quinta-feira, 24 de março de 2011

Quadrinhos - Tintin au Congo



Ja fazia tempo que eu queria ler Tintin au Congo, pois esse HQ é versão belga do nosso "Caçadas de Pedrinho". A historia não é a mesma, mas o contexto racista é. Tintin au Congo foi publicado pela primeira vez em 1930 em preto e branco, e conta a aventura do reporter Tintim no pais colonizado pela Bélgica. O album é completamente anacrônico aos nossos dias, tanto no tratamento dado aos negros, quanto no tratamento dado aos animais. Além de todos os preconceitos expostos, achei a historia fraca, desinteressante e datada.


Pra começar, os desenhos dos personagens negros são muito pejorativos. Bocas enormes, expressão de inferioridade, vestindo geralmente trapos (nem sempre). O francês que eles falam vem escrito errado, para poder mostrar bem seu sotaque e sua gramatica ruim. Até os animais falam um francês mais correto que eles. Todos os africanos bons são completamente submissos a Tintin e todos os maus têm inveja dele.


Tintin trata os animais com crueldade. Nota zero para a conservação da natureza e o respeito com os seres vivos. So pra citar alguns exemplos:

1- Tintin mata mais de uma dezena de gazelas para comer apenas uma. Vai embora e deixa uma montanha de animais mortos atras de si.
2- Para recuperar sua arma roubada por um macaquinho, Tintin mata um outro macaco, tira a pele dele e se disfarça para se aproximar do primeiro.
3- Tintin quer caçar um rinoceronte, mas sua carapaça é tão dura que as balas não fazem efeito. Então ele sobre numa arvore, faz um buraco nas costas do animal com uma ferramenta, coloca uma dinamite la dentro e explode o rinoceronte. So sobram dois chifres e Tintin diz algo como "ops! Acho que exagerei".


Eh claro que temos que levar em consideração o contexto e a época que a obra foi escrita. Esse tipo de pensamento era a norma, Tintin é apenas o reflexo daquela sociedade. Entendo. O que eu não entendo é o que o album Tintin au Congo continua fazendo nas prateleiras das livrarias. Sério que é isso que queremos que nossas crianças leiam? Uma historia racista, num contexto colonial, que trata os negros como animais e animais como lixo? Essa HQ deveria sair do hall infanto-juvenil para entrar na area de sociologia ou historia. Porque sim, acredito que ela pode nos ajudar a compreender melhor o passado e tal, mas não deve nunca ser tratada como uma historia qualquer. Simplesmente não é mais uma historia para crianças. Uma pessoa de 7 anos não deveria nunca ler Tintin au Congo, porque mesmo que a gente explique e ela entenda que aquilo não existe mais, algum resto dessas informações descabidas vai ficar la no subconsciente. E se for uma criança negra então, imagina o sentimento de inferioridade que ela provavelmente vai sentir?


Um protesto interessante foi feito na internet. Um site publicou uma nova versão da HQ mantendo os dialogos, a historia e os desenhos - a unica diferença é que o personagem principal, Tintin, aparece peladão em todos as cenas. O nome do novo album adaptado é Tintin au Congo à Poil. Os desenhos ja foram tirados do site oficial, mas estão pipocando na internet. Tem gente que diz que não é protesto, apenas uma iniciativa artistica, mas ora, por que escolheriam uma obra tão polêmica senão como uma forma de levantar debate? Outras pessoas interpretam que deixar Tintin sem roupa  tira o peso do racismo pra mostrar que o esquisitão é ele, e não os negros.


Eu gosto da ideia. Quem sabe daqui a pouco não aparece por ai um Caçadas de Pedrinho Peladão?

9 comentários:

disse...

Concordo que esse tipo de literatura não deveria mais ser acessivel para às crianças mais jovens... talvez so' para as mais velhas, como conteudo de alguma pesquisa historica.

Quando leio essas criticas as historias do Sitio do Pica-pau Amarelo (criticas justas, diga-se de passagem), fico me lembrando do quanto eu adorava as historias dele. Eu tinha toda a coleção e lia, relia o tempo inteiro. Adorava a Emilia! E naquela época eu nunca questionei o racismo contido no texto... e olha que la' em casa nunca foi admitido nenhum tipo de preconceito. Bom, mas eu era muito novinha para esse tipo de visão critica. Hoje em dia é verdade que ficamos logo chocados diante de livros assim. Sinal de que os tempos mudaram.

Fernanda disse...

Outro dia meu marido estava dizendo que amava Tintin quando era pequeno, e so' agora ele percebe o quão "facho" são estas BDs.

Eu também adorava Monteiro Lobato e também nunca percebi conteudo racista. Como disse a Adélia, muito novinha para ter visão critica.

