quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A invasão islâmica na França

Antes de vir pra França eu era muito interessada no mundo arabe. Queria aprender a lingua, estudar mais a politica desses paises, tentar entender mais a religião muçulmana. Achava que os rebeldes islâmicos eram incompreendidos, que o ocidente esmagava sua cultura, seu povo. Até minha monografia de conclusão de curso foi sobre o Hamas. Dai duas coisas importantes aconteceram: passei a ter mais contato com o feminismo e vim pra Paris.

Então, do ponto de vista feminista, é impossivel defender a religião muçulmana. Defesa da igualdade dos gêneros e islamismo definitivamente não andam juntos. Que fique claro que acho que todas as religiões oprimem as mulheres, mas hoje eu quero falar apenas da islâmica. No inicio eu até engoli aquela velha historia de que na verdade os muçulmanos respeitam tanto a mulher, que as protegem com véus, burcas e paredes. Eles valorizam tanto a mulher, que seria um absurdo elas terem que trabalhar fora. Eles acham que as mulheres são tão melhores que os homens, que so elas sabem como cuidar de bebês e tomar conta da casa de maneira digna. Poxa, esse truque deve ser mais velho que Maomé! 

Depois, morando em Paris, fui tendo muito mais contato com os arabes. Conheci muita gente bacana, como a familia de um dos bebês que tomei conta: por parte de pai, os avos eram argelinos muçulmanos e por parte de mãe, eles eram argelinos judeus. Mas nenhum deles era praticante. O chéri tem um tio argelino, muçulmano de origem, mas também não praticante, que é comunista e super gente boa. Mas eu também comecei a perceber que toda vez que um cara falava grosserias na rua quando uma menina passava, ele era arabe. Comecei a me indignar com os diversos casos de poligamia, de humilhação feminina e de violência doméstica praticados pelos muçulmanos. Quem mora em Paris sabe que tem muito arabe morando aqui. Tipo, muito muito. E tem todo um movimento sociologico, que resumindo bem, chega a conclusão que os primeiros imigrantes meio que abandonaram a religião ao chegar na França, ocupados em ganhar a vida, mas seus descendentes, que eram (e continuam sendo) excluidos pela sociedade acabaram abraçando o islâmismo ja esquecido por seus pais, como para ter uma identidade propria. E assim, a religião muçulmana cresce muitissimo no pais. E com ela, as praticas altamente patriarcais (mais ainda do que as nossas).

Tudo indica que a progressão do islamismo na França sera um assunto muito presente da pauta das eleições presidenciais francesas no ano que vem, talvez tomando até o lugar do debate sobre a imigração. A extrema-direita, representada por Marine Le Pen, não tem papas na lingua e critica abertamente a "invasão" do islã. A direita, representada pelo proprio presidente Sarkozy, ja demonstrou concretamente que também não é favoravel à tolerância islâmica. A esquerda? Bom, a esquerda tenta se calar ao maximo, porque sabe que esse é um assunto muito espinhoso e mesmo os franceses mais liberais tendem a ser contra a progressão do islã na Europa. A revista L'Express publicou uma reportagem sobre o assunto dizendo que 76% da classe média (média de verdade, não como no Brasil) acha que o islamismo progride demais no pais, segundo sondagem do Ifop. Outra pesquisa, feita pelo jornal Le Monde, confirma que 42% dos franceses pensam que a presença de uma comunidade muçulmana na França constitui uma ameaça para o pais. Mesmo entre a esquerda essa corrente é concreta. Em 20 anos, a porcentagem dos franceses contra o uso do véu religioso na rua aumentou 28 pontos (o véu, assim como qualquer simbolo religioso como cruzes e quipas, são proibidos em predios publicos como escolas e hospitais, mas não na rua).

Ano passado o governo tentou forçar um debate sobre identidade nacional que não colou muito. Mas no fundo, acho que a coisa é essa mesmo, um debate sobre identidade nacional. Ninguém sabe muito bem definir o que é ser francês: os mais tradicionais podem falar da guerra, de patriotismo, da lingua; os mais moderninhos podem falar da mistura gostosa que ja conhecemos no Brasil faz tempo. Mas se é dificil definir o que é francês, fica mais facil definir o que não é, especialmente quando se passeia na rua cruzando dezenas de lojas halal, vendo mulheres cada vez mais escondidas em seus panos pretos, vendo dezenas de pessoas rezando voltadas pra Meca atrapalhando a calçada. Quando é um ou outro, a gente abraça com força a diversidade e adota um discurso bonito de tolerância, mas quando começa a ser demais, a esquerda francesa (e eu também) começa a coçar a cabeça.

