quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Amigos imaginarios?

Ao contrario do que pareceu no ultimo post, eu nao sou contra as religioes. Respeito a opiniao religiosa de todas as pessoas e acho que enquanto nao tivermos respostas concretas para nossas perguntas existenciais, as religioes vao existir.

O que eu nao gosto é a mania que as pessoas tem de usar a religiao para justificar seus preconceitos e impor às outras pessoas papéis menos importantes na existência. Assuma que nao é deus que pensa assim, cara-palida, é você. Nao foi deus quem disse que os negros nao tem alma, foram os homens brancos. Nao é Ala quem desumaniza a mulher através da burca, sao os homens. Nao venha tentar justificar a fome dos pobres pelo que eles fizeram em vidas passadas, porque eu vou negar e dizer que a fome deles é culpa nossa.

Fui batizada e fiz catecismo, minha familia toda é religiosa. Alias, eles simpatizam com todas as religioes, como boa parte dos brasileiros. Minha avo é catolica, mas às vezes vai em cultos evangélicos, ja foi muito em sessoes espiritas e de vez em quando poe até uma macumbinha na esquina. O negocio é acreditar em deus. Parte da minha familia é crente e quando eu era criança, adorava passar as férias na casa deles e assim ia pra igreja também. Achava divertido, bem mais que as missas catolicas, pois eles separavam as crianças e contavam historias. Sempre lembrei de uma historia na qual deus queria destruir uma cidade inteira, mas tinha uma familia muito boa e ele resolveu salva-la. Disse que era pra eles irem embora sem levar nada e sem olhar pra tras. No momento da fuga, a mae deu uma espiadinha pra tras e pimba!, virou uma estatua de sal. O pai e as duas filhas conseguiram escapar. Adorava a historia, principalmente com a musiquinha que a gente cantava sobre ela, imitando a estatua.

Foi entao que semana passada descobri que a historia nao foi me contada inteira. Estava lendo o livro "Tirs Croisés" e descobri que a tal cidade era Sodoma (que deu origem à palavra sodomia, imagino). Dois anjos foram ver se as suspeitas de homossexualidade eram verdadeiras e um homem os acolheu em sua casa. Logo uma multidao de homens excitados bateu na porta da casa para estuprar os visitantes. O dono da casa, bom anfitriao que era, respondeu: "Nao! Tenho aqui duas filhas que nunca conheceram homem e as ofereço. Vocês podem fazer o que quiser com elas, mas deixem os visitantes em paz". Que grandeza de espirito! A multidao, porém, nao aceitou a oferta, eles queriam mesmo era os homenzinhos. Estuprar as meninas, tudo bem, mas os homens?! Pior, anjos do sexo masculino! A ira de deus nao aguentou tamanha blasfêmia e resolveu reduzir a cidade inteira a po, com uma terrivel chuva de fogo e enxofre. Antes salvou a familia tao hospitaleira.

A mae, como vocês ja sabem, foi transformada em estatua de sal e o pai e as duas meninas se refugiaram numa caverna. Na primeira noite, surprise!, o pai transa com uma delas. O livro sagrado diz que ele estava confuso, nao sabia que era sua propria filha, apesar de so haver os três na caverna. Na segunda noite, ele transa com a outra. Coitado, ainda tava meio perdido. Engravida as duas. Incesto, estupro e pedofilia? Cadê a chuva de fogo e enxofre? Ah, nao tem. Nao é à toa que eles nao contam a historia verdadeira para as crianças.

Eu tenho um pouco de raiva sim das religioes, principalmente da minha, porque tenho a impressao de que elas querem me fazer de boba, sabe? Elas querem me oprimir e querem que eu aceite isso. Elas querem que eu seja submissa ao homem sem contestar. No casamento da minha prima eu devia ter uns 13 anos, fiquei chocada ao ouvir o pastor falar com todas as letras que o homem é o provedor da familia e a mulher é a encarregada do lar; que ele manda e ela obedece, que ele é o chefe. Fiquei me remoendo na cadeira, olhando de um lado pro outro e ninguém parecia discordar.

