quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Separatistas e separatistas

Ainda estou de ressaca pela vitoria da Dilma. Muito, muito feliz! E aliviada de poder passar a outra coisa. Achava que as baixarias acabariam, mas estava enganada. Os tucanos não sabem perder e estão fazendo feio, muito feio. Me assusto com certas coisas que vejo escrito na internet, e o pior, nem de anônimos são! As pessoas estão tendo coragem de mostrar o quanto são preconceituosas! Ja faz tempo que estou devendo um post sobre minha segunda dissertação de mestrado, assim como fiz com a primeira, e parece que agora é o momento ideal para tocar nesse assunto. Pra quem não sabe, minha pesquisa foi sobre os movimentos separatistas no sul do Brasil, um tema que sempre me interessou muito, apesar de ser carioca.

Sempre me perguntei por quê o Brasil ficou inteiro, enquanto a colônia espanhola se dividiu em varios paises. Duas explicações me convenceram mais. A primeira é que o Brasil era a unica ex-colônia na América do Sul a ter adotado a monarquia como sistema de governo, o que agradava muito aos ingleses. Esses, que desejavam o fim da escravidão, relevavam um pouco o regime escravista no Brasil, justamente por causa da monarquia. Se o Brasil se fragmentasse, seria cada um por si contra a Inglaterra, e essa ideia não era nem um pouco atraente. A outra explicação é o mero acaso. Acho que o desenrolar de algumas batalhas acabaram decidindo todo o futuro da nação. Houve muitas lutas secessionistas ao longo da historia e esses movimentos foram todos derrotados. Mas qual o peso do acaso nisso tudo? Quem sabe com um pouco de sorte os separatistas não teriam ganho algumas guerras e hoje o mapa da AL seria muito diferente.

Devo surpreender alguns leitores, mas a verdade é que eu nunca pensei na separação do Sul hoje como uma coisa totalmente negativa. Achava a ideia um pouco ingênua, mas não necessariamente ruim. Na Europa tem diversas regiões que brigam por sua independência, como o pais basco, espremido entre a França e a Espanha, que tem sua propria lingua e cultura, mas foi dividido pela estratégia das linhas geograficas. A Africa então, nem se fala! Olhem no mapa, ela é toda quadrada, dividida como colônia europeia sem levar em consideração os povos que ali habitam. Nem preciso ir tão longe, ja que a França era composta de diversos povos diferentes, cada um com seus costumes, que foram obrigados a deixar tudo isso de lado para se tornarem franceses. As linguas locais passaram a ser consideradas dialetos inferiores e usadas por pessoas pouco educadas até que, pouco a pouco, foram desaparecendo (os bisavos do cheri não falavam francês, apenas occitan). Imagina quantos paises diferentes teriamos hoje se fossem levadas em consideração as culturas e não a estratégia militar. Então eu vejo a autodeterminação dos povos como algo positivo.

Mas sera que podemos considerar a separação do Sul como um caso de "autodeterminação dos povos", como pregam as organizações? Sera que colonizadores têm o direito de se dizer um povo à parte, de uma terra que pertence a eles ha tão pouco tempo? Demora quanto tempo para um povo ser considerado um povo? Sera que existe realmente um sentimento de identificação que une os sulistas ou os gauchos? Isso eu não posso responder, porque não sou sulista e nunca morei no sul. Mas quem sou eu pra dizer que uma pessoa deve se sentir mais brasileira do que sulista?

Vocês podem dizer que a discussão sobre o separatismo não é tão profunda e romântica quanto eu estou tentando apresentar, é apenas uma solução racista de reaças que so pensam no proprio umbigo. E eu digo que existe dois tipos de separatistas, aqueles que realmente acreditam que fazem parte de um pais dentro do pais e aqueles que se aproveitam dessa ideia para espalhar seus preconceitos por ai. Eu conversei com muitos separatistas e pude ver a paixão com que alguns falavam do seu estado (principalmente os gauchos) e de sua região. Muitos deles são inclusive de esquerda e votaram na Dilma. Sinto que eles são um pouco frustrados por não terem tido o mesmo destino do Uruguai no passado, pais com o qual se identificam culturalmente. Eh importante lembrar que o sul tem duas vezes mais fronteiras internacionais do que fronteiras com outros estados brasileiros.