Então no final das contas, mesmo hoje vendo que estas historias têm sim um conteudo racista, acho que acaba não tendo muita influência nas crianças, acho que mais importante mesmo é o contexto, a criação, o modo de ver o mundo que seus pais te passam. Sei la'.

Rita disse...

Idem idem, lia e não notava o racismo, etc. Mas fico curiosa, nunca conversei com alguém negr@ para me dizer como lia Lobato na infância.

Seja como for, depois de tomar consciência do postura eugenista dele, fica difícil, né.

Beijos
Rita

Helô Righetto disse...

amandita, claro q pode copiar o post! agora quer ver seu dia!!!! e quero fazer mais vezes tbem, depois q chego em casa!!

Glória Maria Vieira disse...

Realmente, viu Manda?! Ficar disponibilizando assim esses documentos preconceituosos não é uma boa ideia. (ASSIM= para crianças) Já que é na infância que vamos formando nossa opiniões, conceitos e preconceitos, né?!

Débora disse...

Nossa, adorei a análise feita... minha dissertação de mestrado discorre sobre a temática étnico-racial na educação. E sinceramente compartilho da idéia que isso nem deveria mais estar nas prateleiras à venda. Mas infelizmente tem tanta coisa sendo divulgada por aí, que nem fazemos idéia de quão preconceituoso é! Sou professora e lembro que recebemos um livro de história que nas suas primeiras linhas dizia "antes da escrita não havia história". Quando eu li isso não tive duvidas de que era um péssimo livro pra ser distribuído entre alunos da 5º série do ensino fundamental. Depois vi imagens nas quais apareciam índios comendo pessoas brancas... negros carregando senhores, tal qual na revista aí, e os traços fenotipicos bem marcados... Daí vcs tiram o resto que o compunha!! hoje no Brasil temos uma lei que obriga a inclusão da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas públicas de todo o país, como uma forma de incluir a discussão contra o racismo e práticas preconceituosas. É a lei 10.639 de 2003. Seu cumprimento ainda caminha em passos lentos, mas de fato, vejo-a, como uma tentativa de "(des)eurocentrizar" aquelas idéias racistas que permeiam nossa história, e o fundamental trazer à tona a discussão sobre o racismo, que ainda paira na cabeça do brasileiro que o nosso país é menos racista, dado à nossa diversidade racial.

Enaldo disse...

Gostei muito do post. Todo mundo fala do racismo desta obra do mestre Hergé mas foi a primeira análise que demonstra e comprova a acusação.

Guilherme Freitas disse...

Não concordo com suas críticas. Afinal a história se passa nos anos 1930 e naquela época os países africanos ainda eram colônias e o pensamento da elite belga e europeia (e até brasileira) era assim mesmo: o negro como inferior. O próprio Hergé disse certa vez que apenas contou o que se passava na época.

O próprio Monteiro Lobato abusou de fatos semelhantes em suas histórias com a Tia Nastácia no Sítio do Pica Pau Amarelo. Não vejo isso como racismo, era o pensamento da época. Muitos pensavam nessa superioridade branca, como Nina Rodrigues, que fez "estudos" onde classificava o negro no Brasil como um marginal.

Seria ridículo proibir a venda desses livros agora com a alegação de racismo, preconceito. Preconceito é renegar o passado, a história, por mais tenebrosa que tenha sido. Estas histórias são um ótimo exemplo para a juventude de hoje em dia.

Com esses livros na mão, os jovens terão a oportunidade de ver como as pessoas pensavam antigamente. E aprenderão a jamais repetir esses pensamentos retrógrados.

Na minha opinião, banir livros assim é ignorância. É renegar a história.

Guilherme Freitas disse...

Não concordo com suas críticas. Afinal a história se passa nos anos 1930 e naquela época os países africanos ainda eram colônias e o pensamento da elite belga e europeia (e até brasileira) era assim mesmo: o negro como inferior. O próprio Hergé disse certa vez que apenas contou o que se passava na época.

O próprio Monteiro Lobato abusou de fatos semelhantes em suas histórias com a Tia Nastácia no Sítio do Pica Pau Amarelo. Não vejo isso como racismo, era o pensamento da época. Muitos pensavam nessa superioridade branca, como Nina Rodrigues, que fez "estudos" onde classificava o negro no Brasil como um marginal.

Seria ridículo proibir a venda desses livros agora com a alegação de racismo, preconceito. Preconceito é renegar o passado, a história, por mais tenebrosa que tenha sido. Estas histórias são um ótimo exemplo para a juventude de hoje em dia.

Com esses livros na mão, os jovens terão a oportunidade de ver como as pessoas pensavam antigamente. E aprenderão a jamais repetir esses pensamentos retrógrados.

Na minha opinião, banir livros assim é ignorância. É renegar a história.

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