sobre meu trabalho de baba, ja que nao posso invadir a privacidade das familias. O que eu queria mesmo era colocar um milhao de fotos dos pequenos e contar todas as intrigas, as manias, as esquisitices que envolve o trabalho de baba. E olha, nao sao poucas! Mas né, tenho que me conter. Mas isso nao impede que eu faça uma pequena homenagem aos meus 12 guris e gurias em forma de recapitulaçao, principalmente para eu poder ler mais tarde e lembrar deles. Em breve.

sábado, 2 de julho de 2011

A caça ao tesouro

Eu ja tinha falado na caça ao tesouro que as subprefeituras de Paris organizam na cidade, mas nunca tinha participado de uma delas. Aqui no 12éme arrondissement, além da caça ao tesouro estavam programados também varios esportes gratuitos no Jardin de Reuilly, de tiro ao alvo à dança, de tênis à equitação. Até o muro de escalada que eu faço ia abrir as portas para curiosos. Tudo no mesmo dia e no mesmo lugar. Convoquei logo a Maite (que conheci no piquenique e virou minha amiga de infância), mas não conseguimos arrastar mais ninguém, so o cheri que apareceu algumas vezes para nos ajudar. Como não sabiamos direito como era o esquema da caça ao tesouro, estavamos preparadas pra abandonar a corrida se fosse chata e ficar ali nos esportes. Mas nossa previsão não podia estar mais errada.


No inicio da caça, eles nos dão um jornalzinho com um mapa, as instruções e um texto enorme de duas paginas que são as pistas. Custamos a entender como funcionava a coisa, mas depois pegamos o jeito. Demoramos uns 15 minutos so pra entender a primeira pista e logo depois desviamos muito do caminho por causa de um problema de linguistica e perdemos quase uma hora indo para a direção errada. Engraçado que as pistas eram tão subjetivas que a gente interpretava do jeito que queria dependendo do que estava no caminho. Pra gente, vermes de metal e monstros metropolitamos eram os prédios, ja que estavamos na rua, mas a Maite descobriu que, olha so, era o metrô! (na hora não parece tão obvio, juro!). Depois que voltamos pro caminho certo pegamos o jeito de vez. O percurso é super detalhado, a cada passo que davamos tinha dicas. E se a primeira vista as pistas não tinham sentido nenhum, a gente entendia quando dava de cara com elas (do lado do coração, no "rappel", vire entre duas cerejas que iluminam a passagem, que significava: à esquerda, onde tem uma placa de trânsito que esta escrito 'rappel", passe entre duas luminarias presas na parede). Uma das dicas era um muro alto de um prédio, meio artistico, com uma pintura e uma poesia. Dai cruzamos uma mulher que disse: "Moro por aqui ha anos e nunca vi ninguém prestar atenção nesse muro. Fico feliz de que pelo menos hoje as pessoas dêem uma olhadinha".

Por três vezes tivemos que entrar em lojas para pegar as dicas. Dai tinhamos que responder algumas perguntas - a primeira foi numa petshop, dai tinhamos que nomear cinco filmes da Disney que tinham cães e gatos. Que bom que o cheri estava la, pois não iamos adivinhar que 101 Dalmatas era 101 Dalmaciens e a Dama e o Vagabundo era La belle et le clochard. A segunda vez foi num cavista, tinhamos que acertar o cheiro de pelo menos dois dos quatro potinhos que ele nos apresentava. Palmas pra Maite, pois se dependesse de mim, estariamos até agora no cavista. A ultima era uma loja de decoração e tinhamos que dizer de qual animal pertenciam as plumas de um abajour. De novo, sorte nossa que o cheri estava la, pois não sabiamos como era ganso em francês.

Era engraçado ver grupinhos parados na calçada, olhando para todos os lados, apontando em todos os sentidos, tentando entender o jornalzinho. Nem adiantava muito colar e seguir ou outros, pois dava a impressão que estava todo mundo perdido (e depois descobrimos que existiam percursos diferentes também). Tinha muita gente participando, adolescentes, adultos, familias, velhinhos, todos concentrados em desvendar o caminho. Foram quase 6km (isso apenas o caminho oficial, sem contar as vezes que rodamos perdidas) e nossa caça ao tesouro durou 5h! O tempo passou tão voando que nem vimos, acabamos nem almoçando.