Por outro lado, é muito conveniente desejar a separação de uma região do pais que é economicamente mais desenvolvida que as outras. E a verdade é que não temos como ter certeza de que esses separatistas também são xenofobos, mas se escondem atras do discurso de "cultura" e "costumes" para não admitir (quem sabe até para eles mesmos) um certo preconceito contra os nordestinos.

Mas o segundo grupo de separatistas é muito pior, é aquele que vem se destacando na internet nesses ultimos dias. São racistas e preconceituosos que na verdade não querem a separação do Sul, mas a expulsão do Norte/Nordeste. Eles acham que sustentam as duas regiões mais pobres, o que não é verdade. O dinheiro que entra e sai do Sul é bastante equilibrado. Mas esse pessoal não quer saber de nada, so quer espalhar seus preconceitos. Incrivel como as pessoas não têm vergonha de assumir seu lado nazista, dizendo com todas as letras que se acham superiores aos nordestinos. Nunca vi tanto odio contra os nordestinos e acho que a situação é muito grave. Quem defende a separação do Brasil nesse contexto de hoje, pos-eleição, pelos motivos mais equivocados desse mundo, esta assinando um certificado de estupidez e ignorância.

Que fique claro que eu não sou a favor da separação, nem acho que ela possa acontecer, mas procuro entender os bons argumentos de quem pensa diferente. Acho que a beleza do Brasil é justamente a diversidade e dizer que o Sul é a unica região que diverge do resto do Brasil é besteira. Nem vou entrar no mérito de "eleitores do Serra mostram a cara depois das eleições", pois acho que tem muita gente que pode fazer isso melhor do que eu. So quero mostrar um outro lado dos movimentos separatistas que as pessoas não vêem, pois o lado negativo sempre toma mais espaço. Existe gente bacana por tras das organizações sérias, que com certeza estão muito putos com o rumo que essa xenofobia esta tomando. So espero que eles não se aproveitem dessa onda racista para aliar simpatizantes, porque com certeza esse tipo de militante so vai trazer maleficios pras organizações.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Curtinhas

* Estou de férias. Nessa cidade fria e sem praia, o que se faz nas férias? Gasta-se tempo na internet. Oh, céus, que desperdicio de vida! Alguém me sacode!

* Estou dando um tempo nas figurinhas que ilustram os posts desse blog. Percebi que elas dão muito trabalho pra achar, copiar e encaixar no blog e sem elas tenho mais disposição para escrever.

* Fui lavar roupa na lavanderia, um carinha sem-noção ocupou todas as oito maquinas pequenas lavando panos de chão. Em vez dele pegar as duas grandes (dobro da capacidade, dobro do preço) e quatro pequenas, não, ele achou mais engraçado ocupar todas as pequenas, é claro. Assim, gente como eu pode carregar bolsa pesada de roupa suja pra cima e pra baixo à toa, assim, por esporte. Nota zero para vida em comunidade e empatia pelo proximo!

* Pra equilibrar, um velhinho desconhecido que manobrava um dos tratores das interminaveis obras aqui da rua, passou por mim e me mandou um enorme sorriso, meio sem dente, junto com um aceno de cabeça. Eu respondi com outro sorriso e a gente se deu de presente um pedacinho de gentileza, pra continuar bem o dia e esquecer pessoas que monopolizam maquinas de lavar roupa.

* Um site com as melhores fotos das manifestações francesas, indicado pela Isabela, la em Londres. Vale muito a pena conferir, uma mais simbolica que a outra!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Violência nas manifestações *Com update

Prometo que mudo de assunto em breve! Mas teve um ponto que eu não comentei, que é a violência nas manifs e o CRS - Companhies Républicaines de Sécurité, a policia responsavel em manter a ordem publica, ou seja, aquela que esta presente nas manifestações populares.

