segunda-feira, 8 de março de 2010

Ainda a maternidade, segundo a Badinter

Voltando ao livro da Elisabeth Badinter, que acabou dando uma boa discussão no outro post, vou tentar explicar uma teoria interessante. Na verdade o livro é tão rico e com subtemas de assuntos tão variados, que daria pra fazer uns 50 posts diferentes sobre ele.

No ultimo capitulo, Badinter analisa o caso das francesas buscando no passado explicações para fenômenos atuais. A França tem hoje a segunda maior taxa de natalidade da Europa, perdendo apenas para a Irlanda, que não é adepta a uma politica de abortamento como a França (com 210 mil abortos anuais). A autora justifica essa alta fertilidade por causa da maneira de gerir a maternidade das francesas. Ao contrario de paises onde a presença da mãe tradicional é supervalorizada, como a Italia (mamma italiana), a Alemanha (mutter alemã) e o Japão (kembo japonesa), a França nunca fez muita pressão para uma maternidade perfeita.

"A sociedade do século 18 admitiu muito bem as babas e as amas-de-leite, assim como as sociedades dos séculos 20 e 21 acham legitimo o uso da mamadeira e a contratação de terceiros para tomar conta dos nenéns logo depois do nascimento. A creche e a escola maternal - invenção francesa - para as crianças de dois anos e meio, três anos são as provas do consentimento social a esse modelo materno a tempo parcial. Nem as mães, nem as sogras, nem mesmo os pais têm algo a reclamar. Esta subentendido que é a nova mãe que deve escolher seu modo de vida de acordo com seus interesses e os interesses da criança. Não existe qualquer pressão moral ou social para ser mãe em tempo integral, nem mesmo durante o primeiro ano do bebê. A sociedade francesa admitiu desde muito tempo que a mulher não é a unica responsavel pela criança"

Segundo Elisabeth Badinter, essa liberdade de criar os filhos como quiser é um dos fatores mais importantes na alta taxa de natalidade francesa. Logico que a politica financeira de incentivo à natalidade também é importante, mas não é definitiva. Por exemplo, as francesas são as pareas da amamentação: apenas metade delas amamentam na saida da maternidade; em três ou quatro meses esse numero baixa para 17% e nos seis meses de vida do bebê elas são apenas 11% a aleitar. Por outro lado a Austria, a Alemanha, a Italia, o Portugal, por exemplo, têm indices muito mais altos de amamentação, assim como da adoção da maternidade em tempo integral, em compensação, têm os indices mais baixos de natalidade do mundo.

Quanto mais a sociedade pressiona as mulheres a serem mães perfeitas e a se dedicarem de corpo e alma à tarefa de ser mãe, mais elas debandam da maternidade, com medo de toda a pressão social que vão sofrer. "Quanto mais leve é o peso das responsabilidades maternas, quanto mais respeitarmos as escolhas da mãe e da mulher, mais elas serão inclinadas a tentar a experiência, mesmo de repeti-la".

O mesmo fenômeno esta acontecendo no Brasil, que ja tem uma taxa de natalidade menor do que a francesa. Ja ouvi muitas mães brasileiras reclamando das pressões sociais sobre os cuidados dos bebê. Acho que esse jeito despachado do brasileiro é um fator muito negativo para as gravidas e novas mamães, porque todos se acham no direito de dar conselhos, de contar sua experiência como se fosse regra a ser seguida, de achar que podem por a mão na barriga sem a menor cerimônia e de julgar, caso a mãe não esteja fazendo o que a pessoa considera o certo. Sempre tem alguém para reclamar. Se a mãe trabalha fora, vão reclamar que ela é omissa, se deixa tudo pra ficar em casa, vão reclamar que é submissa, dependendo do ambiente social de cada pessoa.

Não é à toa que muitas mulheres estão abdicando da ideia de procriar ou então adiam o maximo possivel. Ter um filho têm se tornado uma tarefa tão dificil, tão estressante, tão exclusiva que quem não sente que tem o "dom de ser mãe" ou não consegue se ver realizada 100% na maternidade, prefere nao arriscar. Quem não tem paciência para fazer papinhas de legumes sempre frescos, de tentar as fraldas lavaveis, de gastar todo o seu dinheiro com o bebê, de frequentar cursos pré-partos ou de amamentar, coisas imprencindiveis para ser uma boa mãe, segundo essa nova onda de maternidade naturalista, muitas vezes prefere abrir mão de ter filhos a enfrentar a ira da sociedade. No melhor dos casos, decide ter um filho so.

