quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dia do armisticio e indicação de BD

Hoje é feriado de Armisticio na França, dia que marca o fim da primeira guerra mundial ou a Grande Guerra, como ficou conhecida na época (coitados, mal sabiam que ainda tinha mais vindo pela frente). Estar na França me deu mais consciência sobre as duas guerras mundiais, porque na escola quando eu as estudava parecia uma coisa muito distante, quase irreal. Acho que eu colocava a mitologia grega no mesmo patamar da historia mundial - acontecimentos tão surreais que eu não me identificava. Primeiro que tudo acontecia numa terra distante, que eu nem sonhava em pisar um dia. E depois porque o passado pra mim entrava tudo na mesma categoria: ido. Não importava muito se era na idade média ou ha 20 anos antes de eu nascer, era tudo velho. Não é à toa que eu sempre fui péssima para decorar datas historicas, errava facilmente de século e não tinha muita noção da sequencia dos acontecimentos (aqui jogo parcialmente a culpa nas escolas: como elas conseguem fazer um assunto interessante como historia ficar chato?).

Vir para a França me aproximou da historia mundial no tempo e no espaço. Eh so dar uma voltinha em qualquer bairro de Paris para rapidamente achar um monumento em homenagem aos herois das duas guerras mudiais. Em muitos prédios têm placas com inscrições do tipo "Homenagem à fulano de tal, morto pelas tropas nazistas em frente à esse prédio no dia tal". Eu sempre leio todas, fico pasma, olho em volta e penso como cada rua aqui tem historias pra contar. Eh estupido, eu sei, mas so me dei conta de como a segunda guerra mundial é recente ao ouvir pessoas me contando como era a vida sob a ocupação alemã. Tipo, aquela pessoa ali na minha frente viveu o nazismo! Ela é uma testemunha viva de uma das maiores catastrofes humanas! Poxa, a 2GM acabou apenas 10 anos antes dos meus pais nascerem! E o que são 10 anos? Nada! (acho que a gente so se da conta que 10 anos são nada quando fica um pouco mais velha, por isso não conseguia entender as coisas antes).

Hoje, infelizmente não existe mais nenhum soldado sobrevivente da 1GM na França. Quando cheguei ha 3 anos haviam apenas dois, mas morreram nesse tempo. O ultimo pediu que não fizessem nenhuma cerimonia especial, que ja estavam planejando, por respeito aos seus companheiros que morreram nas trincheiras e não tiveram a oportunidade de ter sequer um enterro. Essa guerra matou 13 milhões de pessoas, entre civis e militares. Eh muita gente. Eh muito triste.



Aproveito esse dia para indicar uma BD (historia em quadrinho) sobre a primeira guerra mundial- C'était la guerre des tranchées, de Jacques Tardi. Gostei muito porque não tem um personagem so, são varias historias de varios soldados, todas tragicas (o que não é tragico numa guerra?) uma mais tocante que a outra. A sorte - ou o azar - levou cada soldado pra uma situação diferente e eles fizeram seu melhor para sair dela da melhor forma possivel. Mérito para como o autor conseguiu passar a mensagem de que a guerra é uma guerra entre os grandes, que ficam atras de seus mapas tomando café, enquanto os pequenos se fodem no front. Soldados inimigos que em um contexto diferente poderiam ser melhores amigos. Gente simples que mata com remorso, sem saber porque esta matando, mas sentindo que tem alguma coisa de muito errada naquilo tudo.

O autor é filho de um militar e claramente pacifista. Ele critica a imbecilidade das guerras: "Apenas na França ha 930 hectares de cemitérios militares, boa terra pra beterraba, mas somente cruzes brotam à superficie! Se todos os mortos franceses desfilassem em filas de quatro no 14 de julho (comemoração da Revolução Francesa), seriam necessarios 6 dias e 5 noites antes do ultimo nos mostrar sua face livida".

Que tenham sempre flores frescas nos monumetos aos soldados.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Top 10 - As piores reformas Sarkozistas


Como disse o ex-primeiro ministro Dominique de Villepin ha dois dias: "Sarkozy representa hoje um dos principais problemas da França". Para quem estava querendo saber o que o presidente francês anda fazendo com seu pais, aqui vai uma pequena amostra do seu poder de destruição.
 