Acho que não preciso nem falar que todos os manifestantes conscientes, que são a esmagadora maioria, são absolutamente contra qualquer tipo de violência nas ruas. Por varios motivos. Primeiro pelo obvio: ninguém gosta de violência. Quebrar o patrimônio publico é totalmente contraproducente. Depois porque inibe as pessoas a se unirem à manifestação, afinal de contas, ninguém quer correr riscos, muito menos levar seus filhos para um lugar perigoso. Não é pela violência que os manifestantes vão atrair outros manifestantes: quanto mais pacifico, mais chances de simpatia geral. Outra razão importante é que os atos de vandalismo tiram o foco do que é importante de verdade, que é a manifestação em si. Como ja disse nos comentarios, a midia deixa de falar sobre os milhões de manifestantes para falar das dezenas de casseurs ("quebradores").

Então quem são os casseurs? São jovens a fim de brigar e de chamar atenção. Eles não têm nada a ver com as manifestações e se aproveitam pra tocar o terror. Eles têm raiva da policia, mas são tão ingênuos que não percebem que vandalizando, estão do lado dela. O xis da questão é que os vândalos são tão uteis para a policia, que na falta deles, frequentemente ela assume o lugar dos vândalos. Como sempre, o buraco é mais embaixo e a situação é bem mais complicada do que a gente pensa. Quem frequenta passeatas sabe bem que às vezes policiais da CRS se fingem casseur para iniciar a confusão e dar matéria para os jornais. Ha um ano atras saiu uma reportagem no Le Monde sobre isso que deu o que falar, pena que não achei pra linkar aqui. Ja vi muita gente falando que viu jovens quebrando tudo, depois indo tranquilamente bater papo com os guardinhas.

E agora não é diferente. A internet ta bombando com denuncias desse tipo e as caixas de comentarios dos jornais estão lotadas com depoimentos de manifestantes que viram policiais disfarçados de casseurs. O problema é que ninguém tem prova. Mas todo mundo sabe que essa é uma pratica comum deles. Os CRS, em sua maior parte, são jovens tão sedentos de baderna quanto os proprios casseurs. Eh facil recolhece-los: eles são bem mais fortinhos que a média dos franceses, são seguros de si e têm um ar muito arrogante. Tem alguns videos circulando na internet que acusam os baderneiros de serem policiais. O primeiro é em Paris, a cena começa pouco depois dos 20":


A gente vê um casseur quebrando o vidro da Opera Bastille, dai vem um senhor manifestante tentar impedi-lo e logo depois chega um outro casseur dando uma voadora no senhorzinho, mas notem que ele tem um cassetete da policia. Quem estava la diz ter certeza de que os dois vândalos eram do CRS, inclusive o proprio coroa também acha, ele deu entrevista logo depois. Esse foi o unico episodio de confusão em Paris. Em Nanterre, cidade vizinha da capital, aconteceu um quebra-quebra perto de uma escola bloqueada e eu vi um depoimento de uma estudante dizendo aos prantos que os casseurs quebravam tudo enquanto a policia ficava olhando.

Tem um outro video, esse em Lyon, onde aparecem dois policiais à paisana com adesivos de sindicatos, protegidos pela policia, enquanto os manifestantes os vaiavam:



Vejam bem, eu não estou de forma alguma dizendo que os vândalos não existem, que eles são todos policiais disfarçados. Quem dera se fosse assim! Mas todo mundo sabe que uma vez a baderna iniciada, a coisa descamba rapidante, e é essa a função dos falsos casseurs: incentivar o quebra-quebra dando o exemplo. Eh muito mais facil vandalizar quando ja tem alguem fazendo isso. E também não estou dizendo que é o governo quem manda  os CRS fazerem isso. Eu não sei como a coisa funciona. Mas é impossivel negar essa pratica, ela existe, e todos os franceses sabem disso.

Update: O jornal Le Monde publicou hoje à tarde uma reportagem muito completa sobre esse assunto. Eh o Porte Dorée pautando a midia francesa, minha gente! ;)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Classe média brasileira e greve na França