Passei uma parte da minha adolescência com um "vazio existencial", fazia muitas perguntas e nao tinha respostas. Passei a invejar aqueles que conseguiam crer, que conseguiam ter certezas absolutas. Acho que o processo em virar atéia é mais doloroso pra quem foi criado com uma religiao. Mas agora que o tempo passou, acho que existem coisas bem mais importantes do que respostas nao dadas e consigo muito bem viver sem deus. Nao sinto mais um vazio, nao sinto que me falta nada para ser feliz.

Quando disse pra minha mae que nao sabia se acreditava em deus, ela perguntou: "Mas se você nao acredita em deus, vai acreditar em quê?". Hoje eu sei a resposta: nas pessoas. E digo isso sem a menor crise existencial.

12 comentários:

asnalfa disse...

Outro ótimo texto que vc escreveu!!
Tb odeio essa passagem da biblia! Totalmente mentirosaaaaa! Desde quando existem anjos e chuva de enxofre, fogo??? Estatua de sal?
kkkkkkkkkkkkkkkk
Contos da carochinhaaaaaaaaaaa!
Agora eu ja sei pq aquele padre excomungou a menina que ficou gravida aos 9 anos de idade!!
É verdade que ai na França nao existem aquelas cruzes nas paredes de predios e departamentos públicos?

XMaritoX disse...

Com 11 anos eu descobri que era Ateu, que existia gente assim...Caiu no meu colo um texto de Bakunin sobre deuses e ví que tinha um monte de gente que pensava como eu. Até então eu tinha medo de não acretidar e Ele me prejudicar de alguma forma. Mesmo assim, aos 13 anos, fiz a tal da primeira comunhão. Foi um ex padre homossexual que ministrou as aulas. Estudava em colégio interno na época e ele era tipo um coordenador por lá, era o mesmo cara que abria o box dos chuveiros do prédio dos meninos dizendo que queria ver se a rapaziada tinha alguma "doença". Fazia essas entre outras tantas coisas...
Ele me odiava porque sempre fui ligeiro e, comigo, nunca teve chance. O cara dizia, nas aulas da catequese, que o bebê que não fosse batizado morreria, entre outras groselhas...hahahahaha
Quando ele trouxe um padre pra gente se confessar, inventei tanta mentira que o fulano me passou várias penitências, se eu fosse religioso teria ficado um ano rezando pra cumprir todo o castigo.
Enfim, hoje gosto muito do real budismo, sem ritos. Mas entendo que Buda não é deus, é exemplo. E se mais cristãos enxergassem Cristo da mesma forma seria muito bom. Nem me digo mais Ateu, porque o Ateísmo virou religião de fanáticos. Sou indiferente à existência ou a não-existência de qualquer Deus.
Outro dia conheci um coletivo anarquista cristão, que realizam leituras libertárias da Bíblia. Quando encontrar os caras vou perguntar como fazer uma leitura assim sobre Sodoma e Gomorra. A vida de Cristo é bem possível de fazer uma associação libertária, adoro o Sermão da Montanha. Não entendo como igrejas protestantes podem prezar o lucro tento Jesus feito tal Sermão...
Eu tô pra ler a Bíblia de novo, logo mais começo. Sou seu fã, Amanda!

Leonardo disse...

Essa história de Sodoma é muito divertida! Uma de minhas favoritas. ^^ Antes de conhecer a história toda eu morria de medo de que Deus fizesse chover fogo e enxofre na minha cabeça. Mas tem uma passagem na própria Bíblia que diz: "Conhecereis a verdade e ela vos libertará". Não sei exatamente no que Jesus pensava ao dizer isso, mas ele não poderia estar mais certo.
E esse vazio do qual você falou, sei exatamente como é. Eu realmente queria acreditar, mas infelizmente não existe uma fórmula pra isso.
E sei que estou ficando repetitivo, mas não posso deixar de dizer que este post está excelente!

Glória Maria disse...

Uau, Amanda!
Tanto esse com o poste anterior ficaram fantásticos!Fiquei com uma vontade enorme de ler o livro tbm e sem falar na minha indignação com as atrocidades que nós mulheres somos submetidas em plena 'modernizaação'!
Comentei com meus amigos do cursinho de francês e um delas conclui pra gente: 'Se houvesse amor ao próximo, nada disso existiria; esse machismo todo, essa supremacia masculina seriam inexistentes. Afinal, ninguém em sã consciência vai querer o mal pra si! Sou católica também, mas como costumo dizer, 'de enfeite', pq mal vou à igreja e quando vou a vontade que me dá é de 'dormir'! É sempre a mesma coisa, a mesma moralidade, as mesmas recomendações e blás!
Mas enfim, eu ainda não tenho uma posição sobre religião, é um assunto que me atrai muito, mas não tenho uma opinião madura ainda e está sendo enriquecedor pra mim todos os comentários aqui expostos e, claro, seus postes!
Fantástica!

lola aronovich disse...

