domingo, 2 de agosto de 2009

Quem está no leme?

Durante o ano em que morei no Brasil com o cheri notei uma coisa que normalmente passaria despercebida: as pessoas levam os homens mais a sério no dia-a-dia. O que uma coisa tem a ver com a outra? Bem, é simples. Ele não falava uma palavra de português, então quando saiamos juntos, era sempre eu quem interagia com as pessoas na rua, pedia informações, pedia a conta pro garçom, pedia a coxinha na lanchonete. E quando alguém nos perguntava alguma coisa, era eu quem respondia. Dai comecei a perceber que os desconhecidos SEMPRE se dirigiam à ele, e não à mim. Seja pra pedir direções, para perguntar o que iamos comer ou somente comentar como estava quente, as palavras eram sempre para ele e eu deveria ser somente um ser sorridente que concordaria com tudo. E essas pessoas ficavam um pouco atordoadas quando eu me intrometia e respondia primeiro. E depois dava a impressão que eu tinha que justificar a mudez dele, de alguma forma mostrar que ele era estrangeiro, para não passar como bobo.

Bobo porque deixa a garota tomar a atitude? De onde saiu esse preconceito e, pior, como ele foi parar mesmo dentro da minha cabecinha liberal também? A gente esta tão acostumado com situações machistas pequenas, que acabamos toma-las como normais. E o mais grave é que se o cheri pudesse responder às perguntas, eu nem iria perceber como era ele o alvo intelectual das pessoas e como eu era uma coadjuvante. Ia passar normalmente, uma coisinha bem corriqueira, e a vida seguiria.

Para minha dissertação de mestrado fui ao Paraguay fazer minha pesquisa de terreno e o cheri foi comigo. Ja tinha ouvido falar que la existia um machismo mais forte que no Brasil (isso é possivel?). Algumas pessoas que entrevistei, não todas, deixaram isso bem claro. Eu explicava que a pesquisa era minha, que eu estava fazendo uma dissertação, eu fazia as perguntas e mesmo assim eles respondiam para o cheri. Olhando para ele, como se a minha presença fosse decorativa. Ta certo que o cheri tem presença de espirito, participa, se interessa, mas poxa, porque as pessoas respondiam so pra ele? Parecia que eu era sua secretaria, tomando notas da reunião.

(engraçado foi uma vez em Assunção que fomos tomar cerveja com um amigo paraguaio, e eu ja revoltada com esse machismo, vi que a garçonete trouxe uma garrafa de cerveja e dois copos, que ela colocou na frente de cada um dos meninos e me deixou sem nenhum. Ja tava explodindo de indignação, mas me explicaram que la eles dividem os copos, que ela tinho sido até generosa deixando dois, pois normalmente todo mundo divide um so. De qualquer forma fiz questão de pedir um terceiro copo pra mim).

Dai notei que quando cheguei na França, quando as pessoas pediam informações na rua, elas olhavam para nos dois. E me acostumei a deixa-lo sempre responder por causa do meu pobre francês, o que me deixa frustrada. Acaba sempre dando a impressão que ele é o cara de atitude e eu uma concordante sorridente. Dai também passou a me dar vontade de, de alguma forma, mostrar que eu era estrangeira, não uma passiva.

19 comentários:

Amanda disse...

Help!!!!!!!!!

Meu blog desconfigurou todo depois que meu computador deu pau. As linhas entre os paragrafos sumiram e não sei como consertar! Alguém sabe o que tenho que fazer?

Merci!

Adília disse...

O seu texto mostra bem que em muitas sociedades, mesmo na cultura ocidental, o sexismo ainda continua a ser a norma e o normativo e está tão encapotado que a maior parte das pessoas nem dele se apercebe o que torna a situação ainda mais grave. Eu sou portuguesa, mas foi de facto aqui no Brasil que tive, tanto quanto me apercebi, a primeira experiência desse tipo, quando no Banco eu e o meu marido nos dirigimos ao gerente para tratar de um assunto que a mim dizia respeito, ele esclarecia ignorando completamente a minha pessoa. Fiquei sem perceber muito bem a situação, e como ele tinha traços físicos orientais atribuí isso a uma cultura machista, mas não propriamente a uma cultura brasileira, agora vejo que se calhar me enganei.

luci disse...

hahahahaha nossa! sabia exatamente do que tu iria falar quando começou o post, porque tenho muitas historias assim tbm. entendo perfeitamente o que tu tas dizendo! tipo, quando eu pedia uma cerveja e um côco pra camilo, na praia, sempre colocavam o copo de cerveja na frente dele e o côco na minha. quando traziam a conta, sempre era nas mãos dele. teve uma vez que eu peguei a conta das mãos do garçom e paguei a bendita, mas o troco, quando chegou, foi entregue à camilo. é mesmo impressionante. mas achei interessante tu dizer "...para não passar como bobo. Bobo porque deixa a garota tomar a atitude?" pois bem, aconteceu duas vezes, contadinhas, de eu colocar a grana na carteira de camilo (porque era minha vez de pagar) porque senão o garçom ia achar camilo "bobo" caso eu pagasse sozinha, sabe? é foda. é isso: machismo impregnado até a alma. quando me dei conta dessa babaquice, parei. afinal, alguém tem que tomar uma atitude!

luci disse...

