quinta-feira, 8 de abril de 2010

Um pouco de Brasil

Lembro que uma vez, no inicio da faculdade, tive que fazer uma redação sobre criminosos e direitos humanos. A gente tinha que comentar uma declaração de uma ong que pedia um tratamento mais digno para os presos. Mais especificamente, a gente tinha que escolher um lado e argumentar. Quem lê o blog ha um tempinho deve estar adivinhando qual lado eu escolhi. No entanto, meus caros leitores, vocês estão errados: eu escolhi o discurso mediocre de "direitos humanos para humanos direitos".

Não foi uma coisa consciente, sabe? O problema é que esse tipo de assunto simplesmente não me interessava, nunca tinha pensado realmente sobre isso e então não tinha uma opinião. Dai pensei pelo lado pratico da coisa. Se eu escolhesse defender os direitos humanos para os presos ia acabar ficando aquela coisa chata, monotona, aquele discurso de politicamente correto. Tinha certeza que todos os alunos iam escolher essa opção (hoje não tenho tenta certeza assim). Se eu escolhesse a outra, meus argumentos iam ficar mais interessantes, mais ousados, mais corajosos: uma transgressão, na minha cabecinha oca de adolescente.

Pois parece que funcionou. Como era uma prova de transferência de universidades, era o proprio reitor quem ia corrigir. Quando fui buscar os resultados, a pessoa me anunciou com um ar de cumplicidade que minha redação tinha sido a preferida do cara, so faltou me dar uma piscadela. Bom, fiquei feliz, legal, passei, mas nunca esqueci que eu escolhi o lado errado so porque era mais facil pra mim. De la pra ca aprendi que trangredir tem um significado muito maior do que rebeldia de adolescente e a gente tem que tomar muito cuidado para não lutarmos pela nossa propria submissão.

Mas isso tudo pra dizer que sim, eu sou do "grupinho dos direitos humanos" e descobri que às vezes a gente deve ser politicamente correto por mais careta que seja. Acho que tem coisas que simplesmente não são negociaveis. A maioria dos presos no Brasil são vitimas da nossa propria sociedade, dessa sociedade onde o chefe ganha 20 mil reais, e diz que é um salario correto, mas paga seu empregado 500 reais por mês. Tipo, como uma pessoa pode dizer que 20 mil reais é um salario razoavel e pagar 40 vezes menos a alguém? So tem uma explicação: ele se acha superior, ele merece ganhar bem, ele trabalha duro. A empregada que rala o joelho limpando sua sujeira não merece. São diferentes niveis de pessoas. Depois vão ver a novela das oito e se indignam com as castas indianas.

E querem o que? Que os pobres se contentem com seus papeis de pobres? Que ele limpem seus carros, varram suas casas, limpem as bundas dos seus filhos e sigam calados? Ah, a coisa não funciona bem assim não! A gente tem que escolher: vamos mandar parte dessa grana la pro norte, ou vamos esperar a miséria trazer mais desempregados pra ca? Vamos dividir essa riqueza toda ou vamos assistir nossos filhos serem assassinados por um tênis? Ninguém tem poder o tempo todo. Um dia seu vidro blindado vai quebrar.

Meter os rebeldes na cadeia não adianta nada. Depois deles, outros virão. E depois deles, outros. Vamos ver quem resiste mais. Tem que mudar a estrutura e uma parte dessa mudança, mesmo que pequena, deve ser feita na prisão. O sistema carcerario deve ser humanizado.

Continuo amanhã.

22 comentários:

Glória Maria Vieira disse...