10- Expulsão dos ciganos
A França tem uma população de ciganos estimada entre 300 e 400 mil pessoas. Boa parte delas são originarias de paises da Europa oriental, como a România e a Bulgaria. Elas vivem em trailers e geralmente não ficam muito tempo no mesmo lugar, apesar de ter muitos ciganos instalados e levando uma vida mais ou menos como a nossa. O governo Sarkozy decidiu que os ciganos não eram mais bem-vindos na França e decidiu manda-los de volta aos seus paises de origem. Neste ano ja foram expulsos mais de 8 mil ciganos. O governo faz questão de divulgar os numeros de seu sucesso e alardear como estão conseguindo mandar de volta "de maneira voluntaria" os ciganos, mas faz papel de bobo, porque metade deles ja esta de volta na França. Criticado pela ONU, por outros paises europeus e por associações de direitos humanos, o governo francês esta respondendo a diversos processos por discriminação.

9- Lei Hadopi
Uma tentativa muito equivocada de punir a pirataria na internet. Trata-se de rastrear os downloads ilegais dos usuarios através do seu provedor. Na verdade a medida é super ultrapassada, ja que as pessoas entram na internet dos restaurantes, dos parques (a prefeitura oferece gratuitamente), dos vizinhos. Ja falei sobre a lei Hadopi aqui. Ela finalmente entrou em vigor, mas de pernas bambas e coração fraco. Os primeiros emails estão sendo enviados e junto com eles, vieram as primeiras reclamações de quem jura de pés juntos que não fez nenhum download ilegal. Uma das maiores operadoras do pais, a Freebox, se recusou a mandar as notificações, pois achou uma brecha na lei que lhe da o direito de preservar a privacidade dos seus clientes. A polêmica esta longe do fim.

8- Trabalho no domingo
No Brasil estamos acostumados com todo o comércio aberto no domingo, mas na França, a pausa dominical é algo muito importante, é um direito fundamental do funcionario. Ha um ano, a administração Sarkozy criou uma nova lei de trabalho aos domingos, favorecendo as empresas em detrimento dos funcionarios. Dependendo de sua localização, as empresas podem abrir domingo sem pagar nada a mais aos seus empregados. Na teoria, o trabalho dominical é voluntario, mas na pratica quem não aceita é mandado embora, por outros motivos, claro. Conheci uma funcionaria de loja de roupas que disse que antes da lei ela ja trabalhava aos domingos sem ganhar nada e que a medida so serviu para regularizar a pratica ilegal da loja. Ela continuou sem beneficios.

7- Aumento do poder policial
Como ministro do interior, Sarkozy ja vinha dando uma amostra de sua grande simpatia pela repressão policial, mas como presidente ele teve o poder de pôr suas ideias em pratica. Ja falei da violência policial aqui e disse que até a Anistia Internacional ja condenou as forças de ordem francesas. Sarkozy disse inumeras vezes que ele da todo seu apoio às forças policiais, que a prioridade do seu governo é a segurança nacional e que isso implica repressão, mesmo que seja contra estudantes protestando. Em 2008, o uso do taser foi permitido pelos agentes municipais e, entre indas e vindas atualmente é permitido, apesar dos sérios riscos alertados pelas organizações de saude e de direitos humanos.

6- Reforma das universidades
A Lei Pécresse (nome da ministra da educação francesa) quer transformar o sistema universitario do pais. Para quem não sabe, as universidades francesas hoje são gratuitas, acessiveis a todos e de qualidade. Temos que pagar apenas a inscrição, que custa menos de 500 euros com plano de saude, mas os bolsistas (que ja ganham em torno de 400 euros por mês) ficam isentos dessa taxa. A nova lei quer dar total autonomia para as universidades em 2012. Se hoje elas são financiadas igualmente pelo governo, no futuro elas poderão conseguir "patrocinios" de empresas interessadas na mão-de-obra que vai sair de la. Mas o que vai acontecer com os cursos da area de humanas, que não são tão rentaveis como os tecnologicos e biologicos? A qualidade vai cair, pois tera bem menos investimento. As universidades também terão, alias ja estão tendo, liberdade para selecionar quem entra e cobrar quanto quiser pela matricula. A universidade Paris-Dauphine vai aumentar sua taxa de inscrição de 231 euros para algo entre 1.500 e 4.000 euros. Em bom português: o governo esta privatizando as universidades. Sarkozy ja cansou de babar o ovo de Harvard, sim, aquela que custa 45 mil dolares por ano. 

