quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gente de Oz - Simon

Quando decidi largar a vida urbana australiana e rumar para o campo, uma amiga me indicou um backpacker (albergue em australianês) que te arranja emprego nas fazendas e te leva de van todos os dias pra trabalhar, em troca do pagamento da tua hospedagem. Esse esquema funciona muito bem por la e todo mundo sai ganhando: você, que não tem os contatos certos para arranjar emprego na agricultura e acaba conseguindo um trabalho e ainda transporte para esse trabalho, e o dono do backpacker que normalmente não teria nenhum hospede naquele fim de mundo, fica com sua espelunca lotada por causa de seus contatos com os fazendeiros.

Mas quando cheguei em Stanthorpe, uma cidadezinha trinta quilômetros depois das botas perdidas de Judas (onde conheci o cheri, hihihi) para trabalhar pela primeira vez nas fazendas, tive que ficar num hotel em vez do albergue porque estava lotado. Fiquei la uns três dias até abrir uma vaguinha no outro. No quarto do meu hotel tinha... uma cama. E so. Sem armario, sem espelhos, sem banheiro, sem mesa, sem televisão. Luxo total. E se no backpacker sempre tem gente pra conversar, rir, beber, naquele hotel so tinha uns velhos estranhos de pescoço queimado de sol e rosto vermelho de tanto beber. Na falta do que fazer eu ia ver TV na sala comum e foi assim que conheci o Simon.

Simon era um australiano de uns 30 anos, de olhos bem tristes. Ele falava e a gente sentia imediatamente a melancolia que emanava dele. Simon também estava trabalhando na colheita, mas como tinha carro proprio e era australiano, não precisava depender dos donos de albergues. A gente assistia filmes na TV e conversava e um dia ele resolveu me contar porque estava la. Disse que tinha uma noiva de quem gostava muito e um dia os dois tiveram uma briga feia por bobeira. Ele voltou pra casa e ela foi dar uma volta no mato pra espairecer. So que a menina acabou cruzando uma cobra, foi mordida e morreu naquele dia. Depois da briga. Ele disse que não podia acreditar, que se sentiu muito culpado e que não poderia continuar vivendo do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecido. Então deixou a vida dele pra tras e foi viajar pela Australia: trabalhava quando dava, dormia onde podia, conversava com quem queria ouvir e assim ia tocando sua nova vida. Ja fazia dois anos depois da morte da noiva e ele ainda não tinha planos para o futuro.

Depois que me mudei para o backpacker continuei indo visita-lo quando dava e uma vez até levei o cheri. Ele era uma pessoa tranquila, que gostava de conversar, mas que a gente via que estava passando por um momento dificil. Acabamos perdendo o contato, mas sua historia nunca saiu da minha cabeça. Nem imagino seu sofrimento. Eu so posso torcer muito para que ele tenha conseguido refazer sua vida e superado esse triste trauma.

5 comentários:

Helena disse...

Poxa, muito triste mesmo. São essas histórias de vida que cruzam a nossa que enriquecem o mundo. Também espero que ele tenha superado a dor.

Chéri disse...

Oi, Amanda. Tudo bem?

Que história mais triste...

Tô sempre passando por aqui, e acabei de colocar um link pro seu blog lá no Chéri.

Beijos,

Daniel Cariello (e Charlotte e Louise)

Borboletas nos Olhos disse...

Eu sempre acho muito dolorida toda história de perda e essa situação é especialmente sofrida pelo que se carrega de culpa, né? Só acho que ele teve uma danada de uma sorte por encontrar pessoas sensíveis como você para escutá-lo sem cair no chavão vazio.
Bj

Rita disse...

Nossa, que história mais triste, Amanda... putz, que desafio gigantesco reconstruir a vida depois de um trauma assim, viu.

Beijinho.

Amanda disse...

Helena, cada um com suas historias tristes, né? Uns com mais, outros com menos...

Oi Daniel, legal vc por aqui! Que estranho que a gente não tinha se linkado antes, né? Vamos marcar alguma coisa!! Manda um beijão pra charlotte e pra pequena Louise!

Borboletas, eu não boa em dar conselhos e confortar, então eu so fiquei ouvindo... Acho que eu devia ter feito mais :/

Rita, é verdade, né? Tomara que ele tenha encontrado um sentido na vida novamente

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