Mas no fim eu ja estava tão cansada que não aguentava andar. Acabamos passando novamente pelo jardim onde estavam tendo os esportes e olha, que decepção, ainda bem que não ficamos la! Descobri que o tênis se resumia a uma rede mal-amarrada na altura do joelho onde crianças de 3 anos praticavam. O boxe era um saco de bater e a equitação, pasmem, eram pôneis que as crianças davam voltinhas na pelouse! Imagina o mico se eu tivesse ficado la pra isso. Ainda bem que estavamos curtindo bem a caça ao tesouro. O objetivo do jogo era conseguir descobrir onde era o fim do percurso e se inscrever para o sorteio dos prêmios, que incluia viagem de fim de semana e jantar em restaurante. Não tinha prêmio para quem chegasse primeiro, era tudo sorteio.

Eu e Maite decidimos ficar para ver o sorteio na prefeitura. Foi muito engraçado, pois estavam rolando varios casamentos por la, então tinham duas galeras diferentes: a dos bem-arrumados e a dos mulambos suados e cansados, todo mundo fazendo fila (modo de dizer) pra entrar. Dava a impressão que éramos um bando de penetras. A boa surpresa foi um shozinho instrumental excelente de um grupo chamado Omega Fanfare. Que coisa animada! Depois tiveram os sorteios e obvio que não ganhamos nada. Mas talvez tenha sido melhor assim, pois sabe qual foi um dos prêmios oferecidos? Um queijo! Juro pra vocês. Tem que ser muito francês pra dar um premio desses, né não?


No fim das contas valeu muito a pena. Nos divertimos muito, o tempo voou e conhecemos alguns cantinhos charmosos de Paris que não conheciamos. Quem estiver por aqui no ano que vem não pense duas vezes, vai. Mas aviso logo que o francês tem que estar afiadinho, pois decifrar as pistas não é tarefa muito facil não.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O dia que Paris virou Rio

Esta semana é uma semana atípica. Minha vida de sempre foi atropelada por vários acontecimentos importantes: visita da mãe em Paris, última semana de trabalho, decisão definitiva sobre quando voltar para o Brasil baseada em uma resposta que teremos na sexta, organização das primeiras férias de verdade depois de 4 anos e calor, muito calor.


Os parisienses compartilham pelo menos dois desses eventos: o calor e o planejamento das férias (em julho/agosto todos eles migram para o sul). Então pude perceber nitidamente nas ruas uma felicidade geral - os parisienses estão ainda mais eufóricos do que na primavera! Como passei o fim de semana inteiro turistando com minha mãe, aproveitei bem todo esse momento de bom-humor coletivo, coisa rara em Paris. Nas lojas os vendedores vinham sorridentes e prestativos, nem faziam cara feia quando eu experimentava metade da loja e saia sem levar nada. Um deles, inclusive, me pediu em casamento ajoelhado e tudo. Na rua não precisávamos sequer pedir informações, era só abrir um mapa que automaticamente chegava alguém perguntando se precisavámos de ajuda, às vezes até arranhando um português simpático. Para pedir que tirassem uma foto era a mesma coisa: bastava tirar a câmera de dentro da bolsa que alguém se materializava do nosso lado oferecendo pra bater. Nunca vi isso, juro pra vocês.


O mais engraçado é que em todos esses contatos o calor entrava na conversa. O grande acontecimento era a previsão da temperatura de segunda-feira, incríveis 37°, então a expectativa era enorme. Parecia até que todo mundo estava só procurando uma desculpa pra falar "Ei, viu só? Amanhã teremos 37°! High five!" Inevitavelmente, todos os diálogos chegavam aqui. Parecia até copa do mundo, sabe? Como se todos nós estivéssemos nessa juntos, para o melhor e para o pior. Só faltava um tapinha nas costas - vamulá, vamulá, rumo aos 37! Daí tinha gente que descrevia os preparativos para o dia seguinte: "sempre deixo a janela da sala fechada, mas amanhã vou ter que abrir tudo!", outros me davam conselhos: "não esquece de beber muito líquido, vai fazer 37°".

Pois os 37º chegaram ontem e olha, quase morri. Tô muito parisiense? Minha mãe disse que não sobrevivo mais ao calor do Rio, acho que ela está certa. As crianças que tomei conta botaram o pé pra fora de casa e pediram pra voltar. Eu não tava a fim de perder a oportunidade de curtir o calor, então as obriguei a ir no parquinho, coitadas. Elas não aguentaram brincar nem na sombra e ficaram resmungando sentadas no banco. Minha mãe viu uma ambulância tirar um velhinho de casa. Pegar ônibus nesse calor não foi brincadeira, os ônibus daqui não têm janelas nem ar-condicionado! Porque como o Brasil não está preparado para o frio, a França definitivamente não está preparada para o calor.