5- Bouclier fiscal
O "escudo fiscal" foi criado pelo governo Sarkozy para diminuir os impostos pagos pelos ricos. A medida limita o imposto em até 50% da renda do contribuinte e esta custando aos cofres publicos cerca de 700 milhões de euros neste anos de 2010, mais de um bilhão e meio de reais. O principal argumento de quem é a favor do bouclier é o de que se uma pessoa ganha 100 por mês, nada mais justo garantir que ela receba pelo menos 50. Mas se o resto da população recebe 0,3? Não me parece nada justo. Ao mesmo tempo, o governo decidiu excluir uma lei fiscal que beneficiava os casais no primeiro ano de casamento. Como o bouclier fiscal beneficia apenas quem tem uma renda bastante elevada, na pratica a medida tira dos pobres e da pros ricos. O escândalo foi tão grande que o governo ja esta estudando sua supressão. As eleições de 2012 têm um papel importante nessa decisão, pois como Sarkozy anda muito impopular, a queda dessa reforma pode trazer alguns votos. Mesmo os leitores do jornal de direita Le Figaro, são a favor do fim da medida, como mostra uma enquete na qual 78% votou a favor da supressão.

4- Aposentadoria aos 62 anos
Quem tem algum contato com os franceses sabe que aposentadoria é algo sagrado pra eles. Trabalham a vida toda pra se aposentar, então imaginem o escândalo que foi o anuncio do aumento de dois anos na vida util de um funcionario. Muitas greves ja aconteceram. A oposição denuncia varios pontos criticos da nova lei, por exemplo, em como ela vai prejudicar as mulheres que escolheram trabalhar meio periodo para se dedicarem mais aos filhos. Mas provavelmente a maior preocupação seja o plano a longo prazo da reforma, ja que ela tem validade até 2018, ou seja, daqui a oito anos eles pretendem extender ainda mais a idade para se aposentar, especula-se em 67 anos. Eh realmente uma situação dificil para uma população que esta envelhecendo, mas a oposição alega que quando começaram a trabalhar havia um contrato moral de aposentadoria aos 60 anos, então não podem simplesmente modifica-lo.

3- Reforma da saude
Muita gente aposta que a proxima grande bomba do governo Sarkozy sera a reforma da seguridade social. Atualmente as mudanças ja acontecem, de forma timida, mas firmes. Na França, quando a pessoa vai ao médico, normalemente ela paga a consulta que custa 22 euros e mais tarde é reembolsada pelo governo. Antigamente o reembolso era quase integral, mas vem diminuindo a cada ano. Ha três anos fui ao médico e paguei 7 euros. Esse ano paguei 17, pois não tenho médico de familia. Os remédios também são reembolsados, mas muitos deles estão saindo da lista de reembolso e os que ficam, a porcentagem devolvida é cada vez menor. E apesar do preço da consulta estar estabelecido em 22 euros, cada vez mais os médicos estão aumentando a tarifa, o que é contra lei, mas totalmente negligenciado no atual governo.

2- Reforma dos professores
Na França a grande maioria das crianças frequentam a escola publica, que é considerada de excelente qualidade. Mas desde 2007 o governo decidiu suprimir radicalmente as vagas de professores e a politica adotada foi a de subistituir apenas a metade dos funcionarios aposentados. por ano Então foram suprimidas 8.700 vagas em 2007, 11.200 em 2008, 13.500 em 2009 e 16.000 en 2010. E ja foram anunciados novos cortes para o ano que vem. Além disso, o governo esta contratando cada vez menos professores especializados, como professores de inglês nativos, por exemplo. Agora é a professora de matematica ou historia que da aulas de linguas, muitas vezes sem sequer falar inglês. Como o numero de efetivos diminuiu muito, o tempo de treinamento diminuiu também e agora os professores saem do concurso direto para a sala de aula. Outro problema é que, adivinhem, faltam professores. Quando um fica doente, não tem substitutos. O governo Sarkozy ja sugeriu que para resolver esse problema, a solução seria colocar os estudantes de segundo grau para segurar as pontas.