15 comentários:

Dedé disse...

Nunca comentei, mas leio seu blog às vezes. Gostei muito do seu post. Concordo com você. Moro em Londres e aqui, acontece o mesmo problema. Mas não sei se isso afeta o resto da Inglaterra como acontece com a França. Acho que a concentração de muçulmanos (ou de imigrantes em geral) é mais em Londres mesmo. Mas acredito que a questão da identidade nacional seja um problema sério e que deva ser, pelo menos, discutido.

Borboletas nos Olhos disse...

Amanda, você é corajosa, muito corajosa. Porque agarra o touro pelos chifres, sem meias verdades. Gostei muito do post.

Patrick disse...

Amanda, a sua opinião sobre o conceito de sociedade que os meus avós tinham não seria muito divergente do que você está apontando sobre o mundo islâmico. Os defeitos seriam os mesmos (a poligamia no nosso caso seria a permissão implícita do homem ter amantes ou frequentar bordéis).

Mas a resposta às suas dúvidas, IMHO, está no seu próprio texto:

"E tem todo um movimento sociologico, que resumindo bem, chega a conclusão que os primeiros imigrantes meio que abandonaram a religião ao chegar na França, ocupados em ganhar a vida, mas seus descendentes, que eram (e continuam sendo) excluidos pela sociedade acabaram abraçando o islâmismo ja esquecido por seus pais, como para ter uma identidade propria."

Porque um pouco disso eu experimentei na minha vida pessoal. Passei a me reconhecer diferente (como nordestino) depois que passei um tempo morando em outras regiões do Brasil.

José Fernando disse...

O problema nem é propriamente o islamismo, mas o fundamentalismo islâmico. Os fundamentalistas (de todas as religiões) é que pregam a intolerância religiosa, a não aceitação da diversidade cultural e étnica. Religião é mesmo uma praga obscurantista que ao invés de semear a paz entre os povos, fomenta o ódio entre os diferentes. Você tem razão: toda religião reserva à mulher um papel inferior. Não se conhece uma só religião que admita a perda da virgindade feminina antes do casamento, só para ficar num exemplo. As religiões são a negação de tudo o que se conhece como avanço no conhecimento universal. E os muçulmanos estão involuindo a passos largos misturando o papel do Estado com a religião. Já pensou num estado em que a constituição fosse substituída pela bíblia? Pois existem estados regidos pelo Corão. As sociedades precisa, sim, e com urgência, discutir a ingerência das religiões nas estruturas sociais. Os parisienses devem adotar a mesma postura que tem frente ao mendiant (é assim que se escreve, Amanda?) que lhe atrapalha os passos na calçada aos que resolvem atrapalhar os outros rezando voltado para sabe-se lá onde. Religião é questão de foro pessoal e íntimo. Os templos existem exatamente para a prática desses exotismos. Quando o sujeito vai às ruas sujeitar os outros à suas crenças, ele está submetendo as pessoas. Não tolero isso. Quando estou num lugar público e um evangélico vem pedir minha atenção para o proselitismo dele, eu não dou. Assim como nunca tentei cooptar ninguém ao meu ateísmo. E aproveita que hoje estou calmo.
José Fernando

Renata Inforzato disse...

Amanda,

Parabéns pela coragem de expor esse assunto espinhoso, mas que realmente é preocupante....Muitos tapam o sol com a peneira no medo de parecerem racistas...Mas quando o fundamentalismo chega, e o Islã é fundamentalista por narureza, e coloca em risco a vida de pessoas (como as mulheres), temos sim que nos preocupar...

Anônimo disse...

