quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Into the Wild - Uma critica, mas não exatamente ao filme

Nunca soube explicar porque não gosto muito do filme Into the Wild. As pessoas chegam pra mim, empolgadas, dizendo o quanto a-mam! o filme, o quanto o cara é excepcional, o quanto elas admiram quem tem uma coragem dessas. E eu fico la, com cara de quem comeu e não gostou.

Acho o filme em si meio bobinho, meio ingênuo, meio pretensioso, enfim, nada demais. Mas alguma coisa me incomodava nele e eu não sabia o que era. Então me dei conta que não é o filme que me incomoda, mas a interpretação que algumas pessoas fazem dele, como se aquela fosse a unica saida possivel do sistema. Elas admitem que o protagonista toma decisões sabias e nobres, mas decisões que elas proprias não poderiam tomar, então se confortam com a ideia de não fazer nada pra mudar e continuar vivendo suas vidas insatisfeitas. Ora, você não precisa doar todas as suas economias nem queimar o resto do seu dinheiro para mudar de vida. Você não precisa sair por ai caçando javalis para deixar de ser consumista. Você não precisa ser tão radical assim para encontrar a verdadeira felicidade. Acho que esse filme acaba sendo um conforto do tipo "viu, eu não tenho coragem de fazer o mesmo, então o melhor que tenho a fazer é continuar aqui onde estou". Não é oito ou oitenta, sabe.

Parece a mesma desculpa que ouço de gente que quer fazer grandes viagens mas não pode porque não tem dinheiro. Poxa, eu viajei três meses no sul da América do Sul e gastei pouco mais de mil reais! E olha que Brasil, Chile e Argentina são os paises mais caros do continente. Não peguei avião, andei 150 horas de ônibus (contadas), acampei, troquei alimentação por trabalho, fiz cocô no mato, não comprei lembrancinha nenhuma, mas foi uma experiência incrivel que vou me lembrar pro resto da vida. Mochilão não precisa ser na Europa, sabe. E pode ser com os filhos também, viu?

Outro exemplo são pessoas incomodadas com o estilo de vida mais leve de outras. Elas fazem pressão, soltam ironias do tipo "e ai, não ta na hora de arranjar um emprego?" e se sentem aliviadas quando suas vitimas finalmente cedem e entram no sistema como cordeirinhos. O interessante é que notei que as pessoas que vi fazendo esse joguinho ja demonstraram vontade de mudar de vida, de largar tudo e tentar outra coisa. Parece que elas precisam ter certeza de que outro caminho não era/é possivel. Porque se elas, que queriam tanto levar uma vida diferente, cairam no sistema, é porque uma via alternativa era utopia. Ver alguém conseguir ter uma vida com a qual elas sonharam seria duro demais. Então sorriem de satisfação quando outra pobre alma é obrigada a arranjar um trabalho que detesta e ficar la até o resto de sua vida. Então elas suspiram aliviadas e soltam um conformado "é assim que as coisas são".

#spoiler:

E se alguém por acaso ousar conseguir sair do sistema, é melhor que ele morra no final do filme. Assim a gente pode dormir tranquilo.

16 comentários:

Caso me esqueçam disse...

ai, amanda, eh por isso que eu te adoro! hahahaha eu penso a meeeesma coisa desse filme! ate ver esse post, acho que eu era a unica que nao tinha adorado. todos os amigos e camilo o adoram! eu nao entendo porque tanto "oh meu deus, que filme maravilhoso". eu achei altamente forçado tudo, a forma como foi passado. o ator começa a me agradar um pouco la pra depois da metade do filme. mas enfim, quanto a ideia, eu juro pela minha mae mortinha, que ha 1h, eu tava pensando justamente nisso! acho que porque eu sonhei, nao sei, mas eu tava pensando em todas as pessoas que repetem exaustivamente nos seus orkuts e facebooks as frases do "clube da luta" como se fosse um mantra. na verdade, ninguem tah pensando em desligar sua TV, se demitir do emprego estressante... mas eh bom pensar nessas coisas, eh bom ver into the wild e dizer "eu poderia fazer isso" e achar o filme lindo, discuti-lo numa mesa de bar (pra no fim, continuar levando a vidinha de sempre). sinceramente, nao conheço ninguem que nao esteja "dentro do sistema" ou que tenha vontade ou esteja fazendo algo pra sair dele.

tatiane disse...