1- Controle da imprensa
Não é exatamente uma lei ou reforma, mas talvez seja até mais importante que elas. Desde o inicio do mandato sarkozista ja aconteceram varios escândalos sobre a relação entre a midia e o presidente. Alguns leves, como o photoshop da barriga do presidente na praia para não fazer feio, outras mais sérias, como a demissão do apresentador do telejornal da TF1, porque falou mal do Petit Nicolas. O jornalista estava ha 21 anos no cargo e deveria deixa-lo apenas em 2012. Sarkozy ja demonstrou seu descontentamento contra o Canal Plus e recentemente o Petit Journal denunciou a constante vigilância que sofreu sua equipe em Deauville, cidade onde os chefes de Estado francês, russo e alemã estavam reunidos. A ong Reporteres Sem Fronteiras divulgou mês passado o ranking de liberdade de imprensa no mundo e a França aparece em 44° posição. Em 2002 ela estava em 11°. Segundo a lista, atualmente a França tem menos liberdade de imprensa quea Namibia, a Costa Rica e a Africa do Sul.

domingo, 7 de novembro de 2010

Paris x NY em simbolos

Um amigo indicou um site muito bacana comparando simbolos de Paris e NY. So não gostei de uma coisa: das legendas. Acho muito mais interessante colocar so as figuras e deixar a pessoa adivinhar sozinha do que se trata. Então aqui eu reproduzo algumas figuras sem legenda para vocês brincarem. Depois passem no site para ver as originais e outras que não estão aqui. Bom domingo!









 






quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Patriota ou nacionalista?

Quando postei o texto de ontem, confesso que fiquei com medo dos comentarios que viriam. Porque não é obvio defender os separatistas nesse momento em que racistas estão usando das mesmas armas para sustentar preconceitos. Mesmo em tempos normais defender separatistas não é muito bem visto. A Lola, por exemlo, sempre faz referências negativas a eles. Mas vocês foram otimas! Ninguém me cruxificou!

Eu pensei na razão pela qual uma fragmentação do Brasil não me incomoda e cheguei a uma conclusão simples: eu não amo o Brasil. Digo, a nação. Não sou uma patriota. Pode parecer contrasenso depois de toda a campanha pela Dilma que fiz, mas eu explico. Amo as pessoas e acho que a Dilma é a mulher certa pra cuidar delas. Eh dificil explicar a diferença entre as duas coisas, porque dizer que a Dilma é boa para o Brasil é quase a mesma coisa que dizer que a Dilma é boa para a população, ja que uma esta interligada à outra. Mas por exemplo, eu não dou a minima para a soberania brasileira. Se o Brasil decide entrar em guerra contra seus vizinhos para expandir seus territorios eu ia achar que era piada, tamanho o absurdo. Eu nunca aceitaria fazer parte de uma guerra, caso o RS pegasse em armas para fazer sua independência. Po, se o povo acha que viveria melhor assim, dou meu apoio.

Não sou patriota, acho que o patriotismo so atrapalha o desenvolvimento humano. Fico torcendo para que um dia todas as fronteiras acabem e vivamos num mundo sem muros, mas acho que ainda falta muito pra isso acontecer. A unica diferença entre o patriota e o nacionalista é que o primeiro é de esquerda e o segundo, de direita. Mas o pensamento é praticamente o mesmo. Lembro que na minha fase patriota, quando achava um absurdo as pessoas so comprarem bandeiras brasileiras na época da copa e não saber cantar o hino nacional de tras pra frente, comecei a ver nas ruas cartazes que diziam "Halloween é o cacete, viva a cultura nacional" e coisas desse tipo. Achei o maximo, finalmente alguém estava tomando iniciativa contra essa invasão estadunidense no nosso pais. Entrei no site e tive uma tremenda surpresa ao descobrir que era uma organização de extrema direita, com viés militar, inclusive. Fiquei besta e percebi como os extremos se encontram, como num circulo. O comunismo tem mais em comum com a extrema-direita do que gostaria de admitir. E foi assim que essa ideia de patriotismo foi saindo da minha cabeça.

Hoje eu acho engraçado como os brasileiros no exterior exibem suas bandeiras tupiniquins com o maior orgulho. Hoje eu também acho que os hinos nacionais deveriam ser extintos ou pelo menos atualizados -estão super ultrapassados falando de guerras, sangue e inimigos com palavras que ninguém entende. Quando acontece um acidente de avião, minha primeira preocupação não é saber quantos brasileiros estavam viajando, porque sinceramente, isso não é importante. A vida de um brasileiro pra mim não vale mais do que a vida de um senegalês ou de um americano. Estava lendo um quadrinho sobre a 1°GM (outro dia falo sobre ele) e tinha uma parte onde os alemães chegaram por uma estrada com mulheres e crianças belgas como escudo e os franceses receberam ordem de atirar mesmo assim, porque as mulheres e crianças não eram "dos nossos".