Quarta-feira, 10h15, cheguei na loja que eu precisava ir e ela estava fechada. Na vitrine li que ela so abria dali a 15min e decidi esperar assistindo mais um pedaço de Diamantes de Sangue no aparelhinho que o cheri ganhou dos colegas de trabalho. Daqui a pouco chega um coroa. Ele percebe que a loja so abre 10h30 e fica ali do meu lado, impaciente, olhando pro meu aparelhinho e pra mim, lançando sorrisos. Pensei logo que o cara queria bater-papo enquanto espera e que devia estar amaldiçoando esses jovens de hoje em dia que priorizam as maquinas contra os contatos humanos. Achei que ele tinha razão e desliguei meu filme. Não tinha nem terminado de tirar meu fone quando ele começou num francês perfeito: - Sabe, eu moro no Brasil e la, às 8h30 ja ta tudo aberto! Um absurdo essa loja ainda estar fechada e blablabla. Normalmente eu responderia que no Brasil o salario minimo ainda é ridiculo, então o empregador pode explorar seu funcionario e coloca-lo pra trabalhar a hora que bem entender, ja na França, as lojas so abrem se valer a pena. Mas nem liguei, porque fiquei feliz de encontrar um brasileiro e ja fui logo me apresentando como conterrânea. Ele também ficou feliz e foi logo dizendo como Paris mudou, como nos anos 60, quando ele morou aqui, tudo era diferente, irreconhecivel! Pensei, que legal, o cara deve ter sido exilado durante a ditadura (mal sabia eu...). Dai o papo parou na imigração e em como os pobres se aproveitam dos beneficios do governo, esses imigrantes aproveitadores. Aqui, ele continuava, a pessoa vai no hospital e ninguém pede nem a carteira de identidade, pra ver se o cidadão esta legal, ja sai atendendo. Um absurdo. Eh saude de graça pra todo mundo, é educação de graça pra todo mundo, onde essa França vai parar assim? Logico que retruquei e logico que falei mal do Sarkozy. Ele disse, sim, esse Sarkozy ta afundando a França, ele é igualzinho ao Lula! Tudo farinha do mesmo saco!

Aham, Claudia, senta la.

Foi ai que eu percebi que não dava pra dialogar com o cara. Ele não entende nada de politica francesa, muito menos de brasileira e fala com uma desenvoltura de que quem olha de fora, acredita. E pra mim, ele representa a massa de brasileiros classe média, aquela que viaja pro exterior, aquela que até mora no exterior, aquela que tem plano de saude. Eh um discurso decorado e repetido pelo seu circulo de amigos, mas ele é vazio. Eh um cara que faz de conta que entende e ainda quer explicar pra juventude como as coisas funcionam. Eh um cara que manda emails mentirosos sobre a Dilma, achando que esta cumprindo seu papel de informar seus amigos. Eh triste dizer isso, mas é uma mentalidade de um pais colonizado. Um pais onde escravos tinham escravos. Um pais onde todo mundo é criado pra tirar proveito de qualquer situação, de tirar o melhor pra si e deixar o resto pros outros. A nossa classe média não sabe, não quer saber, so quer viver a vida dela, como se fosse muito inofensiva. Eles acham que viver a vidinha deles inclui ter empregada e que isso não fere ninguém, pelo contrario!, ele esta dando emprego, olha que alma caridosa! Eh essa classe média que vota no Serra, que quer manter seus privilégios la no topo da pirâmide.

Quando essas pessoas entendem um minimo de politica francesa e resolvem dar pitaco, é claro que vão criticar os beneficios sociais do pais. Vão criticar como os franceses são preguiçosos e fazem greve o tempo todo. Vão criticar a imigração. E olha, ta cheio de brasileiro que mora na França que é assim. Porque eles não estão acostumados em viver numa sociedade que tenta ser igualitaria, onde a democracia é para todos. Nos estamos acostumados à regra do cada um por si, então se uma greve me atrapalha a pegar o metrô, nada pode justificar essa barbaridade. Se a greve me faz ficar horas na fila do posto de gasolina, ela não é justificavel. Sinceramente, eu acho isso muita mesquinharia. Eu ja andei do trabalho até em casa durante 45 minutos três vezes desde que a greve começou, e hoje cheguei super atrasada porque um sindicato fechou uma rua perto da Gare de Lyon, mas eu continuo do lado dos grevistas. Pensar so em mim é egoismo demais. Semana passada minha sogra teve que voltar de Paris pra Toulouse de carro (de carona) porque o voo dela foi cancelado. Pergunta pra ela se ela vai deixar de ir na proxima manif. Muitos se esquecem que quem faz greve sacrifica seu proprio salario e que uma greve a longo prazo, como essa, significa muito prejuizo para os grevistas. Se eles acham que vale a pena sacrificar seu ganha-pão para lutar por um bem maior, quem sou eu pra reclamar da falta de metrô?!

