sábado, 30 de janeiro de 2010

Medicina de guerra no Haiti

O tratamento médico dado às vitimas do terremoto no Haiti deixou claro a diferença entre a medicina (e os valores) americana e a francesa. O jornal Le Monde publicou uma matéria na qual os médicos franceses denunciam o excessivo numero de amputações praticadas pelos americanos, em grande parte feitas sem necessidade. Eles reclamam que os profissionais norte-americanos se preocupam apenas com as estatisticas, com os numeros de pacientes tratados, não importando a qualidade do tratamento. Um médico parisiense argumentou que "a amputação é um gesto de salvação e de ultimo recurso, quando um membro esta esmagado ou condenado. Mas os americanos recorrem a ela sistematicamente, sem parar e pensar em uma outra solução, orgulhosos desses abates que lhes permite de exibir numeros impressionantes de pacientes".

As equipes francesas ficaram horrorizadas com casos de fraturas sendo tratados com amputações. E em grande parte dos casos, os pacientes eram dispensados 2h depois das intervenções, sem nenhum acompanhamento de recuperação, muito menos psicologico. Sophie Grosclaude, cirurgiã ortopedista francesa, disse que confrontou um médico americano dizendo que eles tinham material para tratar os ferimentos de outra forma, e o médico respondeu "Pra que? Esse é um pais pobre, não tem um acompanhamento médico sério, melhor amputar logo, é limpo e definitivo". A cirurgiã se disse chocada da opinião do americano, como se os haitianos fossem um povo pouco evoluido, que não merece a medicina ocidental.

A reportagem não traz a versão americana dos fatos, mas nao é dificil imaginar seus argumentos: eram muitos pacientes, situação de catastrofe - melhor salvar 100 vidas amputando todos, do que perder tempo curando 50, enquanto outros 50 morreriam ao lado. Os casos simples tratados com amputações teriam sido excessões, poderiam ter sido realmente erros médicos, mas teria sido o preço a ser pago para salvar outras vidas, os famosos "efeitos colaterais". Sim, esses argumentos são validos, mas por que so os americanos pensariam assim? Sera que os outros profissionais também não seriam capazes de julgar a gravidade da situação? Não acredito que a formação deles permitiria de perder tempo demais com um paciente em vez de salvar varios outros. Eles são muito preparados e não reclamariam à toa. Não tenho duvidas que outros aspectos contam muito mais nesse caso.

Eh um verdadeiro confronto de valores e a explicação esta na propria sociedade. Na França, o acesso à saude é um direito de todas as pessoas, inclusive os imigrantes, os pobres, os mendigos, os ilegais, os drogados. A saude é gratuita (principalmente para esses grupos mais carentes) e de qualidade. Os médicos franceses têm consciência de que fazem um trabalho social acima de tudo, que devem tratar todos os pacientes como iguais. Ja nos Estado Unidos, saude de qualidade é para quem pode pagar. Os médicos pedem o dinheiro antes de tratar os pacientes e se a pessoa não tiver, não é raro que ela morra no corredor ou a caminho de uma clinica publica, com profissionais menos qualificados.

Então se um médico francês vai para o Haiti com toda a bagagem social que recolheu na França, é logico que trate os pacientes como faz no seu pais. O médico americano ja vai com a ideia de que esta fazendo caridade, então o paciente tem a obrigação de ficar muito grato com a sua intervenção e boa vontade. Ele esta tratando pacientes gratuitamente e se não estivesse la, provavelmente a vitima morreria, então perder um braço passa a ser um detalhe.

Por causa do sentimento de superioridade americana, o Haiti esta condenado a ter uma geração de amputados, dificultando ainda mais o desenvolvimento do pais, que ja era tão fragil.

13 comentários:

Raiza disse...

E que providências vão ser tomadas para parar essa medicina de açougue?
Alguém fez denúncia pra alguma órgão especializado?
Por que eles não podem ficar mutilando as pessoas impunimente né?

Fabiana Dias disse...

Eles tem uma capacidade insaciável de nos surpreender com atrocidades. Resultado do individualismo disseminado dia após dia nos domínios do Tio Sam!

asnalfa disse...

ONU, pra que serve?

Anônimo disse...
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Mariana disse...

Gente, o pior de tudo é que toda essa situação absurda ocorrendo no Haiti ainda vai servir para alimentar o discurso de muitos racistas e reacionarios em todo mundo... POde contar que isso ainda vai servir de exemplo para justificar o discurso de que existem povos mais "primitivos" e mais proximos da "selvageria" ..; e no caso das amputações indevidas, ai dos haitianos se alguém fizer qualquer denuncia! Além de "primitivos" e "selvagens" vão ser taxados também de ingratos!

Tragédia é pouco!

Jarid Arraes Singh disse...

Concordo: Tragédia é pouco!

paulamaria disse...

Pra quem sente que está numa plataforma superior, ajudar os pequenos é ato de caridade que vale qualquer coisa, porque qualquer ajuda é ajuda pra quem não tem nada. E ai de quem reclamar disso.

Nessas horas eu me envergonho tanto da humanidade...

Cesar Shu disse...

Revoltante.

rafaella disse...

Mas que diferença.
Óbio que os EUA estão atrás de boa publicidade às custas do Haiti e é por coisas como essas que vemos o verdadeiro interesse atrás de ações. O povo haitiano merece gente melhor que essa

Neide disse...

Eu vi a reportagem e fiquei indignada! alias os americanos estão tomando a frente de tudo, eles querem aparecer de qualquer jeito, a primeira coisa q fizeram qdo chegaram ao Haiti foi pendurar a bandeira deles ao lado da do Haiti! um vexame!!!!

Maíra disse...

É muito feio esse conceito de alta produtividade americana aplicada à saúde. É exatamente, como você apontou, a extrapolação da cultura que eles têm dentro do próprio país; a cultura de dar tratamento somente a quem pode pagar. Pra eles, saúde é um negócio pura e simplesmente, e não um direito básico do cidadão. Muito triste mesmo essa situação das amputações no Haiti.

Leonardo disse...

Só fugindo um pouco do tema e puxando a sardinha pro nosso lado: os cursos de medicina, no Brasil, estão sendo reformulados justamente por estarem formando médicos "máquinas". A ideia é formar médicos mais humanos e preocupados com o paciente e não apenas com o problema do paciente. É claro que vai demorar bastante pra sentirmos a diferença, mas é em um caso como esse do Haiti que percebemos a diferença entre ser atendido por um médico "máquina" e um médico "humano".

cerebritis disse...

The Haiti war medicine is quite hard cause try to heal a person in a middle of a bullet rain is disturbing so you need to be really focus in youre job cause is not and and easy task bye .

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