Nossa, concordo plenamente com vc! Uma vez estava comentando desse filme com uma amiga e ela falou que eu era louca por não ter gostado desse filme, tentei expor minha opinião mais nao adiantou muito...rsrs


beeeeijo!

tatiane disse...

Amanda!!

Será que seria muito abuso da minha parte te pedir ajudar com duas frases em fracês?

Porque quero tatuar as duas e queria saber se a escrita esta correta.
São:

1- Le but de la vie c'est la maturation de l'âme.
2- Être bien dans sa peau.

Queria saber se estão corretas, ficaria muito feliz se pudesse me ajudar!
Desde já agradeço!

Helena disse...

O filme é baseado em uma história real, então, é possível! :) Claro que é muito difícil sair do sistema, é idealista demais, mas eu acho que o filme nos faz pensar no que tu está falando: "não posso fazer como ele, mas posso fazer um pouco".

Quéroul disse...

eu gosto muito do filme, acho bonito pra caramba, adoro a trilha sonora, acho Emile Hirsch um xuxu lindo.
e eu gosto muito do livro, chorei um pouquinho quando li. Krakauer é muito bom seguindo os ensinamentos do meu amado Capote (heh).

mas eu acho as soluções de Alexander Supertramp um horror. o que me incomoda na história toda, por mais que goste de como ela foi contada, é essa 'fuga' de tudo. não acho heróico, não acho nobre, acho que não resolve nada, acho triste pra burro e uma carga de sofrimento enorme pra todo mundo - até pra mim que nem conhecia o cara. não consigo deixar de pensar nos pais, amigos e resto do mundo sem saber onde estava o guri.

cada um com seus problemas, claro, mas não vejo nobreza alguma na expedição do cara.
e ele acaba como acaba porque era um total desconhecedor da vida.

sei lá.
e eu tenho sim um pouco de nojinho das pessoas que acham o McCandless um sábio. tadinho, até ele sabia que ele não era nada disso, era só um garotinho perdido que se continuasse no mundo teria virado hippie que vende pulseirinha na praça da república.

muita tristeza é o que eu sinto por ele, mas só.

=*

Helena disse...

Concordo com a Quéroul, a trilha sonora é linda e as soluções do personagem/McCandless eram uma fuga. Mas cada um encontra as suas soluções quando não está conformado. Algumas são drásticas, outras tristes, outras pequenas, algumas não dão certo, outras sim. Mas estou de acordo com a Amanda quando ela diz que o problema é a interpretação das pessoas, de achar que TEM que fazer como ele. Pra mim, a solução encontrada por McCandless não deu certo (mas pode ser que para ele, deu certo e o que ele viveu depois que saiu de casa foi mais intenso do que toda uma vida. Isso a gente nunca vai saber). Acho que o filme é válido para mostrar que quem não se conforma com a forma como vivemos pode, sim, tentar encontrar uma outra forma de viver, errar, fracassar, acertar. Eu tenho dois amigos que vivem em uma comunidade alternativa e, sinceramente, ficaria triste se não estivesse dando certo para eles.

Maia disse...

Oi Amanda,
Conheci seu blog pelo concurso da Lola, gostei e voltei. Tb me identifiquei, pois sou jornalista e já morei na França :).
Vendo uns posts antigos, me interessei por uma autora francesa que vc recomendou, mas agora não acho a referência de jeito nenhum. Você pode me ajudar? Era um livro sobre a infância dela. Meio vago, mas não lembro mais nada mesmo...
Bjs

Glória Maria Vieira disse...

Olha, Manda, sempre me pego dizendo: Uma amiga minha me disse que é questão de organização. Que dá sim pra viajar! UAHSUHAUSHAUHS :)

Tenho dito isso tanto, mas tanto! hihi (Adivinha quem é essa amiga?! UHASUHAUSHASU)

Iara disse...

Eu adorei a trilha sonora, mas achei o protagonista ingênuo mesmo. Não consigo estabelecer essa empatia.