Eh como uma velha historia que meu pai me contava. Se tivermos duas opções: a) eu perder 10 para o outro ganhar 100; b) o outro perder 100 para eu ganhar 10. Pois não tenho a menor duvida que o brasileiro classe média tipico escolheria sem hesitar a segunda opção.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Contrato quebrado

A Iara deixou um comentario interessante no ultimo post que acho que reflete bem o que muitos brasileiros estão pensando dessa reforma das aposentadorias na França: que é normal trabalhar mais quando a idade média da população aumenta. E acrescentou que "acho que previdência social é um cálculo bem mais complicado do 'o sarko é do mal e quer fuder a gente'". Eu ia responder nos comentarios, mas achei que valia a pena fazer um post.

Então, sem duvida o buraco é mais embaixo. Mas ele é muito mais embaixo do que qualquer brasileiro pode ir. A gente simplesmente não entende o que a aposentadoria significa para os franceses, então ja estamos na desvantagem de entender problema. Pô, 71% dos franceses são a favor das greves (veja bem, a favor das greves - o numero de franceses contra a medida deve ser ainda maior), eles nunca tiveram tão unidos! Até os conservadores são contra a reforma, até os tipicos eleitores do Sarkozy! Então é pra parar e pensar, poxa, o buraco é mais ambaixo da discussão de "as pessoas morrem mais tarde devem trabalhar mais" que parece tão obvia pra gente.

Eu, pessoalmente, nunca me preocupei com aposentadoria. Não espero receber uma aposentadoria um dia, afinal de contas, tenho 27 anos e nunca trabalhei mais de um ano no mesmo lugar. E mais do que tudo, nunca fui adepta daquele lema de trabalhar agora pra usufruir da vida depois, sempre preferi curtir enquanto é tempo, coisa que ja deixou meus pais muito aflitos e preocupados com meu futuro (sera que ja se conformaram?). Então assumo a pontinha de satisfação pessoal quando vi o mundo das aposentadorias francesas ruir. Meu primeiro pensamento nada altruista foi "A-ha! Eu estava certa e vocês errados! Trabalham feito burros de carga à toa". Porque a verdade é que eu nunca entendi a logica desse sistema de sacrificar os melhores anos de sua vida em nome de um trabalho que você detesta para um dia se livrar dele. O melhor exemplo é o daquele burro movido a uma cenoura amarrada na frente dele, que o pobre nunca consegue abocanhar. Ele passa a vida toda caminhando para se aproximar dela, cada vez mais certo de chegar e.... Adivinha onde a cenoura esta enfiada agora?

Mas depois dos meus primeiros pensamentos egoistas se dissiparem, eu me solidarizei 100% com os franceses. Poxa, se a escolha deles foi trabalhar até os 60 anos para depois curtir a vida, essa escolha deve ser respeitada. Foi um contrato moral que eles assinaram quando começaram a trabalhar e que agora o patrão quer mudar. Se eles soubessem disso antes, quantos teriam feito a mesma escolha? Quantos teriam a vida que têm? Quantos teriam passados seus melhores anos carregando cimento no ombro ou conduzindo tratores? Sim, porque são essas pessoas de trabalho mais humilde que vão sofrer mais. São elas que morrem primeiro, são elas que têm menos expectativa de vida. E lembrem-se que esses dois anos a mais é apenas o inicio de uma longa e ambiciosa reforma. Enquanto isso, um deputado com 20 anos de trabalho se aposenta com mais de 6 mil euros por mês e quem mora na França sabe bem que isso é uma fortuna para pouquissimos.