Eu não ligo para nacionalidades, naturalidades e essas coisas que não escolhemos ao nascer. Porém ligo para outras caracteristicas que a gente vai adquirindo ao longo da vida, que é o respeito pelo proximo, a educação, a gentileza, o interesse em fazer do nosso mundo um lugar melhor para se viver. Isso é importante. Todo mundo sabe que idiotas e gênios existem em todo lugar, mas todo mundo também insiste em generalizar, eu inclusive. Eh um exercicio diario que precisa de bastante esforço, mas que no fim das contas, vale a pena.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Separatistas e separatistas

Ainda estou de ressaca pela vitoria da Dilma. Muito, muito feliz! E aliviada de poder passar a outra coisa. Achava que as baixarias acabariam, mas estava enganada. Os tucanos não sabem perder e estão fazendo feio, muito feio. Me assusto com certas coisas que vejo escrito na internet, e o pior, nem de anônimos são! As pessoas estão tendo coragem de mostrar o quanto são preconceituosas! Ja faz tempo que estou devendo um post sobre minha segunda dissertação de mestrado, assim como fiz com a primeira, e parece que agora é o momento ideal para tocar nesse assunto. Pra quem não sabe, minha pesquisa foi sobre os movimentos separatistas no sul do Brasil, um tema que sempre me interessou muito, apesar de ser carioca.

Sempre me perguntei por quê o Brasil ficou inteiro, enquanto a colônia espanhola se dividiu em varios paises. Duas explicações me convenceram mais. A primeira é que o Brasil era a unica ex-colônia na América do Sul a ter adotado a monarquia como sistema de governo, o que agradava muito aos ingleses. Esses, que desejavam o fim da escravidão, relevavam um pouco o regime escravista no Brasil, justamente por causa da monarquia. Se o Brasil se fragmentasse, seria cada um por si contra a Inglaterra, e essa ideia não era nem um pouco atraente. A outra explicação é o mero acaso. Acho que o desenrolar de algumas batalhas acabaram decidindo todo o futuro da nação. Houve muitas lutas secessionistas ao longo da historia e esses movimentos foram todos derrotados. Mas qual o peso do acaso nisso tudo? Quem sabe com um pouco de sorte os separatistas não teriam ganho algumas guerras e hoje o mapa da AL seria muito diferente.

Devo surpreender alguns leitores, mas a verdade é que eu nunca pensei na separação do Sul hoje como uma coisa totalmente negativa. Achava a ideia um pouco ingênua, mas não necessariamente ruim. Na Europa tem diversas regiões que brigam por sua independência, como o pais basco, espremido entre a França e a Espanha, que tem sua propria lingua e cultura, mas foi dividido pela estratégia das linhas geograficas. A Africa então, nem se fala! Olhem no mapa, ela é toda quadrada, dividida como colônia europeia sem levar em consideração os povos que ali habitam. Nem preciso ir tão longe, ja que a França era composta de diversos povos diferentes, cada um com seus costumes, que foram obrigados a deixar tudo isso de lado para se tornarem franceses. As linguas locais passaram a ser consideradas dialetos inferiores e usadas por pessoas pouco educadas até que, pouco a pouco, foram desaparecendo (os bisavos do cheri não falavam francês, apenas occitan). Imagina quantos paises diferentes teriamos hoje se fossem levadas em consideração as culturas e não a estratégia militar. Então eu vejo a autodeterminação dos povos como algo positivo.

Mas sera que podemos considerar a separação do Sul como um caso de "autodeterminação dos povos", como pregam as organizações? Sera que colonizadores têm o direito de se dizer um povo à parte, de uma terra que pertence a eles ha tão pouco tempo? Demora quanto tempo para um povo ser considerado um povo? Sera que existe realmente um sentimento de identificação que une os sulistas ou os gauchos? Isso eu não posso responder, porque não sou sulista e nunca morei no sul. Mas quem sou eu pra dizer que uma pessoa deve se sentir mais brasileira do que sulista?

Vocês podem dizer que a discussão sobre o separatismo não é tão profunda e romântica quanto eu estou tentando apresentar, é apenas uma solução racista de reaças que so pensam no proprio umbigo. E eu digo que existe dois tipos de separatistas, aqueles que realmente acreditam que fazem parte de um pais dentro do pais e aqueles que se aproveitam dessa ideia para espalhar seus preconceitos por ai. Eu conversei com muitos separatistas e pude ver a paixão com que alguns falavam do seu estado (principalmente os gauchos) e de sua região. Muitos deles são inclusive de esquerda e votaram na Dilma. Sinto que eles são um pouco frustrados por não terem tido o mesmo destino do Uruguai no passado, pais com o qual se identificam culturalmente. Eh importante lembrar que o sul tem duas vezes mais fronteiras internacionais do que fronteiras com outros estados brasileiros.