Eu fico abismada quando os noticiários informam a situação do sistema carcerário brasileiro. Pessoas penduradas, com as mínimas condições de higiene, locomoção, privacidade. Eu fico pensando: Eu acho que essas pessoas se arrependem mais por terem ido parar aí do que terem cometido qualquer crime que seja. Ou se arrependem tão quanto do crime quanto do inferno que habitam!
Sem falar que depois de toda essa repressão, esse massacre, às vezes, até pior que fora da cadeia; as oportunidades são escassas quando se livram dessa tormenta, ou nem escassas são, simplesmente não há oportunidade pra quem foi detento um dia. Ou são ainda desumanas. As pessoas sempre vão julgar alguém pelo que foram um dia e não pelo que hoje são. Claro, nem todas! Falo de um modo geral.
Há uma música de Ana Carolina que eu gosto muito e que aborda justamente esse preconceito contra ex-detentos, essa exclusão social que sofrem pós-cadeia.
Lembro que alguém me disse na época que foi lançado o DVD que ele até foi censurado para menores, ou foi censurado totalmente. Não sei ao certo. Sei que essa pode ter sido uma das canções que levou ao censuramento pela crítica forte e direta que faz a sociedade. Porque "Difícil era quem aceitasse um cara que já matou" ... Pra mim, essa parte resume bem toda a canção.

luci disse...

que medo!Oo

Helô Righetto disse...

perfeito esse post!!!! parabéns!

Patrick disse...

Eu também morei um tempo na Europa, Amanda. Durante minha adolescência. Numa cidadezinha próxima a Madri. E realmente é uma experiência muito interessante. Convivi na mesma sala de aula com o filho de um gari, o filho de um membro do conselho nuclear, um vizinho do ministro da educação, o filho de um caixa de supermercado, etc. E as diferenças salariais eram mínimas. Numa universidade, por exemplo, do Reitor para o faxineiro, a diferença não passava de 4 ou 5 vezes.

Aline Mariane disse...

que bom que alguém no mundo ainda torce para o politicamente correto e encara a caretice de frente...
Espero a continuaçao! Bjss!

asnalfa disse...

Mas o povo não para de fazer filho!!!
Por isso sou a favor da vasectomia a base de 5 mil reais quando o cara completasse 18 anos. Esse dinheiro serviria para ele fazer um curso tecnico por ai...
Vc realmente acha que uma empregada domestica deve ganhar que um médico e engenheiro? Vc seria motivo de piada se um reporter do Jornal Nacional te entrevistasse e vc dissesse isso. Trabalhar na Europa é facil pq tem poucas pessoas ai. Aqui no Brasil é muita gente.

Patrick disse...

Dos 50 países da Europa, o Brasil só é mais povoado que a Rússia e a turma da gelolândia: Islândia, Finlândia, Suécia e Noruega.

Mariana disse...

Nossa jurava que esse post era sobre a enchente no Rio!!!
Sobre a falta de humanidade do sistema carcerario brasileiro, francamente, so posso sentir vergonha disso. Ver-go-nha!

Mirelle Siqueira disse...

Tantas mudanças precisam ser feitas que não da nem para saber por onde começar. Parece o gato correndo atras do rabo. Tanta coisa errada acontece antes mesmo do garoto chegar à prisão, que ja nem sei.

Espero a continuação para tentar encontrar os meus proprios argumentos. Você sabe como funciona o sistema carcerario francês? As diferenças entre os nossos?

beijocas

Ah! sobre essa frase "descobri que às vezes a gente deve ser politicamente correto por mais careta que seja", so concordo se a pessoa o fizer de coração. Ser politicamente correto so para parecer legal aos olhos dos outros me soa muito hipocrita na verdade. Eu não consigo ser...

Carlos Martins disse...

Olá, achei muito interessante o seu blog. Você tem um talento para achar e transmitir conhecimento. A única coisa que achei estranha, e numa pincelada geral nos posts e nos comentários do grupo de pessoas que sempre comenta aqui, é que vocês tem uma visão muito superficial do que é o Brasil, talvez por estar fora agora, mas sei lá, são comparações que jamais poderiam ser feitas, e outros pontos de vista, eu diria, inocentes. Não estou dizendo o que é certo ou errado, conheço bastante o exterior, mas sinceramente, muita gente aqui não conhece nada de Brasil (política, geo-política, sociedade, clima, regiões, tudo o que influencia nos nossos modo de viver) a não seu umbigo, sua cidade, seu povinho. Com todo o respeito, compare menos o Brasil, e tenha uma visão sociológica mais ampla, mas moderna. É só uma sugestão.

Cris disse...

Essa bola de neve q vc cita no final do texto já vem acontecendo no Rio há um bm tempo...