O que mais me incomoda nessa historia é que a oposição não tem uma contra-proposta clara. Porque uma coisa é certa: A França não tem dinheiro para continuar como esta. Então outras soluções seriam muito bem-vindas. O Partido Socialista francês ha tempos deixou de representar os interesses do povo. Tenho a impressão que ele concorda com a reforma, mas tem vergonha de dizer. A contra-proposta dele é fraca e timida. Nada que mereça destaque na imprensa ou nas manifestações. E os sindicatos, os atuais porta-vozes do povo nesse momento, não têm muita condição de apresentar uma contra-proposta valida, além de pedir mais negociação. Então é aquilo, fica todo mundo gritando que não quer, mas sem saber o que fazer depois. Como uma injeção que vem chegando e a criança diz "espera, espera!".

Por isso eu acho que todas essas manifestações não são apenas contra a reforma das aposentadorias, mas contra toda a politica sarkozista que vem sendo implantada ha 3 anos e que esta fudendo com os cidadãos mais vulneraveis. Porque pode ser que o caminhoneiro não tenha a solução para o problema das aposentadorias, mas ele sabe que tem alguma coisa errada quando o governo diz estar quebrado, mas ao mesmo tempo cria medidas que custam aos cofres publicos para beneficiar os ricos e as empresas. Em sua logica ele se pergunta por que diabos ele tem que perder enquanto os ricos ganham, porque é isso que esta acontecendo no governo Sarkozy. Se fosse so a reforma da aposentadoria, o conflito seria muito menor. O problema é que eles estão tirando dos pobres e dando para os ricos e de uma forma tão complexa que a oposição sequer consegue brigar com as mesmas armas. Mas continuam sabendo que aquilo esta errado, mesmo sem ter a solução. E vão fazer o que sabem fazer melhor: parar o pais pra mostrar que não, eles não vão se deixar engolir assim tão facil. E eu estou com eles.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Pérolas das manifs

A melhor forma de luta é usando o bom humor. Eh uma forma simples e eficaz de passar o recado, chamar atenção para sua mensagem e ainda fazer as pessoas simpatizarem com sua causa. Pois os manifestantes franceses sabem fazer isso como ninguém, afinal de contas, são centenas de anos de pratica regular. Destaco alguns dos cartazes mais engraçados, porém cheios de verdade, das ultimas passeatas da França. As fotos são do site Le Post.

"-Vovo, me conta uma historia?
- Não posso, tenho que ir trabalhar"

"Os velhos no trabalho, os jovens no boteco: NAO
Os jovens no trabalho, os velhos no jardim: SIM"
(finge que rima)

"Sarko, se você se mandar daqui, eu trabalho até os cem anos" 

"Eu fui feito para o trabalho, vocês foram feitos para o amor"
Que meigo!

"Eric, the worst - Eu não minto: o bouclier vale mais que suas aposentadorias!", fazendo referência à Eric Woerth, ministro do trabalho, e ao bouclier fiscal, lei criada pelo atual governo que limita o pagamento de impostos pelos ricos

...

"UMP - União para pisar no povo"
UMP é o partido do Sarkozy

"Sarko, tu ta ferrado. Até os vovôs estão na rua (manifestando)"
Ironizando o fato de que os eleitores do Sarkozy são em sua maioria, idosos

"E a minha aposentadoria?"

"Sarko, tua aposentadoria vai ser em 2012"
Fazendo alusão à provavel tentativa de reeleição do presidente

"Prazeres"

"Despedido aos 55 e aposentado aos 67. O que eu faço nesse meio-tempo?"

"Trabalhar mais, para morrer antes da aposentadoria"
Parodia de 'trabalhar mais para ganhar mais', da campanha Sarkozista

"E se impedissemos os ricos de morrerem depois do pobres?"
brincando com o fato de que os ricos vivem mais e têm uma aposentadoria mais gorda

"Carla, somos como você: o presidente ta tentando nos fuder"

"A aposentadoria foi feita para fuder, não para fuderem com a gente"

E também tem as variações sobre a contagem dos manifestantes, que destoa inacreditavelmente na versão dos sindicatos e na versão da policia, coisa de doido mesmo. Em Paris, por exemplo, os sindicatos dizem que no dia 19 houve 330 mil manifestantes, e a policia, 89 mil. Os habitantes da cidade de Marseille têm a maior fama de exagerados e a contagem dos manifestantes so confirma isso: Marseille é sempre a cidade com a maior diferença. No dia 19 foram contabilizados 230 mil manifestantes pelos sindicatos e 24,500 pela policia.

