segunda-feira, 13 de julho de 2009

Quando os pobres votam extrema direita

Os franceses gostam de politica. Acho que na verdade é o assunto preferido deles, em qualquer nivel social. E aqui a esquerda e a direita estão bem divididas e pertencer à um grupo ou outro é uma questão de logica. Ou pelo menos era. Os mais ricos votam direita porque querem abrir o pais ao capitalismo, à competição de mercado, para terem mais lucro pessoal. Os mais pobres votam esquerda para lutar contra um modelo opressor que so beneficia a elite. So que nos ultimos tempos, cidades pobres tradicionalmente comunistas passaram a ser grandes eleitores da extrema direita. Assim, de um extremo ao outro sem passar pelo meio termo.


O mapa acima mostra o salario médio por pessoa na região parisiense. Quanto mais vermelho, mais ricos. A gente percebe bem onde estão os afortunados: no sudoeste de Paris e um pouco no sudeste. Os pobres estão concentrados no norte, em cidades como Saint-Denis, Bobiny, Bangnolet. Agora olhem para esse outro mapa:

Ele mostra a força da extrema direita na Île-de-France (região onde fica Paris). Quanto mais escuro, mais a extrema direita tem votos. Os dois mapas não estão na mesma escala, então quem não conhece bem a região pode ficar um pouco perdido. Paris é no meio daquele tumulto la no centro. E a gente pode ver que a parte norte de Paris esta bem escura.
Por que os pobres passaram a votar extrema direita? Porque aconteceu um fenômeno interessante. Antigamente essas cidades eram habitadas exclusivamente pelos operarios de fabricas e trabalhadores braçais, todos com grandes tradições sindicais, totalmente politizados. Votavam sempre extrema-esquerda. Dai um belo dia chegaram os imigrantes, que também eram pobres e acabaram se instalando nos mesmos bairros dos operarios. Passaram a disputar as vagas de empregos com eles e os operarios não gostaram muito dessa historia.
Encontraram no discurso da extrema direita, que é contra a imigração, uma possivel saida para seus problemas e passaram a votar neles. Os novos imigrantes, que não tem raizes sindicais e trabalhistas, não ligam para a politica e não votam. Muitos não podem nem votar porque estão ilegais e os que podem nem estão inscritos nas listas eleitorais. O nivel de abstenção em eleições nessas cidades do norte agora são muito altos.
Eh assim que os partidos ultra-conservadores estão ganhando terreno em zonas carentes. Ja nas areas ricas, apesar da direita ter grande parte dos votos, a extrema-direita não faz muito sucesso. Acho que quem tem uma educação privilegiada sabe que o Le Pen não vai trazer nenhum beneficio para a França.
Uma outra consequência desse fenômeno pode ser notada. Por não se sentirem representados politicamente, os imigrantes e seus descendentes procuram outras formas de lutarem por seus direitos, queimando carros, por exemplo, como aconteceu em 2005 e em quase todas as noites nos suburbios parisienses.

7 comentários:

Destilando disse...

Mandita, o texto tá ótimo. Muito didádico!

Eu li outro dia na Veja (eu sei, eu sei... mas tava + barata) sobre as eleições na Europa e o porquê de todos estarem privilegiando políticos de direita e declarados neonazistas. Senti muita dificuldade de entender esse comportamento no velho mundo. Você faz parecer fácil essa questão toda.

Parabéns, miguinha!

Leonardo disse...

Tenho que concordar com a Tati: você faz parecer fácil toda essa questão. Baita aula de geopolítica!
Abraço!

XMaritoX disse...

Semelhante ao que aconteceu na Inglaterra no final dos anos 70 e começo dos 80, partidos fascistas usam um discurso culpando os imigrantes por todas as mazelas e conseguem converter fiéis! Muito horrivel isso. O bom que na França tem muitos libertários, vale lembrar que eles não votam, ou votam nulo!
Sorte pra França, sorte pro mundo! Né?

luci disse...

tah vendo? blog bom é assim! esse a gente tem a obrigação de ler, mesmo não sendo de paris, mesmo não sendo da frança!

faz total sentido!

Navegadores da Razão disse...

O 12m, na época q vivi lá, era praticamente um bairro àrabe pelo comércio e população mesmo, eu gostava era e acho q continua sendo a feira mais barata. Un dia um amigo parisience q tinhamos deixou bem claro q não gostava deles, por serem sujos, perturbadores e q não traziam progresso pelos seus hábitos de gueto, mas gostava dos chineses pq esses sim traziam "prosperidade" (mesmo c/ sua máfia), segundo o meu amigo frances, no entanto não foi a FRança q abriu os portões por política[claro]p/ essa imigração "desfavorável"? Eu realmente não percebo grandes diferenças entre esquerda e direita, mesmo na França!!

Amanda disse...

Tati, Leonardo e Luci: tudo tem uma logica mesmo. So que às vezes as pessoas complicam tanto nas explicações que parece que é super complicado, e não é!

Marito, se tem libertario eu não sei, mas aqui o voto não é obrigatorio, então muita gente prefere ficar em casa mesmo. Mas as pessoas dão muito valor ao direito de voto e de uma maneira geral elas acham que é assim que se mudam as coisas.

Navegadores, esse seu amigo é meio estranho. Falar mal dos imigrantes... para uma imigrante! Tem esse pessoal tbm, que gosta de dividir os imigrantes em bons e maus. Pra mim a imigração é natural quando os paises mais ricos exploram os mais pobres em vez de ajuda-los a se desenvolver.

Giovanni Gouveia disse...

No Diplô de junho há um debate super ineressante sobre o assunto (embora trate de toda Europa), é que os partidos da esquerda tradicional perderam o que de mais valoroso tinha, sua ligação íntima com a sociedade, estando aparecendo uma nova esquerda que aposta em outras formas de luta (a queima de carros é uma delas)...
Bom post, bom blog (vim aqui por indicação sua no blog de Lola)

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