Por outro lado, é muito conveniente desejar a separação de uma região do pais que é economicamente mais desenvolvida que as outras. E a verdade é que não temos como ter certeza de que esses separatistas também são xenofobos, mas se escondem atras do discurso de "cultura" e "costumes" para não admitir (quem sabe até para eles mesmos) um certo preconceito contra os nordestinos.

Mas o segundo grupo de separatistas é muito pior, é aquele que vem se destacando na internet nesses ultimos dias. São racistas e preconceituosos que na verdade não querem a separação do Sul, mas a expulsão do Norte/Nordeste. Eles acham que sustentam as duas regiões mais pobres, o que não é verdade. O dinheiro que entra e sai do Sul é bastante equilibrado. Mas esse pessoal não quer saber de nada, so quer espalhar seus preconceitos. Incrivel como as pessoas não têm vergonha de assumir seu lado nazista, dizendo com todas as letras que se acham superiores aos nordestinos. Nunca vi tanto odio contra os nordestinos e acho que a situação é muito grave. Quem defende a separação do Brasil nesse contexto de hoje, pos-eleição, pelos motivos mais equivocados desse mundo, esta assinando um certificado de estupidez e ignorância.

Que fique claro que eu não sou a favor da separação, nem acho que ela possa acontecer, mas procuro entender os bons argumentos de quem pensa diferente. Acho que a beleza do Brasil é justamente a diversidade e dizer que o Sul é a unica região que diverge do resto do Brasil é besteira. Nem vou entrar no mérito de "eleitores do Serra mostram a cara depois das eleições", pois acho que tem muita gente que pode fazer isso melhor do que eu. So quero mostrar um outro lado dos movimentos separatistas que as pessoas não vêem, pois o lado negativo sempre toma mais espaço. Existe gente bacana por tras das organizações sérias, que com certeza estão muito putos com o rumo que essa xenofobia esta tomando. So espero que eles não se aproveitem dessa onda racista para aliar simpatizantes, porque com certeza esse tipo de militante so vai trazer maleficios pras organizações.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Curtinhas

* Estou de férias. Nessa cidade fria e sem praia, o que se faz nas férias? Gasta-se tempo na internet. Oh, céus, que desperdicio de vida! Alguém me sacode!

* Estou dando um tempo nas figurinhas que ilustram os posts desse blog. Percebi que elas dão muito trabalho pra achar, copiar e encaixar no blog e sem elas tenho mais disposição para escrever.

* Fui lavar roupa na lavanderia, um carinha sem-noção ocupou todas as oito maquinas pequenas lavando panos de chão. Em vez dele pegar as duas grandes (dobro da capacidade, dobro do preço) e quatro pequenas, não, ele achou mais engraçado ocupar todas as pequenas, é claro. Assim, gente como eu pode carregar bolsa pesada de roupa suja pra cima e pra baixo à toa, assim, por esporte. Nota zero para vida em comunidade e empatia pelo proximo!

* Pra equilibrar, um velhinho desconhecido que manobrava um dos tratores das interminaveis obras aqui da rua, passou por mim e me mandou um enorme sorriso, meio sem dente, junto com um aceno de cabeça. Eu respondi com outro sorriso e a gente se deu de presente um pedacinho de gentileza, pra continuar bem o dia e esquecer pessoas que monopolizam maquinas de lavar roupa.

* Um site com as melhores fotos das manifestações francesas, indicado pela Isabela, la em Londres. Vale muito a pena conferir, uma mais simbolica que a outra!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Violência nas manifestações *Com update

Prometo que mudo de assunto em breve! Mas teve um ponto que eu não comentei, que é a violência nas manifs e o CRS - Companhies Républicaines de Sécurité, a policia responsavel em manter a ordem publica, ou seja, aquela que esta presente nas manifestações populares.