"Eh duro ser contada por imbecis"

"Quero ser contabilizada pela policia também! Por favor, obrigada"

"Eu não estou manifestando (segundo a policia)"

"Sarko: 1,40m segundo os sindicatos, 1,80m segundo a policia"

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

E as manifestações continuam

E as manifestações continuam a toda na França. Amanhã, terça-feira, tem outra chamada de greve geral, ja que a lei da aposentadoria, ja aprovada pela Assembléia, sera votada no Senado na quarta-feira. Muitos setores continuam paralizados, como o setor petrolifico, onde todas as 12 refinarias francesas estão fechadas. Como uma tentativa de evitar a penuria de combustivel, o governo autorizou a policia a invadir e recuperar parte dos estoques de reserva de petroleo, mas a medida não foi suficiente: falta gasolina nos postos. O combustivel ja aumentou e esta sendo racionado em varias cidades da França e a tendência é piorar.

Hoje, 260 escolas estão bloqueadas, menos do que as 306 de sexta-feira passada, mas os estudantes estão mostrando que não estão dispostos a ceder. Os jovens estão saindo às ruas e muitas escolas exibem faixas onde se pode ler "Vovô, o que é aposentadoria?" ou "Aposentadoria interessa aos jovens sim!". Dois estudantes foram feridos por policiais na semana passada. Um dos caso foi em Montreuil, cidade vizinha de Paris, onde um adolescente de 16 anos foi ferido no olho por um "flash-ball", um tipo de bala de borracha. O estudante foi operado no fim da semana pasada e corre risco de perder o olho. O flash-ball foi uma invenção de Sarkozy quando ele era ministro do interior e ja feriu seriamente varios estudantes.

Ao invés do governo pedir para os estudantes não irem manifestar porque é muito perigoso, como falei no ultimo post, eles deveriam simplesmente parar de atirar na população que supostamente deveria proteger. O perigo é justamente o governo. Se os jovens correm riscos em passeatas nas ruas, é por culpa da policia e de quem manda nela. A maioridade penal de 13 anos na França foi instituida justamente por aqueles que agora dizem que os jovens de 16 anos não devem sair às ruas, que eles são manipulados, que não sabem o que fazem. Ora, decidam-se. Maduros o bastante para serem responsabilizados por seus atos e julgados como adultos e imaturos demais para lutar por seus direitos? Não faz sentido.

Para os franceses, nada faz sentido nesse momento. As greves, manifestações, passeatas e gritos de resistência vão durar até que o governo volte atras na sua decisão ou pelo menos faça algumas modificações no projeto. Mais de 70% da população apoia o movimento contra a reforma, o governo não pode lutar contra o povo. Se a lei for aprovada de vez, não sei o que vai ser da França no dia seguinte.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

12 de outubro, feriado na França?

A politica brasileira pode estar pegando fogo nesse momento, mas a politica francesa não esta muito atras não. Hoje não é feriado na França, mas o pais esta semi-parado por conta da quarta greve geral em pouco mais de um mês, contra a reforma das aposentadorias. Desta vez a greve é recondutiva, ou seja, toda noite havera uma votação nos sindicatos para decidir se a paralização continua ou não, e tudo indica que ela deve durar bastante.

O motivo de tanta insatisfação é a reforma da previdência, que entre outras medidas aumenta de 60 para 62 anos a idade minima para se aposentar (homens e mulheres), isso se o contribuinte trabalhar por pelo menos 40 anos e meio (41 a partir de 2012). Mas o problema é que essa é apenas a ponta do iceberg, ja que com a reforma, os cofres publicos suportarão até 2018, depois disso o sistema quebra outra vez. Ou seja, esse é apenas o inicio de uma reforma gradual. Com certeza ela não para por aqui e especialistas falam em subir a idade minima para 67 anos.

Eh preciso entender que a aposentadoria é uma religião na França. Ja disse aqui algumas vezes que os franceses tipicos vivem pensando no dia em que serão finalmente salvos pela aposentadoria e ai sim, poderão curtir a vida como bem entenderem. Quando eu viajo, todas as vezes que encontro um casal de mais de 60 anos fazendo mochilão, eu ja sei: são franceses. Parece que é so depois de cumprir com todas as obrigações que a sociedade lhes impõe que eles se sentem livres para serem felizes de verdade. Tenho muitos amigos franceses cujos pais se aposentaram, foram morar em algum pais tropical e finalmente descobriram o real prazer de viver. Por isso, antes de entender o peso da reforma da previdência na França, temos que entender o que a aposentadoria significa para os franceses: liberdade.