Concordo muito com isso que você diz sobre discurso de que, ó, a vida é estressante, mas é assim pra todo mundo. Eu mesma tô na fase de achar as coisas uma droga, mas tenho muito claro porque não abro mão do meu emprego, sei muito bem que é uma escolha motivada, entre outras coisas, por não saber ao certo pra onde ir. Mas já abandonei emprego bom em multinacional pra trabalhar menos quando me deu vontade. E respeito muito quem escolhe viver de outra maneira.

Tem outro filme que trata muito dessa ruptura, o "Revolutionary Road", com a Di Caprio e a Kate Winslet, você viu? Eu me identifico mais, porque imagino que os personagens tem uma condição mais parecida com a minha (apesar de eu não ter filhos) então me toca mais mesmo.

Amanda disse...

Luci, agora que escrevi o post to descobrindo varias pessoas que tbm não gostam do filme! Eh forçado mesmo, aquela coisa de "olha, eu gosto de vc, mas como vc tem 15 anos e eu 22, nosso amor é impossivel", blerg!! Sobre clube da luta, confesso que eu fiquei encantada quando vi a primeira vez e se tivesse orkut na época acho até que colocaria umas frasezinhas do filme nele, hehehe! Depois fui vendo o lugar-comum do filme e agora continuo gostando, mas não coloco mais num pedestal. Mas eu acho sim, que da pra sair do sistema. Conheci varias pessoas que fizeram e hoje vivem bem. Mas o negocio é que a gente não precisa largar tudo, mas algumas coisinhas mas que consomem nossa vida, sabe? Comprar menos, trabalhar menos, ver menos TV, ir morar numa cidade mais tranquila, cada um sabe o que quer mudar na sua vida. E não precisa ser tão radical.

Tatiane, as frases estão certas sim. Mas pense bem antes de tatua-las, heim? Eu ja quis tatuar tanta coisa e hoje fico aliviada por não ter tatuado nada! Mudo de ideia muito rapido, hehehe.

Helena, é possivel sim! Conheço tanta gente que deixou tudo pra ir viajar! O cheri é um que viajou durante 5 anos (6 se contar o Brasil). O problema é que temos que pensar um pouco na velhice, porque trabalho fisico não da pra fazer a vida toda.

Queroul, acho que devem ter muitas razoes para se gostar desse filme. Não critico quem gosta, viu? Critico apenas aqueles que gostam pelos motivos que expliquei no post. Também acho que ele não sabia nada da vida, estava tentando aprender, mas acho que se tivesse saido dessa não ia virar hippie na praça da republica não. Acho que ele teria aprendido tanta coisa que tentaria mudar um pouquinho o mundo. Acho que ele trabalharia numa ong, iria se enfiar numa flotilha indo pra Gaza, ia virar professor universitario, sei la. Eita, viajei. :)

Amanda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amanda disse...

Helena de novo, pois é, cada um que corra atras do que acha que vale a pena. So não adianta ficar parado no mesmo lugar sonhando com algo que sabe que nunca vai fazer. Tbm conheci gente que montou uma comunidade e acho que eu poderia viver muito bem la. Por isso não me procupo tanto com meu futuro, sabe? Descobri que não preciso de muita coisa pra viver bem e que me adapto rapido às situaçoes.

Maia, acho que o livro que vc esta falando é Metaphysique des tubes, da Amélie Nothomb. Muito bom, recomendo!! Depois tem a continuação na China, mas esqueci o nome.

Eh Glorinha, da sim!! E que orgulho que eu venho sendo citada nas suas conversas! hehehe!

Iara, às vezes a gente tem que fazer alguns sacrificios conscientes. Não da pra fazer absolutamente tudo o que quisermos 100% do tempo, né? Então a gente pensa, faz planos e é obrigada a fazer coisas que não gostamos por um tempinho. Ou vc acha que to trabalhando de baba pq encontrei a vocação da minha vida? Ahahaha! Mas tem gente que não tem expectativa, simplesmente não suporta mais a vida que leva e continua todo dia levantando para um trabalho que detesta. Eles acham que não tem saida, mas tem sim.

tatiane disse...

Muito obrigada amiga!!!

Eu já tenho esse tipo de arte no corpo, gosto bastante, acho que se nao trabalhasse no mundo corporativo trabalharia com isso..rsrs
Muito obrigada!