É, não tem jeito: quem leva a bíblia ao pé da letra precisa muito descartar certas passagens e se centrar em outras... O mais legal é que, quando vc fala que tá lá que comer frutos do mar é um pecado tão grande quanto a sodomia, o pessoal que acredita diz "Não, não, vc precisa entender o contexto, isso foi escrito faz muito tempo e tal". Pois é, mas parece que esse tal do contexto só vale pra algumas passagens...

Neide disse...

Complicado, meu marido é totalmente ateu, eu , eu acredito em energia, boa ou ruim, sempre sofri muito com a questão religião, a famila inteira é evangelica, eu sempre busquei algo em que acreditar, passei por diversas religiões, nenhuma conseguiu me convencer, com o tempo percebi que não precisava ir a nenhum templo ou seguir qualquer religão e o vazio que antes sentia ja não sinto mais.

Mariana disse...

Compartilho da tua opinião. Somos uma pequena familia tipicamente atéia...
e mesmo que irrite ou choque muitos (dã!) não, não vamos batizar a nossa filha! Incrivel a reação das pessoas a isso!
...e viva a ciência e seus limites bem humanos!!
bjuus!

Fabiana disse...

Mandou muito bem, Mandita!
Parabéns pelo texto, saudades!

Fabiana disse...

Mandou muito bem, Mandita!
Parabéns pelo texto, saudades!

Éverton disse...

Oii Amanda!
Encontrei seu blog hoje! Achei ele incrível! Muito muito interessante. Li váaarios posts hoje!
Eu estou indo pra França no começo do ano que vem, vou estudar no INSA Toulouse por um tempo!
Beijos!

Aline Mariane disse...

Oi! Meu pczinho brigou com seu blog quinta e so consegui voltar aqui hoje. Ja encomendei o livro, to doida pra ler. Essa parte em especial, porque nao é como me lembrava e fui conferir na minha biblia (pois é, eu tenho uma biblia). Pra começar, falar em pedofilia quando nao se existia o conceito de criança, num livro cujas idades nao sao contadas da mesma maneira que hoje. Depois, a historia diz que foram as meninas que embebedaram a fim de engravidarem e darem continuidade a uma linhagem de "pessoas boas", digamos assim, e foram seus herdeiros que deram origem à duas das doze comunidades "fundadoras" do monoteismo ocidental. Poderia dizer que tem muito simbolismo evidente por tras, mas tem um comentario aih em cima sobre os contextos que me fez lembrar um marabou (espécie de padre do islamismo da Africa negra) que dizia que é mais facil ser extremista com as coisas simples... Entao nao vou justificar a historia em si, mas vou criticar se o livro a distorce, claro, como faria com qualquer historia.
Eu também nao teria uma religiao que me fizesse sentir boba ou me obrigasse a ser submissa ao homem. Religiao é algo pra fazer bem, sentir bem e se alguém esta se sentindo mal com isso, é melhor nao ter nenhuma mesmo...

Amanda Lourenço disse...

Aline, eu fui ver a historia na wikipedia (que nao é uma fonte mais confiavel que o livro, eu sei) e tbm li que foram as meninas que tomaram iniciativa. Po, ja reparou que essa é SEMPRE a justificativa de pedofilia e muitas do estupro? Culpar a vitima é uma estratégia bem antiga, pelo visto. Ah, e a desculpa do alcool tbm é otima.

Quanto à questao da pedofilia, fui eu quem levantou, as autoras nao falaram nada nao, acho. Queria me aprofundar no assunto, mas acho que eu ia ficar com tanta raiva que nem vale a pena, hehehe. Melhor me concentrar com os problemas atuais.

Mas que legal que vc vai ler o livro! Vamos poder trocar figurinhas. Eu so li os dois primeiros capitulos, se vc ler o resto e gostar, me avisa que vou catar ele na biblioteca de novo!

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