18 comentários:

Patrick disse...

No final dos anos 1980 tive a oportunidade de ir a França e conviver por alguns dias com alguns casais de brasileiros que na época tinham filhos pequenos. A minha impressão pessoal para justificar a maior natalidade na França (e, também, pelo que já li em algumas matérias, nos países nórdicos) é o estado social muito presente para ajudar a vida das mães. Essa impressão ficou ainda mais forte em minha mente depois que vi Sicko.

Anônimo disse...

Olá Amanda,

Vi seu blog à partir de um outro que comentava o post das "mães indignas" e fiquei fascinada pela matéria e igualmente pela discussão. Como é bom saber que tem mt gente inteligente por ai ...

Estou em processo de decisão da maternidade e esses posts estão me ajudando mt a refletir sobre qual caminho tomar. Sei que é uma decisão altamente pessoal, mas para mim o medo está sendo "dominado" por pesquisas sobre qq assunto que eu queira me sentir mais confiante. Até pq a pressão está mt grande para o meu lado e quero ter certeza absoluta pra qual lado pender e sendo a decisão tomada, me manter firme e não me deixar levar pelas "normas" da familia/sociedade.

Antes de ler o post, caso me decidisse pela maternidade, eu gostaria de ser a mãe "perfeita" e estar mais voltada para a maternidade naturalista. Sempre soube que eu tinha opções, mas como pessoa com mt dificuldade para a flexibilidade que sou, não conseguia ver que eu poderia relaxar em algumas posturas e poder me sentir feliz com as minhas escolhas. E tb notei como eu julgava cá com os meus botões as minhas conhecidas e familiares por fazerem o que elas achavam melhor e não o que seria o "certo" (a maternidade naturalista). Até pq .. não existe o certo e o errado, né ? Pois bem ...

Por favor, continue com os posts sobre esse assunto, pois tenho certeza que deve ter mt gente como eu que gosta de se "educar" baseado em informações de qualidade.

Um abraço,

Luciana

piscardeolhos disse...

Clap clap clap.
Mas sabe o que aconteceu, pelo menos comigo? Até os 5,6 meses do filhote eu ainda estava meio vulnerável e aceitava pitaco alheio. Depois disso fui ficando mais segura de minhas decisões e mandando toda pitaqueira pro raio que o parta. E isso me deu conforto para pensar num segundo filho, afinal não transformei a maternidade na escravidão exigida por aí.
Por outro lado, vejo amigas decepcionadas, tristes e sofrendo por tentar corresponder a uma expectativa social angustiante - a da mãe perfeita e sempre-presente.
Um exemplo? Eu estava tentando alcançar a amamentação exclusiva até os 6 meses, como sugerido pela OMS. Ocorre que tive um caso de doença na familia que me fez decidir a encerrar a exclusividade no 5o. mês, para que meu marido pudesse dar mamadeira no meu dia de ausência. Comentei isso com uma pessoa a qual considero vitima da maternidade opressora e ela me disse "ai, Ro, sério? Mas faltam 20 dias ainda pra acabar a exclusividade! Sei que sua mãe está doente, mas ela vai entender! Vc não pode fazer isso com seu filho!"
Juro por Deus.
ps: terminei sim com a exclusividade aos 5 e não aos 6 meses e amamentei o baby até os 11 meses, quando ele começou a me morder. Fico pensando com meus botões o que me diria uma dessas radicais a respeito. Algo do tipo "Menina, deixa ele te morder, vai sangrar e vai doer horrores, mas é pro bem dele, sua egoísta!"

Bel Boucher disse...

A França passou a Irlanda!
Mas a taxa continua mais ou menos.

Carol Nogueira disse...