Estou curtindo muito seu blog!

Beeeijos!!

Cris disse...

Ótimo saber que eu não fui a única que não achou esse filme grandes coisas kkk E obrigada a me ajudar a enteder pq.

Eu, procurando a minha felicidade, fiz coisas que eu não achava nada demais, mas que deixaram alguns conhecidos de cabelo em pé kkkk Pessoas como essas que vc citou, que passam a vida tentando se convercer de que estão felizes em ter aceitado "as coisas como elas são", ao invés de terem "domado" o destino.

Eu só me arrependo por não ter feito mais! Eu sou muito racional e gosto de me planejar. Do contrário, teria aproveitado bem mais a vida.

Sugiro a todos que aproveitem, que se mexam, que mudem o que não gostam. Eu fiz e não morri na floresta!!! hahaha (isso é pros que dizem, mas é baseado em uma história real kkkkk) bjs

Anônimo disse...

Espero que não tenha sido apenas eu a perceber que ele reconhece a radicalidade da própria postura pouco antes de morrer - "A verdadeira felicidade é compartilhada" (e ele estava sozinho, pensando na família) - bem como as motivações do carinha, que são diferentes das de muita gente mimada e pseudo-socialista/pseudo-anarquista por aí. Ele foi gerado na mentira da relação entre os pais, e o que ele buscava era uma verdade. Consequentemente, a verdade sobre si mesmo, e não apenas fazer um mochilão. Toda atitude extrema, esconde uma dúvida secreta. Tanto que ele mantinha um discurso pronto sobre a imagem que ele tinha dos pais. No fundo, penso que ele não deixou por um segundo de duvidar de si nas suas decisões, por mais que parecesse que não, mas ele escolheu um caminho, resolveu se mexer, não é algo que eu nem muita gente faria pra encontrar a verdade sobre si, mas a época, a criação, a auto-imagem dele, a imagem de pai e mãe que ele tinha, influenciou nas atitudes dele. Por isso não dá pra julgar. Depois de assistir esse filme, eu não me motivei a fazer como ele, e muito menos me conformei; eu realmente penso que mudei muito algumas atitudes e modos de enxergar as coisas, sem que pra isso eu tenha precisado queimar dinheiro, largar meu emprego e sair por aí. Não é para julgamentos que uma "biografia", ou algo baseado em fatos reais se propõe, mas a uma compreensão maior do ser humano por trás do personagem da vida ali exposta. O problema, minha gente, não é gostar de um filme assim, ou criticá-lo em algum sentido, pois aprovação e reprovação são reações a algo que fez sentido pra gente, em algum aspecto. O problema é um filme assim passar batido, como algo bobo, se acréscimo ou decréscimo de nada. Não se está propondo quem faria igual ou fez além do que o cara fez e sobreviveu pra contar. Mas buscar uma verdade na vida da forma como ele fez, tendo sido criado na mentira, é diferente de viajar e morar em Paris, ou acampar na Serra da Canastra com um celular com sinal funcionando, ou a 10km de alguma cidade. Só o cara pra saber disso, mas afinal, a empatia não foi inexistente em algumas pessoas à toa: às vezes a gente se defende dela. Por quê? Pq ela faria com que a gente se colocasse no lugar do outro, ao menos no que ele tá sentindo e vivendo naquele momento. E isso não é pra qualquer um.

Nando disse...

Amanda, bacana sua opinião, aliais, o legal é isso é cada um ter uma opinião sobre o filme, pois certamente ele "nos acerta" de formas diferentes. O problema geral é sempre o expectador querer se colcoar no lugar do "protagonista". Claro que existem movimentos que podemos fazer que não são tão radicais e que certamente nos trarão uma vida melhor, mas para ELE o único movimento a ser feito era aquele, mas isso para Ele, a historia Dele so seria completa com aqueles movimentos que foram feitos. E isso é magnifico, porque o mesmo movimento e vida que serva para uma pessoa não serve necessáriamente para outra. Assisti ao filme com essa visão, de que aquela era a vida dele e que na mente e no coração dele aquela era a única saida possivel, e é claro ele acabou descobrindo que mergulhos munto profundos são perigosos. :) Abs. Fernando Castro. fernandofcastro@gmail.com

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