Amanda, olha eu aqui, enfim!
Gostei muito do post!
Certamente, a invasão de práticas negativas de outra origem e o fanatismo religioso ameaçam um país.
Mas, vc acha que existe a possibilidade da cultura islâmica engolir a francesa?
Acho natural que os países desenvolvidos, com forte turismo e imigração, tendem a perderem essa coisa de identidade caricata nacional, e passam a ter um identidade cosmopolita, assim como acontece em Londres. Mesmo a maioria dos imigrantes sendo islâmicos.

Beijos! NANDA

Anônimo disse...

Amanda, olha eu aqui, enfim!
Gostei muito do post!
Certamente, a invasão de práticas negativas de outra origem e o fanatismo religioso ameaçam um país.
Mas, vc acha que existe a possibilidade da cultura islâmica engolir a francesa?
Acho natural que os países desenvolvidos, com forte turismo e imigração, tendem a perderem essa coisa de identidade caricata nacional, e passam a ter um identidade cosmopolita, assim como acontece em Londres. Mesmo a maioria dos imigrantes sendo islâmicos.

Beijos! NANDA

Anônimo disse...

Olá!!!
Li hoje no blog conexao paris sobre as pessoas que moram nas ruas lá.
Chego aqui e me deparo com esse tema.Me deu uma mini-depressão.Tipo o mundo é triste que bom que moro em Itabuna no inteior da Bahia.Já fui a Paris 2 vesez e estava até juntando dinheiro para ir de novo mas me deu agora um desanimo.
Viviane S

disse...

E' Amanda, o assunto é delicado mesmo. Os franceses tem a sensacao de estarem sendo invadidos, mas tirando o lado religioso do tema, temos que lembrar que: os franceses dominaram por muito tempo esses paises, de forma violenta e aparentemente nao fizeram nada para desenvolve-los (veja bem, nao sou estudiosa no assunto, sei apenas o basico!). Isso sem falar na guerra da Argelia. Muitos magrebinos vem pra França para tentar uma vida melhor. Normal, né? Eu faria o mesmo. Tenho varios amigos marroquinos, tunisianos e argelinos que cresceram nos seus paises e vieram fazer faculdade e trabalhar aqui, pq la' eles nao teriam as mesmas oportunidades. Se bem que em determinadas areas (como na informatica) a situaçao por la' anda melhorando. Conheço gente que esta' voltando e conseguindo bons empregos por la'.

Quanto à religiao, bom, nao gosto da maneira como eles tratam as mulheres, logico! Por outro lado os muculmanos estao longe de ser como os evangelicos... nunca vi nenhum impondo a sua religiao a ninguém.

Voilà voilà! So' para mostrar um pouco o outro lado da moeda.

Beijocas!

Aline Mariane disse...

A França não está sofrendo uma invasão islâmica, mas uma invasão de conservadorismo. E não só a França.

Sabe, não gosto quando vinculam uma atitude específica a um grupo em geral. Isso é perigoso. Como você disse, TODAS as religiões oprimem as mulheres. Foram criadas num contexto assim. Todavia também TODAS apresentam aspectos flexíveis o bastante para permitir uma evolução. Não gosto de ouvir que o problema da França são os muçulmanos. Como não gosto de ouvir que no Brasil o problema são os evangélicos ou nos EUA os mórmons. O problema é o conservadorismo, a mente quadrada, o preconceito, a falta de equidade, o proselitismo etc. A crença pessoal em si não é um problema.

Quanto à identidade nacional, a França é tão muçulmana quanto cristã, budista ou o que seja. Fico envergonhada de ver a direção dessa discussão. Oras bolas, foram eles mesmos, os franceses, que criaram o conceito de laicidade!! As escolhas pessoais quanto à religião NUNCA deveriam entrar nessa discussão!! A identidade deveria se fundar justamente no respeito. Em todos os sentidos.

Sei que você é uma pessoa aberta e inteligente, entendo a discussão que queria provocar. Mas muito cuidado com essas afirmações generalistas. Não é muito diferente de quando eles dizem que o problema são os ateus. Ou os estrangeiros.
Bjss!

Rita disse...