Mandita, tenho tanto pra falar que fiz um post lá no blog, chamando pro seu. :) Acho que não dá pra confundir radicalismo com indignidade, e nessas discussões acaba tendo muita coisa misturada, né? A lavagem cerebral da amamentação que rola no Brasil tem explicação: os pobres, que dão água com farinha (de trigo) pros filhos. Tem que ter mesmo campanha massiva - é o único jeito de lavar os mitos ("leite de peito é ralo", "isso não engorda menino", vai pra periferia e escuta). Tem mesmo muita gente xiita por lá, fiscais da amamentação alheia, mas quem é esclarecido pode (deve) fazer ouvidos moucos e parar quando quiser, ou nem começar. O que não pode é mexer numa política pública vencedora, arma poderosa contra a desnutrição e a desidratação, que mudou as estatísticas brasileiras de mortalidade infantil. Beijo grandão e parabéns por levantar a bola.

Glória Maria Vieira disse...

Manda, eu tive que mudar o link do blog!:/ Tava errado!
http://aleatoriamentfalando.blogspot.com/
esse é o link correto, amor! Mude aí na sua página, já que tive que alterar, né?!:/ Desde já, obrigada!
Enqnt ao poste de hj, excelente como sempre! Estou de acordo quanto a essa pressão que só nos reprime e nos leva a opção de não ser mãe ou deixar pra depois, pra depois e pra depois!

um beijo, flor!:*

Cris disse...

O povo português, de um modo geral, gosta bastante de dar pitaco na vida alhei e, com certeza, com a maternidade deve ser bem assim.

Mas, o q pude notar, das portuguesas q conhecia, elas optam por não ter filhos, pra manter um condição social (de consumo, gastos, chame como quiser). Pq o estado não ajuda quase nada, o atendimento médico é horriiiiiivel (digo por experiência própria) e os salários são muito baixos.

luci disse...

pois é, quando vão parar com isso? se eu dissesse a minha mãe, caso eu tivesse um filho, que eu não vou amamentá-lo, acho que ela desmaiaria. a coisa é tão séria, que quando vi a mme louca dar somente mamadeira pras suas gêmeas, me perguntei se ela não teria leite no peito. cheguei até a ter pena dela! depois me repreendi. mas o problema é esse: a gente tá viciado nessa imagem que a mãe tem que ser e dar tudo pro guri, senão ele vai crescer torto. eu hein...

ps. mas acho que ser filho unico é tortura. voce pode falar melhor do que eu, mas crescer com alguem deve ser melhor que crescer soh, ainda mais se nao se tem primos ou amigos na rua :/

luci disse...

ah, adorei a idéia da enquete! pensei em fazer uma, mas achei que não combinasse com meus posts. seria legal que você deixasse sempre uma aí de acordo com o tema da vez. e incentiva o povo a participar! é uma forma fácil de saber o que o pessoal pensa e fazer todo mundo participar do blog. ;)

ja sabemos, por exemplo, que foi o asnalfa que votou a favor. hehehe

asnalfa disse...

Eu votei a favor do quê, Luci??
Nao entendi sua resposta nao menina! Poderia me explicar, por obsequio?

Luna disse...

O maior problema das mães do Brasil é pitaco alheio.

Minha mãe sofreu muito com isso: ela vivia bem até ter entraves financeiros, se separar e etc. Aí ela teve que morar com a minha avó, eu e minha irmã, além dos irmãos. Rapaz, até hoje ela vive escutando como eu devo ser educada.

Tem gente que nem me conhece - meninas com quem debati pelo Orkut! - que julga minha mãe irresponsável porque ela resolveu me responder às perguntas sobre sexo aos cinco anos. Minha mãe cansou de ouvir das colegas de trabalho (que nem me conhecem!) que eu e minha irmã vamos engravidar cedo, vamos ser promíscuas e etc porque sabemos o que é sexo, porque ela nos deixa namorar. Quando ela me deixou fazer tatoo, rapaz, as colegas ficaram completamente escandalizadas!

Todo mundo, no Brasil, acha que tem direito de ficar dando palpite no modo como uma mãe educa seu filho. Ok, um conselho quando a mãe está pedindo ajuda é bem-vindo. Mas quando ela não pede? Quando simplesmente se intromete? Ah!

P.S.: as meninas que engravidam aqui, na cidade, são todas fora do nosso perfil... até tem informação. Mas simplesmente não tem pai nem mãe com quem podem conversar sobre sexo.

paulamaria disse...