Acho que não preciso nem falar que todos os manifestantes conscientes, que são a esmagadora maioria, são absolutamente contra qualquer tipo de violência nas ruas. Por varios motivos. Primeiro pelo obvio: ninguém gosta de violência. Quebrar o patrimônio publico é totalmente contraproducente. Depois porque inibe as pessoas a se unirem à manifestação, afinal de contas, ninguém quer correr riscos, muito menos levar seus filhos para um lugar perigoso. Não é pela violência que os manifestantes vão atrair outros manifestantes: quanto mais pacifico, mais chances de simpatia geral. Outra razão importante é que os atos de vandalismo tiram o foco do que é importante de verdade, que é a manifestação em si. Como ja disse nos comentarios, a midia deixa de falar sobre os milhões de manifestantes para falar das dezenas de casseurs ("quebradores").

Então quem são os casseurs? São jovens a fim de brigar e de chamar atenção. Eles não têm nada a ver com as manifestações e se aproveitam pra tocar o terror. Eles têm raiva da policia, mas são tão ingênuos que não percebem que vandalizando, estão do lado dela. O xis da questão é que os vândalos são tão uteis para a policia, que na falta deles, frequentemente ela assume o lugar dos vândalos. Como sempre, o buraco é mais embaixo e a situação é bem mais complicada do que a gente pensa. Quem frequenta passeatas sabe bem que às vezes policiais da CRS se fingem casseur para iniciar a confusão e dar matéria para os jornais. Ha um ano atras saiu uma reportagem no Le Monde sobre isso que deu o que falar, pena que não achei pra linkar aqui. Ja vi muita gente falando que viu jovens quebrando tudo, depois indo tranquilamente bater papo com os guardinhas.

E agora não é diferente. A internet ta bombando com denuncias desse tipo e as caixas de comentarios dos jornais estão lotadas com depoimentos de manifestantes que viram policiais disfarçados de casseurs. O problema é que ninguém tem prova. Mas todo mundo sabe que essa é uma pratica comum deles. Os CRS, em sua maior parte, são jovens tão sedentos de baderna quanto os proprios casseurs. Eh facil recolhece-los: eles são bem mais fortinhos que a média dos franceses, são seguros de si e têm um ar muito arrogante. Tem alguns videos circulando na internet que acusam os baderneiros de serem policiais. O primeiro é em Paris, a cena começa pouco depois dos 20":


A gente vê um casseur quebrando o vidro da Opera Bastille, dai vem um senhor manifestante tentar impedi-lo e logo depois chega um outro casseur dando uma voadora no senhorzinho, mas notem que ele tem um cassetete da policia. Quem estava la diz ter certeza de que os dois vândalos eram do CRS, inclusive o proprio coroa também acha, ele deu entrevista logo depois. Esse foi o unico episodio de confusão em Paris. Em Nanterre, cidade vizinha da capital, aconteceu um quebra-quebra perto de uma escola bloqueada e eu vi um depoimento de uma estudante dizendo aos prantos que os casseurs quebravam tudo enquanto a policia ficava olhando.

Tem um outro video, esse em Lyon, onde aparecem dois policiais à paisana com adesivos de sindicatos, protegidos pela policia, enquanto os manifestantes os vaiavam:



Vejam bem, eu não estou de forma alguma dizendo que os vândalos não existem, que eles são todos policiais disfarçados. Quem dera se fosse assim! Mas todo mundo sabe que uma vez a baderna iniciada, a coisa descamba rapidante, e é essa a função dos falsos casseurs: incentivar o quebra-quebra dando o exemplo. Eh muito mais facil vandalizar quando ja tem alguem fazendo isso. E também não estou dizendo que é o governo quem manda  os CRS fazerem isso. Eu não sei como a coisa funciona. Mas é impossivel negar essa pratica, ela existe, e todos os franceses sabem disso.

Update: O jornal Le Monde publicou hoje à tarde uma reportagem muito completa sobre esse assunto. Eh o Porte Dorée pautando a midia francesa, minha gente! ;)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Classe média brasileira e greve na França