"As linhas entre os paragrafos sumiram e não sei como consertar!"

nao entendi qual o problema! o blog tah certinho, não? Oo

asnalfa disse...

Aqui no meu pc o blog ta certinho!!!
Poe uma foto do seu cheri ai!! Morrendo de curiosidade pra saber como ele é!!!
Mas aqui no Brasil, o machismo é lei! Os homens tratam a mulher que nem propriedade. Eles são ciumentos e nao deixam a mulehr conversar com homem pq acham q elas estao traindo.

Navegadores da Razão disse...

Eu ando numas de ler blogs feminista, sabe? E agora a minha questão é como equilibrar as coisas? pq maschismo não desaparecerá nunca, e antes do feminismo as mulheres sabiam como atuar, mas e agora tendo q matar um leão a cada esquina? o problema é como atuar sem atacar a cada um q nós atravesse na frente, e sem atender ao padrão de sub-mulher q tá aí fora? Abraços!

Amanda disse...

Adilia, é uma falta de respeito desse pessoal se dirigir ao homem e não à nos, as interessadas. E tem muitas mulheres que são realmente educadas assim, para serem passivas mesmo. Eu vejo isso às vezes, por exemplo quando tem um casal e peço a moça pra tirar uma foto e ela passa a camera pro cara.

Luci, pois é, como que eles conseguiram botar na nossa cabeça que deve ser assim? Dai a gente se vê fazendo coisas absurdas como colocar o dinheiro na carteira do cara, pra ele poder pagar. Pior que se a gente tomar a atitude, não vão dizer olha que mulher bem-resolvida, vão dizer, olha que cara frouxo!

Asnalfa, vou tentar convencer o cheri de colocar uma foto dele aqui! Mas acho que vai ser dificil, viu? :) Alias, primeiro a gente precisa tentar tirar uma foto decente, pq ele sempre fecha os olhos, impressionante! E quando não fecha é pq fica tão concentrado em mantê-los abertos que sai com cara de zumbi, olhão aberto, nada espontâneo.

Rosa, tbm ando lendo muito blogs feministas (não sei o que vai ser de mim). Luci tbm, né? Ainda tenho muitas duvidas sobre o assunto e a impressão que tenho é que tem tantas armadinhas machistas que não da nem pra sair de casa! Como continuar vivedo normalmente, rindo das mesmas piadas, se agora vemos tudo com outros olhos?

Amanda disse...

Mas então vcs estão vendo o blog certinho? Poxa, aqui ele ta todo errado! Nesse post aqui então... Um paragrafo em cima do outro: http://portedoree.blogspot.com/2009/05/top-10-expressoes-francesas.html

Mas se ta normal por ai, otimo! Obrigada pelas observações!

Leonardo disse...

Nunca prestei atenção nesse tipo de atitude, deve ser porque é algo normal, "corriqueiro" como vc mesma falou. A partir de agora vou tomar cuidado com essas situações e me certificar de q eu não estou contribuindo pra que elas continuem.

asnalfa disse...

Nesse top 10 expressoes francesas, ele está desconfigurado sim!!

Raiza disse...

Eu já tinha reparado nisso que você falou,é um porre.Sempre que to com um homem do lado e se dirigem a ele primeiro eu logo me intrometo.As pessoas ficam meio espantadas.E sempre que preciso pedir uma informação,eu sempre peço pra uma mulher.
Agora com seu post lembrei de um caso.Eu tinha que ir pra não sei onde e não sabia se determinado ônibus passava no tal lugar.Tinha um casal de velhinhos próximo e eu perguntei pra velhinhA se o ônibus tal passava onde eu queria ir.O velho logo se intrometeu e respondeu que sim.Quando o ônibus chegou eu fui perguntar pro motorista se o ônibus passava no tal lugar.O velho ficou indignado,passou uma boa parte do caminho (eles pegaram o mesmo ônibus que eu) reclamando que já tinha me dito que o ônibus passava no tal lugar.Como se ele falasse alguma coisa e eu tivesse que dizer amém né? aff ¬¬

Maíra disse...