Acho um assunto delicado mesmo. O "pior" dessa história toda é o argumento de que somos predestinadas a sermos mãe, que temos instinto pra isso. Como se essa obrigação além de social, fosse genética e evolucionária. =/

Fernanda Copelli disse...

Oi, Amanda obrigada pelas dicas que você deixou lá no blog. Bjos! Vou aproveitar e dar uma lida no seu blog pois eu não conhecia...

karina disse...

Oi, Amanda, cheguei no seu blog pelo blog da Lola e, motivada pelos seus posts jà comprei e comecei a leitura do livro da Badinter. Estou a pouco tempo na França, apenas 7 meses, mas jà consigo ver diferenças marcantes sobre os modos de maternidade, educação e escola, jà que tenho um filho de 03 anos e meio que frequenta a école maternelle.

Carol Nogueira, sabe que esta perspectiva sobre a politica publica me fez abrir os olhos para meu papel durante a amamentação do meu petit? sobre o fato de que as necessidades e as realidades não são todas iguais, e de que tais campanhas são pertinentes e até vitais. Parei de me sentir oprimida por elas e fiz o melhor que pude. Você està coberta de razão até o ultimo fio de cabelo. Trata-se de uma politica com vistas a um publico bem especifico. E claro que não é possivel focalizar a discussão, o que é focalizado é o publico da politica. Excelente seu comentàrio, e tão necessàrio, que eu acho até que deveria ser divulgado por ai.

piscardeolhos, seu comentàrio também é incrivel. 20 dias a menos de exclusividade matou seu petit? eu, heim...

abraços.

Rita disse...

Oi, Amanda

Gostei muito do seu post e ele veio bem a calhar: estou cercada de amigas que acabaram de ganhar seus bebês. Fiz um post no Estrada e linkei seu texto.

Beijo grande,
Rita

Lu Terceiro disse...

Amanda, li seus posts sobre o livro - não li o livro. Na minha opinião, o livro pode fazer sentido na França. Não conheço a cultura francesa a ponto de dizer se essa é a realidade atual das mães ai. Mas o que a autora descreve não faz muito sentido para o Brasil. No Brasil, é uma luta conseguir um parto normal, natural. A mãe que tenta enfrenta desde os preconceitos e temores da família (muita gente aqui acha que a cesárea é que é realmente a opção segura), até o "determinismo" dos médicos, que por N motivos preferem as cesáreas. Graças à nossa cultura, temos uma média de 80% de cesáreas quando se trata de partos... Outro preconceito enorme é tentar a amamentação. Há uma pressão enorme para que o filho comece a comer logo, para que largue o peito. Quantas e quantas vezes já não ouvi mães reclamando da pressão da família, que o bebê já estava grande demais para mamar (sendo que a própria OMS defende a amamentação até os 2 anos de idade)? É muito comum os pediatras receitarem leite em pó ao menor sinal de dificuldade, em vez de buscar alternativas, orientar a mãe... Nós vemos mães mais "radicais" aqui na Internet. Mas essa definitivamente não é um retrato do que rola pelo Brasil afora. O que as pesquisas apontam é falta de informação e suporte para quem quer seguir o caminho mais "natural". O radicalismo que vemos em alguns pontos, na minha opinião, é apenas uma reação a uma realidade que não tem nada de "natural".

Lu Terceiro disse...

Só acrescentando um ponto, de fato o que tem de gente que dá palpite na criação do filho alheio não é brincadeira. Tem muito palpiteiro mesmo. Mas infelizmente, a maioria não vai na corrente do "amamentar é preciso" (ou outros pontos mais "naturais"). Já cheguei a ver pesquisa que apontava que as avós mais atrapalhavam do que ajudavam na amamentação, por insistirem em dar água, chá e principalmente outros tipos de leite para os bebês. Uma amostra de que os palpites, além de torrar a paciência da mãe, ainda por cima podem orientar de forma errônea...

Rackel disse...

Nossa, eu adorei a discussão aqui. Faz tanto tempo q nao leio esse blog! Estava com saudades! rrsrs

Ainda não tive filhos, nem to pensando nisso. Pra falar a verdade, tenh até medo da maternidade, pois não sei se tenho a tal da 'vocação' para a coisa. Faço parte do club q prefere nao arriscar... por enquanto.

Vamos ver se uma estadia na França me faz mudar de idéia, né?! rsrs

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