Vou tratar de aproveitar bem da simpatia e do calor em Paris, porque certamente ambos duram muito pouco!

sábado, 4 de junho de 2011

O mundo dos livros na França

Sou daquele tipo de pessoa que desde pequena ja saia lendo tudo o que vinha pela frente. Mas minha paixão sempre esbarrou em um problema técnico: livros bons e que me interessavam não eram faceis de ser achados. Primeiro que comprar livros era muito caro - e no Brasil continua sendo -, segundo que não existia nenhuma biblioteca decente. Minha mãe até me levou algumas vezes na biblioteca municipal do bairro, mas la tinha apenas Agathas Christies de paginas amareladas e quadrinhos tão antigos que os personagens da Turma da Mônica ainda eram meio tortos. Otimo incentivo de leitura pras crianças.

A primeira vez que dei de cara com uma biblioteca de verdade foi em Brisbane, na Australia. Parecia um shopping center de livros, com a vantagem de tudo estar completamente disponivel pra você. Era um sonho: um mar de livros, CDs, DVDs, HQs, jornais e revistas, muitas publicações. O mais surpreendente pra mim é que ali não era apenas um lugar de estudos, mas também de lazer, onde as pessoas iam pra pegar filmes emprestados, um CD legal, livros de viagem do Lonely Planet, livros de receitas, livros infantis - a biblioteca tinha tudo o que a gente podia imaginar. Então a cada cidadezinha da Australia que eu ficava algumas semanas, ja procurava pela biblioteca.

Na França é a mesma coisa. Além das universidades que têm um acervo gigantesco, Paris conta com dezenas de bibliotecas de bairro, que são muito uteis no cotidiano. Quem mora por aqui, recomendo fazer a carteirinha, é de graça! Com a carteirinha a gente pode pegar até 20 obras de qualquer biblioteca de Paris por 3 semanas renovaveis. Cada biblioteca também organiza programações diferentes, como encontros com autores e leitura de historias infantis para crianças.

Como frequentadora assidua da biblioteca Saint-Eloi, fui la hoje de manhã devolver uns quinhentos livros e pegar outros mil e dei de cara com uma ideia tão genial que fiquei embasbacada. Com a proximidade das férias, o pessoal teve a ideia de fazer o pacote surpresa: embrulharam conjutos de quatro ou cinco livros (e CDs) em papel-pardo e o leitor escolhe um embrulho sem saber quais livros tem ali dentro. Assim ele tem as férias inteiras pra ler aquela pequena seleção de leitura que fizeram pra ele. Não é o maximo?

Praticamente um natal fora de época
 
Eu fico boba com essas coisas! Uma ideia tão simples, que não custa nada, atrai a curiosidade de todos e ainda incentiva leitores a lerem obras que provavelmente eles não escolheriam por vontade propria. Tudo bem que você corre o risco de pegar coisas que não te interessam (se eu caisse com biografias ou classicos, ficaria irritada!), mas é so pegar uns livrinhos extras pra garantir.
 
E se as bibliotecas municipais ja garantem boas leituras, as pessoas com forte sentimento de posse também estão bem servidas. As livrarias francesas oferecem livros muito mais baratos que no Brasil. Tipo, coisa de 3 euros para um livro de bolso. Os lançamentos estão na faixa dos 20 euros. A diferença é que enquanto no Brasil livro parece ser artigo de luxo - capa dura, design artistico, folhas de 90g -, na França eles são mais modestos, raramente têm capa dura, muitas vezes nem têm desenho: é so o titulo, o nome do autor e pronto, fundo bege ou amarelo, nada de fotos ou ilustrações mirabolantes.
 
Comprar livros na França é um programa super gostoso. Além do preço totalmente viavel, as livrarias também atraem os leitores com um ambiente aconchegante e familiar. Poltronas fofas, espaço pras crianças, vendedores simpaticos, tudo isso faz parte. Mas o que realmente me conquista é a maneira que elas indicam os livros, dêem uma olhada:
 
 Notinhas escritas à mão com opiniões pessoais


Esses bilhetinhos passam uma impressão de que a livraria tem um interesse autêntico pelos livros, e não deseja apenas vender qualquer porcaria. Da pra perceber o carinho pelas letras, o habito permanente da leitura. Eh como se a propria livraria dissesse: "seu livro ideal esta aqui e nos vamos te ajudar a encontra-lo".

