Tenho um sonho impossivel. Quero dizer, tenho varios sonhos impossiveis, mas um deles é morar numa cidade com todas as pessoas bacanas que ja cruzei por ai. Acho que a maior vantagem de se viajar e morar em varios lugares diferentes é também a maior desvantagem: a gente conhece o lado bom de tudo, mas sabe que não pode ter tudo de bom ao mesmo tempo, e isso inclui as pessoas.
Lembro que na primeira vez que sai do Brasil, na Australia, fiquei encantada com o monte de gente diferente que conhecia. No inicio pedia o email de todo mundo, eles eram tão legais que eu não podia de jeito nenhum perder contato! Um email anotado, dois emails, três emails, dez emails, trinta emails. Mas... quem é Tom mesmo? E Emily, sera que é aquela ruiva? E esse email aqui ta até sem nome, acho melhor jogar fora. E assim fui me desapegando da ideia de tentar manter contato, pois me dei conta de que nunca iria mandar email para aquela gente. Nossos encontros eram temporais, casuais e sem futuro. Seja nossa relação uma simples conversa no hall do albergue, ou dois meses de viagem em comum.
Engraçado que quando conheci o cheri ja estava nessa onda de desapego. Mas depois de algumas semanas com ele comecei a pensar que seria muito triste ter que deixa-lo e nunca mais vê-lo. Seria um desperdicio, até. Sorte a nossa que nossos planos se cruzavam perfeitamente, então pudemos ir adiando a separação até um ponto que decidimos que não queriamos nos separar. Mas não sei o que aconteceria se não estivessemos indo pelo mesmo caminho por acaso, porque a ideia era não fazer muito esforço, mas deixar rolar do jeito que ia. Não sei até onde deixamos o acaso dar as cartas para assumir de vez nossas vontades e fazer sacrificios. Mas tenho quase certeza de que se a sorte não tivesse contribuido e tivessemos que fazer sacrificios desde o inicio, não estariamos juntos hoje.
O cheri é o companheiro que escolhi para viajar comigo em permanência. Todas as outras pessoas tenho que deixar ir, por mais que eu as quero perto de mim. E também não posso mudar meus planos para viver perto delas. Eh a vida. E quanto mais gente bacana você conhece, mais a saudade é grande. Por isso meu sonho secreto e egoista é conseguir reunir todas as minhas pessoas queridas numa cidade so, ou melhor, na mesma vizinhança, onde possamos nos encontrar todo dia, nos reunir pra jogar cartas ou falar abobrinha. Claro que todo mundo ia se dar bem, afinal, como minhas pessoas preferidas poderiam não amar loucamente umas às outras se todas elas são tão, mas tão, tão gente boa?
O ideal seria uma comunidade meio hippie, assim no meio do mato mesmo. Mas com computadores e internet, logico. Uma vida de subsistência, bem tranquila, muitos livros espalhados, muitos quadros dos amigos artistas e musica dos amigos da musica. Interminaveis discussões sobre politica e religião. Nem uma palavra sobre futebol, claro. Estudariamos historia em coletividade. Poderiamos até formar um clube do livro, olha so que boa ideia. Os solteiros eu ia logo juntar com quem achasse melhor. E assim a gente viveria todos juntos, felizes e em paz.
Estaria presente muita gente. Aqueles com quem eu estudei, nadei, brinquei e dividi um pedacinho da minha infância. Aqueles com quem compartilhei minhas angustias, chorei no ombro, gargalhei, dancei até o amanhecer, experimentei coisas novas, aquele à quem eu dei meu cordão pra nunca mais esquecer, aqueles com quem eu passava fins de semanas inteiros em raves, aqueles que eu abraçava com força e amor, aqueles que me levavam pra cachoeira gelada depois da festa. Estariam também aqueles com quem eu descobri o prazer da liberdade, das viagens, aqueles com quem me comunicava por gestos, aqueles que me mostravam no mapa suas cidades de origem, la longe. Aqueles que falam japonês. Aqueles que deixaram uma expectativa de amizade que não teve tempo de se concretizar. Aqueles novos amigos virtuais, que pouco a pouco se tornam reais. Estariam presentes alguns daqueles com quem eu bebi, com quem eu morei, aqueles que eu levei pro mal caminho, aqueles que eu beijei, aqueles com quem eu apontei estrelas, aqueles que adoram Nutella, aqueles por quem enfrentei longas viagens de ônibus, aqueles com quem briguei e fiz as pazes, aqueles que eu mandei cartas, aqueles que eu anotei os emails e não escrevi.
Aposto que ninguém nunca ia reclamar do barulho numa vizinhança dessas.
Estaria presente muita gente. Aqueles com quem eu estudei, nadei, brinquei e dividi um pedacinho da minha infância. Aqueles com quem compartilhei minhas angustias, chorei no ombro, gargalhei, dancei até o amanhecer, experimentei coisas novas, aquele à quem eu dei meu cordão pra nunca mais esquecer, aqueles com quem eu passava fins de semanas inteiros em raves, aqueles que eu abraçava com força e amor, aqueles que me levavam pra cachoeira gelada depois da festa. Estariam também aqueles com quem eu descobri o prazer da liberdade, das viagens, aqueles com quem me comunicava por gestos, aqueles que me mostravam no mapa suas cidades de origem, la longe. Aqueles que falam japonês. Aqueles que deixaram uma expectativa de amizade que não teve tempo de se concretizar. Aqueles novos amigos virtuais, que pouco a pouco se tornam reais. Estariam presentes alguns daqueles com quem eu bebi, com quem eu morei, aqueles que eu levei pro mal caminho, aqueles que eu beijei, aqueles com quem eu apontei estrelas, aqueles que adoram Nutella, aqueles por quem enfrentei longas viagens de ônibus, aqueles com quem briguei e fiz as pazes, aqueles que eu mandei cartas, aqueles que eu anotei os emails e não escrevi.
Aposto que ninguém nunca ia reclamar do barulho numa vizinhança dessas.



