Quarta-feira, 10h15, cheguei na loja que eu precisava ir e ela estava fechada. Na vitrine li que ela so abria dali a 15min e decidi esperar assistindo mais um pedaço de Diamantes de Sangue no aparelhinho que o cheri ganhou dos colegas de trabalho. Daqui a pouco chega um coroa. Ele percebe que a loja so abre 10h30 e fica ali do meu lado, impaciente, olhando pro meu aparelhinho e pra mim, lançando sorrisos. Pensei logo que o cara queria bater-papo enquanto espera e que devia estar amaldiçoando esses jovens de hoje em dia que priorizam as maquinas contra os contatos humanos. Achei que ele tinha razão e desliguei meu filme. Não tinha nem terminado de tirar meu fone quando ele começou num francês perfeito: - Sabe, eu moro no Brasil e la, às 8h30 ja ta tudo aberto! Um absurdo essa loja ainda estar fechada e blablabla. Normalmente eu responderia que no Brasil o salario minimo ainda é ridiculo, então o empregador pode explorar seu funcionario e coloca-lo pra trabalhar a hora que bem entender, ja na França, as lojas so abrem se valer a pena. Mas nem liguei, porque fiquei feliz de encontrar um brasileiro e ja fui logo me apresentando como conterrânea. Ele também ficou feliz e foi logo dizendo como Paris mudou, como nos anos 60, quando ele morou aqui, tudo era diferente, irreconhecivel! Pensei, que legal, o cara deve ter sido exilado durante a ditadura (mal sabia eu...). Dai o papo parou na imigração e em como os pobres se aproveitam dos beneficios do governo, esses imigrantes aproveitadores. Aqui, ele continuava, a pessoa vai no hospital e ninguém pede nem a carteira de identidade, pra ver se o cidadão esta legal, ja sai atendendo. Um absurdo. Eh saude de graça pra todo mundo, é educação de graça pra todo mundo, onde essa França vai parar assim? Logico que retruquei e logico que falei mal do Sarkozy. Ele disse, sim, esse Sarkozy ta afundando a França, ele é igualzinho ao Lula! Tudo farinha do mesmo saco!

Aham, Claudia, senta la.

Foi ai que eu percebi que não dava pra dialogar com o cara. Ele não entende nada de politica francesa, muito menos de brasileira e fala com uma desenvoltura de que quem olha de fora, acredita. E pra mim, ele representa a massa de brasileiros classe média, aquela que viaja pro exterior, aquela que até mora no exterior, aquela que tem plano de saude. Eh um discurso decorado e repetido pelo seu circulo de amigos, mas ele é vazio. Eh um cara que faz de conta que entende e ainda quer explicar pra juventude como as coisas funcionam. Eh um cara que manda emails mentirosos sobre a Dilma, achando que esta cumprindo seu papel de informar seus amigos. Eh triste dizer isso, mas é uma mentalidade de um pais colonizado. Um pais onde escravos tinham escravos. Um pais onde todo mundo é criado pra tirar proveito de qualquer situação, de tirar o melhor pra si e deixar o resto pros outros. A nossa classe média não sabe, não quer saber, so quer viver a vida dela, como se fosse muito inofensiva. Eles acham que viver a vidinha deles inclui ter empregada e que isso não fere ninguém, pelo contrario!, ele esta dando emprego, olha que alma caridosa! Eh essa classe média que vota no Serra, que quer manter seus privilégios la no topo da pirâmide.

Quando essas pessoas entendem um minimo de politica francesa e resolvem dar pitaco, é claro que vão criticar os beneficios sociais do pais. Vão criticar como os franceses são preguiçosos e fazem greve o tempo todo. Vão criticar a imigração. E olha, ta cheio de brasileiro que mora na França que é assim. Porque eles não estão acostumados em viver numa sociedade que tenta ser igualitaria, onde a democracia é para todos. Nos estamos acostumados à regra do cada um por si, então se uma greve me atrapalha a pegar o metrô, nada pode justificar essa barbaridade. Se a greve me faz ficar horas na fila do posto de gasolina, ela não é justificavel. Sinceramente, eu acho isso muita mesquinharia. Eu ja andei do trabalho até em casa durante 45 minutos três vezes desde que a greve começou, e hoje cheguei super atrasada porque um sindicato fechou uma rua perto da Gare de Lyon, mas eu continuo do lado dos grevistas. Pensar so em mim é egoismo demais. Semana passada minha sogra teve que voltar de Paris pra Toulouse de carro (de carona) porque o voo dela foi cancelado. Pergunta pra ela se ela vai deixar de ir na proxima manif. Muitos se esquecem que quem faz greve sacrifica seu proprio salario e que uma greve a longo prazo, como essa, significa muito prejuizo para os grevistas. Se eles acham que vale a pena sacrificar seu ganha-pão para lutar por um bem maior, quem sou eu pra reclamar da falta de metrô?!

Eh como uma velha historia que meu pai me contava. Se tivermos duas opções: a) eu perder 10 para o outro ganhar 100; b) o outro perder 100 para eu ganhar 10. Pois não tenho a menor duvida que o brasileiro classe média tipico escolheria sem hesitar a segunda opção.
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