E quem é o doido querendo brincar com a liberdade dos franceses? O petit Nicolas, claro, que esta vendo sua popularidade despencar a 31%, a pior avaliação desde que chegou ao poder ha três anos. O governo se diz irredutivel e adota uma postura tranquila em relação às greves, dando declarações a torto e a direito de que é claro que eles estavam esperando esse tipo de reação, que manifestar faz parte da tradição francesa, que tudo foi friamente calculado desde o inicio. Mas dizem as mas linguas que o governo esta é se roendo de medo. Eles estão aflitos por dois motivos principais. O primeiro é que, ao contrario do que é de costume, não ha conflitos internos na oposição quanto a esse assunto. Todo mundo é contra e pronto. Não ha brigas, não ha discussões, não ha egos feridos, não ha trotskistas de um lado e marxistas de outro se odiando mortalemente  - parece que a esquerda finalmente achou uma boa razão para se unir. 

A segunda razão é a participação dos jovens nas manifestações, e os Sarkozistas não contavam com isso. Afinal de contas, por que a meninada de 17 anos se preocuparia e pior, se mobilizaria, com algo que so vai acontecer para eles daqui ha 50 anos? Pois eles se preocupam sim, ja aprenderam direitinho com os mais velhos que com aposentadoria não se brinca. E mais: eles estão raciocinando e percebendo que se todo mundo trabalhar dois anos extra, ou mesmo mais, dependendo do rumo que a reforma tomar, vai ficar mais e mais dificil abrirem novos postos de trabalho, o desemprego vai aumentar e são os jovens que vão sofrer mais com isso. Portanto, a reforma da previdência atinge diretamente os jovens sim e eles ja perceberam isso, para desespero do governo. Ontem vi uma ministra apelando na televisão, dizendo que era um absurdo os estudantes faltarem aula pra manifestar, que os adultos que autorizam e incentivam seus filhos a irem às ruas são completos irresponsaveis. Fora que, segundo ela, é um protesto perigosissimo, a integridade fisica dos nossos jovens estão em jogo!

As manifestações estão apenas começando, ja que são 15h, mas o ministério do interior ja admitiu que a mobilização de hoje é maior que as anteriores. Estima-se 500 mil manifestantes em toda a França, de acordo com o governo que, sabe-se, diminui os numeros. E o curioso é que mesmo nas cidades pequenas ha protestos. Em cidadezinhas de 30 mil habitantes, calcula-se 5 mil manifestantes, um sexto de toda a população. Neste mapa do Le Monde podemos acompanhar a evolução dos protestos.

As consequências dessa unânime mobilização (70% das pessoas são a favor) podem ser graves. Oito das doze refinarias francesas estão em greve ha mais de duas semanas e especula-se que até o fim da semana pode faltar gasolina nos postos. Muitas empresas de transporte ja estão impedidas de circular por falta de combustivel e se a crise atingir os consumidores em plena greve de transportes publicos, Sarkozy vai ter o que temer. 

As analises de similaridades da situação presente com maio de 68 ja começaram a pipocar. Em maio de 68 também faltou gasolina. Em maio de 68 o desemprego também estava alto. Em maio de 68 o povo também estava se sentindo traido e roubado. Na TV comparam duas entrevistas de lideres estudantis, uma de hoje de manhã e outra de 68 nas quais os meninos falavam exatamente a mesma coisa. Os mesmos argumentos, a mesma furia, o mesmo sentimento de injustiça, as mesmas frases. Todo mundo sabe bem o que aconteceu naquela época e ha quem diga que atualmente a França reune ainda mais condições para que uma revolta generalizada daquela amplitude aconteça.

Pra quem não sabe, o Sarkozy manifestou contra as manifestações de maio 68 que sacudiram a França e hoje são consideradas um dos patamares da politica social francesa. Uma pena que não encontrei o video.
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