Ai, Amanda, pode pitacar sem entender nada do assunto? Pode? Lá vai: é um sinal dos tempos, mesmo, acho. Inevitável, o mundo hoje é assim, as pessoas conseguem se movimentar muito mais, as culturas vão se misturar mesmo e não sei se isso é preocupante (deixando de lado eventuais conflitos, só para ver se consigo me fazer entender). Vejamos: imaginemos por um segundo que o mundo tivesse desde sempre proporcionado às pessoas a mobilidade de que dispomos hoje, como teriam sido as formações culturais locais? O que teria acontecido com as línguas? Como seria nosso olhar para o lado de lá da fronteira se, desde sempre, o movimento estivesse presente na intensidade como ocorre hoje em dia? Não sei, tenho a impressão de que um dia isso não fará a menor diferença, se a cultura local está mais ou menos forte. Além do mais, pegando carona no comentário da Dé, não consigo me preocupar com a 'pureza' da cultura francesa se eu pensar no que os exploradores franceses fizeram em suas colônias. Quem ligou?

Aliás, gosta da Allende? A Ilha Sob o Mar vale a pena.

Beijocas
Rita
ah, ótimo post, claro.

Renata Inforzato disse...

Mas o que está sendo combatido aqui são a religião e o desrespeito às mulheres e não as pessoas....É muito bonito falar do respeito, claro. Mas quando vc está aqui e vê de perto as notícias de mães que perderam seus filhos pq o marido foi embora para outro país, um país muçulmano, e pela religão o direito é dele, isso revolta. Ou quando vc vê essas mulheres cobertas, conformada, achando que são seres de segunda classe, isso revolta tb...
Ou quando vc estuda ou vai em um bairro árabe e escuta gracinhas de quase 90% dos homens ali....Ai vc pensa: eu tenho o azar de ver a minoria q não respeita mulher todos os dias? Aí fica difícil não generalizar...E essas práticas que têm que mudar.
Mas o pior é que como disse a Amanda, não se trata dos primeiros imigrantes. Esses estão integrados, não perderam suas culturas, mas tb absorveram a ocidental. O problema está na segunda ou terceira geração e nos imigrantes mais jovens. Claro que se a exclusão diminuísse e houvesse mais oportunidades, talvez essas segundas e terceiras gerações não precisassem da religião para se auto-afirmarem. E os novos imigrantes teriam mais facilidade em se integrar. Mas uma questão também me vem: mas em relação ao tratamento das mulheres, será que menos exclusão faria com que eles melhorassem o tratamento dado às mulheres? E a França, com medo de parecer racista, muitas vezes não é conivente com esse tratamento?

Amanda disse...

Muito legais todos os comentarios, pessoal! Fui responder, mas ficou tão grande que acho que vou fazer outro post. Mas o mais importante é lembrar que eu não estou falando de imigração! Estou falando do aumento do islã na França, não é a mesma coisa.

Carol Nogueira disse...

Amandita, eu acho que o desafio (enorme) é acomodar essas tensões em uma sociedade múltipla, com espaço para todo mundo. Live and let live. Talvez seja porque eu venho de Brasília, onde todo mundo vem de toda parte e não há espaço para esses bairrismos babacas de "não gostar de nordestino", de paulista, de gaúcho ou do que quer que seja. Todo mundo convive com todo mundo e é ótimo poder almoçar carne seca com macaxeira e jantar cuscuz paulista. Sei lá.
Teve um verbo nesse post que me incomodou um pouco, que não combina com você. As rezas "atrapalhando" a calçada me fizeram pensar no operário da Construção do Chico atrapalhando o sábado. Pra eles aquele treco lá é importante, sabe? Deixa eles se ajoelharem, fazer a rezinha deles lá, a gente passa do lado e pronto. Cada um toca a sua vida. É óbvio que sou contra todo exagero, todo fundamentalismo, mas as lojas halal não me incomodam em nada. Até porque de vez em quando é tão bonzinho ir lá comer uma esfirra! :o)
Beijinhos!

Amanda disse...

Carol, essa questão de atrapalhar a calçada foi sobre uma reportagem que vi em algum lugar rapidamente. As pessoas lotam a calçada rezando em vez de entrar na mesquita. Eles têm um lugar especifico pra isso, não precisa ser no caminho de ninguém. Acho sim que é falta de respeito. Quando é um bando de jovens conversando, todo mundo reclama também. Imagina se esses jovens se reunissem naquele ponto cinco vezes por dia pra conversar bem no meio do caminho?

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