Luiz Ferreira disse...

seu blog ta lindao Amandinha ! ! !

XMaritoX disse...

Abram as portas das prisões! É depósito de pobre, uma vergonha. Quando um vidro blindado não aguenta o tranco, eu acho lindo! O que é foda é quando pobre mata pobre...mas minha ideia de "punição" é outra.
Quem causa a miséria ainda recebe abono...
Realmente, Amanda, o que eles querem é justamente o conformismo e a mansidão do explorado, e acham um absurdo quando isso não acontece.
Cada vez que leio algo como as coisas que você escreve me sinto em um oasis onde a coerência não morreu! A gente discorda em algumas coisas, mas a ideia de justiça social é quase a mesma.

"Vc realmente acha que uma empregada domestica deve ganhar que um médico e engenheiro?" Eu acho! Existe um mais importante que o outro?

Iara disse...

Pois é, Amanda. Eu nem gosto muito do termo "vítimas do sistema" porque parece que a gente tá chamando criminoso de coitadinho, que é justamento o que a galera que joga pedra nos direitos humanos critica. Eu acho que eles são produto mesmo, sabe? Relação de causa e efeito.
Nunca vou esquecer de um dia em que eu estava num ônibus e sentia vir, do fundo, um cheiro forte de solvente. Quando fui fer, eram dois meninos que não tinham nem 7 anos, cheirando cola. Aquilo acabou comigo. Agora, se um menino desses cresce e me mata por conta de uma bolsa? Porque ele deveria entender que a vida humana vale mais do que isso, como a gente gosta de dizer, se a vida dele não vale nada. Se ele morrer, ninguém vai sentir falta. Então porque ele deveria ter compaixão por mim?
E as pessoas não entendem que ninguém dá o que não tem. Ninguém te respeita se nunca foi respeitado. Ninguém entende que tem deveres se nunca teve direitos. E pra mim é essa questão.

luci disse...

asnalfa: sabe quanto eu ganhava como faxineira? somente metade do que camilo ganha como engenheiro. e posso te garantir: camilo ganha muito bem. isso nao eh ridiculo aqui. isso se chama igualdade social.

bianca disse...

Amanda, você acha realmente que as pessoas que matam por um tênis ou por nada são pessoas que varreram casas, lavaram carros e limparam bunda do filho dos outros e se revoltaram? São "rebeldes" que foram metidos na cadeia?
Não sou a favor do sistema que está aí, sem reabilitar ninguém. Mas acho que a maioria dessas pessoas mata e vive em função das dogras, não porque estão se rebelando contra a sociedade, e nem sempre é por falta de oportunidade já que existem delinquentes de classe média também.
Tenho sérias dúvidas sobre o conceito de direitos humanos no Brasil.

Patrick disse...

Eu não conheço ninguém de classe média que tenha matado por um tênis.

Fabiana Dias disse...

Gostei, só não consigo crer, infelizmente, que a distribuição da riqueza do Sudeste sirva para amenizar a miséria do Norte do país. Cabe lembrar que nem por aqui ela é distribuída, vide a coincidencia entre as centenas de mortos nas enchentes e a precaria condição de sobrevivencia desses mesmos desfavorecidos. É angustiante reconhecer que essa disputa pelos royaltes é, na verdade, uma disputa política que, salvo raras exceções como o Senador Cristovão Buarque, consideram o impacto social dessa distribuição.

piscardeolhos disse...

ah, eu só sou contra concessão de direitos humanos a presidiários governante

(se é que algum permanece preso?)

e a situação aqui no rio segue LAMENTAVEL.

bianca disse...

Eu já vi casos de delinquentes de classe édia que mataram por nada.

Patrick disse...

Cultura do medo:

http://en.wikipedia.org/wiki/Culture_of_fear

Carol Nogueira disse...

Oi, Amanda!
Adoro sua paixão quando você escreve sobre coisas que realmente mexem com você. Subscrevo todas as suas convicções. Meu desafio é que a gente consiga parar de conversar sobre isso nas mesas de bar e fazer alguma coisa que ajude a mudar efetivamente. Vamos se candidatar?

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