Amanda, tá desconfigurado sim. Você tentou editar o texto pelo blogger pra ver se funciona? Se não der, entra na abinha de html e tenta arrumar por lá (mas nem precisa saber código nem nada, é só dar os espaçamentos que estão faltando). A má notícia é que, se tiver acontecido no blog todo, provavelmente você vai ter que fazer post por post :-(

Se precisar de ajuda, me avisa!

beijos

destinoparis disse...

amanda, essa situação é complicada mesmo.. [a de se dirigirem aos homens] e ao que parece, é mais que cultural, pois aconteceu em paises distintos, né.
li os textos das expressões francesas, que muito interessam e os mitos sobre os franceses, com alguns bem hilários.
agora posso fazer uma pergunta trés difficile?
quero ir pra aí estudar, pois na minha volta [nossa, já estou anos-luz há minha frente] penso em formas de articular um espaço. que contenha educação, saúde, arte, etc..
você sabe de cursos que envolvem dinâmicas de criatividade, articulação de pensamentos, ou algo do gênero?
enrascada, né?
talvez algum campus ou escolas onde isso é propiciado?
au revoir!

Amanda disse...

Isso mesmo Leonardo! Presta atenção, pq eu sei que às vezes é reflexo mesmo. Se funciona assim com as mulheres, imagina com os homens!

Raiza, acho que as pessoas não estão acostumadas com garotas de atitude, principalemnte as pessoas mais velhas.

Maira e Asnalfa, caraca, eu sabia! Eh verdade que não da pra perceber em todos os posts, mas eu percebi que eles não estavam saindo como eu colocava. Vou tentar mais tarde, qualquer coisa eu grito Maiiiiiiira!

DestinoParis, que pergunta mais dificil! Não sei nem se eu entendi muito bem. Acho que essas coisas vc vai saber melhor uma vez que estiver aqui, começar a fazer amigos, olhar os milhares de anuncios que tem espalhados pelas universidades... Acho que vc vai encontrar alguma coisa sim, mas eu pessoalmente não conheço, sorry!

paulamaria disse...

Eu tinha comentado aqui ontem, mas não saiu o comentário, pelo visto...

Eu disse que isso acontece com frequencia comigo aqui no Brasil. Sempre que saio com meu namorado, eu peço alguma bebida e ele geralmente nao, pois ele quem dirige. E quando o garçom traz o pedido, a bebida alcoólica sempre é colocada na frente do Joaquim! Eu e ele nunca deixamos de ficar estupefatos com isso... Um machismo muito esquisito e torto!

Seus depoimentos daí me dão cada dia mais vontade de fugir logo pra França!

Abraço

Navegadores da Razão disse...

Puxa eu também tinha um outro post e foi engolido. Bem, o mais importante dele vou repetir : Amanda tenha um ótimo ano, muita sucesso, espero poder em breve (ou um dia) poder sentar pra uma boa baguete com brie, hummmm q delíicia! Bj.

Olha minha contribuição para a S M A,
http://recadopararosa.blogspot.com/2009/08/amamentacao.html

Priscila disse...

Concordo com vc, mas acho que em outros aspectos a França não fica muito atrás, não...Por exemplo, ao abrir uma conta conjunta com meu marido, a gerente teve problemas de cadastro pq eu não tenho o sobrenome dele - ao marcar que eu era casada, o sobrenome dele apareceu automaticamente como meu "nom", já que aqui o "normal" é a mulher sempre adotar o nome do marido, na maior parte dos casos inclusive perdendo o seu sobrenome ("nom de jeune fille")!
Abraço!

XMaritoX disse...

Nossa, eu participei de um grupo de discussão sobre feminismo onde surgiram as mesmas situações, outro dia. Foi falado tb de quando a situação envolve uma conta a pagar...
Eu coleciono coisas assim, vc imagina que eu não bebo e a cerveja sempre vem pra mim quando saio com amigas... e meu refrigerante pra elas...

Marcia disse...

Amanda,
Legal vc ter escrito sobre esse assunto. Entendo perfeitamente o que diz até porque passo pelas mesmas coisas qdo vou ao BR de férias, e estando aqui na FR, senti por muito tempo a mesma sensação de inutilidade por causa do meu pobre francês (hoje em dia ja desencanei... eu falo mesmo e AI de quem me olhar dizendo "je n'ai rien compris madame" !!!!rs). O pior entretanto, acontece sempre qdo estou no Br com meu marido...eu continuo sendo a pessoa que "coordena" as situações e "cheri" fica mais na dele, no entanto, em todos os lugares onde vamos todos nos tratam MUITO MELHOR qdo percebem que "cheri" é estrangeiro.... dai sim, a dupla revolta e frustação são inevitaveis...

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