I ♥ livrarias francesas. E bibliotecas também!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Programão de sabado - hospital

Sabado de sol. Atrasados, corri pra lavar a louça acumulada. Um dos 50 copos na pia estava rachado e eu não vi. Peguei o copo e passei a esponja com força. Ele quebrou na minha mão e me cortou. Olhei pro corte e vi que a coisa tinha sido feia. Gritei pelo nome do cheri mil vezes até ele aparecer, assustado. Mostrei minha mão e ele fez uma cara feia. Ainda fez o tipico uh-la-la-la-la-la-la.... Quanto mais ''las' na boca de um francês, mais grave é a situação, saibam disso. E eu disse "Ei, não fala assim que você me assusta!" e ele tentou disfarçar. Depois respondeu "acho que precisamos ir ao médico". Foi quando eu olhei pro chão da sala e vi que estava cheio de sangue pingado da minha mão. Não sentia dor nenhuma. Soube ali que nosso sabado tinha acabado.

Minha sorte é que eu estava pronta pra sair de casa. Vestida e calçada. Se eu estivesse de pijama, acho que teria saido na rua de pijama mesmo. Enrolei a mão numa toalha e fui na farmacia pedir uma indicação enquanto cheri desligava o fogão, pegava as bolsas e fazia o que tinha que ser feito. Furei fila na farmacia e fui logo dizendo que eu tinha me cortado e não sabia se precisava ir pro hospital. Um cara super simpatico e atencioso me levou pra tras da loja e pediu pra eu mostrar o corte pra ele. Fui desembrulhando a mão e vi que a toalha ja estava cheia de sangue. "uh-la-la-la-la-la-la....", ele disse. Perguntou se eu queria sentar, respondi que não. Ele desinfectou o corte, mas disse que não ia mexer muito porque não sabia se ainda tinha vidro la dentro e tal. Mas falou pra eu ir sim pra emergência e me indicou um hospital em Saint-Mandé, fora de Paris, que era mais vazio que os outros. Estavamos caminhando para tras do balcão, quando de repente senti que meu corpo estava vazio de sangue e que eu estava prestes a cair. Nunca tinha sentido isso antes! Mas tentei me manter forte, pensava que poxa, era so um corte, por que estava me sentindo tão mal? Cheri chegou na farmacia e eu nem o vi direito. Perguntei pro cara se eu podia sentar dizendo que não tava me sentindo bem. Sentei. Ele disse que era normal, era o choque. Lembrei que não tinha comido nada o dia todo e de repente uma fome monstra tomou conta de mim. Fiquei com tanta fome que não sabia como eu poderia reunir forçar pra chegar em casa e comer. O cara da farmacia dizia que a gente poderia pegar um taxi pro hospital ou então o metrô. So a visão de entrar num metrô naquele momento me fez piorar, era a ultima coisa no mundo que eu era capaz de fazer. Dai os dois ficaram discutingo logistica e eu fui me recompondo. Ufa, ja estava bem melhor.

Cheri subiu de novo no apartamento pra pegar umas coisas e ver exatamente onde ficava o tal do hospital. Como eu estava melhor, disse que não valia a pena pegar um taxi, o melhor seria ir de ônibus. Porque eu posso estar mal, mas continuo pão dura. E ja estava me sentindo bem, nem fome eu tinha mais. No ônibus encontramos um conhecido que foi logo me estendendo a mão pra dizer bonjour e eu tive que dizer "xi, não vai dar, cortei a mão e estou indo pro hospital". E todo o ônibus olhou pra mim. Na verdade o hospital era bem pertinho de casa, mas chato de chegar até ele. Tivemos que pegar o metrô também, mas apenas por uma estação, so pra não precisar andar mesmo. Eu ja estava bem tranquila, parecia que estava indo dar um passeio no parque. A essa altura o corte ja doia.

Chegamos no hospital, fui levada diretamente pra uma sala e atendida por duas enfermeiras divertidas que disseram "ah, jolie!" quando viram meu corte. Uma delas perguntou se eu estava em dia com a vacina de tétano, eu (que odeio agulhas) disse que tinha quase certeza que sim, mas como eu minto mal, ela disse que ia fazer o teste mesmo assim. E o teste, minha gente, era um furo no dedo. Com tanto sangue espalhado por ali, por que não aproveitar, né? Mas nem deu tempo de reclamar, ela ja foi logo pegando meu dedo e furando, e pra minha surpresa, nem senti!

Colocaram minha mão dentro de uma tijela com iodo e disseram que eu tinha que ficar assim por pelo menos 15 minutos, mesmo que ardesse. E olha, ardeu. O problema é que não foram 15 minutos, mas quase 2h! Até tirei um cochilo. Dai chegou o médico, que certamente era mais novo que eu. Ele parecia meio perdidão, mas era muito atencioso. Explicou que a região do corte concentrava muitos nervos e tendões importantes e que era preciso ter certeza de que nenhum deles tinha sido atingido. Dai ele mexeu de um lado, mexeu do outro, fez testes de movimentos e quando acabou eu perguntei: "E ai? Pegou algum nervo importante?" e ele respondeu "Acho que não. Perai que vou chamar meu colega". Aparece um menino que não devia ter mais de 22 anos, mas todo seguro de si. Foi logo pegando uma pinça e avisando que ia doer um pouquinho. PQP. Chegaram a conclusão que tava tudo ok, era so dar um pontinho aqui e outro ali e ia ficar tudo certo.

Quando fiquei sozinha com meu médico novamente perguntei "Então, você é estudante?", ele respondeu "interno", depois riu e disse, "sim, estudante". Dai conversamos sobre como a faculdade de medicina é dificil, sobre a escolha da especialidade e percebi que se fosse outra ocasião, a gente poderia sair todo mundo pra tomar uma cerveja - eu, ele, as enfermeiras e todos os outros estudantes que passaram pra dar uma olhadinha no meu corte (e que, tenho a nitida impressão, ficaram um tantinho decepcionados por meus nervinhos estarem intactos). Mas não, ele estava apenas costurando meu dedo e eu tinha que chama-lo de vous. Me senti num episodio de Gray's Anatomies.

O legal é que ele me explicava passo-a-passo o que ia fazer. Disse que apesar do meu corte ser grande, ele so precisaria dar dois pontos porque foi fundo e meio na horizontal. Negociamos se teria anestesia ou não e decidimos que não teria. Dai ele narrava tudo o que estava fazendo (ja que eu não estava olhando): "Agora estou procurando o melhor lugar pra pôr o ponto. Voilà. Agora vou furar, atenção! Hooooop-la! Mais uma vez, mais uma vez, hop-la! Pronto, a metade ja foi, viu como não doi tanto assim?", um fofo. Prefiro um estudante simpatico do que um velho experiente que nem liga pra mim. Depois ele me disse: você é bem menos sensivel do que pensa. Eu precisava ouvir isso.

A enfermeira voltou com a tal da injeção contra o tétano. Eu disse pra ela que talvez não fosse necessario, que tinha sido vidro e não metal e blablabla. Ela respondeu "tétano mata, sabia?". Um argumento bastante razoavel, cedi. Dai ela perguntou: "Você pretende ter filhos? Isso não é nada perto de um parto". Estou convencida a não ter filhos. Ela foi pegando meu braço e eu falei: "Mas não é melhor dar no mesmo braço dos pontos? Assim eu fico apenas com um braço invalido", mas ela respondeu "Não se preocupe, essa vacina não doi depois". Resultado - hoje estou com dois braços invalidos. Thanks, nurse.

Saimos de la sem pagar um tostão. Amo a França. Passei 3h no hospital e achei muito, depois descobri que nos hospitais de Paris às vezes temos que esperar até 8, 9h pra sermos atendidos. Dos males, o melhor. Descobri que levar pontos não é assim tão assustador e que eu sou bem mais forte do que eu pensava. Juro que da proxima vez não vou fazer cara feia pra nenhuma agulha. Cheri tem me ajudado a fazer coisas simples como pôr comida no prato ou abrir uma lata. Não pude resistir a piada quando estava a caminho do banheiro: "quando eu terminar, te chamo, ta?". 

Daqui a dez dias tiro os pontos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Piquenique do apocalipse

Eu não tinha a intenção de fazer um post contando sobre o piquenique não, sabe. Acontece que ele foi tão, mas tão legal, que eu tive que fazer! Formamos um grupo bem bacana e nos divertimos muito! O dia estava perfeito para ficar de bobeira no parque, solzinho gostoso, mas não muito abafado. Ficamos la até depois das 19h, o tempo passou voando! Muito obrigada a todos que foram, adorei mesmo conhecê-los!

De todo mundo, eu so conhecia pessoalmente a Dé e sua familia, os outros todos foram novidade. Tivemos varias coicidências de gente que se descobriu vizinha e de gente que foi caloura uma da outra no Brasil. O mais legal é que ja temos outros encontros programados!

Não tirei uma foto sequer, mas roubei de todo mundo que tirou. Como eles me autorizaram a postar aqui, ai vão algumas fotinhos! 



Adoro fartura!

Bolinho de cenoura servido por mim e pela Vera

Maite, Alê, Dé, Beto e Christophe

Cheri, Renata, Elizabeth e Jérémy

Ainda teve rumores de que a gente tava numa pior. Ponra!

 
Maite, a timida. Sei.

Rafael e Luciana
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